sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Dia do Porto: "Como se fora um conto" - Pobres e no entanto cultos

José Magalhães


Estavam os três sentados numa das mesas, a mais afastada da entrada, e o único que tinha barba, pêra e bigode, razoavelmente cuidada, falava mais que os outros, como que dando uma aula. A espaços era interrompido com perguntas ou comentários. Falavam da dificuldade em arranjar emprego remunerado, que trabalho todos iam tendo de uma maneira ou de outra.

Distraí-me, normalmente a conversa dos outros não me interessa, porque dos outros, é coisa que não me diz respeito. Quando por acaso e momentaneamente voltei a prestar atenção, já a conversa versava sobre política internacional. E o que ouvi era bem dito e dito com conhecimento de causa. Achei estranho já que os três indivíduos me tinham parecido, à primeira vista, “uns pobres coitados mal vestidos e mal-ajambrados”.

Contra o que me é habitual comecei a prestar um pouco de atenção, ou se calhar até muita. A conversa passou da política internacional para a nacional e durante algum tempo ouvi falar de educação e dos problemas que os professores enfrentavam nos dias de hoje. Mais tarde ainda falaram sobre fotografia como poderia ser de se esperar já que estavam num local que promovia exposições e mostras de fotografia. Dito de outra maneira, um falou e bem, e os outros ouviram. Acabaram a falar de música clássica e da sua mistura com a música ligeira.

Todos mostravam uma cultura acima da média e uma forma de falar cuidada, com o homem da barba a comandar e reger a conversa.

Tudo aquilo era um pouco estranho para mim. ‘A letra não condizia com a careta’.

Aos poucos, com o evoluir do que fui ouvindo, pois que na verdade não mais fui capaz de deixar de prestar atenção, fiquei a saber que eram três “sem abrigo”, todos na casa dos cinquenta anos, sendo um oriundo de Coimbra, e dois da área do Porto.
Quando reparei que tinha esmorecido a conversa, e ainda intrigado com o nível da conversa, fui falar com eles.

Com alguma dificuldade, nunca é fácil falarmos de nós quando estamos numa posição social desconfortável e economicamente inferior, lá acabaram por me confidenciar que um tinha uma licenciatura em gestão, outro tinha ficado pelo terceiro ano de medicina e o terceiro tinha o antigo sétimo ano do liceu e tinha estudado alguns anos de piano no conservatório. Todos a viver na rua, cada um no seu sítio, sem emprego, sem família que se interessasse por eles, tendo-se a eles mesmos como únicos amigos. E no entanto, cultos e sempre interessados pelas coisas da vida e do mundo.

E eu que julgava que “esta gente” mais não era que um bando de desgraçados, bebedolas, que se tinham entregado às dificuldades da vida, desistindo de viver.

Como a gente se engana!

(www.atributos-1.blogspot.com)

1 comentário:

  1. Gostei tanto do teu texto cheio de atenção ao que é humano na sua verdadeira essência.

    ResponderEliminar