terça-feira, 2 de novembro de 2010

Esposas por correspondência

Charles Oliver Hinton & Minnie Ann Oliver North
1893 (foto de casamento) --
Tawas City, Iosco County, Michigan, EUA

Carla Romualdo

Há uns tempos descobri na internet um livro que me pareceu de grande interesse: “Histórias Verdadeiras de Noivas por Correspondência na Fronteira” (“Hearts West: True Stores of Mail-Order Brides on the Frontier”,  lançado em 2005, nos Estados  Unidos, e da autoria de Chris Enss. 

Não estivesse eu a atravessar uma cura de desintoxicação da compra compulsiva de livros e já me tinha posto a fazer contas ao câmbio do dólar para mandá-lo vir. Sendo assim, resigno-me apenas a imaginá-lo. A resenha que li interessou-me: histórias reais de casamentos acordados por correspondência no velho Oeste americano. E, ao que parece, há lá de tudo: casamentos felizes que duraram décadas mas também desilusões que levaram a moça a regressar ao fim de uma hora com o seu prometido.

Imaginem-se, caros leitores masculinos, algures no selvagem Oeste, garimpeiros sujos e solitários, à espera do golpe de sorte que vos vai fazer descobrir o Eldorado. Quando regressam para o vosso pardieiro, já noite escura, encontram quatro paredes frias e manchadas pelo fumo do tabaco, uma caçarola suja, ainda com a crosta da refeição anterior, uma cama gelada na qual nem as ceroulas de lã vos impedirão de tiritar.  E para quê tanto esforço árduo se, ainda que venham a fazer fortuna, não terão com quem partilhá-la? Que fariam, amigos leitores, num cenário destes?

Sentavam-se à luz de um coto de vela e garatujavam um anúncio. “Mineiro solitário e honesto, com boas perspectivas, procura esposa para partilhar fortuna”. E depois era esperar pelas respostas e concertar os encontros que poderiam mudar a vossa vida para sempre.


E com a chegada das noivas por correspondência, as cidades enlameadas do Oeste começaram, pouco a pouco, a mudar. Para além dos bares e dos bordéis que já existiam (ninguém disse que não havia mulheres por lá, apenas faltavam “esposas”), construíram-se casas familiares, escolas, teatros, bibliotecas, lojas, igrejas. A civilização, tal como a conhecemos. Para a maioria, o El Dorado nunca apareceu mas a vida dos garimpeiros adoçou-se bastante.

Tal método de casamento parece irracional à luz dos nossos valores actuais? Desumano? Um acordo comercial despojado de romantismo? Meus amigos, se dizem isso é porque não assistiram a um divórcio feio. Aposto que nenhum dos casamentos feitos naquelas circunstâncias e que tenha acabado mal teve um final tão feio como os casamentos em que a paixão deu lugar ao ódio. Aqueles em que as pessoas sabem demasiado bem o que fazer e dizer para magoar o outro e não se inibem de fazê-lo até à saciedade.

Leio regularmente e com o maior dos interesses a secção dos classificados de jornal normalmente designada como “Outros” e na qual cabem coisas tão díspares como a venda de uma auto-grua de lança telescópica ou o anúncio do homem de ciência que procura um sócio capitalista para desenvolver uma tecnologia de leitura das auras que permitirá conhecer a resposta a todos os mistérios que atormentam a Humanidade desde que esta surgiu sobre a face da Terra. 

É nessas páginas que normalmente se publicam os anúncios que levam por título “Cavalheiro”, e nos quais os ditos cavalheiros, habitualmente maiores de 60 anos e quase invariavelmente “com situação económica estável” procuram senhoras de idade semelhante, sem vícios nem compromissos, para relação séria.  São os nossos garimpeiros de hoje, estes a quem talvez as paixões já tenham oferecido uns quantos fracassos amorosos, e que se  resignaram a confiar no acaso,  e a esperar a esposa que lhes toque na rifa e venha, com mão suave e decidida, bater-lhes à porta de solitários empedernidos.  

4 comentários:

  1. Um dia, numa viagem de avião, calhou-me um tipo dos seus sessenta anos, cabelo e bigode pintados, que tinha acabado de ficar noive, e a única preocupação que tinha era arranjar uma noiva. Eu, que na altura tinha, 30 anos e que andava, desesperadamente, a dizer à minha namorada que ainda era cedo, fiquei estarrecido com aquela pressa. Como fico admirado, não com os anúncios, mas com o dizer que querem uma mulher com mais de 45 anos. Porra, eu a colocar um anúncio queria uma com menos de 45 anos. Ficava com a certeza que eu morria primeiro e que ela cumpria o testamento vital...

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  2. Carla, bonito texto como só tu sabes fazer. Sem dúvida, que esses garimpeiros existem entre nós e sempre existiram, desde o volfrámio até aos dias de hoje. Postos à distância do oeste americano dão uma certa nostalgia e e criam abundante matéria para filmes. Mas temos cá muito disso, como dizes e bem. Com uma diferença, é que são elas, muitas vezes, senão a maior parte das vezes, a fazer as propostas e os anúncios.E ao vivo. Basta ir, por exemplo, pelo que me contam, porque nunca lá fui,à nossa vizinha danceteria "Arrastopé". E eu até acho bem. Ver aquelas formosuras dos sessenta-setenta!

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  3. Ó tripeirinhos, não digam mal dos casamentos por anúncio porque vocês têm aí um exemplo feliz, o da Agustina,

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