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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine

CARTA A ELISÉE RECLUS

Meu caro amigo. Agradeço-te muito pelas tuas boas palavras. Jamais duvidei da tua amizade, este sentimento é sempre mútuo e eu julgo o teu em relação ao meu.

Sim, tens razão, a revolução no momento foi ao leito, recaímos no período das evoluções, quer dizer, naquele das revoluções subterrâneas, invisíveis e frequentemente mesmo insensíveis. A evolução de hoje é muito perigosa, se não para a humanidade, pelo menos para certas nações. É a última encarnação de uma classe esgotada, jogando seu último jogo, sob a protecção da ditadura militar macmahono – bonapartista na França, bismarckiana no resto da Europa.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

CARTA AOS REDACTORES DO BOLETIM DA FEDERAÇÃO DO JURA


Caros companheiros,

Eu não posso nem devo deixar a vida pública sem vos endereçar uma última palavra de reconhecimento e de simpatia.

Faz quatro anos e meio aproximadamente que nós nos conhecemos, e apesar de todos os artifícios de nossos inimigos comuns e das calúnias infames que lançaram contra mim, conservastes vossa estima, vossa amizade e vossa confiança em mim. Vós não vos deixastes intimidar por esta denominação de “Bakunineeianos” que eles lançaram em vossos rostos, preferindo guardar a aparência de serem homens dependentes, do que a certeza de terdes sido injustos.

Por sinal, sempre tivestes, e em alto grau, a consciência da independência e da perfeita espontaneidade das vossas opiniões, tendências, actos, e a pérfida intenção dos nossos adversários era tão transparente, por outro lado, que não pudestes tratar as suas insinuações caluniosas e ferinas de outra forma, se não com o mais profundo desprezo.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

CARTA AOS REDACTORES DO BOLETIM DA FEDERAÇÃO DO JURA

Caros companheiros de desgraça!

A espada de Demócles, com a qual nos ameaçaram por tanto tempo, acaba, enfim, de cair sobre as nossas cabeças. Não é exactamente uma espada, mas a arma habitual do Sr. Marx, um monte de imundícies.

Com efeito, na nova circular privada do Conselho Geral de Londres, datada de 5 de Março de 1872, mas entregue à publicidade, segundo parece, durante estes últimos dias, nada falta: invenções ridículas, falsificações de princípios e de factos, insinuações odiosas, mentiras cínicas, calúnias infames, enfim, todo o arsenal guerreiro do Sr. Marx em campanha. É uma colectânea mediocremente sistematizada de todas as histórias absurdas e imundas que a maldade mais perversa do que espiritual dos judeus alemães e russos, seus amigos, seus agentes, seus discípulos e, ao mesmo tempo, os lacaios executores das suas grandes obras, propagou contra todos nós, mas sobretudo contra mim, durante três anos aproximadamente, e principalmente desde esse infeliz Congresso de Basileia, no qual ousámos votar, com a maioria, contra a política marxista.

domingo, 18 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

Carta ao Journal de Genève
Aos Senhores Redactores do Jornal de Genebra

Senhores,

Não faz parte dos meus hábitos responder às injúrias e às calúnias dos jornais. Eu teria tido muito trabalho, realmente, se tivesse querido apurar todas as besteiras que, desde 1869, sobretudo, se divertem a debitar em minha conta.

Entre os meus caluniadores mais furiosos, ao lado dos agentes do governo russo, eu situo naturalmente o Sr. Marx, o chefe dos comunistas alemães, que, sem dúvida, por causa do seu tríplice carácter de comunista, alemão e judeu, me odiou, e que, dizendo nutrir igualmente um grande ódio contra o governo russo, em relação a mim pelo menos, nunca deixou de agir em plena harmonia com ele.

Para me sujar aos olhos do público, o Sr. Marx não somente recorreu aos órgãos de uma imprensa muito complacente, serviu-se também dos correspondentes íntimos, dos comités, das conferências e dos próprios congressos da Internacional, não hesitando em fazer desta bela e grande Associação que ele tinha ajudado a fundar, um instrumento das suas vinganças pessoais.

sábado, 17 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine - (Raúl Iturra)

MARX E A INTERNACIONAL: CARTA AOS INTERNACIONAIS DE BOLONHA - 6 (Continuação)



Assim, entre os anos 1866, época do primeiro Congresso de Genebra, e 1869, época do último Congresso de Basileia, formaram-se no seio da Internacional três grandes grupos: o grupo latino, compreendendo a Suíça romanche, a Bélgica, a França, a Itália e a Espanha; o grupo germano – austríaco; e o grupo anglo-americano. O grupo eslavo ainda está em via de formação. Ainda não existe propriamente. A unidade real, produzida pelo próprio desenvolvimento da acção e das relações espontâneas das secções entre elas, só existe, com efeito, em cada um desses grupos à parte, unidos interiormente por um tipo de unidade especial de raça, de situação, de pensamento e de aspirações mais especialmente homogéneas.

A união desses grandes grupos, entre eles, é muito menos real; só tem por base os estatutos gerais, e por garantia necessária a acção imparcial mas real do Conselho Geral, enfim, e sobretudo, os congressos.

Tal foi a situação da internacional até 1869.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

 MARX E A INTERNACIONAL: CARTA AOS INTERNACIONAIS DE BOLONHA - 5 (Continuação)




Os operários de todas as profissões, de todas as comunas, de todas as regiões e de todas as nações, constituem uma grande e única fraternidade internacional, organizada para empreender esta luta contra o mundo burguês; quem falte a esta solidariedade prática na luta, indivíduo, secção, ou grupo de secções, é um traidor.


Eis a nossa lei realmente, única obrigatória. Há, além disso, as disposições do regulamento primitivo que impõe a cada secção o dever de pagar anualmente ao Conselho Geral dez centavos por cada um dos seus membros, enviar-lhe a cada três meses um relatório detalhado sobre a sua situação interna e atender a todas as suas reclamações quando elas estiverem conformes aos estatutos gerais, e eis tudo. Quanto ao resto, quer dizer, tudo o que constitui a própria vida, o próprio desenvolvimento, o programa e o regulamento particulares das secções, as suas ideias teóricas, assim como a propaganda destas ideias, a sua organização e a sua federação material, desde que nada do objectivo real esteja em contradição com os princípios e com as obrigações explicitamente enunciados nos estatutos gerais, é deixado à plena liberdade das secções.

Esta inexistência de um dogma único e de um governo central na nossa grande Associação Internacional, esta liberdade quase absoluta das secções, revoltam o doutrinário e o autoritarismo do homem de Estado – profeta Mazzini. E, entretanto, foi precisamente esta liberdade que ele denomina anarquia e que, fundada sobre a verdadeira fonte e base criadora da nossa unidade real, sobre a identidade real da situação e das aspirações do proletariado de todos os países, foi esta liberdade que criou uma verdadeira conformidade de ideias e de toda a potência da Internacional.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

MARX E A INTERNACIONAL: CARTA AOS INTERNACIONAIS DE BOLONHA - 4 (Continuação)


Mas, desde o Outono de 1868, os chefes, os propagadores e os agitadores, em grande parte judeus, do Partido da democracia socialista, que tinha acabado de se formar, sempre sob a inspiração de Marx, no norte da Alemanha, começaram a conquistar para o seu lado os judeus da Áustria, e juntos puseram-se a magnetizar, a fazer sermão, a enganar os operários alemães da Áustria. Eles não trabalharam em vão. Há um ou dois meses, os mesmos operários alemães de Viena, reunidos novamente numa grande assembleia popular e já organizados segundo o programa e sob a direcção dos chefes do partido da democracia socialista, traduzindo dali por diante, sob inspiração exclusivamente tudesca, o cosmopolitismo no sentido do pangermanismo, declaram-se partidários da grande pátria alemã, quer dizer, do Estado pangermânico, que se diz popular, do qual eles esperam estupidamente a emancipação do proletariado, como se um grande Estado pudesse ter outra missão que não a de subjugar o proletariado.


Examinaremos esta questão numa próxima oportunidade, caros amigos. Enquanto se espera, vós compreendereis que esta nova resolução teve como consequência natural alijar do movimento do proletariado todos os operários não alemães da Áustria.

Na Suíça, vemos hoje, sempre sob a influência directa e em nome dos princípios deste mesmo programa da democracia socialista tudesca, todos os operários dos cantões alemães, em Zurique e na Basileia sobretudo, mas também em Argóvia e em Berna, a reivindicação de quê?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

MARX E A INTERNACIONAL: CARTA AOS INTERNACIONAIS DE BOLONHA - 3  (Continuação)


Na realidade, é a camarilha alemã que domina e faz tudo no Conselho Geral. Os seus membros ingleses, como verdadeiros insulares, e ingleses que são, ignoram o continente, só se preocupam exclusivamente com a organização das massas operárias em seu próprio país. Tudo o que se fazia no Conselho Geral era unicamente feito pelos alemães sob a direcção exclusiva de Marx.

Por sinal, até Setembro de 1871, a acção do Conselho Geral, do ponto de vista propriamente internacional, foi totalmente nula, de tal forma nula que jamais cumpriu com as obrigações que os Congressos tinham, um de cada vez, imposto, como por exemplo as circulares que ele devia publicar todos os meses sobre a situação geral da Internacional e que jamais publicou. Em relação a este facto houve muitas razões. Inicialmente, o Conselho Geral sempre foi muito pobre. Nós que conhecemos bem o estado das finanças da Internacional, rimos e continuamos a rir quando lemos, nos jornais oficiais e oficiosos de diferentes países, as fábulas sobre as somas imensas que Londres envia para todos os lugares para fomentar a revolução. O facto é que o Conselho Geral sempre se encontrou numa posição financeira excessivamente miserável.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)


MARX E A INTERNACIONAL:CARTA AOS INTERNACIONAIS DE BOLONHA -2
Na realidade, é a camarilha alemã que domina e faz tudo no Conselho Geral. Os seus membros ingleses, como verdadeiros insulares, e ingleses que são, ignoram o continente, só se preocupam exclusivamente com a organização das massas operárias em seu próprio país. Tudo o que se fazia no Conselho Geral era unicamente feito pelos alemães sob a direcção exclusiva de Marx.

Por sinal, até Setembro de 1871, a acção do Conselho Geral, do ponto de vista propriamente internacional, foi totalmente nula, de tal forma nula que jamais cumpriu com as obrigações que os Congressos tinham, um de cada vez, imposto, como por exemplo as circulares que ele devia publicar todos os meses sobre a situação geral da Internacional e que jamais publicou. Em relação a este facto houve muitas razões. Inicialmente, o Conselho Geral sempre foi muito pobre. Nós que conhecemos bem o estado das finanças da Internacional, rimos e continuamos a rir quando lemos, nos jornais oficiais e oficiosos de diferentes países, as fábulas sobre as somas imensas que Londres envia para todos os lugares para fomentar a revolução. O facto é que o Conselho Geral sempre se encontrou numa posição financeira excessivamente miserável.

Não deveria ser assim se todas as secções que se encontram estabelecidas sob a bandeira da Internacional, em todos os países, lhe tivessem regularmente enviado os dez centavos por membro ordenados pelos estatutos. A maioria das secções não o fez, até aqui.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

MARX E A INTERNACIONAL: CARTA AOS INTERNACIONAIS DE BOLONHA


Dezembro de 1871. Instituto Internacional de História Social de Amesterdão.

A guerra acaba de ser declarada ao Conselho Geral. Mas não vos assustais, caros amigos, a existência, a potência e a unidade real da Internacional não sofrerão, porque sua unidade não está em cima, não está num dogma teórico uniforme imposto à massa do proletariado, tampouco num governo mais ou menos ditador como aquele que o Congresso dos operários mazzinianos acaba de instituir em Roma; ela está em baixo: na identidade da situação material dos sofrimentos, das necessidades e das aspirações do proletariado de todos os países; a potência da Internacional não reside em Londres, ela está na livre federação das secções operárias autónomas de todos os países e na organização, de baixo para cima, da solidariedade prática entre elas. Eis os princípios que nós defendemos hoje contra as usurpações e contra as veleidades ditatoriais de Londres que, se elas pudessem triunfar, matariam a Internacional, com certeza.

Um Conselho Geral da Internacional, que esteja sedeado em Londres ou em outro lugar, só é suportável, possível, na medida em que é revestido de atributos modestos de um Bureau central de, apenas, correspondência. É também aproximadamente o único papel que lhe atribuem nossos estatutos gerais. Mas tão logo ele queira se tornar um governo real, ele se torna necessariamente uma monstruosidade, uma absoluta impossibilidade. Imaginem um tipo de monarca universal, colectivo, impondo sua lei, seu pensamento, seu movimento, sua vida aos proletários de todos os países, reduzidos ao estado de miséria! Mas seda, paródia ridícula do sonho ambicioso dos Césares, dos Carlos V, dos Napoleão, sob a forma de uma ditadura universal, socialista e republicana. Seria um golpe de misericórdia dado na vida espontânea de todas as outras secções, a morte da Internacional.

domingo, 11 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

CARTA A ALPHONSE ESQUIROS

Cercanias de Marselha. 20 de Outubro de 1870. Instituto Internacional de História Social de Amesterdão.


Cidadão e Senhor,

Eu tive a honra de vos endereçar, por um de meus amigos de Marselha, uma brochura que publiquei sob o título: Lettres à un Français sur la crise actuelle.

Ela contém cartas escritas no mês de Agosto, bem antes da capitulação de Sedan. Mas o editor, meu amigo, que as encurtou singularmente, para não dizer que as castrou, acreditando sem dúvida que ainda não era o momento para dizer toda a verdade, achou por bem também datá-las de Setembro.

Estas cartas – endereçadas a um amigo, ao cidadão Gaspard Blanc de Lyon, um dos jovens mais devotados ao bem da França que encontrei, e que o Sr. Challemel-Lacour, comissário extraordinário, mantém na prisão sob a acusação ridícula e odiosa de ser um agente dos prussianos – vos provarão, espero, cidadão Esquiros, que eu também não sou nem o amigo, nem o partidário do rei da Prússia, nem de nenhum déspota do mundo.

sábado, 10 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine - (Raúl Iturra)

A REVOLUÇÃO SOCIAL EM FRANÇA

Carta a Albert Richard

Caro amigo e irmão.

Circunstâncias independentes de minha vontade impedem-me de ir tomar parte na vossa grande Assembleia de 13 de Março. Mas eu não gostaria de deixá-la passar sem exprimir a meus irmãos de França meu pensamento e meus votos.

Se eu pudesse assistir a esta imponente reunião, eis o que eu diria aos operários franceses, com toda a franqueza bárbara que caracteriza os democratas socialistas russos.

Trabalhadores, contem agora somente convosco. Não vos desencorajeis e não paraliseis vossa potência ascendente através de alianças de enganados com o radicalismo burguês. A burguesia mais nada tem para vós dar. Política e moralmente ela está morta, e ela só conservou, de todas as suas magnificências históricas uma única força, a da riqueza fundada sobre a exploração de vosso trabalho. Outrora ela foi grande, foi audaciosa, foi possante em pensamento e em vontade. Ela tinha um mundo a derrubar, um mundo novo a criar, o mundo da civilização moderna.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine - (Raúl Iturra)

Programa para um projecto de revista

Carta a Peter Lavrov

Muito estimado Petr Lavrovitch,

Após um longo silêncio, é-me finalmente possível responder concretamente às vossas questões concretas. A carta que me escreveste encontrou nosso pequeno grupo numa crise passageira. Antes que eu pudesse vos responder, tínhamos necessidade de definir e esclarecer muitas coisas e ao mesmo tempo, nos livrarmos de outras.

Eu posso hoje vos dar certeza de que rompemos definitivamente todas nossas relações com Sr. Netchaev; de agora em diante, ele não terá mais nada a ver, nem directa, nem indirectamente, com tudo aquilo que nós pudermos empreender. Nosso amigo em comum, Sazin, portador desta carta, vos explicará as razões dessa ruptura.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

Carta a Alexandre Herzen*

Tenho a intenção de enviar a você, em breve, um jornal detalhado de meus factos e gestos, desde nosso último adeus da Avenida Marigny, mas hoje eu direi algumas palavras da minha presente situação. Preso um ano em Saxe, inicialmente em Dresde, depois em Königstein aproximadamente um ano em Praga, cinco anos em Olmutz, completamente acorrentado e, em Olmutz, até mesmo acorrentado ao muro, fui em seguida transportado para a Rússia. Na Alemanha e na Áustria minhas respostas às questões foram muito curtas: “Vocês conhecem meus princípios, eu os publiquei e fi-los conhecer em alta e inteligível voz; eu quis a unidade de uma Alemanha democrática, a libertação dos eslavos, a destruição de todos os reinos cimentados pela violência, antes de tudo, a destruição do império austríaco; apanhado de armas na mão, vocês têm muitos elementos para me julgar. Eu não responderei mais a nenhuma de suas questões”. Em Maio de 1851 fui transferido para a Rússia, directamente para a fortaleza Pedro e Paulo, na fortificação Aleksei, onde permaneci encarcerado por três anos. Dois meses após a minha chegada, o conde Orlov veio ver-me em nome do monarca. “O soberano me enviou a você e me ordenou dizer-lhe: “Diga-lhe que me escreva, como um filho espiritual escreve a um pai espiritual”; você quer escrever?” . O Czar Imperados era Nicolau I Romanov, que faleceu com Bakuninee em perseguição e foi sucedido pelos seu filho Alexandre II, que sentia estimação por este nobre tão perseguido e atrevido. Foi este o Imperador quem solicitara as suas Confissões. É conhecido por suas reformas liberais e modernizantes, através das quais procurou renovar a cristalizada sociedade russa.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)


O exílio na Sibéria

Carta a Alexandre Herzen

Caro Herzen. Já faz sete meses que eu te escrevi uma longuíssima carta de vinte páginas.

Por diversas razões, ela não chegou até você. Foi a primeira manifestação de uma voz que voltou a ser livre após um longo silêncio. Hoje, serei mais breve. Inicialmente, deixa-me ressuscitar dentre os mortos, agradecer a você pelas nobres e simpáticas palavras que, pela imprensa, você disse sobre mim durante minha triste detenção. Elas atravessaram os muros que me isolavam do mundo e me trouxeram muito reconforto. Você havia me enterrado, mas ressuscitei, graças a Deus, vivo e não morto, pleno desse mesmo amor apaixonado pela liberdade, pela lógica, pela justiça, que foi e que é ainda agora toda a razão de ser de minha vida. Oito anos de reclusão em diversas fortalezas fizeram com que eu perdesse meus dentes, mas não enfraqueceram minhas convicções, ao contrário, elas se fortaleceram; nas fortalezas tem-se tempo para reflectir; os sentimentos que foram os mobiles de toda minha juventude, * concentraram-se, clarificaram-se, tornaram-se por assim dizer mais sensatos e, segundo me parece, mais capaz de se manifestar na prática. Libertado da fortaleza de Schlüsselburg, há quase quatro anos, recuperei igualmente a saúde; eu estou casado, feliz, em família e, apesar disso, pronto como antes, e mesmo com a paixão de outrora, a me lançar em meus antigos pecados, desde que a ocasião se apresente. Retomo por minha conta as palavras de Fausto: Estou muito velho para somente me divertir, muito jovem para estar sem desejos. O futuro, mesmo o futuro próximo, parece prometer muito.

lrkutsk. 7 de Novembro de 1860. Pis'ma M.A. Bakunineea K.A.I. Gercenu I.N.P. Ogarevu, Ed. M.P. Dragomanov, Genève, 1896, PP.3-4.


Ilustração: Foto de Bakunin amigos e a companheira durante o exílio na Sibéria

terça-feira, 6 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)




Fragmento da confissão – carta ao czar Nicolau I



Não digo que eu fosse desprovido de amor-próprio, mas jamais este sentimento me dominou; ao contrário, fui obrigado a lutar contra mim mesmo e contra minha natureza toda vez que me preparava para falar publicamente ou mesmo para escrever para o público. Eu não tinha também esses vícios enormes, ao modo Danton ou Mirabeau, eu não conhecia essa depravação ilimitada e insaciável que, para se satisfazer, está pronta a chocar o mundo inteiro.

Se eu sofresse de egoísmo, este egoísmo seria unicamente necessidade de movimento, necessidade de acção. Sempre houve em minha natureza um defeito capital: o amor pelo fantástico, pelas aventuras extraordinárias e inauditas, acções abrindo à visão de horizontes ilimitados e das quais ninguém pode prever onde vai desembocar. Numa existência ordinária e calma eu sufocava, sentia-me mal em minha pele. Os homens procuram ordinariamente a tranquilidade e a consideram como o bem supremo; no que me concerne, ela me mergulhava no desespero; minha alma se encontrava em perpétua agitação, exigindo acção, movimento e vida.

Eu deveria ter no nascido em algum lugar nas florestas americanas, entre os colonos do Far West, lá onde a civilização está ainda em seu início e onde toda existência nada mais é do que uma luta incessante contra homens selvagens e contra a natureza virgem, e não numa sociedade burguesa organizada. Também, se desde minha juventude o destino tivesse querido fazer de mim um marinheiro, eu seria ainda hoje, provavelmente, um bom homem, eu não teria pensado na política e não teria procurado outras aventuras e tempestades a não ser as do mar. Mas o destino decidiu de outra forma e minha necessidade de movimento e de acção permaneceu insatisfeita. Esta necessidade, junta, em seguida, à exaltação democrática, foi, por assim dizer, minha única motivação. No que concerne a esta exaltação, ela pode ser definida em poucas palavras: o amor pela liberdade e um ódio invencível por toda opressão, ódio ainda mais intenso quando esta opressão dizia respeito a outra pessoa, e não a mim mesmo. Procurar minha felicidade na felicidade do outro, minha dignidade pessoal na dignidade de todos aqueles que me cercavam, ser livre na liberdade dos outros, eis todo meu credo, a aspiração de toda minha vida. Eu considerava como o mais sagrado dos deveres o de me revoltar contra toda opressão, fosse o autor ou a vítima. Sempre houve em mim muito de Dom Quixote, não somente na política, mas também em minha vida privada; eu não podia ver, com olhar indiferente, a mínima injustiça, e, por uma razão ainda mais forte, uma gritante opressão; algumas vezes, sem ter a competência nem o direito, eu me intrometi, de modo irreflectido, nos problemas dos outros e cometi, também, durante uma existência agitada, mas vazia e inútil, muitas bestialidades, incorri em muitas contrariedades e fiz inúmeros inimigos, sem odiar, por assim dizer, ninguém. Eis, Sire, a verdadeira chave de todos meus actos insensatos, de meus pecados e de meus crimes. Se falo disso com esta segurança e com esta clareza, é que eu tive durante estes dois últimos anos, bastante tempo para estudar a mim mesmo e para reflectir sobre meu passado; agora me vejo com indiferença, como se pode ver um moribundo ou um morto.



Petersburgo, Fortaleza Pedro e Paulo. 1851.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)


Carta a seus irmãos e irmãs



Meus queridos amigos! Eu sei a que perigo terrível vos expõe ao escrever esta carta.

Todavia, eu a escrevo; daí vocês concluirão o que é (palavra ilegível) grande para mim a necessidade de me explicar com vocês, e de dizer, ainda que fosse uma única vez mais, sem dúvida a última, em minha vida, livremente, sem coação, o que eu sinto, o que eu penso É a primeira vez, e será a última também que eu farei com que vocês corram risco. Esta carta é minha suprema e última tentativa de me reconciliar com a vida: uma vez bem esclarecida a minha posição, eu saberei se devo esperar ainda na esperança de me poder tornar útil segundo as ideias que eu tinha, segundo as ideias que ainda tenho e que sempre serão as minhas, ou se devo morrer. Não me acusem nem de impaciência, nem de fraqueza; seria injusto. Perguntem, ao contrário, ao meu capitão, agora major, ele repetirar-lhes-á o que me disse com frequência; que raramente ele viu um prisioneiro tão racional, tão corajoso quanto eu; estou sempre de bom humor, estou sempre rindo, – e, entretanto, vinte vezes por dia eu gostaria de morrer, de tanto que a minha vida se tornou penosa. Sinto que as minhas forças se esgotam, a minha alma ainda está forte, mas o meu corpo enfraquece; a imobilidade, a inacção forçada, a falta de ar e sobretudo um cruel momento interior que somente um prisioneiro isolado como eu poderá compreender, e que não me dá descanso nem de dia, nem de noite, desenvolveram em mim os germes de uma doença crónica que, por não ser médico, eu não posso definir, mas a cada dia se faz sentir em mim de uma maneira mais desagradável – são, eu penso, hemorróidas, complicadas por outros factores que eu ignoro; os males de cabeça não me abandonam quase nunca; meu sangue está em plena revolta, sobe ao meu peito, à minha cabeça, e sufoca-me a ponto de me tirar a respiração durante horas inteiras, e quase sempre escuto nos meus ouvidos um barulho parecido com aquele que produz a água fervente; duas vezes por dia, infalivelmente, eu tenho febre, antes do meio-dia e à noite, e durante o resto do dia sinto-me atormentado por um mal-estar interior que me queima o corpo, embaraça a minha cabeça e parece querer-me devorar lentamente; - vocês me verão; você me encontrará bem mudado, Tatiana, mesmo depois da última vez que nos vimos; uma vez tive a ocasião de me contemplar num espelho e achei-me terrivelmente feio. Quanto a isso, preocupo-me um pouco; renunciei, já faz muito tempo, aquilo que os velhos como eu chamam de vaidade, e que os jovens denominam, com mil vezes mais razão, a própria essência da vida; para mim permaneceu apenas um único interesse, um único objecto de culto e de fé, – vocês o denominaram e, se não posso viver para ele, não quero viver absolutamente. Pouco me importa a minha feiura, pouco me importaria também com esta doença se ela me quisesse levar a galope; eu não pediria nada melhor do que partir bem rápido com ela; mas rastejar lentamente para o túmulo, embrutecendo-me durante o percurso, eis o que eu não posso consentir. Minha moral ainda se mantém;

domingo, 4 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

Carta a Mathilde Reichel

Se eu mereci a condenação à morte? De acordo com as leis, pelo que eu pude compreender da explicação do meu advogado, sim. Segundo a minha consciência, não. As leis raramente estão de acordo com a história e permanecem quase sempre atrás dela. Eis porque há agitações sobre a terra e sempre haverá. Eu agi segundo a minha melhor convicção e nada busquei para mim mesmo. Fracassei como tantos outros, e alguns melhores, antes de mim, mas o que quis não pode perecer, não porque eu o quis, mas porque aquilo que eu quis é necessário, inevitável. Cedo ou tarde, com maior ou menor sacrifício, isso virá, no sentido de seu direito, de sua realização. Este é o meu consolo, a minha força e a minha fé. Querida amiga, você sonha com um reino dos céus sobre a terra, você crê que a palavra é suficiente para converter o mundo, para conduzir os homens rumo a uma maior humanidade e liberdade. Mas apenas abra os anais da história verá que o menor progresso da humanidade, cada novo fruto vivo cresceu num solo abundantemente regado de sangue humano, e assim podemos esperar que o nosso também não será inteiramente perdido. O próprio Cristo, – ao qual não tenho a intenção de nos comparar – foi condenado à morte como criminoso de Estado pelas leis judaicas. Mas ele não derramou sangue, você dirá. Sim, outros tempos, outros costumes. Para entender esta questão na sua plena verdade, você deve, querida amiga, situar-se num ponto de vista mais elevado.

sábado, 3 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

As prisões



Carta a Mathilde Reichel

No que concerne à minha vida aqui, posso descrevê-la muito simplesmente e em poucas palavras. Tenho um quarto muito limpo, quente e confortável, muita luz e pela janela vejo um pedaço de céu. Levanto-me às sete horas da manhã e tomo café; em seguida sento-me à minha mesa e exercito a matemática até o meio-dia. Ao meio-dia trazem-me o almoço. Após o almoço, jogo-me sobre o leito e leio Shakespeare um passeio; então, colocam-me uma corrente, provavelmente a fim de que eu não fuja, o que seria impossível mesmo sem isso, pois eu passeio entre duas baionetas, e uma fuga da fortaleza de Königstein parece-me impossível. Talvez isto seja também um tipo de símbolo, para me fazer recordar, na minha solidão, os elos indivisíveis que unem cada indivíduo à humanidade inteira. De qualquer forma, enfeitado com esse artigo de luxo, caminho um pouco e admiro de longe as belezas da Suíça saxã. Meia hora depois eu retorno, retiro o meu enfeite e estudo inglês até às seis horas da tarde. Às seis horas, bebo chá e retomo a matemática até às nove e meia.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine - (Raúl Iturra)

A  título de introdução

Carta a seu irmão Pavel

Eu amo, Pavel, eu amo imensamente; eu não sei se posso ser amado como gostaria de sê-lo, mas não desespero; eu sei pelo menos que se tem muita simpatia por mim; eu devo e quero merecer o amor daquela que amo, amando-a religiosamente, quer dizer, activamente; - ela está submetida à mais terrível e à mais infame escravidão; - e devo libertá-la combatendo seus opressores e acendendo em seu coração o sentimento de sua própria dignidade, suscitando nela o amor e a necessidade da liberdade, os instintos da revolta e da independência, lembrando a ela o sentimento de sua força e de seus direitos. Amar é querer a liberdade, a completa independência do outro, o primeiro acto do verdadeiro amor, é a emancipação completa do objecto que se ama; não se pode verdadeiramente amar senão a um ser perfeitamente livre, independente não somente de todos os outros, mas mesmo e sobretudo daquele pelo qual é amado e que ele próprio ama. Eis minha profissão de fé política, social e religiosa, eis o sentido Intimo, não apenas de minhas acções e de minhas tendências políticas, mas também, quanto eu possa, o de minha existência particular e individual, pois o tempo em que estes dois tipos de acção podiam ser separados já está bem longe de nós; agora o homem quer a liberdade em todas as acepções e aplicações desta palavra, ou então ele não a quer absolutamente. Querer, amando, a dependência daquele a quem se ama, é amar uma coisa e não um ser humano, pois este só se distingue da coisa pela liberdade; e também se o amor implicasse a dependência, ele seria a coisa mais perigosa e a mais infame do mundo porque criaria uma fonte inesgotável de escravidão e de degradação para a humanidade. Tudo que emancipa os homens, tudo que, fazendo-os entrar neles mesmos, suscita o princípio de suas próprias vidas, de uma actividade original e realmente independente, tudo que lhes dá a força de serem eles próprios, – é verdadeiro; todo o resto é falso, libertário, absurdo. Emancipar o homem, eis a única influência legítima e benfeitora. Abaixo todos os dogmas religiosos e filosóficos, eles são mentiras; a verdade não é uma teoria, mas um facto; a vida é a comunidade de homens livres e independentes – é a santa unidade do amor brotando das profundezas misteriosas e infinitas da liberdade individual.