quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Um autarca na ópera

Carla Romualdo


Havia meses que a cambada de sarnentos do costume gania a plenos pulmões que a autarquia não tinha política cultural. Claro que poderia varrê-los das ruas, mandar detê-los por alguma infracção menor, mais para que se assustassem do que para retirá-los de circulação, mas haveria sempre alguma retaliação, alguma chatice para resolver, a necessitar de uma entrevista de auto-promoção, de novos cartazes… enfim, mais tempo perdido.

De forma que, para calar esses bandalhos e dar uma alegria ao povo, mandou chamar, certa manhã, o vereador, ditou-lhe um par de ideias com piada e em duas semanas estavam a encher a praça de carrosséis dourados, onde se erguiam, à vez, cavalos com focinhos sorridentes e crinas de plástico brilhante, carruagens da Cinderela, unicórnios de cabelo louro, todos a rodopiar ao som do “It’s a small world after all” uma e outra vez, sem parar, numa algazarra de sininhos, campainhas e notas dissonantes.

Montaram-se também as barracas de cachorros e farturas, e ainda outra de jogos, onde a boa pontaria era brindada com um peluche gigante.
Esteve presente na inauguração, num simbólico gesto de apreço e respeito pela cultura, e deixou-se fotografar sorridente ao lado da mãe de todos os saltimbancos, a Micas Mamuda, octogenária ainda no activo, e matriarca de uma dinastia de animadores culturais.

O vereador da cultura chegou ofegante e atrasado, e deixou-se ficar atrás, com o suor a escorrer-lhe pela careca enquanto enviava mensagens de telemóvel às escondidas. Quando começou a actuação da banda da moda, os “Dáconjeito”, o presidente chamou-o com um gesto imperioso.

- Ó Torres, isto são horas?
- Desculpe, meu presidente, fui receber a soprano.
- Oh diabo, já me esquecia dessa prenda. E é hoje, caraças. Não há maneira de fugir, pois não?
- Só se houver um cataclismo na cidade, meu presidente.
- Bah! - resmungou, com uma sacudidela da mão esquerda - essa sorte não tenho eu!
Virou costas e seguiu para o carro.

Nessa noite, ficariam sentados lado a lado, na primeira fila da plateia. A Fundação organizara a récita e o presidente não podia deixar ficar mal a Fundação, depois de tantos e tão valorosos serviços prestados. E se era de todos conhecida a aversão do presidente por aquilo a que, quanto a ele, estupidamente se chamava “bel canto”, não menos conhecida era a sua fidelidade para com o presidente da Fundação.

Chegou atrasado, com ar de poucos amigos, ocupou o seu lugar olhando de soslaio para o vereador, assoou estrepitosamente o nariz quando as luzes da sala desceram, e esperou com ar carrancudo. O vereador sentia-lhe o hálito pestilento, que, ao que dizia a secretária, se devia às cápsulas de alho que tomava com uma devoção inabalável, convencido de que lhe haviam de prolongar a vida e a virilidade por longas décadas.

Mas assim que a soprano entrou em palco a expressão do seu rosto transfigurou-se.
- Esta é que a soprano? – perguntou ao ouvido do vereador, deixando-o agoniado com o bafo.
- É, sim, meu presidente.
- Se soubesse tinha sido eu a ir buscá-la ao aeroporto.
Soltou um riso abafado enquanto acotovelava, com ar cúmplice, o vereador. Este remexeu-se na cadeira, incomodado com a ideia de que alguém pudesse ter ouvido, e agoniado com o hálito capaz de aterrorizar um bando de vampiros.

Principiava a ária Signore ascolta, da divina Turandot, comovente lamento da doce Liu, desesperada ante a iminência da morte do seu amor e a ruína do senhor a quem toda a vida serviu.
- Aquilo é que é uma caixa-de-ar, hã? Tem cá uma peitaça!

O vereador sentiu-se escorregar da cadeira, ou talvez fosse apenas esse o seu anseio profundo, o de ser engolido pelas entranhas não da terra mas da sala de espectáculos, ser salvo por um desses alçapões das comédias de enganos.

Alguns olhares de soslaio confirmavam-lhe que os comentários do presidente haviam chegado mais longe do que seria desejável. Certo é que já havia alguns movimentos de desconforto nas cadeiras à volta, um burburinho, ainda insuficiente para causar distúrbio, mas já assinalável.
A soprano prosseguia imperturbável.

“Ahimè, ahimè, quanto cammino col tuo nome nell'anima”

- Cheiinha de carnes, apetitosa, é cá um mulherão! Você não me contou como ela era, quis ir buscá-la sozinho, não foi? Está a sair melhor do que a encomenda.

A soprano mantinha-se imperturbável, o olhar concentrado num ponto remoto. Um arrepio estremecia a plateia: aquela voz transformara-se numa emoção, uma corrente de energia que se difundia em ondas concêntricas, de crescente amplitude, percorrendo a sala sem cessar.

O presidente estava calado há quase um minuto e o vereador começou a acreditar que também ele se deixara comover com a interpretação. Como se o tivesse ouvido, e se indignasse com a hipótese, o presidente acercou os lábios aos ouvidos do vereador.

- Vou ao camarim no final. Amanhã mando a Soraia enviar-lhe uma dúzia de rosas e está no papo.
- CHIUUUU!

Desta vez não se podia negar que alguém se indignara. A ordem tinha vindo das filas de trás, e o Torres ficara sem saber se se pretendia silenciar os sussurros que perturbavam a récita ou reprovar o plano para capturar a soprano. Fosse como fosse, o presidente estava imparável, mas, honra lhe fosse feita, começava a dar mostras de interesse pela alta cultura.

- Senhor presidente, não diga essas coisas, pode estar a imprensa por perto…
- Imprensa? Bah, à imprensa tenho-a eu agarrada pelos…

O vereador alarmou-se de tal modo que lhe pôs as mãos sobre os lábios, como se tentasse travar um caudal que jorrasse com uma força demolidora. As palmas, talvez demasiado entusiásticas para início de récita, sacudiram a fila de cadeiras.

O vereador apressou-se a corrigir o gesto, desatando a aplaudir freneticamente e acenando levemente ao presidente para que fizesse o mesmo. Esperava ver a sempre mal disfarçada fúria no rosto do presidente, mas ele já só parecia ansioso por verificar se a artista lhe permitiria, na sua vénia de agradecimento, um vislumbre do decote que fora para ele o grande atractivo da actuação.

Com efeito, a soprano inclinou-se ligeiramente mas, ao levantar o bonito rosto de tez muito branca e bochechas suavemente redondas, olhou de relance para o presidente e uma chispa de fúria incendiou-lhe por instantes a expressão. O Torres alarmou-se, espreitou a reacção do presidente, mas este, com a atenção aplicada uns bons centímetros abaixo dos olhos dela, nem reparou. As palmas esmoreceram, o silêncio foi caindo novamente, a artista concentrou-se na ária seguinte.

Mas para o vereador Torres a decisão estava tomada.
- Sabe, meu presidente – comentou em voz muito baixa – acho que faz bem em ir ao camarim.
O presidente respondeu-lhe com um sorriso lúbrico e recostou-se na cadeira, ansioso que aquela pessegada acabasse de uma vez.

5 comentários:

  1. Excelente , Carla. Excelenre escrita, insolente realidade.

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  2. Consigo imaginar milhares de cenas como esta! No passado, no presente e, temo, no futuro...
    Li o texto como se de guião se tratasse.Vi mesmo a cena. Parabéns.

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  3. Ahahahhaha! Carla, como tu me fizeste rir. Muito bom retrato desses tristes patetas que ainda por aí proliferam e, infelizmente, em cargos públicos.Parabéns!

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  4. Obrigada, alegro-me que tenham gostado e ainda mais que vos tenha feito rir. A ideia era mesmo essa.
    Abraços a todos

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  5. Ehehehe! Muito bom. Conheço alguns assim.

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