sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Dia do Porto: Na Foz do Douro, frente à casa de Eugénio de Andrade

Adão Cruz


Adão Cruz

Generoso abraço

verdade solitária!

O mar infindo onde colhes as palavras

e o pequeno gesto da areia fina

bulida dos pés das gaivotas.

Entra-me nos olhos o mar

como em ti.

Como tu

tenho os olhos inundados de mar

mas fogem-me as sílabas férteis

que ele te põe nos lábios e nos versos.

A vibração das palavras d’água

salva-me da paz sacrificial

das rochas erectas e firmes.

Quase me sinto futuro

aqui

a lembrar que o passado só existe

para enganar o presente.

Sinto-me bem

aqui

ao lado do possível e do impossível

na orla do silêncio das tuas palmeiras

saboreando o Sal da Língua

como fruto roubado

que me liberta da longa noite

acumulada na boca.

Arde em mim a luz de fogo

que abre o mar e o peito

quando o sol se derrama e vai dormir.

Aqui

eu sinto bem dentro dos sentidos

o esplendor da água fervente

e dos corpos entontecidos

que só podem amar-se no ventre do mar.

Um vento leve com cheiro a maçãs

acaricia-me a face

trazendo pela mão a paz da tarde

e quase me adormece.

Perdi a página já não sei onde ia

também o sol se foi e com ele o dia.

Bate agora a noite com estrondo

no casco frágil da solidão.

Penso que tudo se vai desmoronar

talvez morrer

mas

de novo retomados

teus versos dizem-me que não.

2 comentários:

  1. É a Sereiazinha, Adão. Talvez apareça por aí. Que lindo poema.

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  2. Adão, não leste o meu poema "Inveja" do meu livro "A inveja faz-me sonhar..." do meu heterónimo LUCOMO? Estás sempre a melhorar...

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