terça-feira, 9 de novembro de 2010

à despedida

Carla Romualdo

Eu poderia dizer-lhe que me sinto estúpido, envergonhado, desiludido… poderia invocar uma loucura momentânea, um arrebatamento. Mas não, de nada vale, que queres que te diga? Eu sabia, como não havia de sabê-lo, que agora sou sobretudo esta carcaça velha. É certo que por vezes me esqueço disso, que o coração irrompe numa aceleração infantil, que acredito poder lançar-me numa correria que acalme o alvoroço, que as pernas não me fraquejarão, que não perderei o fôlego. Acredito então que é possível regressar a esse momento passado, acredito com o mesmo deslumbramento inocente com que acreditamos poder voar nos sonhos da infância.

Porque houve um momento, juro-te, isso sim, posso jurar-te, em que senti essa vibração interna que não se pode explicar a quem nunca a sentiu, um estremecimento, uma energia que se liberta para sacudir-nos o corpo. Era desejo? Também era, mas não me chega dizer isso. Eu queria que ela visse o homem que eu fui, que a velhice caísse aos meus pés como um manto e ela visse um homem, apenas um homem, um homem e não um velho. Por que raio se deixa de ser homem e mulher para ser apenas velho?

Ela contava-me os impasses, a miséria dos desamores, a sua solidão, confidenciava-me tudo como se esperasse de mim a solução, como se eu pudesse dizer-lhe o que fazer ou salvá-la da angústia, como se a idade nos ensinasse alguma coisa sobre isso e eu procurava encontrar palavras de esperança, de bom senso, que essa patética experiência, que ela buscava com sofreguidão como se pudesse ser a sua panaceia, servisse para alguma coisa. E ela escutava-me, assentia com a cabeça, agradecia, afagava-me a mão, despedia-se com uma doçura exagerada, como se lhe ocorresse que aquela podia ser a última vez que me via, que os velhos têm os dias contados e cada um dos seus passos pode ser o último.

Naquele dia também foi assim, e eu já a ouvia a custo, cada vez me custava mais seguir-lhe os enredos novelescos. Disse-lhe meia dúzia de lugares-comuns, a conversa foi morrendo, pedimos a conta, saímos do café. Mas quando ela olhou para mim, à despedida, quando olhou unicamente para os meus olhos e nada mais, aconteceu. E foi, tenho a certeza que foi isso, porque ela se esqueceu de quem eu era, esqueceu-se, ainda que isso tenha durado pouco, e por isso pôde ver-me, a mim, aqui por dentro, mais fundo do que a carcaça, e estremeceu. E eu agarrei-a pelos ombros e aproximei o meu rosto do dela, e ela assustou-se, é verdade, mas creio que parte dela ansiou por isso, e desviei o rosto para beijá-la na face. Mas o mal estava feito, percebemos os dois. E foi assim que eu soube que nunca mais a queria ver, que haveria de fugir dela até ao fim dos meus dias.

7 comentários:

  1. Não acredites, os velhos como lhes chamas, só têm saudade da juventude e a mulher é o que há de mais parecido com a juventude perdida.Por isso, que há muito digo, para me perder só por uma mulher.

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  2. Não ligues, Luís que isso faz parte da crueldade juvenil. Já todos por lá passámos. Depois é ela, a crueldade, que passa.

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  3. Tens, tens. Confesso que aí, se eu fosse homem, também tinha ficado um bocadinho mal. Mas olha que ao contrário não é melhor. Que havemos de fazer? É a vida..."é preciso cantá-la assim florida/Pois se Deus (que o Adão não veja isto) nos deu voz foi para cantar/E se um dia hei-de ser pó cinza e nada/Que seja a minha noite uma alvorada/Que me saiba perder para me encontrar (Florbela Espanca). Gostaste?

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  4. Ai vejo, vejo! Mas deus é assim, dá voz a uns e a outros tira-a.

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  5. Carla, voltei atrá para te dizer que ando a pensar neste texto.Não sei como fazes mas parece que, aos 30 anos, já passaste por estas emoções( a isto chama-se talento). Vou-te dizer, já me aconteceu (foi há 15 anos, não era velho)mas, por outras razões ,ter passado ao lado de uma paixão arrebatadora. Desde aí que só penso nela...

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