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sábado, 18 de dezembro de 2010









A minha música


Adão Cruz



Passei o dia a ouvir música sempre a mesma alternando Madredeus e Erik Satie.


Como foi possível parecerem-me tão semelhantes?


Que percebe de sons este monocórdico espírito?


Mas foi o mesmo o que produziram em mim a sensação amarga de ter atirado fora uma paveia de sentimentos.


Como vou misturar é quase certo que nada existe nada está perto nem eu estou triste com Embryons desséchés e Peccadilles importunes?


Eu próprio me sinto mistura de contradições e acasos harmonia de contrastes santidade e pecado.


Nada percebo de música mas quero que a música seja ar chuva ou vento olhos boca sustento febre delírio amor e tormento.


Não sei onde fica a música nem a terra onde ela conduz sei apenas que é de sol e de luz ar puro e perfume o caminho da música para o alto dos montes.


(Ilustração de Adão Cruz)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010











Os Gatos que nos aceitam  - V




Clara Castilho




a) Literatura


O GATO

Vem, meu belo gato, ao meu coração apaixonado,
recolhe as unhas da tua pata
e deixa-me mergulhar nos teus belos olhos
onde o metal e a ágata se misturam.

Quando os meus dedos acariciam, vagarosos,
a tua cabeça e o teu dorso elástico
e a minha mão se inebria com o prazer
de afagar o teu corpo eléctrico,

vejo, em espírito, a minha mulher. O seu olhar,
tal como o teu, querido animal,
profundo e frio, fende e trespassa como uma lança,

e, da cabeça aos pés ,
flutuam, em torno da sua figura morena,
um ar subtil e um perfume misterioso.


Charles Baudelaire


Da Vinci



b) Informações

Durante muito tempo julgou-se que o gato via tudo a preto e branco, mas hoje sabe-se que pode distinguir as cores, tendo uma visão nocturna que lhe permite orientar-se.
Tem um sentido de olfacto muito desenvolvido. Para além do nariz possui no céu da boca o órgão de Jacobson. Com os seus bigodes ele pode medir a deslocação do ar, de forma a saber a posição e o contorno de tudo o que o rodeia. Reage a estímulos que somos incapazes de captar. Por isso dá conta, muito antes de nós, de algum perigo iminente – terramoto, erupção vulcânica – demonstrando-o pelo eriçar dos pelos, dilatar das pupilas, arquear das costas., etc.
O seu ronronar transmite contentamento. Respondem a quem fala com eles, numa relação directa com a quantidade de fala que lhe é dirigida.


Renoir

c)Provérbios
Aquele que guarda qualquer coisa para a noite, guarda-a para o gatoProvérbio dinamarquês
Aos olhos de um gato, todas as coisas lhe pertencemProvérbio inglês
Não há gato que não tenha unhas – Provérbio suiço






Escrever


António Sales

Porque escrevo?

Não sei da mesma maneira que não sei porque fui sempre um amante da leitura e de jovem comecei a minha biblioteca. Em minha casa não existia um livro. Bom, existia a bíblia, missais de minha mãe, John, o Chauffeur Russo, Sou Maria, Saber Viver e o Coliseu Infantil. Felizmente ainda conservo todos.

Sem grandes delongas direi simplesmente que escrevo porque me apetece. Muitas vezes estou com a caixa craniana avariada e vai disto, ponho-me a escrever. È mais barato que ir ao médico e não tem despesa de farmácia para medicamentos. Dá-me prazer, digo, criar vidas ou tão prosaicamente desabafar comigo mesmo através da escrita que é uma espécie de confissão. Como jamais admiti sequer poder-me confessar ao padre, provavelmente mais por uma questão de fé que de pudor, prefiro confessar-me à escrita, ou seja, a um outro eu que não a mim mesmo. Muito embora pareça que escrevemos para nós, isso não é verdade porque fazemo-lo para um outro personagem em abstracto.

Escrever é assim uma espécie de loucura de um sujeito criador de universos onde existe sem existir, ama sem amar, sofre sem sofrer, ataca sem matar. Escrever é uma rota que isola mente e espírito transportando-os a um planeta imaginário suficientemente absorvente para eu me isolar do planeta real. Mas também é recordar, registar a vida em que participo com outros colegas interpretes desta gigantesca comédia humana (vai um chavão!) Escrever é um acto de inconfessáveis intimidades e reflexões que normalmente conduzem quem escreve ao desespero de transmitir, através dos olhos críticos da alma, as tristezas do mundo.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Arte (5) - uma visão pessoal


Adão Cruz

Socializando um pouco o nosso pensamento, podemos dizer que existe um divórcio cada vez maior entre a vida da sociedade e a vida da Arte. Não há uma formação humanista autêntica da sociedade. A ausência de tempo e espaço para a cultura, a falta de sensibilidade poética, a falta de vivência da verdadeira liberdade, a escravidão dos horários de trabalho, as dificuldades e incompreensões da vida levam a esquecer que a sensibilidade de um povo é a sua força e um perigo para os poderosos. O público menos culto e menos tocado pelos conceitos da estética moderna e contemporânea procura num quadro uma imagem da realidade e vai julgá-lo tanto mais hábil e perfeito quanto mais ele se aproximar do modelo.

O que representa este quadro? O que quer isto dizer? Considera assim a obra tanto mais imperfeita quanto mais se afasta do real, suspeitando sempre que esse afastamento resulta de uma incapacidade do autor para o atingir. Mas por outro lado tem a noção de que há algo que lhe escapa, algo que não percebe e o faz confessar sistematicamente não ser entendido no assunto. Apesar de já na Arte antiga haver um esforço para superar o real e edificar, para além da aparência, leis que residissem mais no pensamento do que nas coisas, e apesar do grande salto da Arte Moderna e da Arte Contemporânea, o conceito de imitação ainda permanece nas camadas menos esclarecidas e menos habituadas à expressão artística. Todavia, sem nos precipitarmos no sectarismo de que a representação do real é incompatível com a Arte, vamos tentar entender que a Arte se situa numa região que não é possível confundir com a realidade aparente.

Os materiais em si são inertes. Mas ganham vida ao mais pequeno movimento. A cor, a textura, as formas mais simples, os sinais, podem adquirir, ao mais pequeno domínio, uma expressividade independente. Toda a gente sabe que a criação não depende só dos materiais mas da forma como se usam, a qual decorre das capacidades artísticas do autor e da sua cultura e sensibilidade, bem como das circunstâncias e do estado psicológico da sociedade em que se insere.

A realidade exerce o seu fascínio e é, como vimos atrás, uma pedra fundamental na criação da obra de Arte.
Presunçoso seria lançar sobre ela um anátema. Não se deve procurar exclui-la mas mantê-la dentro das suas proporções e do seu papel. Até porque a realidade nunca está na pintura, ela encontra-se sempre na mente do observador. Se fosse possível isolar numa obra de Arte apenas a realidade que os olhos mostram, ela seria muito pobre. A par da realidade, a pintura existe com as suas leis próprias. Uma superfície sobre a qual está disposta a matéria pictórica, composta de linhas e cores reunidas de determinada forma dentro de uma consistência visível, mas para além da qual há todo um mundo psicológico, todo um universo de emoções, sentimentos e harmonias, dos quais essas linhas e cores são o sinal perceptível. Mesmo nas expressões mais figurativas, o nosso pensamento deve ser capaz de transpor a vidraça do realismo que cobre o quadro, a fim de não nos impedir de penetrar na sua essência, se existir, claro! Não sou ingénuo ao ponto de considerar que tudo é Arte, como dizem alguns. Por estas e outras razões, considero salutar que, sempre que possível, a obra de Arte não tenha título. A descodificação de uma obra de Arte, ainda que parcial, pode ser um fenómeno redutor que empobrece a obra. Pode mesmo anular a sua própria hermenêutica, isto é, a força indutora das capacidades interpretativas. Qualquer explicação verbal terá de ser extremamente cautelosa pois pode substituir-se à obra, paralisar a sua essência ou cegar o espectador. Este deve enriquecer e iluminar a sua vida através do saber ver, do saber ouvir e sentir, e não se limitar à análise dos processos formais, simples elementos da construção desse mesmo sentir. O espectador deve deixar-se levar pelo que ecoa dentro dele, sem pretender colar-se ao que deve ser, ou àquilo que nos disseram que é ou que lá existe. A obra pode ser o que somos e muito pouco do que lá está. É por isso que não aceito de bom grado que se disseque uma obra de Arte em termos interpretativos, por vezes vincadamente objectivos, como fazem alguns críticos, historiadores e cicerones de museu. Que o façam em termos técnicos, históricos, museológicos vá que não vá, mas em termos sentimentais, em termos interpretativos, tantas vezes sob a forma de gastos e banais artificialismos de catálogo, massificando as formas de ver e de interpretar, em vez de tentarem estimular a individualização das formas de sentir, custa-me a aceitar. Ninguém vê com os nossos olhos, ninguém sente com o nosso íntimo, ninguém pensa com o nosso pensamento.








Esta coisa das preferências nas leituras …

João Machado


É um problema mais complicado do que talvez pareça a muita gente. Sem dúvida que gostos não se discutem (vocês não digam nada a ninguém, mas eu cá não concordo nada com esta afirmação). Mas o facto é que isto das leituras pesa muito, e de que maneira.

O nosso Estrolabio anda com vontade de entrar no assunto. Temos aquela rubrica Os Dez Livros mais lidos do Século XX, a qual, se bem me lembro (nada de comparações com o Nemésio; formidável o Mau Tempo no Canal), até à data, teve escassas participações. Mas as participações que houve foram de alto gabarito. Talvez por isso alguns tenham hesitado em dar o seu contributo. No meu caso, também não contribuí até à data, por várias razões que vou tentar explicar.

Quando começo a pensar no assunto fico atrapalhado. Ocorrem-me ideias diversas. Para começar, assalta-me uma data de nomes, uns atrás dos outros, e fico na dúvida. A alguns tinha que os ler outra vez. Recordo-me de Dostoievsky, que li quase todo há quarenta e tal anos, e encho o peito, e ver se consigo ir lê-lo outra vez. Reli há uns meses parte do Crime e Castigo e fiquei novamente de boca aberta. Será que ainda estou assim jovem?

Mas li o Germinal do Zola, há mais de cinquenta anos. Lembro-me tão bem … e eu era tão novo. Deve ser um dos tais livros da minha vida. Problema: estes que acabo de referir foram todos escritos no século XIX. Portanto não contam para a nossa estrolábica rubrica. Por vezes organizo-me e ponho-me a pensar no Camus. A Peste é para a lista, sim, senhor. E porque não O Estrangeiro, ou O Exílio e o Reino? Começam novamente as dúvidas. O Saramago, pronto, só ponho O Ano da Morte de Ricardo Reis. Mas se calhar estou a ser injusto com O Evangelho segundo Jesus Cristo, não é? E O Memorial do Convento? O Sartre tem que entrar (eh pá, vocês desculpem, mas A Idade da Razão, quem não a leu faz favor de ir ler. Eu sei que o Sartre era snob (isso dizem, mas não têm razão, uns tipos que refiro mais abaixo), mas caramba, aquilo vai até ao tutano. Bom, mas já que falamos em snobismo, O Ulisses, não é? Levei quase um ano a lê-lo (em inglês, meninos, com o dicionário ao lado, que muitas vezes não me servia de nada), mas garanto-vos que gostei. Vocês não acreditam, mas eu gostei. Bolas (era outra a palavra que disse alto, mas lembrei-me da Augusta Clara, da Ethel, da Clara, etc. Claro que a ver se as provoco). E para continuarmos com o snobismo, o Raymond Chandler tem que entrar. Desta vez ponho só o Farewell, my Lovely, e deixo de fora The Big Sleep, The High Window e o resto. Ficam de fora também os títulos em português, porque não me lembro. É o snob. E na passada, não esqueçam o Manuel Vasquez Montalban. Galíndez, de leitura obrigatória. A Autobiografia do General Franco, Os Mares do Sul. Que inveja que eu tenho! Já agora não posso deixar de vos lembrar A Balada do Mar Salgado, do Hugh Pratt (era melhor dizer do Corto Maltese, não acham?).

É pouco patriótico deixar os portugueses de fora. Eu não concordo com o patriotismo (é só conversa, que eu sofro á brava com os desaires da inditosa pátria, no futebol e no resto), mas realmente o Manuel da Fonseca e o seu Cerro Maior têm de lá estar. Este gajo põe-me tão parvo quando o leio … E acrescentem o Branquinho da Fonseca e O Barão, tão curioso. Mas deixei-me voltar aos russos e lembrar-lhes um tipo fabuloso, o Mikhail Bulgakov. Li O Mestre e Margarida em Janeiro de 1971, estava de cama, horrivelmente doente. Uma visita do diabo a Moscovo, sim, já depois da revolução … Fartei-me de rir. Se não leram, leiam, que se divertem. E o Soljenitsyne, e Um Dia na Vida de Ivan Denisovich. O homem era reaça, ao que dizem, mas genial, sem dúvida.





Canção para Maria


Carlos Loures


Francisco Fanhais cantando Canção para Maria (Queria Um País de Sol Para te Dar) na FNAC do Fórum Almada.


Este poema faz parte do meu livro A Poesia Deve Ser Feita Por Todos (1970) Escrevi-o no presídio do Reduto Norte de Caxias no Inverno de 1968, dedicado a minha mulher. O Francisco Fanhais musicou-o e ainda hoje o canta com frequência. Pôs-lhe o título de Canção para Maria.

Há uma história interessante relacionada com este poema, para além do facto das circunstâncias em que foi escrito e da forma como, com muitos outros textos, saiu comigo quando fui posto em liberdade, após seis meses de cativeiro – dentro de sapatos, entre a palmilha e a sola: o Francisco Fanhais cantava o poema por muitos lados e antecedia-o sempre da mesma história – «o Carlos Loures uma tarde disse para a mulher: – Vou até ao café, venho já!» – e o Fanhais fazia uma pausa e rematava – «voltou passados seis anos!»

Isto tinha-se passado assim, eu de facto fui preso no café, mas foram seis longos meses e não seis anos. Quando, finalmente, já depois do 25 de Abril conheci pessoalmente o Fanhais, pedi-lhe para ele fazer a rectificação.

Aqui vai o tal poema:

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

VerbArte - os gatos que nos aceitam - IV







Os gatos que nos aceitam - IV


Clara Castilho



SINÉ



















a) Literatura



Dois sonhos


O gato dorme a tarde inteira no jardim.
Sonha(?) tigres enviesados a chamá-lo
para a fraternidade no jardim.
Gato sonhando, talvez sonho de homem?

Continua dormindo, enquanto ignoro
a natureza e o limite do seu sonho
e por minha vez também me sonho (inveja)
gato no jardim.

Carlos Drumond de Andrade




b) Informações


Dormem cerca de 16 a 18 horas por dia, em locais quentinhos e, principalmente, aos pés da cama do dono. Sonham e isso pode se visto pelo movimento das patas, unhas e orelhas, bigodes e produção de sons.

Através da domesticação, criaram-se laços entre o homem e o gato. O contacto deverá dar-se antes das 9 semanas de vida dos gatinhos. Depois disso, será quase impossível torná-lo numa companhia carinhosa e que retribua carícias.

Ele capta e absorve tudo o que acompanha as palavras: a aspereza e o carinho, o medo ou a confiança, a ternura ou a raiva. Não percebendo as palavras proferidas, importa o “como” se diz.

Balthus

c)Provérbios


Matar um gato traz dezassete anos de má sorte - Provérbio irlandês

Gato com coleira é mais cão que gato – Provérbio africano

Quando amanhece, o gato salta, o homem acorda e o galo canta – Provérbio malgaxe

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Mais um pensamento que outra coisa




Adão Cruz

De vez em quando dou comigo a pensar, o que não é mau. Às vezes chateia, porque o pensamento é teimoso. Não desanda de maneira nenhuma da cabeça para fora, e a gente tem outras coisa em que…pensar. Volto novamente à poesia, não para entrar em polémica com o meu querido amigo Carlos Loures, mas porque é um bichinho que me morde constantemente, sobretudo porque não deixamos de a provocar. Estamos sempre a espicaçá-la.

Eu sei que gosto muito de poesia, gosto de tentar fazer poesia, mas não sou um letrado em poesia. Aquilo que digo é fruto do que sinto e não propriamente do que sei, que é muito pouco. Muitas vezes digo para comigo, mas que chachada esta, que valor tem eu estar aqui a perder tempo com este jogo de palavras, quando há tantas coisas úteis para fazer! Sinto que é a altura de beber um copo de bom tinto. A minha droga sublime.


Na realidade, o que eu sinto é que é muito difícil alguém saber o que é a poesia, desde a antiguidade aos tempos de hoje, embora toda a gente tenha o direito de emitir a sua opinião. Até hoje, nenhuma explicação, das que tenho lido, me deixou satisfeito. E já agora, gostaria de dizer que sendo eu materialista, em todo o sentido científico e filosófico do termo, não admitindo qualquer dualidade corpo-espírito, penso que a única explicação do que é a poesia poderá vir a ser dada quando a neurobiologia do espírito for elevada a ciência incontestável, como espero. A partir do substracto fisiológico e neuronal, poderá perceber-se, creio, de onde emerge o seu valor e significado estético e sentimental.


Por outro lado penso que beleza e poesia são duas irmãs gémeas. Creio que esta identidade gemelar entre beleza e poesia é uma realidade, ainda que a beleza e a poesia às vezes joguem às escondidas. Se estamos frente a uma realidade concreta, e nos identificamos com ela como objecto da realidade quotidiana, então “convivemos” com ela, dentro dos horizontes sempre limitados de uma realidade, sem preocupações de dimensão universal. Nestas circunstâncias, muito facilmente se pode passar ao lado da beleza, ainda que ela lá esteja, e muito mais ao lado da poesia, se não formos capazes de sentir o seu perfume.

Se a obra que temos na frente, ainda que representativa de uma natureza real, passa além da realidade concreta, levada pela mão da poesia, isto é, ultrapassa a fronteira para além da qual o homem se atreve a pôr o pé na sua dimensão universal, então não convivemos com ela, mas “contemplámo-la” como arte, e, logicamente, como manifestação de beleza. Porque a beleza e a poesia, quer queiramos quer não, residem na maior ou menor capacidade que o homem tem de se projectar para fora dos horizontes da sua natural tendência antropocêntrica.



(Ilust.Adão Cruz)


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

VerbArte - Fernand Léger - The Discs in the city




The Discs in the City






João Machado




Fernand Léger (1881-1955) foi pintor, escultor e cineasta. Natural de Argentan, na Normandia, foi viver ainda bastante jovem para Caen, onde trabalhou numa firma de arquitectos. Posteriormente foi para Paris, onde se integrou no meio artístico e se lançou na pintura. Só relativamente tarde adoptou o cubismo, tendo sido, como muitos outros pintores desta escola, fortemente influenciado por Cézanne. Combateu na I Guerra Mundial, tendo sido gaseado na batalha de Verdun (1916). Foi também ceramista e autor de vários murais. 

A sua obra é dominada pelo ambiente citadino e industrial. Léger terá sentido um profundo impacto na transição do ambiente rural para o urbano, chegando alguns a detectar uma repulsa por este último no seu início de carreira como artista. Será talvez mais exacto apontar a influência do trabalho no atelier de arquitectura, que lhe despertou um grande interesse pela paisagem urbana, dominada pela presença de grandes edifícios, grandes máquinas e outros símbolos. Teve também influência do cinema, pelo qual se interessou muitíssimo, levando-o a acentuar a importância do movimento e da propulsão, simultaneamente com os problemas da dimensão e da luz.

Fernand Léger defendia que se deve pintar quadros bonitos, e não objectos bonitos. Criticava os pintores da Renascença, dos quais dizia não serem mais evoluídos do que  os da Antiguidade. A arte, segundo dizia, consiste em inventar e não em copiar. 


Interessou-se por muitos campos da arte, como o mosaico, as ilustrações de livros, cenários teatrais e tapeçaria. A sua influência foi muito vasta, incluindo a pop art. Em 1924 produziu o filme Le Ballet Mécanique, o primeiro sem cenário, e também o primeiro filme de animação. 


Viveu muito tempo nos Estados Unidos da América. Contava que um dia, numa exposição em Nova Iorque, entraram uns negros de Harlem, e ficaram muito tempo a contemplar o quadro acima, The Discs in the City. A páginas tantas, vieram ter com ele, e perguntaram-lhe se não lhes podia oferecer o quadro. Tendo Léger perguntado para que o queriam, responderam que, quando o contemplavam, sentiam vontade de dançar. Léger recusou oferecer o quadro, mas depois dizia que eles é que mereciam  ter ficado com ele. 

VerbArte - A Comunicação Social e a Democracia




Jean Jaurès (1859-1914), líder socialista francês.


João Machado


Escrevi este post no início do Estrolábio. Embora tenham decorrido apenas pouco mais de seis meses, o problema da liberdade de expressão está desde então ainda mais agravado. Veja-se o que se está a passar com o Wikileaks. Não conheço os mentores desse projecto, não sei quem são. Mas sei que o que têm feito é da maior importância para a liberdade e a democracia. Ajudará com certeza a compreender e a interpretar muitos dos acontecimentos recentes, que tanto nos têm afectado. E porá à vista de todas algumas das mãos invisíveis que estiveram por detrás desses acontecimentos. Acima acrescentamos um fotografia de Jean Jaurès, líder socialista, defensor de Dreyfus e pacifista, que foi assassinado por um nacionalista fanático.

É comum ouvirmos dizer que hoje em dia existe liberdade de expressão. Contudo essa afirmação não resiste a uma observação mais aprofundada. A maior parte dos cidadãos dificilmente consegue transmitir qualquer opinião mais significativa através da chamada comunicação social, mesmo quando disso sente necessidade. Muitas forças políticas e sociais também encontram muitos obstáculos para conseguirem fazer chegar ao público uma mensagem mais elaborada. Quando tentam fazê-lo vêem frequentemente deturpadas as imagens e ideias que pretendem dar a conhecer.

Também se ouve com frequência gabar a sociedade em que vivemos e o nosso sistema político por permitirem o convívio de diferentes ideias e de modos de vida. Novamente, temos que constatar que esta segunda afirmação não contém muito de verdade. Existem, é verdade, diferentes maneiras de ser e de pensar, mas os valores dominantes colocam-nas numa escala pré-determinada, que influencia decisivamente a opinião da maioria.

A comunicação social é controlada pelo Estado e pelos grandes grupos económicos. Os pequenos jornais, as rádios locais têm públicos restritos e debatem-se com cruéis limitações que dificilmente ultrapassam, apesar do enorme valor de muitos dos seus responsáveis.

O escritor e activista britânico George Monbiot escreveu a semana passada, na coluna que mantém no Guardian, que a mentira mais perniciosa em política é que a imprensa é uma força democratizante. Alguns afirmarão que constituirá uma incongruência escrever esta frase num jornal de grande tiragem. Pessoalmente, penso que Monbiot dificilmente conseguiria publicar a sua coluna noutro jornal que não o Guardian, e nunca na maioria dos países do mundo. Mas também penso que culpar a imprensa e a comunicação social em geral pelas limitações à democracia é um pouco como matar o mensageiro que nos traz uma má notícia (o problema muitas vezes é que nem consegue transmiti-la). O problema está obviamente nas pressões e limitações que incidem sobre toda a comunicação social. No chamado mundo ocidental são sobretudo (não só) de carácter económico. As indignas manipulações que se constatam são um reflexo deste facto. Foi outro britânico, Lord Acton, que disse abertamente aquilo que todos instintivamente sabemos, que o poder corrompe. Não é preciso contar o Citizen Kane para concluirmos que o poder da comunicação social não é excepção.

O movimento dos blogues tem constituído uma maneira de contornar aquelas pressões e limitações. Em muitos lados do mundo é uma maneira razoavelmente eficaz de fazer conhecer factos e ideias, em alternativa à comunicação social tradicional. O seu alcance depende obviamente de muitos factores, como por exemplo a disseminação da internet. Mas o fundamental é contribuir para contrariar o crescimento do pensamento único, cada vez mais forte nas últimas décadas, à sombra de pretensas políticas realistas, de apregoados apaziguamentos ideológicos, que apenas servem para camuflar pretensões de afirmação e de eternização do poder que nada têm de democráticos, nem têm a ver com as liberdades ou os direitos fundamentais.

domingo, 5 de dezembro de 2010

VerbArte - Um Salão na Internet - Direcção de João Machado



Um Salão na Internet





Lá, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme, et volupté
(Baudelaire)




Com o lápis, um simples traço
Com o pincel, a cor escolhida
No papel o verso acerta o passo
Toca numa escala bem medida

Pelo Estrolabio convite faço
De nos mostrarem o vosso jeito
Mais engenho e arte algum bom pedaço
Não obrigados a um grande feito





Uma frase …

Se os meios de comunicação de massa misturam harmoniosamente, e muitas vezes sem se dar por isso, a arte, a política, a religião e a filosofia com a publicidade, quando o fazem reduzem estes diferentes domínios da cultura ao seu denominador comum – a forma de mercadoria. A música do espírito é também a música do vendedor. O que conta é o valor de troca, não o valor verdadeiro. Nele se centra a racionalidade do status quo, e qualquer outra racionalidade fica sujeita àquela.
(Herbert Marcuse, O Homem Unidimensional, 1964)


Amanhã, dia 6 de Dezembro, começa a nova secção do nosso blogue




Vai ter  três blocos diários, às 8, 16 e 24 horas. Daremos prioridade a matérias relacionadas com a cultura e a arte. Pedimos aos nossos colaboradores que nos remetam todo o material que achem de interesse para esta secção. O responsável vai ser o João Machado.