terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Ah, look at all the lonely people

Carla Romualdo

Perder um cão diz-nos muito sobre as pessoas, é o que vos digo.

A Changui aproveitou uma porta deixada aberta e escapou-se de casa. Cadela já velhota, talvez se lembrasse dos anos de juventude que passou na rua, depois de um provável abandono, até ao dia em que foi adoptada, e quisesse recuperar algum do alvoroço juvenil desses anos irremediavelmente perdidos. Ou talvez tivesse confiado demasiado na sua capacidade de reencontrar o caminho e erre agora pelas ruas, amargurada menos por estar sem abrigo do que por ter descoberto que já não é a mesma cadela. Os bichos não fazem essas ponderações? Vá-se lá saber.

Perder um cão que leva anos connosco é uma tristeza. Nestas noites frias e chuvosas imagina-se o pobre bicho a vaguear por ruelas sombrias, a levar com os jorros de água que tombam das caleiras rotas, esfomeado… são negros os pensamentos de quem perde um cão.

Para afastá-los, lançamo-nos no afã da busca e pedimos ajuda. Há amigos que não têm cães nem querem tê-los e se dispõem a ajudar como podem, há os que nos olham com o embaraço com que se diagnostica uma precoce senilidade – embora ainda disfarçada sob a capa de uma excentricidade benigna – em alguém de quem esperávamos mais.

Colam-se centenas de cartazes, adquire-se uma destreza formidável a rodear os postes com fita-cola, a manobrar os dedos com agilidade apesar de estarem semi-congelados. Fala-se com toda a gente que passeia cães, como se fizessem parte de uma irmandade privilegiada, a daqueles que vêem, efectivamente vêem, os cães que vagueiam pelas ruas. Vai-se ao canil, o que por si só constitui castigo suficiente por se ter sido um dono negligente, publicam-se anúncios, tudo aquilo que for possível.

E é quando se lança mão a todas estas precárias estratégias que o telefone começa a receber chamadas de estranhos e se redescobre a solidão dos humanos.
A senhora sem família, prestes entregar-se às mãos do cirurgião que tentará salvar-lhe a vida, que nos quer deixar a sua cadelinha para poder deitar-se na marquesa sem temer o desfecho que a espera.

A activista que vive para os cães e se levanta de madrugada para procurar os animais perdidos do seu bairro, da cidade, do distrito, como se a salvação do mundo dependesse do seu despertador, dos quilómetros que comeram a sola às suas sapatilhas cinzentas, das fotocópias de cartazes de “Procura-se” que lhe tomaram conta da casa, que jorram das gavetas, que ocupam os sofás, que lhe engoliram toda a vida. 

A louca que nos conta a história da sua vida pelo telefone, ainda que não tenha visto a cadela – “Não vi, mas posso ver, não é? A qualquer altura posso vê-la” – e que a verá, estou certa, mais cedo ou mais tarde, talvez na rua, talvez a erguer-se em direcção aos céus, talvez de fato e gravata no telejornal.

E os energúmenos das três da manhã, que telefonam para despertar-nos, para alinhar com esforço duas ou três frases: “Vi uma cadela, vi, tinha muito pêlo.” E que desligam quando vêem que não estamos a insultá-los porque irritar o outro é todo o intercâmbio com que se contentam.

Toda esta gente solitária espera uma oportunidade para sair da sua sombra e dar o melhor de si. Querem ser escutados, entendidos, querem sentir que fizeram a diferença, que algo foi possível graças a eles. Querem que olhemos para eles, que escutemos a sua voz do outro lado da linha, que partilhemos com eles uma fracção de tempo e espaço. Alguns aprenderam a relacionar-se com os animais e essa relação foi crescendo na precisa medida em que se derrubavam as pontes com os outros seres humanos. 

Sabemos que em algum momento alguém vai dizer a frase fatídica, alguém vai dizer-nos que prefere os animais às pessoas. E quando se ouve isto, ficamos com as mãos mais frias, com o estômago encolhido, as palavras fogem-nos, porque sabemos que estamos perante alguém que sofreu e está a ponto de desistir e espera que ainda o possamos convencer, o que é mais do que sabemos fazer. E isso entristece tanto quanto saber que a esta hora, com a chuva que cai lá fora, a nossa cadela ainda não apareceu.


8 comentários:

  1. Além de ser verdade está muito bem escrito, na tua idade (estou a chamar-te uma jovenzinha...)és uma grande conhecedora da alma dos seres humanos.Lês muito e isso, vê-se por fora...

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  2. Carla, não sou loura mas também já perdi um gato durante um mês. E o trabalho que me deu andar à procura dele. Mas lá apareceu, finalmente com a ajuda da gente lá da rua que gostava de bichos.
    E mais um texto teu muito bem escrito.

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  3. Não era loura, era louca que eu queria dizer.

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  4. eu percebi, Augusta, um beijinho para ti e outro para a Eva

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  5. É um texto emocionante, que toca profundamente na forma como está escrito e trata da solidão humana e do amor aos animais. Eu já perdi 2 cães por razões de morte. O último ainda me acompanha na visão da sua imagem companheira nas coisas da minha vida. Chora-se por um cão porque quando se regressa sem ele a casa está mais triste e mais vazia.

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  6. Obrigada, António, aqui lhe envio um abraço

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  7. Luís, desculpa, o teu comentário não aparecia antes, não sei porquê. Fico-te grata pelo "jovenzinha", que já ninguém me chama ;-)
    um abraço

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