sábado, 20 de novembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (4)

(Continuação)

É - me impossível fechar estas páginas, sem antes relatar, ou mais bem, retirar da Net, uma história mal conhecida na Europa e no mundo, essa da matança de pessoas que reclamavam aos seus patrões, reivindicações que os destemidos e infames proprietários, não queriam conceder. E parece-me importante relatar o facto, porque esta greve espontânea, nascida da fome e das faltas de normas para o trabalho, é a base da fundação dez anos mais tarde, do partido comunista do Chile, seguido pela fundação do Partido Socialista, partido Presidente Salvador Allende. `evidente que o país Chile, não tem sido, como é habitual dizer, a Grã-bretanha da América do Sul, alcunha que a maior parte dos chilenos adoram ouvir e pensar que é verdade. O leitor deve saber que a matança provocada pela ditadura recente, não tem sido a única. Ainda mais, as guerras entre o Chile e o Peru, eram guerras causadas pelos proprietários da riqueza, a governar o país, que enviavam aos seus operários ou inquilinos ao combate, para depois recolher o botim de guerra e aumentar a sua riqueza, enquanto os pobres ficavam em pior estado por perderem membros da família e mãos para trabalhar. O Chile não é apenas a sangria do Pinochet, é, e sempre foi, uma permanente guerra civil. Este é a parte do texto que desejava acrescentar: “O episódio mais sangrento da história do movimento operário chileno, o massacre de Santa Maria de Iquique, no extremo Norte do Chile, na província de Taracapá, completa 100 anos.


Foi no dia 21 de dezembro de 1907 que o governo presidido por Pedro Montt (1906-1910) destacou o Exército e a Marinha para exterminar os operários do salitre - dentre homens, mulheres e crianças - que reivindicavam apenas aumento salarial e melhores condições de trabalho ante a uma situação precária existente até hoje.

Foram fuzilados na Escola Domingo Santa Maria, na cidade portuária de Iquique, mais de cinco mil operários, dentre chilenos, bolivianos, peruanos e argentinos. Porém, até hoje não se sabe o número exacto do massacre. O governo chileno, na época, sob forte censura à imprensa, admitiu os números de cento e vinte seis mortos e cento e trinta e cinco feridos, mas não há dúvida de que a cifra é bem maior, tamanha foi a selvajaria usada para sufocar o movimento dos trabalhadores.

Comandados pelo general Roberto Silva Renard, chefe da Primeira Divisão e Comandante Geral das Armas de Tarapacá, este sob as ordens do ministro do Interior Rafael Segundo Sotomayor Gaete, as tropas militares chilenas foram mobilizadas para sufocar a greve geral dos operários que trabalhavam nas minas de salitre.

No dia 10 de dezembro daquele ano, os operários cruzaram os braços da salitreira de San Lorenzo. A partir daí a greve se ampliou para outras jazidas, incluindo Peru, Argentina e Bolívia, transformando-se rapidamente no maior movimento grevista do País até então .”

É assim que ficamos a saber a verdade da base de um Allende ganhar em eleições livres, a Presidência da República, e a participação do Governo Nixon norte-americano, para recuperar os bens perdidos. Se muitos chilenos nada recuperaram na Sua ditadura, como o meu primo denunciante da minha pessoa, os estrangeiros, aos quais o Governo do País sempre se vendia, recuperavam tudo.

Bem como é impossível não referir que a propriedade das minas era ca Coroa Britânica e de vários Lords Ingleses, pelo qual os governos do Chile apenas emprestavam a ajuda em armas e em força de trabalho, ganhando em dinheiro e créditos para à oligarquia governante. É triste que sempre se pense que o Chile era apenas a vitória de Allende e a ditadura da oligarquia formada pelo dito general Pinochet e os seus apoiantes. Não resisto acrescentar ainda, esta testemunha histórica, retirada da minha pesquisa:

Para as autoridades chilenas, a questão trabalhista nas minas era um problema britânico, já que os ingleses eram os donos das minas desde a vitória chilena contra a Bolívia e o Peru na Guerra do Pacifico (1879 – 1883): àquela época, as terras ricas em nitratos (de Tarapacá até Antofogasta) haviam sido facilmente compradas pelos britânicos por causa da baixa dos títulos e das acções durante o conflito militar.

As terras dos salitreiros forneciam o salitre, o oro branco formado pelo processo de evaporação de águas subterrâneas filtradas pela Cordilheira dos Andes. O salitre, origem inclusive da disputa entre Chile, Bolívia e Peru, tinha a sua procura historicamente ligada aos interesses da fabricação de pólvora e manipulação de metais preciosos para o fabrico de moedas desde o século XVIII. Também era utilizado para a agricultura, pois apresentava propriedades fertilizantes. Já era mencionado pelos viajantes naturalistas que visitavam e mapeavam os países da América Latina, inclusive o Brasil, e que recebiam instruções de buscá-lo e identificar suas fontes; Charles Darwin, em visita a Iquique em 1835, também descreveria essas terras.

O trabalho cuidadoso e detalhado da historiadora da ciência Márcia Helena Mendes Ferraz, quando do estudo sobre a produção de salitre no Brasil colonial, menciona as “cinzas e terras nitrogenadas”, lugares onde se poderia encontrar o salitre. Não apenas aquele depositado naturalmente, mas também o possível de ser extraído em tanques artificiais que, “tratados de forma adequada, depois de um certo tempo dariam o precioso sal”.

A economia chilena, ao final do século XIX e início do XX, era de natureza monoextrativista e latifundiária, exportando salitre e importando manufacturados; caracterizava-se, portanto, por uma alta vulnerabilidade às oscilações de preço do nitrato no mercado internacional. O negócio envolvia a busca de terrenos, a extracção do caliche e a elaboração do salitre nas Oficinas. O oro blanco vindo das minas passou a ser a principal actividade económica do Chile, após o abandono paulatino da monocultura agrícola: ao tempo das ideias de Adam Smith, buscava-se espaço no mercado internacional através da exportação de mercadorias em cuja produção havia vantagens competitivas. Assim, em 1890, 52% das rendas obtidas em exportação vinham do comércio do salitre, e quase 60% da exploração salitraria estava nas mãos de estrangeiros, especialmente ingleses. A figura do inglês Thomas North, dono da companhia distribuidora de água potável, de quinze oficinas salitrarias, quatro ferrovias, proprietário do Banco de Tarapacá e Londres e da companhia distribuidora de alimentos, é emblemática e simbólica do predomínio inglês nos negócios chilenos. O Império Britânico expandia-se; concomitantemente, os países recém - saídos da condição de colónia ocupavam-se com a busca de suas identidades como Estados - nação. Assim, se a actuação da sociedade chilena originava-se dos elos construídos entre a comunidade inglesa e a burguesia nacional, do ponto de vista político - económico a fricção se dava nos movimentos do capital privado – nacional e internacional – e o sector público. A oligarquia nacional oscilava entre defender os interesses do capital britânico ou se opor às ameaças do oligopólio estrangeiro naquilo que era a principal fonte de riqueza da nação, e a guerra civil de 1891, embora não directamente relacionada à questão das propriedades das minas de salitre, evidenciou os conflitos existentes no seio da burguesia chilena. Eram estes os conflitos que deixavam transparecer as lutas por uma maior representatividade no governo – espaço da prática política –, e as discordâncias sobre a nacionalização das riquezas em posse dos estrangeiros. De qualquer forma, tanto a elite oriunda do capital nacional quanto a elite com origem no capital estrangeiro apoiavam-se na força repressora do Estado para garantir a continuidade dos negócios e do lucro que o salitre trazia, fazendo inclusive uso de forças policiais para garantir a ordem em dias de pagamento dos salários dos operários salitreiros. Em 1907, a participação do salitre chegaria a 44% das rendas chilenas com exportação, rendas essas advindas dos impostos aduaneiros, já que todo o negócio de exploração, produção e transporte do salitre estavam em mãos estrangeiras.

E é assim que acabo esta parte, para passarmos ao primeiro capítulo. Texto , todo ele, doloroso de escrever, por trazer à minha memória, factos nunca mais lembrados por mim, mas que queria que a população portuguesa soube-se, especialmente também, as nossas filhas e os nossos netos.



20 de Janeiro de 2008

Dia do meu Aniversário


Notas:

Quem tem referido mais este facto, é o escritor chileno Jorge Inostroza, ao escrever dois livros muito famosos, nos anos 50 do Século passado: para detalhes da vida do escritor, ver o sítio Net: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&sa=X&oi=spell&resnum=0&ct=result&cd=1&q=Jorge+Inostroza+Livros&spell=1



Retirado da escrita Net, sítio: http://www.pco.org.br/conoticias/ler_materia.php?mat=2435


Para saber mais da História Sindical do Chile, visite o sítio Net: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_Chile#Rep.C3.BAblica_Conservadora


Caliche, nome dado pelo povo, retirado da língua da Etnia Chilena Aimara, e tem passado a era a forma costumeira de referir ao Nitrato de Sódio. Minas, porém, onde as mãos eram queimadas, os pulmões e a saúde danificada.


Retirado do motor de pesquisa Google, sítio Net:

(Continua)

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