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domingo, 2 de janeiro de 2011

Direcção de Augusta Clara de Matos



Apresentação




Delícias são tudo o que nos faz felizes. E é para isso que queremos contribuir com esta rubrica do Estrolabio: para espremer a dura realidade e dela extrair as gotas do néctar que, apesar de tudo, contém.

Quando lemos o texto que alguém escreveu, o poema em que os tocados por varinha mágica transformam a dor e a alegria, as cartas que amigos ou amantes trocaram, quando olhamos as imagens que a paleta guiada pela mão dum artista produziu, quando entramos em êxtase através de sublimes sons que nos invadem o éter, o que somos senão felizes?

Ao nosso Jardim vai faltar apenas o que saboreamos e o que tocamos para as delícias morarem todas aqui. Mas mais não conseguimos. Somos, apenas, pobres virtuais. Só esperamos conseguir empolgar-vos de modo a experimentarem no mundo real todos os prazeres que aqui faltarem.

Mas o Jardim tem matizes. Nem sempre nele vai raiar o sol porque nunca isso acontece em lugar algum. Nos dias sombrios, as ameaças e os medos escondem-se em recantos insuspeitos. O que ele vai estar sempre é povoado por vibrações de vida. Disso não tenham dúvidas.

Venham connosco. Tragam as vossas palavras seja qual for a expressão que para elas adoptarem.

Haverá quem nos relate as vivências em Eu li, Eu vi, Eu ouvi, Eu fui; outros afirmarão que Quem Conta Um Conto…; quem vá informar que Hoje Falamos de…; os que nos trazem Boas e Más Memórias, auxiliares para melhor percebermos o mundo e os seres.

Destas e doutras coisas se falará neste sítio: do que vai acontecendo por aqui e por ali, do que a nossa imaginação nos permitir e das delícias que formos capazes de ir encontrando na arrecadação dos tesouros ao fundo do nosso Jardim.

Vamos começar com uma semana sobre a Criação Artística que poderá estender-se caso o interesse pelo tema assim o justifique.

É já amanhã, e será todos os dias às 14 horas que se abrirá o portão. Entrem e vagueiem a vosso belo prazer.

Como preâmbulo, um pequeno excerto de um texto de Carlos de Oliveira:

“Tornam a discutir-se entre nós certas ideias de filosofia da arte que pareciam ultrapassadas ou esquecidas. Debate-se outra vez a velha tese que admitia a gradual cegueira da arte à medida que o horizonte da ciência se fosse iluminando. Examina-se também de novo a “busca do intemporal”. E, coisa curiosa, é possível estabelecer uma ligação entre esses dois surtos, apesar da disparidade ideológica que os suscita. Em boa verdade, se o progresso científico ameaça liquidar a criação artística, porque não tentar salvaguardá-la “au-dessus de la mêlée” no intemporal? A antinomia entre ciência e arte, guerra de alecrim e manjerona mais ou menos fomentada pelo positivismo, pode servir deste modo uma escala de valores completamente opostos. E assim se volta a filosofia contra os filósofos.”

(in Almanaque Literário, O Aprendiz de Feiticeiro, Assírio & Alvim)


Bertolt Brecht


João Machado


1898 - 1956


Bertolt Brecht foi um dramaturgo, encenador e poeta alemão. Pelas descrições que lemos da sua vida percebemos que esteve sempre ligado ao teatro, e que este foi sempre o seu grande interesse. Teve de fugir da Alemanha com o advento do nazismo, viveu e trabalhou nos EUA e na Europa, e voltou a Berlim em 1948, onde fundou o Berliner Ensemble. A sua relação com o regime vigente na RDA foi contraditória; viu o partido comunista ordenar a retirada de cena da peça A Condenação de Lúculo, mas posteriormente atribuíram-lhe o prémio Estaline; os seus detractores acusam-no de lealdade ao regime, mas nunca terá aderido ao partido comunista. O que é inegável é que foi um autor de primeira importância. John Willett (1917-2002), um dos estudiosos da sua vida e obra, que traduziu várias das suas peças para inglês, no artigo que escreveu para a Enciclopédia Collier's, sublinha que Brecht foi acima de tudo um poeta com um grande domínio sobre as formas e os estilos, o que lhe permitia transmitir ao seu trabalho, sobretudo na sua fase mais madura, como que uma simplicidade forçada, com uma força verbal e uma energia que marcavam decisivamente as suas peças. A sua característica principal era o modo aperfeiçoado como conseguia combinar os elementos componentes do seu teatro (as palavras, a música, o enredo, a montagem, a encenação, a teoria) num todo, com tudo relacionado com a sua visão do mundo, marxista, plebeia e antimilitarista (os termos são de Willett). 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010


   Faltam dois dias  e alguns minutos para 
o Ano Novo. Para se irem preparando leiam este poema que nos foi enviado pela Augusta Clara e pelo Manuel Simões.

Receita de ano novo 
 


Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade
(1902 - 1987)


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
 

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
 




domingo, 26 de dezembro de 2010


A FOME


Augusta Clara de Matos





(Cândido Portinari: "Retirantes")




Quando ouço um homem dizer que tem que pedir uns ovos, um pão e poucas outras coisas à família porque a empresa em que trabalha vai fechar e não lhe paga o que lhe deve e que essa é a única refeição que come durante o dia…

Quando ouço outro homem dizer, de cara baixa, que tem a seu cargo o filho e os netos a quem tem que garantir uma merenda para levarem para a escola, quando a voz desse homem se embarga afirmando ser capaz de explicar ao filho que já quase não há dinheiro para nada, mas não conseguir dizer às crianças que vai ter de lhes retirar os poucos mimos que já têm…

E quando ouço ainda um terceiro homem dizer que é viúvo com três filhos e que a renda da casa está por pagar há três meses …

Quando sei que estes três homens e as suas famílias se multiplicam por muitos mais e vão continuar a multiplicar-se por mais ainda…

Recuso-me a entrar em lugares-comuns, mas algum grito tenho que dar. E o que faço a seguir? Deixo de escrever? É que perdi completamente a vontade.

E todos aqueles que afirmam que estas medidas draconianas são necessárias, senão…mas, para estes e muitos outros já não é senão nada. Já lá chegaram. Que mais condicionantes pode haver para quem já não come como gente, já não vive como gente, já não consegue olhar nos olhos da gente que ainda comemos o que precisamos de comer?

E, ainda por cima, têm vergonha de nos olhar nos olhos, como se tivessem cometido algum crime.

Não sei porque é que me veio à cabeça a Natália Correia. Talvez porque só assim, daquela forma histriónica que era a dela, se possa, se deva gritar contra a fome. Que outra maneira há de expressar isto? E o que é isto?

Não me importa a prosa. É olhar para aquela gente e, embora, vendo-os iguais a nós, não os vemos como nós. Eles estão acossados pela vida, foram marcados a ferro quente, tratados como gado, não sabem o que vai ser o futuro, mesmo o mais próximo.

E eu o que faço, que sou da mesma humanidade mas ainda não estou como eles? Ainda posso manter a minha alimentação, a maior parte dos meus hábitos.

Nunca tive fome, nem me faltaram nunca as refeições necessárias. Mas posso imaginar como me sentiria.

Nunca tive filhos, nem me faltou que lhes dar de comer. Mas posso imaginar como seria vê-los com fome.

E, se eu posso imaginar, como será a realidade?

Já não gosto das palavras que se usaram durante décadas. Estão coçadas, gastas. Que outras há que espelhem a minha desolação?

Só o silêncio mas o silêncio agora não chega.

Vou inventar as palavras que não me vêm neste momento. E, só depois, volto a escrever.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Concurso de Amuitamento Com Vista ao Próximo Ano

Augusta Clara de Matos

Quando eu andava na faculdade, uma coisa que nos tornava a vida difícil era, no meio da confusão e do vaivém daqueles corredores, nunca se saber quem eram os doutores, a quem não era preciso chamar nada, os professores, a quem chegava chamar-lhes assim, ou os professores doutores que ficavam sempre muito aborrecidos se não fizéssemos questão de pronunciar estas duas palavras em voz alta, sílaba a sílaba e que acrescentássemos, com o indicador no ar para chamar a atenção de quem passava, um sinal de letra maiúscula, traduzido por um som. Era um código específico da escola e toda a gente que ouvisse aquele som sabia que ia a passar um Professor Doutor com maiúscula.

É que a minha faculdade pertencia à área das ciências e nada ali se fazia ao acaso, sem rigor nem objectividade. Ah, e sem excelência! Daí esta exigência.
 

domingo, 19 de dezembro de 2010

Um conto de Natal de Augusta Clara de Matos - O “Caga Lume” e Afinal Era O Jesus Verdadeiro

Não se trata propriamente de um conto, mas de dois episódios relativos ao Natal da minha infância. Vistos à distância do tempo, podiam ser da infância de qualquer um. Por isso, tive vontade de os contar.


I

Também a nós nos aconteceram peripécias daquelas que aparecem nas crónicas dos escritores, espelhando com ironia os usos e costumes desta quadra.

Éramos ainda crianças – a mais velha das três era eu e tinha dez anos - quando fomos morar para um bairro de vivendas numa zona de Lisboa, então, chamada Vale Escuro. Chamava-se assim porque, nas traseiras do bairro, havia, de facto um vale sem luz que interrompia a avenida hoje existente e muito movimentada em direcção a Sapadores e à Graça.

Naquela altura o vale era genericamente chamado Ribanceira e a miudagem gostava muito de ir brincar para a Ribanceira onde se sentia à solta, longe dos olhos dos pais, sobretudo das mães que, na sua maioria, não trabalhavam fora de casa. Uns anos passados, seriam os namorados que para lá iriam procurar refúgio.

domingo, 12 de dezembro de 2010

WikiLeaks – A Guerra da Internet

Augusta Clara de Matos

 
Apurem-se ou não os reais objectivos da WikiLeaks ao divulgar informação dos telegramas secretos da diplomacia norte-americana, seja qual for o desfecho que este caso vier a ter, ele já começa a ser conhecido como a Guerra da Internet porque as implicações na Rede não deixarão de se fazer sentir de uma ou de outra forma. Nada ficará como dantes. Entre a extrema liberdade de há vinte anos e a extrema segurança que é um perigo e, certamente, a maioria dos utilizadores não estará disposta a permitir, há toda uma gradação de possibilidades de que ainda não se vislumbram os contornos.

Entretanto, a revolta na Rede prossegue entre activistas do ciberespaço a favor e contra as acções da WikiLeaks dando origem a boicotes e a sabotagens de sites de empresas de seguidores de uma ou de outra posição. Há jornalistas que se manifestam contra esta acção da WikiLeaks a pretexto de não serem profissionais da informação a noticiarem o que tem vindo a lume. É muito estranho que o façam quando a maior parte deles vive presentemente enfeudada às posições ideológicas dos grandes grupos da comunicação social, desprezando o seu dever deontológico de nos dar a conhecer as realidades a que não temos acesso por nós próprios como cidadãos.

As acções de pirataria na Internet são praticamente impossíveis de combater, à semelhança das de pirataria em alto-mar, pelo mesmo motivo: não há legislação adequada para as condenar. A própria concepção da Rede é de molde a poderem tornear-se os obstáculos à passagem da informação. Nesse sentido, contribui igualmente uma grande variedade de sites, individuais ou de outra natureza, os blogs, o facebook, o tweeter, etc., através de cujas malhas é possível, actualmente, escapar.

Mas, perante a hipótese de todos os recantos da política suja dos Estados poderem ser vasculhados, muita cibernética se porá em acção para o evitar. É mais do que certo, a criatividade neste campo vai ser posta à prova já que seria dramático, à escala mundial e, por isso, não espectável, os Estados Unidos da América virem a fazer uso da sua capacidade de desligar a Rede em qualquer lugar do planeta quando muito bem lhes aprover.

Uma coisa é certa: este assunto não deixará de ser tema do dia durante muito tempo.

Nada do que se tem sido divulgado é coisa que nos espante, nem mesmo a vigilância dos EUA sobre a ONU. O que acontece é que, como dizia alguém num debate televisivo, “nos estão a esfregar com isso na cara”. E é verdade.

Que dúvidas temos nós sobre as acções do Big Brother actualmente mais activo, esteja Bush ou Obama na presidência? Continuo a não duvidar da boa vontade deste presidente dos Estados Unidos, mas não sou ingénua a ponto de acreditar que o poder, naquela superlativa máquina de negócios e de guerra, está integralmente nas mãos do presidente.

Consta que, do material divulgado pela WikiLeaks, não faz parte nenhum documento crítico às grandes linhas da política internacional de Barak Obama como o entendimento com a Rússia, a questão do Irão ou as negociações da paz no Médio-Oriente, apesar do malogro de que estas se revestiram até agora. No entanto, muitas outras acções condenam, sem apelo nem agravo, a chamada maior democracia do mundo.

Por princípio, e porque a experiência do tempo vivido assim mo ensinou, há muito tempo que não dou o meu apoio incondicional, logo à partida, a acontecimentos cuja virtude política parece óbvia. Lembro-me bem que bastantes houve transformados mais tarde em verdadeiros crimes contra milhares de seres humanos como, por exemplo, a política dos khmeres vermelhos no Camboja. Aqui navegamos em águas diferentes mas, pelo sim pelo não, é melhor acautelarmos a objectividade e ir seguindo sem emoções o decorrer dos acontecimentos.

E, para além da liberdade de informação na Internet correr riscos, temos perante nós a questão de saber que mais perigos vai, também, correr a democracia já tão adulterada em que nos querem convencer que vivemos. A justiça, o tão apregoado pilar dos chamados Estados de Direito, vai ser igualmente testada nos julgamentos quer do militar que passou as informações secretas ao editor da WikiLeaks, quer no deste próprio, cuja imediata prisão sob a acusação de crimes sexuais praticados na Suécia nos faz interrogar sobre a sua oportunidade. Conhecemos este tipo de processos ao longo da História.

A informação que tem chegado faseadamente aos jornais irá moldando a nossa opinião. Necessitamos de estar bem atentos porque este não é um assunto de somenos importância.

A divulgação das informações secretas sobre a ingerência dos serviços da inteligência norte-americana nos interesses de outros países e no interior das próprias organizações internacionais, com todas as conivências que venham a ser reveladas, tem, sem dúvida, foros duma crise mundial que, no entanto, como sabemos, o sistema capitalista tão bem tem sabido ultrapassar.

Como não se, nesse tabuleiro, a rede não é menos intrincada do que a do mundo virtual? Muitas malhas, muitos nós dão segurança aos ameaçadores e aos ameaçados em simultâneo, se é que a distinção entre uns e outros é assim tão grande. Os povos que eles governam são outra coisa, uma realidade bem distinta. Passam ao lado destas maquinações.

Muitas ligações se irão fazer e desfazer para se anularem ressentimentos e, na paz dos deuses do capital, grandes potências e os seus capatazes instalados no poder dos países pobres passarem o apagador no quadro do que parecia uma ameaça para uns e outros.

Mas a Guerra da Internet está para durar. Por enquanto é guerra civil. Passará ou não a outra escala? Creio que não. Só se for contra todos nós, os cibernautas e a liberdade de informação.



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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

VerbArte - A Traição das Palavras











Augusta Clara de Matos


Um dia percebi que as palavras me andavam a trair. E não só as alheias. As minhas amigas e fieis palavras, as minhas próprias palavras tinham-me traído. E calei-me. E juntei-me ao silêncio.

Mas, também, ele me traiu e não resolvi o problema. Fiquei atenta e ouvi o silêncio falar muito mais do que as palavras. É tão eloquente! E quando elas, as palavras, o querem disfarçar, ele faz-lhes um manguito: “Cumpram a vossa missão que eu cumpro a minha”.

As palavras não são capazes de falar pelo silêncio, nem o silêncio por elas. Não há escapatória, tudo passa por um ou por outras. Foi só escutar o silêncio porque a elas, as palavras, já não as consigo ouvir. Têm um buraco no meio, estão ocas. Perderam a essência, o coração. Já não têm força nem cor. São pálidas sombras do que foram, as palavras. As minhas palavras.


Onde me vou esconder para lhes escapar? Debaixo da vírgula, na caverna dos dois pontos, encolhida numa cova do til?

Talvez debaixo da tecla do delete, com algodão nos ouvidos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Quando Eu Fui Líder Natural

Augusta Clara de Matos

“E se começássemos por aqui?” Assim terminava o último texto que escrevi, a propósito de toda a gente discutir economia e poucos se interessarem por política.

Esta frase fez-me vir à memória um episódio delicioso que se passou comigo naquele período naïf, logo após o 25 de Abril, em que todos queríamos fazer coisas, tomar parte na construção dum país livre. Ainda hoje me riu quando me lembro dele.

Episódio que foi, ao mesmo tempo, esclarecedor de outra coisa: nós, seres humanos, quando somos genuínos e sinceros, podemos não conseguir, só por isso, grandes empreendimentos mas, pelo menos, não construímos ídolos com pés de barro.

domingo, 28 de novembro de 2010

Economia, Essa Mãe Solteira (ou será o pai?)

Augusta Clara de Matos

Toda a gente fala em economia em Portugal. Todo o bicho careto sabe falar de economia neste país. Porque é que praticamente ninguém fala em política? Assumem todos que a economia é a política possível , é por causa da mundialmente assumida crise ou é, por qualquer outro desígnio, que já não interessa falar em política?

Isto só pode ser um desabafo meu que não sei nada de economia, nem é assunto para o qual tenha qualquer apetência. Mas, se todos desabafam – não acredito que todos saibam do que estão a falar quando falam de economia, mesmo quando falam de amor, sabe Deus…- porque não hei-de desabafar também?

Ah, a minha experiência partidária foi tão frutífera que, agora, já me posso dar ao luxo de desabafar.

Ainda há pouco publiquei aqui uma entrevista realizada em 1984 sobre a situação da mulher – e, como também se comemorou agora o 25 de Novembro, vem tudo a propósito - onde se aludiu àquela prática tão corrente nos partidos de “quando um burro zurra o outro, ou seja, a outra baixa as orelhas”. Havia uns burros que sempre se julgavam menos burros mas, afinal, veio a provar-se que éramos todos iguais senão não tínhamos chegado a este estado. Mas foi há tanto tempo que, agora, deve estar tudo diferente.

De modo que já me sinto à vontade para afirmar que o desinteresse da maioria da população pelos temas que fazem a ordem dos dias – o Orçamento Geral do Estado, a Dívida Externa, o FMI…mau grado sejam os infernos donde lhe vêm todos os malefícios, prova que não é de política que nos andam a falar, que não é da “vida da cidade” que andamos a tratar. Porque, se fosse, estávamos entusiasmados como já estivemos noutros tempos quando queríamos construir um país novo, quando chegou quase a ser possível que isso saísse das nossas mãos.

Então o que é falar de política? E se começássemos por aqui?

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

1984 - E as mulheres? - 4

(Ilustração de Adão Cruz)

O FUTURO PRESENTE

Q e A - Para terminarmos gostaria que falassem nas vossas previsões sobre a evolução da situação da mulher, sobretudo da mulher portuguesa. São optimistas ou não?


I. - Acho que estamos numa situação de bola de neve. O que se adquiriu já não se perderá. Quanto mais não seja porque nascem cada vez mais mulheres...

J. - E há o facto de as escolas agora serem mistas o que está a determinar padrões de comporta¬mento e de relacionamento completamente diferentes entre rapazes e raparigas.

Q e A - Mas sem falar nas gerações futuras, quanto às mulheres actuais? Nós não abdicamos de viver o nosso tempo...


J. - Ah, evoluíram sim, sem dúvida!

I. - Ah, sim, porque nenhuma de nós já consegue ficar parada, não fica calada e as outras que estão à volta, quanto mais não seja, ouvem.

Q e A - No entanto, não terá razão de ser a involução de que a Fernanda falou há bocado, quando se nota ultimamente uma reacção muito maior a estes avanços não só por parte das instituições sociais mas, sobretudo, por parte do mundo masculino?

F. - Sim, sim. Embora a mulher esteja a avançar em termos globais temos de contar com os choques de gerações. A minha geração, que viveu a fase de abanão de todas as estruturas, penso que já evoluiu o que tinha a evoluir. Quanto aos que têm agora 17, 18 19 anos estou um bocado céptica porque se há valores que caíram a verdade é que não temos outros para lhes oferecer em troca.

Q e A - Precisarão eles que lhos ofereçamos? Não estarão a criar os seus próprios valores desligados dos que, na nossa escala, nos impedem a nós de irmos mais para a frente?

F. - Eles não estão propriamente a criar valores. Estão é a agarrar-se muito mais a anti-valores.

J. - Que são valores!

F. - Não me parece que sejam valores que lhes permitam avançar.

Q e A - Em termos da nossa estrutura mental e das nossas vivências talvez não...


F. - Há, hoje, muitas moças com 17 e 18 anos a defenderem novamente a virgindade, o casamento pela igreja de vestido branco, coisas que a minha geração já não defendeu.

I. - A tua geração não defendeu porque a tua mãe defendia e elas. agora, defendem o contrário...

J. - Eu acredito muito nesta geração especialmente pela igualdade entre os sexos, que está niti-damente a aumentar.

F. - Mas tu vês que é ainda mais fácil a um rapaz arranjar emprego do que a uma rapariga da mesma idade.

J. - Aí são os velhos que não querem lá as mulheres por causa delas terem filhos. Isso é diferente do que eu estou a dizer. Estou a referir-me à maneira de pensar dos jovens de ambos os sexos que se estão a aproximar cada vez mais. Por outro lado, têm, agora, maior facilidade de acesso à informação e meios anti-concepcionais que lhes dão a possibilidade de iniciarem a sua vida sexual mais cedo. Por isso, mesmo que esbarrem com o problema do desemprego, a evolução não se deterá, até porque essas pessoas que não querem empregar mulheres hão-de, um dia, deixar de ser activas.

Q e A - Gostaria de fazer uma última pergunta embora me pareça já estar praticamente implícita nesta conversa toda: será a mulher um agente de transformação social capaz de imprimir um ritmo e uma qualidade diferentes às alterações profundas que se aproximam?

J. - Eu creio que sim, mas, por enquanto, as mulheres têm grandes culpas em tudo aquilo que não muda, algumas delas porque se aceitam como mártires e não passam disso e outras continuam a servir de grande suporte aos homens, tendo atitudes ainda mais extremas do que eles, mais contra as outras mulheres sendo, de facto, grandes responsáveis na perpetuação dos aspectos negativos do mundo em que vivemos.

I. - Há pessoas que são masoquistas...! (Risos).

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

1984. E as mulheres ? - 3

(Ilustração de Adão Cruz)


Augusta Clara de Matos

 

 (Continuação)

CULTURA E INFORMAÇÃO


I. - Eu como não estive em nenhum partido não tive essa experiência mas gostaria de pôr outra questão: quanto a Júlia diz que há mulheres que não tiveram acesso à cultura eu pergunto qual cultura?

Q e A - À informação, não é?


J. - Sim, à informação e mesmo à cultura escolar.

F. - Tenho a impressão que a cultura escolar é tudo menos cultura.

I. - Pois é, aí é que eu queria chegar. Aquilo que nos fornecem na escola não é cultura mas uma série de coisas que nos enfiam na cabeça, muitas delas sem qualquer utilidade e que se arrumam a um cantinho da memória para nunca mais se usarem durante a vida.

F. - Pois claro, aí é que está! Não são cultura só por si!

J. - Mas desenvolvem o raciocínio...

F. - O que só por si não chega.

J. - Pois não porque dá origem às mulheres tradicionais, às que não o são e a muitas outras mulheres e homens todos diferentes. Estou a falar, por exemplo, nas mulheres do campo que não tiveram acesso a esses dados.

I. - Não tiveram acesso a esse tipo de informação, mas o que não podemos é afirmar que elas não têm cultura. Têm a sua própria cultura que embora não coincida exactamente com a cultura dominante é por ela subjugada.

J. - Refiro-me, evidentemente, à possibilidade de estudar que dá, por outro lado também, a capacidade de exercer a crítica sobre essa cultura que é dominante.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

1984. E as mulheres? - 2

(Continuação)

Augusta Clara de Matos

(Ilustração de Adão Cruz)


Q e A - Gostava de colocar aqui, em simultâneo, o problema do aborto porque aquilo que se verifica, e sobre isso gostaria que vocês se pronunciassem. é que há sempre uma enorme hipocrisia à volta deste tema. Quando é aceite a despenalização do aborto ou se concede algum aligeiramento em relação a esta questão, e isso tem-se verificado ao longo dos tempos, e normalmente por imperativo das relações de produção e sociais do momento. Esta despenalização do aborto em Portugal. creio que estamos todas de acordo quanto a isso, não veio favorecer quase nada as mulheres. É uma mascarada que esconde o problema fundamental, isto é. para além do planeamento familiar que não se faz como deve ser, não tem em conta o direito da mulher a ser dona do seu próprio corpo.

F. - Bom, vamos lá a ver. Revolução sexual eu acho que não houve embora me pareça que, na realidade, nestes últimos tempos, começou a haver uma maior informação sexual. Essa informação começou a ser mais divulgada, portanto as pessoas passaram a ter acesso a dados que não tinham antes e que poderão utilizar como entenderem. Quanto à questão do homem não me parece que isso tenha vindo alterar muito a situação porque, no fundo, nesta sociedade, ela já era um privilégio seu.

J. - Mas achas que isso deu maior libertação à mulher?

F. - Não, eu penso que não deu maior liberdade. Deu-lhe possibilidades de ela mais facilmente poder ir para a cama com A ou com B sem ter tanto receio de engravidar. Na realidade, muitas mulheres de fora do nosso círculo (porque nós não somos representantes da maioria), com uma vida mais tradicional, passaram a poder dar-se ao luxo daquilo a que vulgarmente se chama uma aventura, mas em termos de libertação estão perfeitamente na mesma situação em que estavam há uns anos atrás: continuam a viver muito em função do prazer masculino. A sua libertação sexual é, assim, só aparente. Não assumiram que são diferentes e. na maioria dos casos, apenas passaram a fazer aquilo que os homens faziam o que é, na minha perspectiva, negativo.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

1984. E as mulheres? 1

Augusta Clara de Matos



                                                           (Ilustração de Adão Cruz)
 Em Junho de 1984 fiz, para a revista Questões e Alternativas, uma entrevista sobre a situação da mulher em Portugal. Viviam-se no país tempos conturbados semelhantes aos tempos difíceis que hoje vivemos. Passaram-se, entretanto, 26 anos. É, por isso, curioso relembrar aqui essa entrevista para que cada um possa fazer um exercício mental de comparação entre uma e outra época no que a este tema diz respeito. Terá mudado assim tanto o panorama? É um jogo curioso. Entrem nele e vão encontrar, para além das questões sérias, momentos divertidos.



A nossa revista tentou avaliar o estado do equilíbrio entre a energia posta na sua luta e as forças obscuras que, dentro dos estreitos limites de visão do mundo real, jamais conseguirão aceitar a igualdade na diferença. As entrevistadas foram três mulheres inteligentes "na casa dos 30", ou seja, eu e elas, éramos todas balzaquianas - Fernanda, programadora de informática; Isabel, funcionária pública; e Júlia, arquitecta - sobre esta problemática e registámos as suas opiniões.
 «Mas tu não ousas. Nem só os meninos choram à noite presos no medo dos olhos do avô... Grandes gigantes têm por vezes grandes medos nos corpos de aço. Grandes gigantes temem por vezes os pequenos gestos que nascem na ponta dos dedos...».
Maria Lisete, íntimo Limite

INFLUÊNCIA DA SITUAÇÃO ECONÓMICA


Q e A - Como todas sabemos, a crise profunda que se está a viver actualmente em Portugal tem implicações não só nas suas estruturas económicas e políticas mas, também, e com grande acuidade nas próprias relações interpessoais. No vosso entender, estará a situação da mulher a evoluir num sentido directamente proporcional aos outros sintomas da crise ou, por razões específicas inerentes a essa própria situação e à abertura ocorrida com o 25 de Abril de 1974, ela se processa dum modo particular, diferente?

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Silêncio e Lua

(dedicado à Isabel Fernandes, ao Jorge Alves, à Andreia Dias e ao Adão Cruz)

Augusta Clara de Matos

Quando chegámos, tinha havido guerra no Olimpo. O sémen de algum deus poderoso espalhara-se pelo céu e semi-escondera a Lua. Uma abóbada opalescente e translúcida filtrava um pouco de luar, o bastante para tornar a noite mágica.

Rodeava-nos o silêncio e só se ouvia o piar do mocho.

Mas, durante o dia, no Monte dos Abibes, não se consegue esse silêncio porque o Mao Zedong e o Chu En-Lai cavalgam desalmadamente atrás dos gatos a quem declararam uma guerra sem quartel que leva os pobres dos felinos a trepar às árvores a uma velocidade supersónica e a fazer equilíbrio nos suportes da armação da parreira.

Não se pense que pairam por ali as almas penadas dos antigos dirigentes comunistas chineses. O Mao e o Chu são os dois cachorros perdigueiros que os donos, os
meus amigos Isabel e Jorge, em cujo monte me sinto em casa, sabe-se lá por que secretas motivações da mente humana, resolveram baptizar desta maneira. Eles que nunca na vida foram maoistas.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Evento da Literatura Portuguesa – Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (II)


(Conclusão)
Augusta Clara de Matos


Casino Lisbonense, onde se realizaram as "Conferências Democráticas"


A política centralizadora da monarquia absoluta que tolhera liberdades anteriormente existentes;

Antero tinha razão ao fustigar assim a igreja porque a influência jesuítica não se restringiu ao meio religioso mas dominou, também, o ambiente político.

Ouçamos o que ele disse: “Essa funesta influência da direcção católica não é menos visível no mundo político. Como é que o absolutismo espiritual podia deixar de reagir sobre o espírito do poder civil? O exemplo do despotismo vinha de tão alto! Os reis eram tão religiosos! Eram por excelência os ‘reis católicos, fidelíssimos’. (…) A teocracia dava a mão ao despotismo”.

Até ao século XVI o poder da monarquia era equilibrado pela vida política local: os municípios, as instituições populares, as comunas, ao mesmo tempo que os privilégios da nobreza e do clero atenuavam o peso da coroa. Para assuntos de suma importância reuniam-se as Cortes. “A liberdade era então o estado normal da Península”.

A partir daí, a monarquia absoluta sufocou o poder local.

A reis como D. João III “fanático e de ruim condição”, D. João V, D. Afonso VI, “devassos uns, outros desordeiros, outros ignorantes e vis (…) A tais homens, sem garantias, sem inspecção confiaram as nações cegamente os seus destinos! (…) Se D. Sebastião não fosse absoluto, não teria ido enterrar em Alcácer Quibir a nação portuguesa, as últimas esperanças da pátria”.

Anulou-se a classe dos pequenos proprietários, governava-se para a nobreza, criaram-se grandes propriedades e impediu-se “o desenvolvimento da burguesia, a classe moderna por excelência, civilizadora e iniciadora, já na indústria, já nas ciências, já no comércio”.

As monarquias absolutas habituaram o povo a servir, à inércia, esperando o que lhe vinha de cima, transformado em prisioneiro, sem iniciativa, sem evoluir, preso à tacanhez dos costumes, sem liberdade. (…) quando mais tarde lhe deram a liberdade, não a compreendeu; ainda hoje não a compreende, nem sabe usar dela. As revoluções podem chamar por ele, sacudi-lo com força: continua dormindo sempre o seu sono secular!”

Isto foi afirmado em pleno século XIX. Mais de um século depois estará esta afirmação assim tão desactualizada?

Nos países que cresciam, os que tinham aderido à Reforma do catolicismo, assistiu-se à “elevação da classe média, instrumento do progresso nas sociedades modernas, e directora dos reis, até ao dia em que os destronou”

A economia baseada na riqueza acumulada à custa dos territórios descobertos e conquistados em África e no próprio Brasil.

Aquilo que sempre celebrámos como a nossa glória máxima enquanto país, os Descobrimentos, foi apontado por Antero de Quental como um dos motivos para a nossa progressiva decadência. “Embalaram-nos com essas histórias: atacá-las é quase um sacrilégio”, afirmou ele.

Acrescenta, no entanto: “A moralidade subjectiva desse movimento é indiscutível perante a história: são do domínio da poesia, e sê-lo-ão sempre acontecimentos que puderam inspirar a grande alma de Camões. A desgraça é que esse espírito guerreiro estava deslocado nos tempos modernos: as nações modernas estão condenadas a não fazerem poesia, mas ciência”.

Um pouco exagerada esta última afirmação de Antero de Quental. Mas entende-se o sentido em que a fez: as coroas depositaram a educação nas mãos dos jesuítas “cujos métodos de ensino, ao mesmo tempo brutais e requintados, esterilizam as inteligências, dirigindo-se à memória, com o fim de matarem o pensamento inventivo, e alcançam alhear o espírito peninsular do grande movimento da ciência moderna essencialmente livre e criadora”.

E, na esteira desse grande pecado jesuítico, Portugal só, pouco a pouco vai saindo desse atraso científico em que tem vivido desde então. Em pleno século XX, os governantes portugueses, manifestamente sem a clarividência de Antero, continuavam a manter que não podíamos investir em investigação fundamental – sem a qual sempre dependeremos, até mesmo nas aplicações, dos países que a ela se dedicaram - por sermos um país pobre.

Contentámo-nos, de facto, com as riquezas trazidas dos territórios de além-mar e descurámos o desenvolvimento da indústria. E esse erro estratégico levou ao empobrecimento do país à medida que o ouro do Brasil e os outros bens se foram esgotando. Para já não falar no modo como o fausto da corte e dos que a rodeavam se foram apropriando do espólio dessa rapina.

O que aconteceu nos países que cresciam foi precisamente o desenvolvimento da “indústria, finalmente, verdadeiro fundamento do mundo actual, que veio dar às Nações uma concepção nova do Direito, substituindo o trabalho à força, e o comércio à guerra de conquista”.

No entanto, a evolução de Portugal até ao século XVI tinha sido bem diferente e vale a pena ler a descrição : “No reinado de D. Fernando era Portugal um dos países que mais exportavam. A Castela, a Galiza, a Flandres, a Alemanha forneciam-se quase exclusivamente de azeite português. (…) No século XV vinham os navios venezianos a Lisboa e aos portos do Algarve, trazendo as mercadorias do Oriente, e levando em troca cereais, peixe salgado e frutas secas, que espalhavam pela Dalmácia e por toda a Itália.(…) As classes populares desenvolviam-se pela abundância e o trabalho, a população crescia. No tempo de D. João II chegara a população a muito perto de três milhões de habitantes…Basta comparar este algarismo com o da população em 1640, que escassamente excedia um milhão, para se conhecer que uma grande decadência se operou durante este intervalo!”.

Foram muitos os que deixaram as suas actividades para se tornarem soldados nas conquistas de além-mar. A população abandonou os campos, vindo para as cidades na mira das riquezas trazidas nas naus, mas o resultado foi o contrário e a miséria citadina aumentou e a agricultura degradou-se. A partir daí tudo só podia evoluir para pior: grassa a fome e a mendicidade aumenta. Camões, o grande poeta da epopeia, mendigando na velhice, é a triste imagem do estado a que a nação chegara.

A situação invertera-se de tal modo que, de exportadores de produtos agrícolas, e sem indústria, passámos a importar tudo: sedas, veludos e massas de Itália, vidro da Alemanha, panos de França, cereais, lãs e tecidos da Inglaterra e da Holanda. Tudo à custa do ouro da rapina e em favor da opulência da nobreza e da coroa. Até o ouro acabar. E o resto já todos sabemos.


Epílogo

Eça de Queiroz na época das Conferências

De facto, não há como fugir ao tema religioso no resumo desta Conferência porque Antero de Quental, embora não isentando o poder político das responsabilidades nefastas para a queda da posição preponderante que Portugal tinha no mundo, atribui à igreja católica, nas mãos dos jesuítas, uma grande responsabilidade, a montante, por todo este desastre.

“Essa transformação da alma peninsular fez-se em tão íntimas profundidades , que tem escapado às maiores revoluções (…) Há em todos nós, por mais modernos que queiramos ser, (…) um beato, um fanático ou um jesuíta! Esse moribundo que se ergue dentro de nós é o inimigo, é o passado. É preciso enterrá-lo por uma vez, e com ele o espírito sinistro do catolicismo de Trento”.
E, ainda, uma última frase de Antero: “A nossa fatalidade é a nossa História”.
De muito mais consta a conferência de Antero de Quental, uma peça literária imprescindível para compreendermos o Portugal de hoje e repensarmos o futuro.
Por agora, fiquemos por aqui.



Um mês depois, a Sala das Conferências democráticas foi encerrada, o que deu origem a um ao protesto assinado em 26 de Junho de 1871 pelo próprio Antero de Quental e por Adolfo Coelho, Jaime Batalha Reis, Salomão Saragga e Eça de Queiroz.
O texto rezava assim:

PROTESTO

Contra o Encerramento da Sala das Conferências Democráticas

Em nome da liberdade de pensamento, da liberdade de palavra, da liberdade de reunião, bases de todo o direito público, únicas garantias da justiça social, protestamos, ainda mais contristados que indignados, contra a portaria que mandou arbitrariamente fechar a sala das conferências democráticas. Apelamos para a opinião pública, para a consciência liberal do país, reservando-nos a plena liberdade de respondermos a este acto de brutal violência como nos mandar a nossa consciência de homens e de cidadãos.



terça-feira, 16 de novembro de 2010

Evento da Literatura Portuguesa – Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (I)



Augusta Clara de Matos
 
 
O que pretendeu Antero de Quental com o seu discurso proferido no dia 27  de Maio de 1871, na 1ª. Sessão das Conferências Democráticas, realizadas no Casino Lisbonense? Nada mais, nada menos do que explicar o atraso registado pelos dois países da Península Ibérica, Portugal e Espanha desde o século XVII. Numa altura em que não só Portugal e Espanha, mas toda a Europa vive uma crise profunda dos seus valores e o projecto político e cultural da União Europeia cada vez se nos afigura mais adulterado, faz sentido relembrarmos essas causas de decadência que Antero apontou no século XIX e reflectir como certos atavismos podem infiltrar-se no tempo e corroer realidades aparentemente bastante diferentes.


Desenho de Raquel Santos - "As Conferências do Casino""




A confirmar esta suspeita, respiguemos algumas frases do Programa das Conferências Democráticas:
“Ninguém desconhece que se está dando em volta de nós uma transformação política, e todos pressentem que se agita, mais forte que nunca, a questão de saber como deve regenerar-se a organização social. (…) investigar como a sociedade é, e como ela deve ser; (…) e, por serem elas as formadoras do homem, estudar todas as ideias e todas as correntes do século.

Não pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser o assunto das nossas constantes meditações.

(…) Posto isto, pedimos o concurso de todos os partidos, de todas as escolas, de todas aquelas pessoas que, ainda que não partilhem das nossas opiniões, não recusam a sua atenção aos que pretendem ter uma acção – embora mínima – nos destinos do seu país, expondo pública mas serenamente as suas convicções e o resultado dos seus estudos e trabalhos.”


A conferência de Antero de Quental, dentro do programa das Conferências Democráticas, só nos pode servir hoje de grande inspiração para as reflexões que temos de fazer sobre a sociedade portuguesa.
Antero apresentava três causas principais para essa decadência:

• A submissão da igreja católica portuguesa ao poder de Roma, integrada na Contra-Reforma, de acordo com as decisões do concílio de Trento;

Embora não fosse este ponto o que me interessasse particularmente referir, não posso deixar de o fazer porque Antero de Quental desenvolveu substancialmente as mudanças por que passou a mentalidade religiosa na Península e as consequências que essas mudanças tiveram em todos os outros domínios da sociedade.
A submissão das igrejas locais à Igreja de Roma trouxe consequências catastróficas, entre as quais se realça a perseguição aos judeus e aos árabes que, embora muito na sombra, como afirma Antero, viviam como “raças inteligentes, industriosas, a quem a indústria e o pensamento peninsulares tanto deveram, e cuja expulsão tem quase as proporções de uma calamidade nacional”. Simultaneamente acentuou-se a degradação dos costumes com a substituição da aceitação do dogma religioso, geradora do sentimento do dever que nessa aceitação se baseava, pela sua imposição.
Nos países que cresciam “a liberdade moral, conquistada” provocou o “resultado imenso e capital que trouxe a Reforma aos povos que a seguiram”. O seu desenvolvimento a níveis elevados não tinha sido previsto por Lutero nem pelos seus correligionários.
Muitos representantes das igrejas nacionais dos países latinos lutaram por uma reforma sincera, chegando a desejar uma conciliação com os protestantes. Destacavam-se três pontos fundamentais nessa reivindicação:
“1º. – Independência dos bispos, autonomia das igrejas nacionais, inauguração dum parlamentarismo religioso pela convocação amiudada de concílios, esses estados gerais do cristianismo, superiores ao Papa e árbitros supremos do mundo espiritual;
2º. – O casamento para os padres, isto é, a secularização progressiva do clero, a volta às leis da humanidade duma classe votada durante quase mil anos a um duro ascetismo, então talvez necessário, mas já no século XVI absurdo, perigoso, desmoralizador;
3º. – Restrições à pluralidade dos benefícios eclesiásticos, abuso odioso, tendente a introduzir na Igreja um verdadeiro feudalismo com todo o seu poder e desregramento.”
Mas a Igreja de Roma não cedeu, preferiu reforçar a ortodoxia e iludindo a luta por estas reformas, convocou um concílio, sim…o de Trento que – “Estamos em Itália, meus senhores, no país de Machiavell!”, diria Antero – “Dum instrumento de paz e progresso faz uma arma de guerra e dominação; confisca o grande impulso reformador e fá-lo convergir em proveito do ultramontanismo”.
Como o fez, escuso-me de pormenorizar aqui, mas garanto que vale a pena espreitar a descrição de Antero de Quental. A reforma estava perdida, “o concílio só serviu contra ela para a sofismar e anular”.
Ontem como hoje, e em qualquer sector da sociedade, aí está em evidência o mecanismo de recuperação pelos poderes instituídos de todas as ideias de mudança que lhes ameacem o domínio.
Não é ilegítimo associar a esta tirania a dissolução de costumes a que se assiste dentro da igreja católica dos nossos dias, com os escândalos ligados a questões financeiras ocorridas com capitais movimentados por instâncias do Vaticano e esse inominável crime que constitui a pedofilia no qual se encontram envolvidos padres e altos elementos do clero de vários países.
Bem apontava Antero a dissolução dos costumes. Aí está ela, a sua evidência não engana ninguém.

(Continua)

sábado, 6 de novembro de 2010

A Minha História

Augusta Clara de Matos

Como a minha apresentação foi reduzida e muitos de nós não nos conhecemos pessoalmente no blog, situação que detesto porque funciona ao contrário do que é habitual entre nós seres humanos, animais de hábitos - primeiro conhecemo-nos, quero eu dizer fisicamente, e só depois nos reconhecemos -, eu vou fazer como o Marcos, pôr-me a nu, e andar no trapézio, o número de circo de que sempre gostei mais, sem rede.

Não é fácil, mas eu quero. E quando uma se me mete na cabeça ninguém ma tira de cá. E, também, porque já fiz coisas mais difíceis e arriscadas e não me aconteceu grande mal, pelo menos visível.

Então lá vai.

Quando eu era pequenina, muito pequenina tive polio. Não vou explicar aqui o que isso é porque não estou a escrever um artigo científico. Mas toda a gente, mais ou menos, sabe as consequências dessa virose aguda na vida das pessoas.

Como dizem os americanos, sou uma “polio survival” tal como era o presidente Roosevelt.

E, então, eu pensei “também quero ser presidente, se ele foi…”. É mentira, não pensei nada, estou a inventar agora.

Ainda nem tão pouco em Portugal se pensava poder vir a ter uma mulher na presidência, quanto mais uma com sequelas de poliomielite. Já o Roosevelt se viu aflito para disfarçar e, apesar de tudo, ainda era homem. Aqui em Portugal, soube mais tarde que o Salazar nem nos deixava ser professores. Esta era, também, uma sequela mas do fascismo.

Não queria ser presidente, queria ser outras coisas, e fui.

Mas, como isto, não é uma autobiografia, apenas um acrescento às minhas notas biográficas, vou dizer só o essencial.

Fui andando e cheguei à universidade com a intenção de me dedicar à investigação científica na área da Biologia. Podia ter ido para Medicina porque foi a esse curso que fiz o exame de admissão. Mas tratava-se, apenas dum truque usado naqueles anos pelos candidatos a Biologia porque os exames em Medicina, com as mesmas cadeiras nucleares, eram mais fáceis e a malta candidata a bióloga pedia depois a transferência para a Faculdade de Ciências.

Fosse hoje, teria lá ficado e estava agora a competir com o Adão na área das Neurociências.

Tinha tantos sonhos, então, que até sonhava ganhar o Nobel.



E a vida continuou com as peripécias do costume no meio das quais aconteceu a Revolução de Abril – esta não do costume, evidentemente -em que me envolvi até ao pescoço e que me fez atrasar o fim do curso. Mas foi, sem dúvida, a época mais feliz da minha vida.

Trabalhei num laboratório do Estado onde fui investigadora e fiz o equivalente a doutoramento. E digo o equivalente porque, embora em tudo igual às exigências e à situação profissional dos doutorados na universidade, o, na altura, primeiro-ministro Cavaco Silva teve a brilhante ideia de não deixar circular os investigadores entre os Laboratórios do Estado e a Universidade.

Não cheguei a Roosevelt mas, também, não queria. Só queria ganhar o Nobel e ser feliz que, no fundo, é o que toda a gente quer.

Não ganhei o Nobel e a felicidade é muito subjectiva e saltitante. E nunca é eterna.

O resto da história não conto. Faz parte da minha vida privada que nunca gostei de ver na praça pública, embora alguns episódios, esses sim, dessem verdadeiras obras de ficção.



Ficam para quando eu me tornar escritora.

domingo, 31 de outubro de 2010

Arte poética: Casimiro de Brito, Augusta Clara de Matos, Celso Emilio Ferreiro



Casimiro de Brito

( Loulé- 1938)

DA POESIA: ARS COMBINATORIA

Agrada-me pensar que o poema (o livro) que estou a escrever são vários poemas, tantos quantos os leitores que fizerem do meu texto, por um momento que seja, o seu espelho, um espelho côncavo ou convexo, nunca liso, um rio onde possam encontrar interpretações distintas e até opostas sobre o amor e a morte, o poder e o prazer, os sentidos da existência. Não sei quem disse que um poema era um fruto comido por mil bocas, um fruto intacto.



(Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética”).

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Augusta Clara de Matos
(Lisboa, 1945)

À POESIA



Poesia, toda a minha vida fingi que te ignorava
Mas sempre te invejei o elo aos que não se deixam atraiçoar pela língua.
Como me parecias longínqua, inacessível.
Eras d’outrém, não eras minha. Tinha ciúmes, mas era incapaz de competir. E ainda sou.
Mas sinto-te, sabes, não preciso de te ceder. Sinto-te com o corpo todo, por todo o lado.
E sem palavras.

Só no silêncio, poesia, te consigo entender.


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Celso Emilio Ferreiro

(Celanova ,Ourense, 1912 - Vigo, 1979)

A POESIA É VERDADE


Un procura a verdade
por tódolos camiños, baixo as pedras,
nas raigames mais escuras das olladas,
máis alá das escumas i os solpores.

Busco a verdade en ti, rexa poesía
dos homes que labouran,
taito real das cousas
que están e son, anque ninguén as vexa.
Home total,
que vas e ves sin sombra polas rúas
e tes a túa verdade nos curutos
do mundo, no profundo da historia,
na esperiencia de un dia calisquera,
e non ves os paxaros nin as nubes
nin as lonxíncoas maus do vento dondo
que acariñan o mundo desde sempre.
Investiga a verdade do teu tempo
i alcontrarás a poesia.



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