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domingo, 2 de janeiro de 2011

Voz que escuta, de Políbio Gomes dos Santos







Políbio Gomes dos Santos 
(1911-1939)
Voz Que Escuta

João Machado


No corrente ano de 1911 faz cem anos que nasceu Políbio Gomes dos Santos. No mesmo ano nasceram Manuel da Fonseca e Alves Redol, conforme já foi lembrado aqui no VerbArte. Políbio Gomes dos Santos faleceu em 1939, de tuberculose. No mesmo ano concorrera aos Jogos Florais Universitários de Coimbra, vencendo o prémio António Nobre, com um volume de poemas que mais tarde foi incluído no Novo Cancioneiro, e publicado em 1944. Esse volume tomou o título de Voz Que Escuta, de um dos poemas nele incluídos. Políbio Gomes dos Santos publicara anteriormente, em 1938, As Três Pessoas, outro livro de poemas, que Alexandre Pinheiro Torres, na apresentação que faz do poeta e da sua obra, incluída na edição da Caminho do Novo Cancioneiro saída em 1989, considera indispensável ler para se poder apreciar inteiramente o segundo volume da obra. 

Apresento-vos a seguir Poema da Voz Que Escuta, para recordarmos Políbio Gomes dos Santos e a sua obra, neste ano em que se completa o centenário do seu nascimento:

Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo, 
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro - a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta. 



Para que serve a Arte (2) (Uma visão pessoal)

Adão Cruz

O conteúdo de uma obra é uma nova visão da realidade, às vezes um conflito, uma ponte ou uma travessia difícil entre a ideia e o Homem. Uma travessia sem demonstrações de verdade nem garantias de segurança. A única garantia é que algo muda dentro de nós e do mundo, por via da total liberdade do artista. A Arte é uma das formas mais livres de investigação e expressão de ideias e uma das maiores fontes de enriquecimento da nossa espontaneidade.
O artista é um ser vivo em mutação constante, com profunda experiência da vida, da alegria e do sofrimento do viver. O artista, ainda que nem sempre culto no sentido global do termo, está mais ou menos profundamente inserido no mistério da Natureza e das relações humanas, tal como o cientista e o filósofo, investigando, descobrindo e propagando ideias. Ele é dotado da energia, da acção, da sensibilidade, da curiosidade, da rebeldia e da capacidade de sofrimento necessárias à ânsia de conhecimentos novos, sem a qual não é possível uma personalidade artística profunda. Uma personalidade capaz de dirigir o olhar para outros mundos, outras formas de ser e de estar, outras maneiras não doutrinadas de olhar a existência.
A vivência da Arte é absolutamente singular e não tem paralelo com outro tipo de vivência. Há quem diga que aquele que não vive a Arte não vive a vida. Não querendo ser tão radical, prefiro dizer que quem não vive a Arte não sabe o que perde. Quem vive uma obra de Arte, poderosa expressão da essência humana, está constantemente a aprender uma experiência vivencial que não faz parte dos nossos padrões habituais de reflexão. E pode, se o estímulo, a sensibilidade e o sentido artístico tiverem a força necessária, alcandorar-se a instâncias onde reside uma fruição única do prazer estético.



Bertolt Brecht


João Machado


1898 - 1956


Bertolt Brecht foi um dramaturgo, encenador e poeta alemão. Pelas descrições que lemos da sua vida percebemos que esteve sempre ligado ao teatro, e que este foi sempre o seu grande interesse. Teve de fugir da Alemanha com o advento do nazismo, viveu e trabalhou nos EUA e na Europa, e voltou a Berlim em 1948, onde fundou o Berliner Ensemble. A sua relação com o regime vigente na RDA foi contraditória; viu o partido comunista ordenar a retirada de cena da peça A Condenação de Lúculo, mas posteriormente atribuíram-lhe o prémio Estaline; os seus detractores acusam-no de lealdade ao regime, mas nunca terá aderido ao partido comunista. O que é inegável é que foi um autor de primeira importância. John Willett (1917-2002), um dos estudiosos da sua vida e obra, que traduziu várias das suas peças para inglês, no artigo que escreveu para a Enciclopédia Collier's, sublinha que Brecht foi acima de tudo um poeta com um grande domínio sobre as formas e os estilos, o que lhe permitia transmitir ao seu trabalho, sobretudo na sua fase mais madura, como que uma simplicidade forçada, com uma força verbal e uma energia que marcavam decisivamente as suas peças. A sua característica principal era o modo aperfeiçoado como conseguia combinar os elementos componentes do seu teatro (as palavras, a música, o enredo, a montagem, a encenação, a teoria) num todo, com tudo relacionado com a sua visão do mundo, marxista, plebeia e antimilitarista (os termos são de Willett). 

sábado, 1 de janeiro de 2011









De Novo, o Ano Novo


Ethel Feldman




Quero uma agenda sem começo.
Como o tempo que sinto.
Contínuo nos intervalos.
Entre a infância e a semana passada, confundo o passado.
Subi a montanha. Presa no tronco, a dois passos do chão - chorei com medo da queda.
Presa com a boia, junto à terra - tive medo de me afundar.
Na escola, aprendi a ler. O 'A 'vem antes do 'C' e do 'B'. O '2' acompanha o '3'.
Há sempre um antes e outro depois. O tempo a subtrair tempo, no tempo que aprendo.
O tempo de ontem, no ventre da minha mãe.
Noto o mar preguiçoso, mesmo quando se mostra revolto.
Daqui a pouco sereno. É assim o seu tempo. Sempre novo.
O rio acaricia a montanha, a borboleta beija a flor.
Saboreio a maçã, toco meu corpo molhado.
É assim a natureza. Em todos os intervalos.
Uma agenda sem início, nem fim.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010






Um Salão na Internet




João Machado

Para todos um feliz Ano Novo
Venham muitas vezes ao Estrolabio
Passem palavra a todo o nosso povo
A ver se este mundo fica mais sábio


Ao nosso blogue vêm botar discurso
Muitos, de todas as cores e alturas
Trazem poemas, desenhos, pinturas
E entram, sem precisarem de concurso.


Permitam que vos apresente uns versos (bem melhores!) que Richard Wagner pôs Hans Sachs a cantar nos Mestres Cantores de Nuremberga, e Nietzsche cita na Origem da Tragédia:

Amigo, a verdadeira obra do poeta
É anotar e interpretar sonhos.
Acreditai que a ilusão mais certa
Vive no sonho dos humanos.
A arte de versejar e de poetar
É dizer a verdade do sonhar.



FELIZ ANO NOVO! DE TODA A EQUIPA DO ESTROLABIO

Para que serve a Arte - uma visão pessoal

Adão Cruz

Para quem cria, a obra é um processo de aprendizagem permanente. A criação espevita a nossa reflexão, desenvolve todo o processo de humanização, cria uma singular afinidade com a consciência, aproxima-nos de todos os mecanismos de identificação da verdade, afina as emoções e os sentimentos, apura o sentido da beleza, da ética, da estética e até da justiça, dado que esta se pode considerar fruto da harmonia e do equilíbrio, as grandes traves da Arte e da verdadeira vida.
A Arte é uma relação de vida. A montante e a jusante da Arte existem as emoções e os sentimentos. A montante prevalecem as emoções e os sentimentos do autor da obra, a jusante predominam as emoções e os sentimentos daqueles que contemplam a obra criada. Pode dizer-se que a Arte é uma espécie de degrau entre este desnível do mundo interior e do mundo exterior, uma espécie de portal entre duas dimensões, o principal factor na equação que um dia poderá resolver o problema da paz individual e colectiva.
Quando alguém produz uma chamada obra de Arte, neste caso uma pintura, introduz na tela toda a sua vida, ainda que inconscientemente, todas as suas vivências, todas as suas memorizações, todas as suas aprendizagens, todas as suas emoções, todos os seus sentimentos, paixões e devaneios, todas as suas frustrações, todas as suas potencialidades reflexivas, toda a sua cultura, toda a sua visão do mundo e das coisas. Quem contempla essa obra não vai ver a obra do autor mas a sua própria obra, a obra de quem a vê, dado que vai contemplá-la através das suas próprias vivências, através da sua cultura, das suas emoções, dos seus sentimentos, da sua visão do mundo e das coisas, que podem não ter nada a ver com os elementos da estrutura mental do criador da obra. A contemplação de um quadro não exige forçosamente uma análise intelectiva. É muito mais importante o impacto que a obra produz no espectador. Ela actua sobre o seu sentir e não só sobre a sua inteligência. Claro que um espectador pouco inteligente, sem imaginação, sem sentimento artístico, vazio de ideias e de ideais, não verá nada.

A obra funciona de estímulo, mais ou menos poderoso e profundo, capaz de desencadear toda uma cascata de sentimentos no observador, por vezes muito mais intensos do que os do criador, podendo ter a força requerida para desnudar o seu íntimo e arrancar-lhe emoções muitas vezes desconhecidas, apagadas ou esquecidas no mais recôndito dos seus arquivos mentais. Perante uma obra de Arte, suporte de meditação, meio de fixação da atenção e de excitação mental, o espectador sente-se obrigado a um exame de consciência e a uma necessidade de rotura com os seus velhos conceitos. A Arte é uma fonte de conhecimento e é tanto mais nova quanto mais novas forem as ideias que usa na concepção da realidade, quanto maior for o abalo que produz nas formas caducas de ver o mundo e a realidade. Como já se disse atrás, a Arte é impacto, desconcerto de espírito e agente de mudança das formas de pensar. Quando o público se identifica serenamente com a obra e mostra coerência com determinadas formas artísticas, é de temer que essas formas já tenham perdido a sua capacidade revolutiva. Assim se entende que não é a Arte que deve descer à compreensão do povo, mas é o povo que tem de ascender aos patamares da natureza revolucionária da Arte. Uma política cultural, isto é, o ensino de uma autêntica cultura formativa e digna, está longe da estafada ideia de que convém dar ao povo o que o povo pede. É escandaloso ouvir dizer que se deve servir o povo com coisas que lhe dêem prazer e não com intelectualices! Esta luta é uma luta de todos, um verdadeiro e poderoso sentir da necessidade desta ascensão como uma das prioridades da estruturação humana. Uma luta travada pelo saber de todos os tempos, uma luta perpétua contra a ignorância dos que não sabem, dos que julgam que sabem tudo e dos que não sabem aquilo que não sabem.

As Nuvens

João Cabral de Melo Neto





As oito da manhã, aqui no Estrolabio, é a hora da poesia. Hoje é a vez de um grande poeta brasileiro – João Cabral de Melo Neto (1920 —1999) .

Da sua colectânea O Engenheiro (1945),

As Nuvens



As nuvens são cabelos

crescendo como rios;

são os gestos brancos

da cantora muda;



são estátuas em voo

à beira de um mar;

a flora e a fauna leves

de países de vento;



são o olho pintado

escorrendo imóvel;

a mulher que se debruça

nas varandas do sono;



são a morte (a espera da)

atrás dos olhos fechados

a medicina, branca!

Nossos dias brancos.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010




Em Nome da Liberdade

Ethel Feldman

Entre touros e porcos - sangue
O homem trabalha todos os dias
Num só, mata a sede e a fome
O corpo treme e fode

Aquele morreu de morte matada
Na cela o grito seco, calado
No corpo, a dor não revelada
Um buraco na terra
Dentro dela, a mulher adúltera
No rosto, a vergonha explorada
Na mão do justiceiro, pedras
Na procissão, um anjo de cera
Nas costas, o peso
Entre touros e porcos -  sangue
Ordena a tradição, submissão
Grita o porco por compaixão
Na mão do homem - faca afiada
De morta matada
Morreu apedrejada
Um é preto, outro pobre
Criança sem nome, com fome
Na rua, a procissão
Nas costas, um anjo
Pobres de espírito
Pobres, sem nome
Dia de festa
Dá-me teu corpo suado, em nome do Homem
Rega meu ventre de vinho, em nome do Homem
Rasga-me por dentro, em nome do Homem
Amanhã parte, em nome da Liberdade
Ama.







Os poetas. ladrões de fogo ou artífices do verbo?

Carlos Loures

Definir a natureza da arte poética, é, como poderemos ver no apreciável painel que vamos expor na nossa “maratona poética”, uma discussão tão antiga quanto a civilização. Platão, Aristóteles, Horácio, Boileau, milhares de filósofos e de poetas discorreram sabiamente sobre este tema. Teremos oportunidade de, nas 24 horas do dia 8 de Setembro, ler 72 textos – poemas, textos poéticos, citações… Uma ampla panorâmica sobre esse tema tão discutido ao longo dos séculos.

“Ladrões de fogo” foi uma designação que usei num texto que publiquei na revista “Pirâmide” , da qual já aqui tenho falado. Nesse texto comparo os poetas a Prometeu. O poeta é um ladrão de fogo, um mago. Pelo poder da palavra cria a beleza para a ofertar aos homens. A comparação faz sentido, é sugestiva, mas talvez haja outra, menos bela, mas não menos verdadeira. Vejamos.

O poeta produz esta magia usando palavras comuns e não palavras mágicas. Esta capacidade de, com palavras usadas no dia a dia, construir um poema, pode conduzir-nos à tal conclusão, complementar da primeira – além de mago, o poeta é um artífice.

A comparação com Prometeu trazendo o fogo do Olimpo para a terra ou, como também já li algures, com Orfeu enfeitiçando a natureza, homens, animais e plantas, com o seu canto melodioso, é muito bonita. Mas equipará-lo a um trabalhador leva-nos a uma imagem , menos “poética” no sentido convencional, mas mais integradora da arte poética no quotidiano.: -o poeta é um artífice. A expressão «artes e ofícios» tem aqui pleno cabimento - o poeta é, portanto, um homem comum, um artista como um sapateiro ou um alfaiate o são. Em vez de cabedal ou de tecido, usa palavras, sentimentos e conceitos como matéria prima. Ofício: poeta. Daria lugar a conversas como esta: - "Ah, sim o Jorge. Olha, foi colocado como poeta na Covilhã".
Uma coisa é certa 
Adão Cruz. Ilustração de Adão Cruz.




Uma coisa é certa
aqui sentado na margem deste regato debruado a pedaços de neve o avesso do pensamento já não incomoda.
O silêncio acorda os olhos de pó e a melodia há muito perdida nas encostas nevadas renasce na canção deste rio.
Não importa ser-se aqui planta ou pedra ou torvelinho de água brincando à roda do abismo.
Os soluços são apenas o cantar da água e o tempo de recordar há muito se deslembrou.
A montanha despiu a neve a saudade deixou de respirar tristezas a angústia tem o tamanho da neve e o abraço do sol o tamanho da angústia.
Os lábios rasgados do sexo cósmico devoram os beijos que não têm como a neve a força de um regresso.
O tempo de sorrir não morreu no naufrágio das flores das noites nuas.
Por isso não importa não saber cantar se a música dos teus dedos nasce nos cabelos de hoje.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010





Has dit que sóc poeta

Josep A. Vidal

Has dit que sóc poeta perquè saps que faig versos,

i sí, és cert, en faig. Consirós, cerco i lligo

els mots, l'un rere l'altre, i aixeco arquitectures

de mètrica insegura, maldestres i inconnexes,

amb rebles i artificis i retòrica abstrusa,

amb ritmes que coixegen i rimes vacil•lants.

Dogmàtics de la rima, matemàtics del metre,

buròcrates del ritme, acadèmics de res,

diran ínclits poetes, tot arrufant les celles

amb un gest de desdeny: "I és d'això, que en dius vers?"

Però, jo seguiré aplicant-me maldestre

a la feina obstinada de lligar mot amb mot,

i cercaré la rima com l'ocell cerca l'aire,

com l'arrel cerca l'aigua furgant en terra eixuta,

com cerca el riu el mar, com la pluja la terra,

com l'alè el moribund...

Com el meu cos el teu, jo assedegat de tu.

I em diré a mi mateix, una i altra vegada,

el nom de cada cosa com una lletania

per ordenar-me el món: la pedra, l'aigua, el foc,

el sol, la terra, l'aire... La vela al mar, la tarda...

I l'horitzó, tan lluny! –Una broma infinita,

la mar i el cel confosos, un rengle de muntanyes...

I el neguit incessant, la set insaciable...

Les pregoneses tèbies del teu si... La mirada

de l'infant, i les llàgrimes; les arrugues del vell,

i el pas del temps, i el buit... La tendresa, l'encís

del teu bes, i l'esclat del meu cos que s'afluixa

i es vessa en el teu cos, tremolós, que m'abraça...

La solitud, el plor, la cambra del malalt,

l'olor de resclosit, la tos, el ronc, l'esput,

la ranera impotent, els ulls esbatanats...

I el ventre afeixugat de la dona prenyada,

i els crits d'infants que juguen al celobert...

La suor del teu cos enganxada al meu cos,

i el teu alè i el meu fonent-se en la besada.

I l'instant que s'esmuny. I la mort, i l'absència...

Potser tenen raó i es soroll de xaranga,

però, no puc estar-me'n.

Els mots em fan present el temps inabastable,

cada instant que hem viscut,

el moment que s'esmuny entre els meus dits com l'aigua,

com la sorra i la pols; com un foc que s'apaga,

com l'infant que vaig ser

-aquell que cavalcava corsers imaginaris,

i encenia fogueres de fullaraca als vespres

i les veia apagar-se amb un estremiment-,

com la veu, com el bes, com la mirada...

Com la mà dels amics que he vist marxar per sempre

i el teu pas amb el meu al caient de la tarda.


Chamaste-me poeta...

Chamaste-me poeta, pois sabes que faço versos,
e, sim, é verdade que os faço. Com rigor, construo
e ligo as palavras, uma após outra, ergo arquitecturas
de insegura métrica, desconexas e trôpegas,

com desperdícios, artifícios e retórica abstrusa,
com ritmos que coxeiam e hesitantes rimas.
Dogmáticos da rima, matemáticos do metro,
burocratas do ritmo, académicos de coisa nenhuma,
dirão os ínclitos poetas, franzindo o cenho,
com um gesto de desdém: “É a isto que chamas versos?”


Porém, continuarei a entregar-me, trôpego, mas teimoso,
à ingente tarefa de ligar palavra com palavra,
procurando a rima como o pássaro procura os ares,
como a raiz procura a água escavando a terra enxuta,
como o rio demanda o mar e a chuva a terra,
e o moribundo o alento…
Como o meu corpo procura o teu, de ti sedento.
E, para mim mesmo, uma e outra vez direi
o nome de cada coisa, como uma litania
para ordenar o meu mundo: a pedra, a água, o fogo,
o sol, a terra, o ar…Uma vela aberta ao mar, a tarde…
E o horizonte, tão distante! Uma bruma infinita,
o mar e o céu confundindo-se, uma sucessão de montanhas…
E o anseio incessante, a insaciável sede…
A profunda quentura do teu seio…O olhar
do menino, as suas lágrimas; as rugas do velho,
a passagem do tempo, e o vazio… A ternura, o encanto
do teu beijo, e a explosão do meu corpo que se distende
e derrama no teu trémulo corpo que me abraça…
A solidão, o pranto, a cama do doente,
O bafo do quarto fechado, a tosse, o ronco, o escarro,
o estertor impotente, os olhos sem pálpebras…
E o ventre carregado da mulher grávida…
Os gritos das crianças brincando no pátio vizinho…
O suor do teu corpo colando-se ao meu corpo
e a tua respiração e a minha fundindo-se no beijo.
E o instante que foge. E a morte e a ausência…

Talvez tenham razão e seja o som da charanga,
mas é inevitável.
As palavras tornam presente o tempo inatingível,
Cada instante que vivemos,
o momento que se esvai como a água entre os meus dedos,
como o pó e a areia; como um fogo que se extingue,
a criança que já fui
- aquele que cavalgava imaginários corcéis,
e fazia fogueiras com as folhas secas,
vendo-as apagar-se com um estremecimento -,
como a voz, como o beijo, como o olhar…
Como a mão dos amigos que vi partir para sempre
e os teus passos com os meus ao cair da tarde.

(Versão portuguesa de Carlos Loures)




FRINCHA

Marcos Cruz. Ilustração de Manel Cruz.

Há uma frincha que dá lá para fora, mas eu continuo aqui, sentado. Pergunto-me se vale a pena levantar-me e dar dois passos até à porta só para espreitar pela frincha. Concluo logo que vale, mas não a pena. Vale outra coisa. Vale um depois melhor, talvez, quem sabe? Mas a dúvida, por enquanto, é suficiente para me manter quieto, inquieto, no lugar. Ponho-me então a ver se crio, se distraio a mente da preguiça do corpo. A única coisa que concedo mexer são os dedos das mãos – e a boca de vez em quando. Mas nunca as suíças. Isso nunca. É, para mim, uma espécie de desígnio sagrado. Desde que tomei consciência de mim enquanto ser diferenciado não tive a mais pequena dúvida quanto à necessidade ética de manter toda a vida as suíças imóveis, contra ventos e marés. Conclusão: nunca descanso. Há alturas em que até tenho vontade de jogar à lerpa. Mas, pronto, voltando atrás: mexo um dedo, mexo outro, mexo os dois juntos, relaciono-os e, de repente, acho que já fiz demais. Não sei por que sou tão ansioso. Um dedo, coisa linda. Outro dedo, coisa linda. “O que é que fizeste para o comer, Saia?”. Pois, já vi que nada. Esta minha mulher passa o tempo todo a babar-se, não faz nenhum. Eu ainda mexo os dedos, mas ela... tem hoje uma entrevista, tem. No meio disto tudo, quem nos faz as compras, quem nos lava a roupa, quem nos limpa a casa, ou seja, quem vive por nós... é o Fó. O Fó, que eu já não via desde amanhã às 18.00, é uma alma rara, um rapaz como qualquer outro. Neste momento, por acaso, até me está a irritar, porque se pôs a pregar um bocado de madeira por cima da frincha que dá lá para fora. Vou ter de me levantar, dar-lhe um soco, sair de casa, comprar o jornal, enfim, arriscar mais uma vez o compromisso de honra que tenho com as minhas suíças.




terça-feira, 28 de dezembro de 2010



Adeus 

Marcos Cruz. Ilustração de Manel Cruz.

Se levas nas tuas asas
o fio da minha paz
não voes para lá das brasas
onde arde este corpo frio
que jaz

Deixa-o ao menos ser alma
enquanto acaba de arder
e bate as asas com calma
para que não lhe custe tanto
morrer.


Arquitectura e Música


Arquitectura e Música

José de Brito Guerreiro

«A relação da Arquitectura com a Música remonta aos primórdios do pensamento humano. (...)
Concretamente a Arquitectura e a Música partilham muitas características: ritmo, harmonia, ordem, proporção, repetição, contraste, tons, frases compositivas, estruturas matemáticas. (...)
Os métodos utilizados para conceber e manifestar ambas as artes possuem um núcleo compositivo similar.
A Arquitectura e a Música situam-se no domínio da abstracção, alheias a qualquer representação figurativa, transcendendo as aparências exteriores da realidade. Diferem das artes plásticas e visuais porquanto não procuram a imitação de objectos reais. Exprimem-se mediante conceitos e formas próprios.
As obras arquitectónicas, como as musicais, são fruídas por meio da quarta dimensão, o tempo, o que reforça o vínculo entre estas duas artes. A Música manifesta-se pela relação entre som e tempo. A Arquitectura exprime-se pela conexão entre espaço-luz e tempo. Luz que revela a conformação da matéria, e tempo que o contemplador precisa no percurso para captar e perceber as harmonias espaciais.
O 'som' da Música corresponde ao 'cheio' da Arquitectura. O 'silêncio' da Música é o 'vazio' da Arquitectura. E o som não se propaga onde não existe matéria.»

José de Brito Guerreiro
Arquitectura e Música: Correspondências · Tangências · Aproximações
Janeiro de 2008





NATAL...

Fernando Pessoa

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
'Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade vem ao Terreiro da Lusofonia

trazendo "O amor natural"


Manuel Simões e Carlos Loures



O grande poeta brasileiro (1902-1987) é por demais conhecido e a sua obra (lembremos apenas Sentimento do Mundo ou A Rosa do Povo) faz parte do património das literaturas de língua portuguesa. Há uma dimensão, porém, não muito frequentada pela crítica e que se refere a um volume de poesia, O Amor Natural, até pelo modo, quase clandestino, como foi publicado. Em Agosto de 1985, a um jornalista que lhe pedia notícias sobre o livro, Drummond respondeu-lhe que não tinha intenção de publicar os seus versos eróticos, receando que o leitor os considerasse pornográficos.

Na verdade, o volume já tinha sido publicado em 1981 numa edição reservada de apenas dois exemplares, um dos quais entregue ao escritor argentino Manuel Graña Etcheverry, crítico literário e genro do poeta. O outro exemplar foi submetido à apreciação de outros amigos e estudiosos, que o avaliaram com apreço, mas Drummond continuou a mantê-lo em silêncio.




CARTA DE NATAL A MURILO MENDES

Sophia de Mello Breyner Andresen


Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no Verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão

Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano

Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido

Hoje escrevo porém para a Saudade
- Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade -

E o poema vai em vez deste postal
Em que eu nesta quadra respondia
- Escrito mesmo na margem do jornal
Na baixa - entre as compras de Natal

Para ligar o eterno a este dia.


domingo, 26 de dezembro de 2010




NATAL DE 1971

Jorge de Sena





Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?


A FOME


Augusta Clara de Matos





(Cândido Portinari: "Retirantes")




Quando ouço um homem dizer que tem que pedir uns ovos, um pão e poucas outras coisas à família porque a empresa em que trabalha vai fechar e não lhe paga o que lhe deve e que essa é a única refeição que come durante o dia…

Quando ouço outro homem dizer, de cara baixa, que tem a seu cargo o filho e os netos a quem tem que garantir uma merenda para levarem para a escola, quando a voz desse homem se embarga afirmando ser capaz de explicar ao filho que já quase não há dinheiro para nada, mas não conseguir dizer às crianças que vai ter de lhes retirar os poucos mimos que já têm…

E quando ouço ainda um terceiro homem dizer que é viúvo com três filhos e que a renda da casa está por pagar há três meses …

Quando sei que estes três homens e as suas famílias se multiplicam por muitos mais e vão continuar a multiplicar-se por mais ainda…

Recuso-me a entrar em lugares-comuns, mas algum grito tenho que dar. E o que faço a seguir? Deixo de escrever? É que perdi completamente a vontade.

E todos aqueles que afirmam que estas medidas draconianas são necessárias, senão…mas, para estes e muitos outros já não é senão nada. Já lá chegaram. Que mais condicionantes pode haver para quem já não come como gente, já não vive como gente, já não consegue olhar nos olhos da gente que ainda comemos o que precisamos de comer?

E, ainda por cima, têm vergonha de nos olhar nos olhos, como se tivessem cometido algum crime.

Não sei porque é que me veio à cabeça a Natália Correia. Talvez porque só assim, daquela forma histriónica que era a dela, se possa, se deva gritar contra a fome. Que outra maneira há de expressar isto? E o que é isto?

Não me importa a prosa. É olhar para aquela gente e, embora, vendo-os iguais a nós, não os vemos como nós. Eles estão acossados pela vida, foram marcados a ferro quente, tratados como gado, não sabem o que vai ser o futuro, mesmo o mais próximo.

E eu o que faço, que sou da mesma humanidade mas ainda não estou como eles? Ainda posso manter a minha alimentação, a maior parte dos meus hábitos.

Nunca tive fome, nem me faltaram nunca as refeições necessárias. Mas posso imaginar como me sentiria.

Nunca tive filhos, nem me faltou que lhes dar de comer. Mas posso imaginar como seria vê-los com fome.

E, se eu posso imaginar, como será a realidade?

Já não gosto das palavras que se usaram durante décadas. Estão coçadas, gastas. Que outras há que espelhem a minha desolação?

Só o silêncio mas o silêncio agora não chega.

Vou inventar as palavras que não me vêm neste momento. E, só depois, volto a escrever.