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sábado, 20 de novembro de 2010

Deus como problema (3)



Adão Cruz

Por que razão o Papa apelou aos muçulmanos “para que recusem rancores, intolerância e violência como via para suster a propagação do terrorismo e frenar a vaga de fanatismo cruel que põe em causa o progresso e a paz”, e não apelou aos cristãos do lado de cá para pararem as agressões, os assassínios, os assaltos e as invasões? A evidência é demasiado evidente para ser contornada e camuflada.

Quando Saramago fala “nos motivos de natureza política, económica, social, psicológica, estratégica e até moral em que se presume terem ganho raízes os movimentos islamistas agressivos, motivos que levaram à colocação de bombas transportadas às costas em mochilas, e que foram suficientes para que os alicerces da nossa tão luminosa civilização estremecessem e abrissem fendas, criando o mais extremo terror”, só mostra que os pés desta civilização não só são, realmente, de barro, como perderam a mais sólida base de apoio, a mais segura das seguranças, o sentido do Direito, da Moral e da Justiça. Por isso eu não concordo muito com José Saramago quando dá a entender que o problema do Deus de lá e o problema do Deus de cá, o deles e o ocidental são idênticos. Penso que o não são, sobretudo nos tempos que correm. Aquilo que o Deus de cá permite é muito mais terrível, cruel, injusto e sanguinário. Já não falo em Hiroshima e nos muitos Vietnams, ou no quase milhão de vítimas do Iraque, mas lembro apenas, como exemplo, o que se passou no tenebroso massacre de Faluja e no selvagem, bárbaro, irracional e desumano esmagamento de Gaza, que nem os próprios algozes conseguem calar.



“Ainda não consegui que alguém que não acredita no prolongamento da vida para além da morte me desse um argumento válido para ser bom para o meu semelhante”. Isto diz o tal meu amigo, que insiste no prémio, no prémio à dimensão da imaginação humana, porque não pode ser outra, um prémio que consiste na ausência de dor, de sofrimento, de fome, de frio, eventualmente com música celestial, um novo género de música infalivelmente feita de notas iguais às de cá, porque não concebemos outras, por enquanto, possivelmente com asas para dar umas voltas pelos céus do céu, e para os mais cultos que exigem um toque transcendental, a felicidade eterna de estar, finalmente, na magnífica presença de Deus, sorridente e afável, nunca mais temido nem ameaçador, porque, entrados no céu é trigo limpo, nunca mais de lá saímos. O prémio que é indispensável receber além da morte para que seja paga e justificada a procura do equilíbrio da justiça e da verdade da vida!

Apesar das diferenças entre o Deus de cá e o Deus de lá, e dos diferentes prémios celestiais post-mortem, parece que nem dum lado nem doutro o facto de se acreditar no céu consegue argumentos válidos para se ser bom para o seu semelhante. A vida e a história mostram-no frontalmente. Julgo que nesta civilização do petróleo a que Saramago alude, com poços cheios para uns, e para outros apenas a gotícula para o isqueiro, o amigo a que atrás me refiro já está desfasado.

O prolongamento da vida para além da morte, em que acreditam ou fingem que acreditam os únicos que, a seu ver, lhe podem dar um argumento para se ser bom para o semelhante, pouco os incomoda. É certo que a maior parte dos que acreditam não têm poços de petróleo. Mas os que têm poços de petróleo não deixam de louvar e agradecer a Deus e de fingir que acreditam no prémio celestial. Os que não acreditam, os que, a seu ver, não têm argumentos para se ser bom e solidário, são os que mais proclamam que a lastimável situação deste mundo não engana a mais singela das evidências e sempre lutaram e deram a vida para que se saiba que essa mesma situação decorre, exactamente, não da bondade mas da crueldade dos que, em nome de Deus, fazem a guerra e sempre mataram em nome da paz.

(Continua).


(ilustração de Javier de Juan-Creix)


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Tudo muda

Adão Cruz

 

Tudo muda na vida, mudamos nós, mudam os outros e mudam

as circunstâncias. Tudo no mundo muda,
umas vezes para melhor e outras para pior. Hoje deu-me para reflectir, e toda esta reflexão me fez lembrar, nestes tempos de drásticas mudanças, uma das mais fantásticas mudanças que o mundo sofreu, a que resultou da Revolução de Outubro. Revolução que foi o primeiro acto de ruptura com o capitalismo e o primeiro exemplo de uma sociedade nova. Uma sociedade que demonstrou, apesar dos desaires que atravessou e que a atravessaram, que não há alternativa ao socialismo, noção que é, sobretudo hoje, nesta bandalheira universal em que estamos atolados, muito mais clara e transparente.

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas foi decisiva para alguns dos mais importantes avanços históricos da humanidade, para um equilíbrio de forças nunca possível sem ela, bem como a grande obreira da paz no mundo, com a sua decisiva intervenção na Segunda Guerra mundial. Como todos sabem, mesmo que olhem para o lado, as tropas americanas só intervieram depois da batalha de Kursk, quando se tornou evidente que o exército vermelho, sozinho, venceria os nazis. A Batalha de Kursk foi uma tremenda batalha na Frente Leste. É considerada a maior batalha de blindados de todos tempos, e inclui o maior custo de perdas aéreas em um só dia na história da guerra. Absolutamente decisiva para a derrota nazi.

A pior mudança para a humanidade deu-se com a queda da União Soviética. Ainda hoje o mundo não se deu conta da brutal perda que daí adveio. A queda da URSS constituiu uma grande tragédia para a humanidade. Sem ela perdeu-se o equilíbrio de forças, abrindo caminho a todos os horrores, crimes e misérias do capitalismo, hoje evidentes aos olhos mais cegos. As falhas, por vezes grandes, da sociedade socialista, não anularam, para quem quiser analisar os fenómenos históricos com seriedade, a ideia de que a sociedade soviética foi a mais justa e humana de todas as que se conhecem. E, como todos sabem, essa sociedade ruiu, essencialmente, pelo agressivo poder dos inimigos exteriores e também por factores internos, como a existência de sabotadores que mais não eram do que aliados dos inimigos externos, a perversão do patriotismo, a ambição, a degenerescência mental e a perda da dignidade de muitos dos que tinham sobre os ombros grandes responsabilidades na prossecução da meta socialista. Não foram os valores sociais que acabaram com ela. O mundo é feito de mudança, mas hoje o mundo está bem pior, menos livre, menos justo, menos solidário e menos pacífico. Em nada me custa a acreditar que uma das principais causas reside no desaparecimento da União Soviética, um contrapoder indispensável à furiosa ganância, desumanidade, crueldade e selvajaria imperialista e capitalista.

(ilust. Adão Cruz)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Deus como problema (2)





Adão Cruz

Algumas das melhores e mais lúcidas pessoas que conheço cresceram sem que lhes fosse imposta qualquer ideologia ou religião. Quando muito foram-lhes ensinados alguns dos princípios consagrados na sociedade, elementos indispensáveis para o equilíbrio individual e colectivo: a lealdade, a integridade, a honestidade, o sentido de justiça, a solidariedade, a fraternidade e o amor pelos outros.
Dispensam Deus, seja ele qual for, mas não abdicam destes princípios que integraram a sua formação, feita essencialmente de lúcido querer e liberdade responsável.

Dizia-me o meu amigo, que não escolhendo a vida nem a morte lhe foi dado viver, e se foi apenas para aproveitar a vida ao máximo porque ela é breve, então os pretos que vão para o inferno, dos fracos não reza a história, os pobres que trabalhem, não importa o abate de crianças para lhes roubar os órgãos, a escravatura, o prazer a qualquer preço, a exploração dos menos hábeis… para quê pruridos morais?
Assim sendo, respondi eu, a fé parece não passar de uma atitude oportunista, de uma estratégia egoísta, de um cartão de crédito, uma espécie de Banco da fé onde se vai depositando o que se convencionou ser as nossas obras morais, a fim de garantir a entrada no céu, no país das maravilhas onde só cabem os eleitos, os que melhor rechearam os cofres de uma questionável moralidade, à boa maneira capitalista-aforradora.
Sem Deus e sem fé como pode conceber-se a ausência de espírito racista, elitista, classista de muitas das mais nobres pessoas que conheço? Como é possível que tantos homens na História, sem qualquer tipo de crença religiosa nem esperança de se sentarem à mesa de Deus, tenham praticado em elevado grau a solidariedade, a fraternidade e o amor pelos outros?
Com Deus e com fé, como é possível ter-se cometido e continuar a cometer tantos crimes repugnantes? Ainda bem que, como diz Saramago, os rios de lágrimas chorados pelas vítimas do catolicismo Vaticano empaparam as lenhas dos seus arsenais inquisitórios. Mas aqui se engana – ou talvez queira parecer que se engana – Saramago.
A morte aos infiéis é muito mais evidente do lado do cristianismo, na medida em que as imundas baratas são esmagadas diariamente às centenas pelos chinelos de todos aqueles que têm o sagrado direito e o sacrossanto dever de as esmagar nos momentos e nas alturas próprias.
Simplesmente, os infiéis não são apenas os que não rezam, nem são propriamente definidos como os que não têm fé, mas são todos aqueles que, de uma forma ou de outra, se opõem e criam obstáculos à fé, que o mesmo é dizer, a todos os interesses que se servem da fé e a quem a fé serve e sempre serviu.
Por outro lado a fé já não é bem o que era, nem são os mesmos os servidores da fé. Hoje, a fé talvez não passe do anestesiante rótulo de uma gigantesca garrafa planetária cujo conteúdo é diariamente destilado na base de ingredientes como exploração, dinheiro, poder e domínio.
“A moderna versão fundamentalista e violenta do islamismo, a palavra de ordem por excelência, todos os dias insanamente proclamada”, no dizer de Saramago, não me parece comparável “ao cristianismo nos tempos do seu apogeu imperial”, nem à moderna versão fundamentalista e violenta dos inquisidores deste lado. Até porque os chinelos que matam as imundas baratas de um lado são completamente diferentes dos chinelos que matam as imundas baratas do outro lado.
Hoje, de um dos lados, chamam-se aos chinelos bombas e mísseis, que esmagam sem dó nem piedade centenas de milhares de “infiéis” enquanto o diabo esfrega um olho, em nome de Deus, a quem chamam God. Do outro lado são as próprias entranhas cheias de explosivos que em nome de Deus, mas também da raiva, do ódio, da revolta e do desespero tentam fazer rebentar a sua própria impotência.
E sempre Deus como problema! De um lado os “bons” em nome de Deus, do outro lado os “maus” em nome de Deus e vice-versa. No meio uma palavra que não se sabe a quem pertence ou a quem assenta melhor: “terrorismo”.
Os modernos inquisidores, em estreita colaboração e comunicação com todas as hierarquias laicas e não laicas que se dizem emissárias de Deus, têm nomes laicos e vulgares, mas detêm todo o poder necessário para enfiar, de uma rajada, vinte mil mísseis sobre uma cidade de infiéis, em obediência às decisões de um moderno Santo Ofício sem rosto, não necessitando do aval de nada nem de ninguém que, legalmente e por internacional acordo, detém os poderes de decisão.
O Direito Internacional e a soberania dos povos valem o que valem, podendo escalonar-se desde o sagrado ao material descartável, conforme as circunstâncias e as ocasiões. De nada vale lembrar que há um conjunto de valores que são absolutos, e portanto não podem ser relativizados, ou que há um núcleo ético que, a não ser preservado, faz descer o Homem à escala do monstro.

(Continua).

(ilustração de Javier de Juan-Creix)


A saudade vai de barco



Adão Cruz

A saudade vai de barco leva na frente a luz vermelha que fende as águas verdes.

Atrás uma palmeira menina do deserto aprisionada no sonho.

Balançam copos de vinho à flor do mar incerto e a música desce ao fundo do mar.

O peito estremece e entrelaça os remos nas mãos da água que já não abraça o ventre do casco verde.


(ilust. porm. Adão Cruz)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Deus como problema (1)



Adão Cruz

Ao ler, há já uns tempos, na revista Visão, um artigo de José Saramago, “Deus como problema”, fui repescar um texto meu, escrito há alguns anos, baseado na resposta que dei à carta de um amigo e cujo tema era o problema de Deus. Com algumas considerações desse meu amigo e com o texto de Saramago tentarei uma reflexão que possa constituir uma espécie de calibração para todos aqueles a quem a lastimável situação do mundo em que vivemos não é de todo indiferente.


A genuína pureza da poesia vive e anda por aí em tudo o que é vida, mas não é fácil captar a sua complexa simplicidade. Como não é fácil, ou não se quer, entender a complexa simplicidade da evidência que também anda por aí, em quase tudo. O medo da evidência apavora as mentes que, de uma forma ou de outra, perderam a liberdade ou rejeitam a liberdade, sobretudo a liberdade de pensar. Interiorizam mecanismos fortemente redutores que são aceites acriticamente, porque não existe ou foi tacticamente anulada a capacidade crítica, ou são impostos por uma espécie de fé ou crença consuetudinária, impiedosamente dogmática, que cristaliza toda a forma de pensar, mesmo de pessoas habituadas e traquejadas numa moderna cultura científica da evidência.

Estas as pessoas, ainda assim, de boa fé. Porque as há, e não são poucas, que fazem da má fé o antídoto da evidência que não conseguem negar. Por isso o texto de José Saramago me impressionou, ao mostrar que o mundo é muito claro, pelo menos até onde nos permite que o seja.

Deus continua a ser um grande problema, ou melhor, o homem continua a ser incapaz de resolver o problema de Deus, a equação cujo resultado estabeleceu como certo sem conhecer os dados que a compõem.

Há muito tempo que deixei de discutir fé e religião com gente crente. Dogmas e argumentos condicionados não são permeáveis à razão, e as conclusões são sempre frustrantes. Sou ateu, rigorosamente ateu, mas já fui crente. Esta parte negativa da minha vida teve um lado positivo. Permite-me, hoje, a comparação entre a falsa liberdade da aleatória felicidade de um certo obscurantismo e a aliciante liberdade da possível felicidade de uma razão não mais miscível com qualquer grande ou pequena crendice.

A paz nascida da libertação de todas as angústias metafísicas, em favor do valor da vida e da força projectora da curiosidade humana, a paz e a serenidade de uma total descrença mística constituem a grande oferta que a vida me fez.

Como aconteceu a Saramago, também a mim me acusarão de impiedade, sacrilégio, blasfémia, profanação, desacato. De tudo isto é capaz quem não tem o mínimo pejo em aceitar e colaborar nos tais espectáculos estilo cecil b. de mille, como foi o revoltante show do funeral daquele que deveria ser o representante da humildade e da pobreza, sobretudo quando comparado com o funeral do rei da Arábia Saudita, um dos homens mais ricos do mundo, esse sim, um deus terreno cuja riqueza mundana e fraqueza humana lhe permitiriam, sem escândalo, um sepulcro de ouro em vez da campa rasa.

(Continua).

(ilustração de Javier de Juan-Creix)

Mordaça

Maria Inês Aguiar


ontem

como hoje

unem-se os eruditos

a perene convulsão de conflitos

os com(sorte) da evolução que da alma fizeram uma noção

a falácia duma trova indefinida

o culto do pensamento sagaz manipulado pelo tempo que passa incapaz

de com o machado que faz a guerra fazer a paz...!

 (ilust. porm. Adão Cruz)


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Este livro

Adão Cruz 


Este livro este copo esta mesa este mar d’águas quentes bordando a lodo o cais de Pidjiguiti onde caiu meu corpo no dia da memória

este livro este copo este mar d’água e sangue estoirado na cabeça do último suspiro da vida e da história

este livro este Viriyamu fuzilado na penugem de Cinteya nas balas de Vaina no esventrar de Zostina

esta cabeça atulhada de milhões de pensamentos perdidos na estrada

este chão de Babi-Yar de sangue regado nas lágrimas caladas do Dniepre

esta cabeça esgotada de acordar pensamentos este grito do vento na terra lembrada dos rios da morte e do silêncio

esta cabeça cansada de eternizar momentos em séculos de nada!

(ilust. porm. adão cruz)

Era uma vez uma Serra e um Vale

Eva Cruz



Chega à Serra o Inverno

amanhece tarde anoitece cedo.

No caminho novo

canta a gaita do guarda-soleiro

conserta varetas amola tesouras

pedal e roda fazem milagres.

É tempo de apanhar agulhas

que os ventos de Outono

estenderam nos matos.

Pinhas sequinhas

enchem sacos de linhagem

espalham pinhões de asas

pelo chão.

É tempo do frio que se avizinha

tempo de agasalhar o Inverno

que vai abraçar a Serra

num abraço de frio

que Raquel aquece pela vida fora.



Vem na saudade

de muitos Invernos

já não há guarda-soleiros

nem agulhas nem pinhões de asas

anoitece cedo e tarde amanhece.

(In Era uma vez Future Kids)


(Ilustração de Adão Cruz)

Existir

Ethel Feldman

Curto é o tempo

que mal me conheço

tão longo é o tempo

que nunca me alcanço

seja o segundo

o tempo deste existir

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Acordei esta noite

 Adão Cruz



Acordei esta noite com o gotejar da chuva monótono sonolento.
Dormia comigo a saudade e comigo acordou amargando horas sem raízes no tecer de angústias e desânimos.
Pura fantasia a textura dos sentimentos!
Os galos cantavam ao longe no romper da madrugada e a claridade incerta da janela
abria mansamente os meus olhos que sonhavam.
Ousei tocar a tua mão branca sabendo que tocava o lado esquecido da vida.
Tinhas morrido já na véspera o sabia mas esqueceu-mo o dormir.
Fugi para a cidade e vagueei pelas ruas adormecidas até os galos calarem o seu cantar.
Por baixo de um céu de nuvens levei meus passos para o lado do mar.
As ondas abriam-se nos rochedos negros e eu não tive medo.

Deixei que as pernas me pesassem ao longo da praia em passos leves de areia fina.

(Ilustração de Adão Cruz)

domingo, 14 de novembro de 2010

Dedo


Marcos Cruz

Um dos meus últimos posts falava de querer e poder, de eu não saber o que quero mas querer saber, qualquer coisa assim, estúpida e inconsequente como muitas das outras que aqui despejo. Inútil, como todas. Hoje, e para se ver como estúpidas e inconsequentes são as conclusões que tiramos, sinto que não quero saber o que quero e que essa é a razão de eu querer, por exemplo, escrever. Eu sinto, não sei. Ou será que só sei o que sinto? Se é, eu sinto, portanto sei, que só eu sei o que sinto. E, nesse sentido, minto se disser que sinto que querer é poder. Mas também quero dizer que amanhã quero poder sentir tanto que querer é poder como hoje sinto que poder é não querer. Porquê? Porque mudo. Sem querer ou por querer. Ou por crer. Vá-se lá saber.

(ilustração  porm. Adão Cruz)





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sábado, 13 de novembro de 2010

Vai o rio no estuário

Adão Cruz


Mera informação aos amigos do estrolabio


Tenho vários livros contendo poemas, mas livros propriamente de poesia tenho dois, ou melhor, quatro, dado que o segundo é um conjunto de três pequenos volumes, com os subtítulos “Poemas do lusco-fusco”, “Poemas de ser e não ser” e “Poemas estoricônticos”. O primeiro livro intitula-se “Esta água que aqui vem dar” e foi editado em 1993, com a prestimosa ajuda do meu amigo Eugénio de Andrade. O segundo tem o título “Nova ponte sobre um velho rio” e é de 2006.

Estou a preparar um novo livro a que darei o título “Vai o rio no estuário”, com subtítulo “versos de braços abertos”. Neste livro, procurarei dar a poemas novos e a antigos que eu resolver reformular, uma nova forma, em que os versos se abrem e se espraiam como os braços de um estuário, tal como em criança eu abria os braços de par em par, quando chegava ao fim da corrida. Porei de lado o velho conceito de estrofes e a sua classificação quanto ao agrupamento de versos, versos que não submeterei a metrificações, encadeamentos e rimas previamente concebidos em esquemas. Uma espécie de versos livres, versos ao calhas, ao sabor do vento suave que afaga as águas de um estuário.

Procurarei fazer com que os poemas que doravante o estrolabio fará o favor de publicar (deixo aqui lugar a uma ou outra excepção) obedeçam a este princípio. Tudo isto porque há muito me sinto um tanto enjoado com a poesia que por aí se faz e se consome. Talvez porque, embora tarde, comece a ter consciência das margens apertadas do meu rio e a sentir a atracção da liberdade de abrir os braços no fim da corrida.

Darei aqui um exemplo do que pretendo tentar fazer:

Meu amigo Dostoievsky

Meu amigo Dostoievsky nada temos a ver aparentemente um com o outro a não ser o nosso encontro pelos meus dezoito anos.

Apetece-me chorar ao recordar pelos meus verdes anos as noites em que á luz de um foco olho de boi debaixo dos lençóis para que minha mãe não visse eu invadia os teus livros numa das maiores e mais deliciosas aventuras da minha vida.

Ainda hoje me são familiares o rosto de Sónia e a figura de Raskolnikov luz mítica e mística dos que têm coisas em comum orientando-se na direcção do símbolo e do mundo sem forma.

Da mesma forma que te marcaram Balzac Schiller Victor Hugo e Goethe tu imprimiste em mim a sensação que te fez desmaiar perante a beleza de Seniavina na casa dos Wielgorsky e eu não sou homossexual meu caro Dostoievsky.

Perante a beleza eu não sei ao certo onde pára o sexo se no esperma de Úrano derramado no mar se na poesia da Morte em Veneza.

Não é a realidade física que interessa ao simbólico mas o significado do sexo na imaginação. A dualidade do ser funde-se na tensão interna de quem ama e a união sexual não é mais do que o apaziguamento da tensão interior.

Nunca te concebi humano sobretudo depois dessa manhã de rosto de pedra e gelo em que viveste o mais trágico minuto da tua vida. Um vento glacial varreu-me a fronte ao ouvir o teu nome na chamada para a morte: -Akcharumov! Shaposhnikov! Dostoievsky!

Hoje depois de ter amado tanto aceito a tua epilepsia como o estigma mais marcante da pureza da dor da condição humana e passei a considerar-te meu irmão para o resto da vida.

Por isso me senti prisioneiro quando entrei na fortaleza de S.Pedro e S. Paulo e por isso chorei na Praça Semenovsky onde viveste uma vida inteira em dois minutos de morte. Era como se fosse eu o condenado!

Também chorei quando reencontraste Suslova apenas pelo que sofreste ao ver que o amor não se repete.

A noite e o vazio estão na origem cosmológica do mundo e o amor é uma criança que cresce...e deixa de ser criança.

Amor e morte quando descobertos acordam e fogem.

Para escrever é preciso sofrer muito disseste um dia ao jovem Merejkovsky quando a vida confundia as chamas do teu inferno com relâmpagos de visionário.

Sofrer pode ser apenas sorrir...frente a toda a utopia palpável não paranóica nem delirante.

Foi a mim que o disseste meu caro amigo foi a mim que o disseste na tarde cinzenta da tua morte na hora da hemorragia que te vitimou.

Até hoje ainda não te agradeci.

Perdoa não te ter acompanhado mas nessa altura eu não existia...ou será que ainda hoje te acompanho neste pesado e obscuro caminho do fim?

Poemas do ser e não ser

Adão Cruz
Não vai dar ao mar o rio de lágrimas caladas nascido de bocas fechadas e olhares distantes.

Quedou-se a vida um momento entre o suspiro e o espanto.

Para lá da muralha feita de vidro e de tempo, grande como a amargura, o sonho ganhou figura em forma de aparição resplandecente do sol da tarde ainda ardente.

No rosto de sempre do outro lado da estrada frente ao rio que vai dar ao mar nem a dimensão do meu grito fez o silêncio calar.

Fugaz doçura sorriso breve, ninguém sabe cantar a canção que eu ouvia.

E tudo não passava de nada! Era um violino a chorar no rosto de sempre do outro lado da estrada frente ao rio que vai dar ao mar.

(ilustração porm. Adão Cruz)

Arte poética: Augusta Clara de Matos, Ethel Feldman e Adão Cruz


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Porque hoje já é tarde

Maria Aguiar


porque se multiplicam as conjecturas, os conluios, as incúrias e a devassa grassa e a probidade se amordaça

porque a desordem se move num estado de graça e a coragem é uma viagem à origem

porque dos cravos florescem escravos e adormecido e globalizado vai o direito à primavera de um feito

porque se aviltam valores, advogam conveniências e se sentenciam favores


urge acordar a equidade e libertar a liberdade!

porque… porque hoje já é tarde!




(ilustutração pormenor Adão Cruz)

Arte poética: Charles Baudelaire e Leo Ferré



Charles Baudelaire
(Paris,1821-1867)


L'ALBATROS

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.


Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!


Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.

O poema, na voz de Leo Ferré parece ainda mais belo:

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Limão e malagueta


Adão Cruz

A malagueta nasce verde verde como o limão olham-se verde no verde ela cora e ele não.

Um empalidece outra faz-se rubor há qualquer coisa de astuto qualquer coisa de comum entre os dois e o amor.

A malagueta abre-se à cor em carne viva ardendo da penetração quente do sol da carícia de febre luz vibrada e tacto de seda.

Não fenece enquanto à sua volta tudo morre e envelhece.

O limão nem mole nem duro sumo de virilidade sumo de alegria denso de seiva sabor amargo ou doce ao sabor dos descuidos da verdade e da melancolia.

A malagueta não é séria nem puta é luta de vida numa vida de luta

madura de ilusões lábios maduros palpando as vozes e as palavras

na ponta da língua.



O limão não sofre de amores nem de esplendores nem de ignorância presunçosa jogo de toda a moda da vida imbecil.

Se o encontro se dá solta-se o sangue em torno dos ideais nos rútilos prados da malagueta amada malagueta mulher orvalhada pequenina e nua

capricho de um ventre fecundo na cintilação da madrugada como se a vida fosse um desejo de amarga doçura decúbito de sílabas erguidas ao som da música entre espaços de côncavo silêncio cristal e solidão.

Dilatada angústia pernoitada na eterna penetração de fulgor da malagueta desabrochada ao paladar da última gota do livre limão.

(ilust. Adão Cruz)




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

(Comentário deslocado do devido lugar, ao texto da Carla "à despedida".

Adão Cruz


O Tempo caminho da razão no ventre das horas vazias, o sonho de não serem horas todas as horas sem tempo.

O tempo uma sinfonia de sonhos nascidos entre as asas e os dedos, pintando as cores da razão por entre sombras e medos.

O tempo a força do abrigo das mãos dadas com a haste frágil do trigo, caminho incerto sobre abismos de gestos e palavras sem regresso.

O tempo prisão de chegadas e partidas sem horas de liberdade, um poema crucificado nos labirintos da verdade.

O tempo uma guitarra chorando nos dedos da Primavera, um beijo sempre à espera entre os lábios do Verão.

O tempo horas de tudo e de nada na inquietude da mente, a liberdade acorrentada entre as velas e o vento.

O tempo uma paveia de esperanças nos braços da ilusão, um poema abandonado entre o sonho e a razão.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Um poema de Alejandro Jodorowsky*

Presos a uma ameixieira como cabras indomáveis
Nós abanamo-la até fazer cair todos os seus frutos
Descidos no mundo em busca de milagres
não encontramos senão ruas
longas línguas sequiosas esperando uma chuva de almas
Porque o homem é o que ele come é preciso que ele se coma
a si mesmo
Nós caímos da trama indecifrável do sonho
numa cidade de táxis e de hotéis
Mas absolutamente tudo o que chamamos realidade é também alguma coisa que se sonha
portanto a alma é uma flor nocturna que só se abre uma vez na vida
Nós vivemos fora dos muros da realidade procurando uma cidade
com ruas pavimentadas de caramelos
A nostalgia de um paraíso perdido é proclamada por cada batimento
de um coração que permaneceu criança
Face à beleza sublime o nosso próprio fim parece-nos o fim do universo
Somente o medo aperta a nossa alma à chegada
do fantasma adulto que mora no futuro.
___________

(Ilustração de Adão Cruz)
*Poeta e cineasta chileno (1929)

domingo, 7 de novembro de 2010

Ser ateu e ser ateísta. As duas faces da mesma moeda por Adao Cruz)

Associação Ateísta Portuguesa


Objectivos:

A Associação Ateísta Portuguesa propõe-se e constituem seus objectivos:
Fazer conhecer o ateísmo como mundividência ética, filosófica e socialmente válida;
A representação dos legítimos interesses dos ateus, agnósticos e outras pessoas sem religião no exercício da cidadania democrática;
A promoção e a defesa da laicidade do Estado e da igualdade de todos os cidadãos independentemente da sua crença ou ausência de crença no sobrenatural;
A despreconceitualização do ateísmo na legislação e nos órgãos de comunicação social;
Responder às manifestações religiosas e pseudo-científicas com uma abordagem científica, racionalista e humanista.

Manifesto

Na sequência da legalização da Associação Ateísta Portuguesa, os outorgantes da respectiva escritura saúdam todos os livres-pensadores: ateus, agnósticos e cépticos, que dispensam qualquer deus para viverem e promoverem os valores da liberdade, do humanismo, da tolerância, da solidariedade e da paz.
Os ateus e ateias que integram a Associação Ateísta Portuguesa, ou a vierem a integrar, aceitam os princípios enunciados pela Declaração Universal dos Direitos do Homem e respeitam a Constituição da República Portuguesa.

O objectivo da «Associação Ateísta Portuguesa» é mostrar o mérito do ateísmo enquanto premissa de uma filosofia ética e enquanto mundividência válida. Porque o ser humano é capaz de uma existência ética plena sem especular acerca do sobrenatural, e porque todas as evidências indicam que nenhum deus é real.
A Associação Ateísta Portuguesa defende também os interesses comuns a todos os que escolhem viver sem religião, defendendo o direito a essa escolha e a laicidade do Estado, e combatendo a discriminação e os preconceitos pessoais e sociais que possam desencorajar quem quiser libertar-se da religião que a sua tradição lhe impôs.

A criação da Associação Ateísta Portuguesa coincide com uma generalizada ofensiva clerical a que Portugal não ficou imune. Apesar de o ateísmo não se definir pela mera oposição à religião e ao dogmatismo, em nome da liberdade, da igualdade e da defesa dos direitos individuais a «Associação Ateísta Portuguesa» denuncia o proselitismo agressivo e a chantagem clerical sobre as sociedades democráticas. O direito de não ter religião, ou de ser contra, é igual ao direito inalienável de crer, deixar de crer ou mudar de crença, sem medos, perseguições ou constrangimentos.

O ateísmo é uma opção filosófica de quem se assume responsável pelos seus actos e pela sua forma de viver, de quem dá valor à sua vida e à dos outros, de quem cultiva a razão e confia no método científico para construir modelos da realidade, e de quem não remete as questões do bem e do mal para seres hipotéticos nem para a esperança de uma existência após a morte.

A Associação Ateísta Portuguesa representa todos os que optem por esta forma de viver e defende a sua liberdade de o fazer.