sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Dia do Porto: Chico Buarque, Álvaro de Campos e uma dobrada à moda do Porto



O cenário deste video é Lisboa, mas nem se pode dizer que isso seja despropositado, porque, como os tripeiros sabem, só os lisboetas chamam às tripas "dobrada".


Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Poemas de Álvaro de Campos

2 comentários:

  1. Dobrada à moda do Porto, todas as 5ªs feiras na baixa de lisboa. Adoro, e quando vou ao Porto não falha, embora aí em cima seja mais dificil escolher tal é a riqueza da vossa gastronomia.

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  2. Meus queridos amigos do Porto, dobrada é que não vai!

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