sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Dia do Porto: Tempo de Castanhas

Eva Cruz

Adão Cruz





















Já lá vai meio século.

Vinda da verde campina, enfrentava a grandeza e a imponência do Carolina Michaëlis, o terror desses tempos. Liceu feminino, só mulheres, professoras, alunas e empregadas.

Do cimo das suas escadas monumentais, avistava-se ao longe, em frente, o D. Manuel II. Liceu masculino, só homens, professores, alunos e empregados.

As alunas não podiam ser vistas acompanhadas por rapazes num raio de 300 metros.

Conceitos. Preconceitos. Regras que não deixavam saltar o muro do atavismo.

No meu uniforme cinzento, ostentando os seis botões indicadores do antigo sexto ano, percorria eu a rua de Cedofeita num cair de tarde de Outono. As aulas estavam no início e não havia muito que estudar. Um passeio pelas redondezas do Liceu com algumas colegas amainava as saudades de casa.

A atmosfera era fria . A rua pintada de gente que se movia em tarefas rotineiras ostentava as modas de Inverno nas vitrinas e às portas das mercearias e frutarias os artigos da época. As castanhas sorriam para os transeuntes no seu brilho outonal.

Cedofeita era um mundo. As pastelarias faziam crescer água na boca com as bolas de Berlim a escorrer creme, as natas tostadinhas e os croissants a luzir de manteiga.

Por toda a rua havia uma neblina de fumo branco que aquecia. E um cheirinho a castanha assada saía das brasas dos carrinhos dos assadores.

Abeirei-me do assador.

Dê-me dez tostões de castanhas.

Ali logo fez um cartucho de jornal e meteu lá dentro meia dúzia de castanhas, cheirosas cobertinhas daquela cinza branca das brasas.

Perante a magreza da compra saiu-me a expressão. “ Tão poucas?!

“ E vai com sorte menina, porque metade são podres:”

Vivi apenas dois anos no Porto. O resto do meu percurso académico seguiu-se em Coimbra. O Porto ficou , porém, gravado na minha alma .É uma cidade mágica no seu rosto escuro, na profundidade do rio, nas suas pontes desalinhadas, no colorido das ribeiras, nos rochedos negros Foz.

Mas a alma do Porto está nas suas gentes. Na autenticidade da sua linguagem, no sotaque cortado a pique como o rio, no realismo das suas imagens, na nudez dos sentimentos.

E metade das castanhas eram realmente podres. Mas o delicioso sabor das que aproveitei é o mesmo de hoje e de há meio século.

4 comentários:

  1. "Abeirei-me do assador", só tu Eva, numa frase pequenina descobres o Porto.

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  2. As cidades são como pessoas, deixam-nos sempre saudades de outros tempos. Que belo texto, Eva.

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  3. Obrigada por comentários tão saborosos. Um beijinho.

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