quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Vista do largo às três da tarde

Carla Romualdo

O largo é um retrato da cidade: caótico, mal-amado, todo feito de contradições. Um bairro de uma cooperativa, casas em ruínas, prédios devolutos. Uma única casa de dois andares, bem cuidada, de rosto virado para o pátio sujo de grafitis onde os velhos vêm sentar-se a ler os jornais gratuitos da semana passada.

Chegam em grupinhos de quatro, nunca mais de quatro, os estudantes de Desenho, em busca de uma cidade nunca vista, que se alce sobre os telhados e se descortine apenas a quem ousa subir aos seus muros mais sórdidos. Que vêem desde aqui? A desconstrução da cidade, a sobreposição de camadas de tijolo, granito, abandono e desamor.

A professora primária, que vem tomar o sol depois do almoço, e sobe a rua aos poucochinhos a queixar-se das pernas inchadas pelo calor, senta-se aqui um quartito de hora a ler um romance da Danielle Steel. As donas de casa, dessa idade incerta que têm as mulheres consumidas pela amargura, olham quem chega e quem parte com desconfiança e atiram alfinetadas umas às outras. E há ainda o cão, que o dono abandona pela manhã e resgata a cada noite, e que passa o dia amarrado ao varandim do miradouro, com um balde de água ao lado quando faz calor, sem nada quando o tempo está mais fresco, e que olha ensonado o que o rodeia. Dorme boa parte do dia, nada o incomoda, nem o barulho dos carros lá em baixo, nem o sol inclemente, nem as moscas nem o cheiro da merda que o cerca.

E há esta angústia de um tempo que se eterniza, momento perpétuo do qual não há fuga possível. Ontem como hoje como amanhã, sempre o mesmo largo, as mesmas paredes, a mesma vida

Assim é o largo e, como ele, a cidade.

3 comentários:

  1. Não há uma árvore, um pedaço de verde, um banco de jardim? Tristeza...

    ResponderEliminar
  2. Gostei muito.Gosto desta linguagem lavada e sintética.

    ResponderEliminar
  3. Gosto muito desta crónica da cidade sem sonhos.

    ResponderEliminar