quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dia de Lisboa: Mário Eloy, Alexandre O'Neill, Carlos Guerreiro e os Gaiteiros de Lisboa - "O Tejo corre no Tejo"

O quadro acima é de Mário Eloy (1900-1951).

O poema, que adiante se transcreve, é de Alexandre O'Neill (1924 - 1986)

 O Tejo corre no Tejo

Tu que passas por mim tão indiferente
no teu correr vazio de sentido,
na memória que sobes lentamente,
do mar para a nascente,
és o curso do tempo já vivido.


.....Não, Tejo,
.....não és tu que em mim te vês,
.....– sou eu que em ti me vejo!


Por isso, à tua beira se demora
aquele que a saudade ainda trespassa,
repetindo a lição, que não decora,
de ser, aqui e agora,
só um homem a olhar para o que passa.


.....Não, Tejo,
.....não és tu que em mim te vês,
.....– sou eu que em ti me vejo!


Um voo desferido é uma gaivota,
não é o voo da imaginação;
gritos não são agoiros, são a lota...
Vá, não faças batota,
deixa ficar as coisas onde estão...


.....Não, Tejo,
.....não és tu que em mim te vês,
.....– sou eu que em ti me vejo!


Tejo desta canção, que o teu correr
não seja o meu pretexto de saudade.
Saudade tenho sim, mas de perder,
sem as poder deter,
as águas vivas da realidade!


.....Não, Tejo,
.....não és tu que em mim te vês,
.....– sou eu que em ti me vejo!
.
.
(in Feira Cabisbaixa,1965)

Agoira vamos ouvir este poema interpretado pelos "Gaiteiros de Lisboa". música é de Carlos Guerreiro. Música com "intenções bárbaras", reinventando harmonias, recuperando a gaita de foles e a mítica figura do gaiteiro, e fazendo-os reviver na foz do Tejo, onde, não havendo gaiteiros, passou a haver.


 Entrem os Gaiteiros de Lisboa


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