domingo, 26 de setembro de 2010

A Marlowe, entre espirros

Carla Romualdo

Confesso-vos esta fraqueza. Ao primeiro arrepio, quando se sente o corpo subitamente exausto e dolorido, no momento em que começamos a sentir-nos tomados pela auto-comiseração, eu afundo no sofá e deito mão a Chandler. Ou a Hammet, embora prefira o primeiro.

No isolamento da gripe gosto particularmente da
companhia do detective Philip Marlowe. Solitário, endurecido pelo muito que viu mas não o suficiente para não se condoer da condição humana, Marlowe acompanha as minhas convalescenças com o seu sarcasmo. Quando me preparo para tomar o paracetamol, não me atrevo a esboçar uma expressão de sofrimento. Marlowe passa-me o comprimido e lança-me à cara, sem me dar tempo a gaguejar uma resposta:

- Escute, vou dar-lhe aquilo de que precisa. Não sou uma pessoa crédula, que acredite em qualquer história. De maneira que aceite o que lhe é oferecido e porte-se bem. Quero ver-me livre de si porque tenho um mau pressentimento.

Estremeço, tomo o comprimido sem pestanejar, sorvo mais um gole de chá e aconchego a mantinha. Na doença, ainda que banal como esta, encontro um inexplicável conforto nos cenários decadentes do policial negro. Mulheres fatais, homens destruídos pelo álcool, ricaças ninfómanas, corpos que aparecem a boiar numa piscina… este cocktail insólito funciona melhor do que qualquer panaceia de farmácia.

Se falta o livro, um filme pode fazer um efeito semelhante, embora com resultados mais lentos. O “film noir” dos anos quarenta e cinquenta, com os insuperáveis Bogart e Bacall, ajuda sempre, mas quando os sintomas da gripe se intensificam dificilmente consigo acompanhar um filme. Prefiro ler um livro num estado febril, ir caindo no interior de uma história meio lida e meio delirada, adormecer sobre as páginas e sonhar que, num bar esconso, não muito longe de Sunset Boulevard, à hora do crepúsculo, quando as sombras se adensam, sento-me ao lado de Marlowe e começo a ouvir a sua história.

- A primeira vez que vi Terry Lennox ele estava bebêdo, dentro de um Rolls-Royce Silver Wraith, à porta da esplanada do The Dancers…

Espirro, deliciada, encolho-me um pouco mais, aproximo a caixa dos lenços, e bendigo a sorte que me constipou.

Digam lá se não ficaram com saudades de um desses filmes negros, que há muito foram empurrados para fora da programação dos canais generalistas de televisão em Portugal?
Então espreitemos "The Maltese Falcon" (1941), de John Huston, adaptação do romance homónimo de Dashiell Hammett, que em Portugal se chamou "Relíquia Macabra".
É um só um pedacinho, o que vamos ver, mas tem todos os ingredientes: o duro, mas nem por isso desprovido de romantismo, detective Sam Spade (Bogart, claro, quem havia de ser?), a "femme fatale" Mary Astor, e o tortuoso Peter Lorre, para mim um dos maiores actores secundários que Hollywood conheceu. Dizem os entendidos que este filme inaugurou a categoria de "film noir".



(Uma primeira versão deste texto foi publicada no blog Aventar)

13 comentários:

  1. Excelente texto, Carla. Há aqui um clube de fans do Dashiel Hammett e do Raymond Chandler - a Augusta Clara, o Carlos Mesquita, João Machado e eu. Não sei se haverá mais - acho que já ouvi a Clara Castilho dizer qualquer coisa no mesmo sentido. Não sei se também juntas o Manolo Vázquez Montalbán ao grupo sagrado. Eu sim. Bem-vinda ao clube e parabéns por um texto tão inspirado e evocador dos mestres.

    ResponderEliminar
  2. Um texto muito original e bem escrito. Parabéns

    ResponderEliminar
  3. Eu também, mas disse que era mais Simenon. Comecei com a Agatha Christie, embirrava um bocado com os detectives sempre bêbados e a quem as mulheres caiam todas aos pés... Achava graça às orquídeas e ao raciocínio do horroroso
    Nero Wolf. Depois apareceu a Patrícia Highsmith de quem gosto... Lia-os todos de seguida, sem parar, noite dentro. Deixar o suspense para o dia seguinte é que não!

    ResponderEliminar
  4. Obrigada, Eva e Carlos. Junto-lhe o Montalbán, pois claro. Mais recentemente descobri o mexicano Elmer Mendoza e agradou-me bastante.

    ResponderEliminar
  5. Não tinha lido ainda o comentário da Clara, com quem partilho o método de leitura dos policiais - pela noite dentro, até à última página. Isto quando não estou engripada, claro.

    ResponderEliminar
  6. Quem te vê recordar estas coisas desta forma saudosa e quem te ouve falar desta maneira das saudosas coisas da minha juventude, até pensa que és da época, até pensa que já iniciaste há muito a descida da montanha e tu andas à volta dos trinta! Ainda te encontras na primeura etapa da subida, quando muito da segunda. Falar de Humphrey Bogart e de Peter Lorre, sobretudo deste último, como actores inesquecíveis, por exemplo, implica ter vivido tempos que tu não viveste. Como é possível? Não dá para entender! Explica-me no próximo café.

    ResponderEliminar
  7. Ó Carlos, eu sou é do Montalbán e, já agora,do Humphrey Bogart e daquela cena em que a Lauren Bacallv lhe pede um cigarro. Quem se lembra de que filme é?
    Gostei muito, Carla.

    ResponderEliminar
  8. Adão, a gente tem que ser do nosso tempo, conhecer o passado e amar o futuro. Gosto tanto do Bogart como do Sean Penn, mas ainda me interessa mais o que aí vem.
    Augusta, também não sei o título do filme, mas é aquele do "sabes assobiar, não sabes?", não é? Uma maravilha. Quem sabe o título?

    ResponderEliminar
  9. Sim, sim, é esse. E eu estou aqui a puxar pela minha cabecinha porque o vi há pouco tempo e não me consigo lembrar. Lindo! Adorava esse Bogart com aquele ar falsamente durão.

    ResponderEliminar
  10. Acho que o filme é The Big Sleep, que entre nós teve o título À Beira do Abismo. Mas deixei-me dizer-lhes uma coisa: quando o Chandler "desenhou" o Marlowe, era para ser representado pelo Cary Grant. Mas não sei porquê, julgo que por decisão das empresas de cinema, deram o papel ao Bogart, que o fez muito bem. Mas só o interpretou uma vez, tanto quanto sei. E acrescento, o melhor Marlowe que vi foi o Robert Mitchum.

    ResponderEliminar
  11. Esse é o título original, exactamente, João. Eu não fui muito leitora de policiais e, hoje, tenho pena de ter perdido o Simenon que está praticamente esgotado, acho eu. Li pouca coisa e, depois, passei para a ficção científica de que me lembro mais da Ursula LeGuin e do Robert Heinlein. E, por fim, saí desses géneros em definitivo. Só ultimamentre é que me apaixonei pelo Montalbán.

    ResponderEliminar
  12. A Carla é um caso sério de maturidade, tal como o "olho clínico" do Adão há muito descobriu.

    ResponderEliminar