sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Dia do Porto: Perdoa lá, ó meu querido Porto

Adão Cruz

Eu gosto muito do meu Porto e penso que seria capaz de escrever lindos textos sobre o Porto. Mas não me apetece. Apetece-me escrever um texto feio. Como me apetece escrever só textos feios sobre este miserável e corrupto país. Este país, vítima da maior bandalheira da sua história. Este país que tem como Presidente da República o seu coveiro, e como portadores do caixão, os seus incorruptíveis boys.E o pior é que todos se preparam para a exumação do cadáver.

Estive há dias em Londres, mas não vou dizer nada sobre Londres, cidade que toda a gente conhece. Gostaria apenas de dizer que Londres me surpreendeu por muitas coisas, algumas delas positivas. A limpeza, a ordem, a organização, a energia, a sensação de segurança, a actividade cultural, a ausência de pobreza e marginalidade visíveis. Uma das coisas que me deram especialmente nas vistas foi a reduzida percentagem de gente obesa. Não há dúvida que a quantidade de gordos e obesos me pareceu muito reduzida, principalmente se a compararmos com o que se passa neste nosso Porto disforme. E a amostragem era muito grande, dado que a minha observação incidiu sobretudo nas horas de ponta, sobre aquelas torrentes impetuosas de gente, a que eles chamam “rush hour”, à saída e entrada das grandes estações de comboio e de metro. Entre os poucos obesos que se viam, predominavam os que tinham ar e aspecto de imigrantes.

O Porto, sobretudo este maravilhoso Porto visto da Serra do Pilar, sobre o qual eu gostaria de fazer os mais lindos poemas, só me desperta lágrimas de amargura. Está gordo, sujo, andrajoso, apodrecido, descaracterizado, descalibrado, desacautelado, desleixado, despovoado, desculturado, deserdado. E tudo isto decorre, fundamentalmente, da tramada doença imunológica anti-cultural de uma autarquia para quem a cultura é uma ameaça e um mal a erradicar. Esta é, sem margem para dúvida, a causa principal da sujidade física e psíquica do Porto.


A obesidade é um mal, uma doença, um desastre, uma ameaça para a saúde futura da população. A obesidade física e mental. Da mesma forma que a gordura aniquila a perfeição, a aniquilação da cultura, a imposição da anti-cultura e até o domínio da contra-cultura fazem crescer a adiposidade mental que ameaça o futuro de uma sociedade, condenada, desta forma, à degenerescência. A obesidade é um problema social e cultural, como é a ignorância, a iliteracia, o laxismo, a perda do sentido estético e da beleza, a ausência de actividade pensante, a perda da capacidade de indignação e revolta, a permanência do futebol como único GPS do pensamento, o amorfismo e o conformismo. A incapacidade de cada um ser individualmente quem é, fundindo-se as gentes numa gelatinização de hábitos, de vestuários, de costumes e credos, apenas redunda numa tristonha rotina, mãe de todas as mortes.

Mortes da vida como vida, e não como castigo inglório, mortes da criatividade e da alegria de ser e de estar, mortes do ser humano como gente, mortes da apetência cultural e da força vital da cultura, único caminho do desenvolvimento e valorização da pessoa humana em todos os sentidos.

A obesidade física é uma doença com futuro negro, sobretudo do ponto de vista cardiovascular. A gordura visceral é hoje um factor de risco muito importante em todas as doenças degenerativas, aquelas doenças que vão incapacitar milhões de pessoas e sobrecarregar a sociedade futura de pesos mortos. Mas também o são a ignorância e o primarismo cultural das pessoas que conduzem o cidadão a um estado de obesidade mental, que encharca os neurónios com o sebo da irracionalidade. Uma pescadinha de rabo na boca.

Mas um factor de risco tão importante ou mais que este é a alergia cultural que afecta o poder. Essa aversão pelo desenvolvimento cultural como prioridade das prioridades, essa total incapacidade de muitas autarquias para entenderem este impressionante fenómeno da catalisação da vida pela cultura, esta arrogante negação do saber como metabolito essencial da existência e da vida de cada um e da sociedade, dão cabo do carácter de um país e deste Porto tão bonito, tão poético, tão rico de natureza e de encanto e tão imerecidamente encurralado, do ponto de vista físico, social, mental e cultural, na imagem que dele fazem e que dele vendem os deslambidos cérebros que mandam na cidade.

É certo que o poder vem de cima. E no país que temos, neste charco lamacento, com o exército de vígaros e corruptos que invadiu Portugal de lés a lés e dos quais não parece fácil livrarmo-nos, com a mais que provável continuação de uma governação podre e adiposa, com a obesidade argentária das instituições financeiras, das grandes empresas, dos poderes económicos legítimos ou organizados em quadrilha, a cultura jamais foi objectivo a atingir, dado que ela é a mais importante vacina contra a corrupção e a virulência da ambição desmedida. Quanto mais longe da verdadeira cultura, melhor funciona o caldo de cultura deste enxame de parasitas que assaltou o país e a humanidade. Ou seja, para eles, e aqui reside a nossa crónica infelicidade, tudo é melhor quanto mais abundante e putrefacta for a merda.

2 comentários:

  1. Bolas, Adão, tu gostas mesmo do Porto, e não perdoas.Indignação a rodos.

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