Manuela Degerine
Capítulo LXXII
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (conclusão)
Tanta gentileza bastaria para nos dar alento mas, para além dela, também pudemos aliviar as costas, sentar-nos, comer, beber um chá quente... E eu, com a camisola seca e um blusão espesso, sinto agora um agradável conforto. Recomeçamos a caminhar com mais energia.
Encontramo-nos a vinte quilómetros de Ponte de Lima. O percurso continua variado. Passamos por igrejas e espigueiros, olivais, vinhas e culturas, eucaliptos e pinheiros... Voltamos a caminhar por debaixo de videiras suspensas em postes de granito. O piso varia ainda entre o pedregoso, o arenoso, o alcatrão, a calçada... O que mais solicita a nossa atenção é a alternância dos caminhos inundados com a lama escorregadia.
Quase tudo o que vejo me parece bonito. Embora esfumado... Lamento que, com a bruma no ar e a água nas lentes, não possa pormenorizar a paisagem.
Desde a saída de Barcelos ultrapassamos, de vez em quando, três raparigas holandesas e, mais adiante, somos por elas ultrapassados. A partir de Balugães entram na coreografia três alemães e três cães. O pai, um senhor elegante e já idoso, com o seu pequeno teckel preso por uma trela, a mãe, também elegante e ainda jovem, com o seu grande pastor preso por uma trela, o filho, com o seu cão de médio tamanho semelhantemente preso por uma trela. Como há neste pedaço do trajecto algumas capelas com telheiro, eles avançam, ultrapassam-nos e, mais adiante, quando se abrigam no telheiro da capela, nós ultrapassamo-los. (Em Paris tomo às vezes conta de um teckel, um bicho tímido e discreto, com esta expressão melancólica. Lembro-me do Rafeiro dos Olhos Amarelos... Qual não seria, em contrapartida, o seu entusiasmo, através deste caminho, cheio de poças e odores subtis?...)
Doem-me cada vez mais as costas. Diminui a intensidade da chuva, por isso podemos, de vez em quando, fazer uma pausa. Encontramos duas pedras, poisamos plásticos por cima – sentamo-nos durante cinco minutos.
Neste transe frio, chuvoso e lamacento, o meu companheiro de caminhada não fez, ao longo de todo dia, um gesto de enfado ou impaciência. (E, gentilmente, quando tiro a mochila, para mim muito pesada, ajuda-me a colocá-la outra vez às costas.) Replicará o leitor: protestar contra a chuva, uma vã perda de calorias, o tempo é o que é, as nuvens não ouvem alvitres. Adiro a esta sensatez. Porém, no de Santiago como noutros caminhos, tenho encontrado gente que, mesmo em situações menos difíceis, esborrata de mau humor a disposição dos outros.
Atravessamos Vitorino dos Piães, Facha, Leiras, seguimos na direcção de Seara, sucedem-se várias quintas, entre as quais a do Bom Gosto, seus muros sumptuosos de musgo, na Rua do Sobreiro, n°16... Seguem-se Paço, Pedrosa, Barros... Caminhamos numa ponte medieval, vemos mais uma capela, voltamos a passar debaixo de uma vinha, chegamos enfim à beira do rio Lima, onde encontramos o mercado, que ocupa a margem até à ponte famosa.
Precisamos de comprar comida; Gérard Rousse recomenda que nos aprovisionemos pois, durante a etapa de amanhã, não é certo encontrarmos o necessário. (Assinala uma mercearia em Revolta mas não ignoramos como funciona o comércio nas aldeias: estará ou não aberta quando passarmos; e, entre a viagem de Gérard Rousse em 2006 e o presente momento, pode até ter desaparecido.) Avistamos tendas com pães e queijos muito apetitosos, sentimo-nos porém esgotados, não nos resta força para as necessárias compras, de mochila às costas, se pararmos ali ficamos, por conseguinte atravessamos o mercado aos ziguezagues, atentos à sinalização, bastante camuflada, entre tendas e camionetas, tropeçando aqui e além, indo aos bordos, bêbedos de cansaço, alcançamos a ponte, ignorando onde fica o albergue, avistamos de longe um edifício de um belo cor-de-rosa, com janelas amarelas, duas cores que, dirão agora os leitores, não se entendem – pois, aqui, combinam muito bem. Diz Sérgio:
- É além o albergue.
E é mesmo ali.
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domingo, 8 de agosto de 2010
sábado, 7 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo LXXI
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (continuação IV)
Passamos Tamel, Portela, Aborim... Subimos, descemos, voltamos a subir.
Caminhamos por debaixo de vinha suspensa que, com este tempo e mesmo, nesta época, não faz sombra mas, no Verão, deve ser refrescante. O alcatrão e a calçada alternam com terra e areia. Atravessamos pontes por cima de riachos, atravessamos com água pelo cimo das botas, trepamos por taludes e até paredes para evitar charcos mais profundos... As varas de eucalipto revelam-se indispensáveis para sondar a água ou para nos equilibrarmos quando avançamos com um pé em suporte instável...
Entramos em Balugães. Passa do meio-dia e chove a cântaros. Com tal ritmo a que horas chegaremos a Ponte de Lima?... Percorremos treze quilómetros e meio com esta chuva – que nunca diminuiu. Não nos sentámos durante toda a manhã, não parámos sequer para comer, pois impor-se-ia poisar as mochilas, estando tudo inundado e cheio de lama. Doem-me as costas, sinto-me gelada. Por isso, vejo um portão aberto, chamo os donos da casa. Acorre uma senhora. Inquiro se podemos abrigar-nos.
Capítulo LXXI
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (continuação IV)
Passamos Tamel, Portela, Aborim... Subimos, descemos, voltamos a subir.
Caminhamos por debaixo de vinha suspensa que, com este tempo e mesmo, nesta época, não faz sombra mas, no Verão, deve ser refrescante. O alcatrão e a calçada alternam com terra e areia. Atravessamos pontes por cima de riachos, atravessamos com água pelo cimo das botas, trepamos por taludes e até paredes para evitar charcos mais profundos... As varas de eucalipto revelam-se indispensáveis para sondar a água ou para nos equilibrarmos quando avançamos com um pé em suporte instável...
Entramos em Balugães. Passa do meio-dia e chove a cântaros. Com tal ritmo a que horas chegaremos a Ponte de Lima?... Percorremos treze quilómetros e meio com esta chuva – que nunca diminuiu. Não nos sentámos durante toda a manhã, não parámos sequer para comer, pois impor-se-ia poisar as mochilas, estando tudo inundado e cheio de lama. Doem-me as costas, sinto-me gelada. Por isso, vejo um portão aberto, chamo os donos da casa. Acorre uma senhora. Inquiro se podemos abrigar-nos.
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sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Deerine
Capítulo LXX
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (continuação III)
Passamos por casas, vinhas e hortas, ouvimos berrar ovelhas, vemos, de vez em quando, uma vedação com lajes verticais. A água intensifica as cores, dá às pedras um brilho luzidio, faz inchar o musgo, o sedum e todas as plantas que crescem em cima dos muros. Os campos são na maioria verdes, não raro amarelos, uma ou outra vez castanhos: algo semeado e não nascido. Sucedem-se os rectângulos com batatas, com favas, com ervilhas, com couves... Muitos lugares começam a cobrir-se com vinha suspensa em postes de granito.
Enganamo-nos no caminho, uma mulher corre pela rua abaixo, para se abrigar deste derrame atmosférico – avisa-nos. Não manifesta qualquer estranheza, sabe por que razão ali passamos.
Berro na direcção das nuvens.
- Está o caldo entornado!
Chega-me a réplica redobradamente líquida.
Capítulo LXX
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (continuação III)
Passamos por casas, vinhas e hortas, ouvimos berrar ovelhas, vemos, de vez em quando, uma vedação com lajes verticais. A água intensifica as cores, dá às pedras um brilho luzidio, faz inchar o musgo, o sedum e todas as plantas que crescem em cima dos muros. Os campos são na maioria verdes, não raro amarelos, uma ou outra vez castanhos: algo semeado e não nascido. Sucedem-se os rectângulos com batatas, com favas, com ervilhas, com couves... Muitos lugares começam a cobrir-se com vinha suspensa em postes de granito.
Enganamo-nos no caminho, uma mulher corre pela rua abaixo, para se abrigar deste derrame atmosférico – avisa-nos. Não manifesta qualquer estranheza, sabe por que razão ali passamos.
Berro na direcção das nuvens.
- Está o caldo entornado!
Chega-me a réplica redobradamente líquida.
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo LXIX
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (continuação II)
Sérgio tem um vasto impermeável que veste e, nas costas, lhe cobre igualmente a mochila. Todas as marcas propõem uma gama diversa e eu percorri, com método e pertinácia, os grandes supermercados que em Paris propõem este género de equipamentos, analisei dezenas de etiquetas sobre botas, mochilas, peúgas, camisolas, sacos-cama – e, claro, também, impermeáveis. Porém, havia pouco, eu atravessara a canícula até Santarém, achei estas gabardinas excessivas para o clima português, parecendo-me inconcebível que em Maio chovesse como anteontem: durante um dia inteiro. (Confesso este desespero meteorológico: quando me encontro atarantada de calor, parece-me milagroso – e portanto improvável – que volte a chover ou fazer frio.)
Tinha uma capa com capuz, que todavia hesitei em trazer, por a achar demasiado pesada; acrescentei-lhe um velho impermeável usado, durante dez anos, em dezenas de caminhadas. Verifico agora que o equipamento de Sérgio é mais prático do que o meu: basta vestir uma só peça por cima de tudo o resto. Ignoro aliás o que se passou no sábado: cheguei a Vilarinho molhada. Por onde entrou a água?
Chove cada vez mais. Tiro a mochila, poiso-a num muro, agarro o impermeável e a capa que, esta manhã, transbordando optimismo, arrumei no fundo, visto o impermeável, enfio a mochila, ponho – com a ajuda de Sérgio – a capa por cima da mochila.
Continua a chover com força. Prosseguimos o caminho. Eu, cegueta, com água a escorrer pelas lentes, lamentando não haver nos óculos um equivalente do limpa pára-brisas. (Eis uma ideia para os designers finlandeses.) Não pus as polainas, erro meu, má fortuna, pensei que a chuva abrandasse, porém muito pelo contrário, despejam-nos os tanques do céu pela cabeça abaixo, só falta caírem os peixes, perdoem os leitores a imagem, parecerá por desventura absurda, mas patinhamos dentro de um aquário, a água entra-me para dentro das botas, embora bem ajustadas ao tornozelo, não acho graça à brincadeira, contudo agora, afogada neste iguaçú, atolada neste pantanal, onde poisar a mochila... Continuamos a caminhar. Um quilómetro mais adiante, surge um recanto abrigado, aproveito para ajustar as polainas – e encontro, por debaixo da capa, a mochila toda molhada. Portanto a capa deixou de ser impermeável... Avisto um contentor verde, calha mesmo bem: molhada por molhada, vou assim mais leve. Porém, como proteger as bagagens? Uma mochila possui espumas que, se absorverem água, a tornam mais pesada. Trouxe dois grandes sacos de plástico: ponho um à volta da mochila e o outro por cima da bolsa.
Parece que todos os rios da terra desaguam por cima das nossas cabeças. Caminhamos tentando, em primeiro lugar, ver a sinalização, porém a visibilidade é curta e as imagens deformadas, avançamos de olhos encarquilhados, buscando ajustar a vista – pitosgas de todo. Subimos, descemos. Passamos à beira de uma linha de comboio. Atravessamos um pinhal. Chegamos a Lijó.
Os caminhos encontram-se inundados. Felicito-me por ter sido ao menos tão paciente, para além de todos os meus erros e defeitos, não comprei um impermeável satisfatório mas carreguei com as botas durante quatro pesados dias – de outra maneira seria agora impossível prosseguir. Estas botas são rígidas e pesadas mas oferecem uma impermeabilidade a toda a prova e propriedades antiderrapantes seja na lama, seja em pedras soltas, seja aliás onde for.
Coloquei o roteiro dentro de uma capa: tento ler através da água e do plástico. Costumo apontar elementos da paisagem num caderno – agora guardei-o na bolsa. E, debaixo desta catarata, não me atrevo a tirar a máquina do estojo protector e dos vários sacos em que a protegi: não guardarei imagens do dilúvio.
Capítulo LXIX
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (continuação II)
Sérgio tem um vasto impermeável que veste e, nas costas, lhe cobre igualmente a mochila. Todas as marcas propõem uma gama diversa e eu percorri, com método e pertinácia, os grandes supermercados que em Paris propõem este género de equipamentos, analisei dezenas de etiquetas sobre botas, mochilas, peúgas, camisolas, sacos-cama – e, claro, também, impermeáveis. Porém, havia pouco, eu atravessara a canícula até Santarém, achei estas gabardinas excessivas para o clima português, parecendo-me inconcebível que em Maio chovesse como anteontem: durante um dia inteiro. (Confesso este desespero meteorológico: quando me encontro atarantada de calor, parece-me milagroso – e portanto improvável – que volte a chover ou fazer frio.)
Tinha uma capa com capuz, que todavia hesitei em trazer, por a achar demasiado pesada; acrescentei-lhe um velho impermeável usado, durante dez anos, em dezenas de caminhadas. Verifico agora que o equipamento de Sérgio é mais prático do que o meu: basta vestir uma só peça por cima de tudo o resto. Ignoro aliás o que se passou no sábado: cheguei a Vilarinho molhada. Por onde entrou a água?
Chove cada vez mais. Tiro a mochila, poiso-a num muro, agarro o impermeável e a capa que, esta manhã, transbordando optimismo, arrumei no fundo, visto o impermeável, enfio a mochila, ponho – com a ajuda de Sérgio – a capa por cima da mochila.
Continua a chover com força. Prosseguimos o caminho. Eu, cegueta, com água a escorrer pelas lentes, lamentando não haver nos óculos um equivalente do limpa pára-brisas. (Eis uma ideia para os designers finlandeses.) Não pus as polainas, erro meu, má fortuna, pensei que a chuva abrandasse, porém muito pelo contrário, despejam-nos os tanques do céu pela cabeça abaixo, só falta caírem os peixes, perdoem os leitores a imagem, parecerá por desventura absurda, mas patinhamos dentro de um aquário, a água entra-me para dentro das botas, embora bem ajustadas ao tornozelo, não acho graça à brincadeira, contudo agora, afogada neste iguaçú, atolada neste pantanal, onde poisar a mochila... Continuamos a caminhar. Um quilómetro mais adiante, surge um recanto abrigado, aproveito para ajustar as polainas – e encontro, por debaixo da capa, a mochila toda molhada. Portanto a capa deixou de ser impermeável... Avisto um contentor verde, calha mesmo bem: molhada por molhada, vou assim mais leve. Porém, como proteger as bagagens? Uma mochila possui espumas que, se absorverem água, a tornam mais pesada. Trouxe dois grandes sacos de plástico: ponho um à volta da mochila e o outro por cima da bolsa.
Parece que todos os rios da terra desaguam por cima das nossas cabeças. Caminhamos tentando, em primeiro lugar, ver a sinalização, porém a visibilidade é curta e as imagens deformadas, avançamos de olhos encarquilhados, buscando ajustar a vista – pitosgas de todo. Subimos, descemos. Passamos à beira de uma linha de comboio. Atravessamos um pinhal. Chegamos a Lijó.
Os caminhos encontram-se inundados. Felicito-me por ter sido ao menos tão paciente, para além de todos os meus erros e defeitos, não comprei um impermeável satisfatório mas carreguei com as botas durante quatro pesados dias – de outra maneira seria agora impossível prosseguir. Estas botas são rígidas e pesadas mas oferecem uma impermeabilidade a toda a prova e propriedades antiderrapantes seja na lama, seja em pedras soltas, seja aliás onde for.
Coloquei o roteiro dentro de uma capa: tento ler através da água e do plástico. Costumo apontar elementos da paisagem num caderno – agora guardei-o na bolsa. E, debaixo desta catarata, não me atrevo a tirar a máquina do estojo protector e dos vários sacos em que a protegi: não guardarei imagens do dilúvio.
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terça-feira, 3 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo LXVIII
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima
Saímos dos bombeiros antes das sete, atravessamos o largo da feira, encontramos a sinalização amarela, seguimos na direcção de Vila Boa. Começa então a chover. Na preparação da viagem, preveni-me do calor que, imaginava eu, me estragaria o mês de Maio...
O menos perspicaz dos meus leitores terá percebido que não morro de amores por este adversário do conforto, da estética e do espírito crítico portugueses. O calor é um mau momento que em Lisboa se prolonga por, no mínimo, três meses. O calor obriga-me a passar o Verão dentro de casa e de meia dúzia de outros espaços, como a Torre do Tombo ou a biblioteca nacional, onde encontro trabalho absorvente e um mínimo de frescura, impede-me de fazer, no tempo livre, aquilo que prefiro, isto é, andar pelas ruas, a pé ou de bicicleta, leva-me, por razões estritamente térmicas, a maiores despesas, pois faço compras em sítios nos quais, durante o Inverno, nunca ponho os pés. O calor desnuda os corpos e, ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, nem todos os corpos ganham em se desnudarem: os pêlos, as banhas, as varizes, as cicatrizes, as marrecas, as pernas cambas e as carnes flácidas expõem-se na glória estival e constituem, na Avenida Almirante Reis que, cada dia, subo e desço, um desfile de pesadelo. (Já nem falo das praias onde, durante o Verão, não arrisco os olhos.)
O prazer do calor tornou-se em Portugal um lugar-comum. A palma da doxa preguiçosa, do cavaco estereotipado e portanto da vulgar brotoeja pertence com justiça aos locutores da Antena 1 que, cada dia, a meio da manhã ou da tarde, vos dão os pêsames logo que passa uma nuvem no céu.
Uma amiga francesa, vinda em Julho a Lisboa, diz-me um dia, prostrada pela canícula:
- Fico admirada com os portugueses... Ainda há pouco, na rua, olhava para as pessoas: manifestam um estoicismo espantoso, parece que nem sofrem com tanto calor...
Explico que o fenómeno resulta da auto-sugestão. Os portugueses ouvem dizer que nada existe de mais agradável que o calor, sinónimo de sol, areia e escaldões, tudo supinamente agradável, tudo supostamente saudável, por conseguinte, mesmo quando sofrem, no meio das ovelhas termófilas, para não chamar a atenção, conseguem convencer-se do contrário. O sol provoca o cancro da pele – que importa? O calor reduz a capacidade de acção e até, com frequência, mata – porém os portugueses comportam-se como se delicioso lhes parecesse e passam férias no Brasil quando, se buscassem bem-estar, prefeririam a Serra da Estrela. A maioria das pessoas tem medo de manifestar gostos, opções e opiniões singulares, esconde-se atrás dos outros e, por a Antena 1 dizer que, havendo nuvens, deve ficar “tristinha” – fica de imediato “tristinha”.
Eu rejeito os diminutivos e o conformismo.
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine
Capítulo LXVII
Décima sétima etapa: de Vilarinho a Barcelos (conclusão)
Chegamos a Góios, depois a Pereira, onde por fim deixamos a N306, voltamos ao campo, atravessamos aldeias, caminhando até, durante alguns metros, debaixo de uma latada.
Vemo-nos por fim nos arredores de Barcelos. Gérard Rousse despacha os últimos quilómetros com duas frases; é uma constante em cada fim de etapa. Explico isto a Sérgio.
- O Gérard já vai cansado...
Passamos por uma rotunda, debaixo de uma via rápida, ao lado do cemitério. Doem-me os pés e as costas cada vez mais e começo a tropeçar de vez em quando; apoio-me na vara de eucalipto. Vinte e cinco quilómetros deve ser, com uma pesada mochila às costas, a medida da minha energia: para além desta distância, perco um pouco os reflexos.
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domingo, 1 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine
Capítulo LXVI
Décima sétima etapa: de Vilarinho a Barcelos (continuação II)
O italiano chama-se Sérgio. Para esconjurar mal-entendidos, aviso, sem precauções oratórias, apenas se aproxima, não só sou lenta, também gosto de parar, de olhar, de conversar, não vim aqui fazer ginástica, perder quilos, mortificar o corpo, passear o tédio, mas ver, ouvir e apreciar, por conseguinte, se lhe apetece devorar quilómetros, avante e boa viagem, voltaremos a encontrar-nos, se tal for o nosso fado. Ele replica, algo surpreendido, que não tem pressa: apanhou o avião para andar a pé.
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sábado, 31 de julho de 2010
Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine
Capítulo LXV
Décima sétima etapa: de Vilarinho a Barcelos (continuação)
Sigo pela N306, quilómetro 78 e seguintes. A beira da estrada é verde com algumas flores amarelas, há uma barreira íngreme, também verde, identifico feto, musgo, sedum e, lá em cima, de um e do outro lado, uma mata de eucaliptos. O temporal espalhou pernadas pelo meio da estrada; puxo as maiores para a valeta. Chego à ponte que atravessa o rio Ave. Não a ponte romana, de que o roteiro fala; esta é moderna. Paro para olhar: de um lado, eucaliptos, do outro, ao longe, terrenos cultivados, um pouco de vinha, talvez outras culturas, das quais só distingo os rectângulos e as diferentes tonalidades de verde.
Chego à Junqueira quando – de repente – reparo: não trouxe o bordão! As finlandesas camuflaram-no por debaixo de oito varas e suspenderam vinte impermeáveis por cima. Com tamanha barafunda naquela divisão e, para mais, não acendendo as luzes, para não as incomodar... Não admira que o não visse.
Que fazer? Caminhei cinco quilómetros. Voltar atrás? Juntar dez quilómetros de caminhada aos vinte e oito da etapa? Pedir boleia? Passam raros carros... As finlandesas terão saído, encontrarei o abrigo fechado, idem para a farmácia, por ser domingo, a farmacêutica estará ou não em casa... Prefiro não arriscar.
O bordão evitou-me decerto algumas quedas. Daqui em diante, quando tropeçar, como me equilibro?
Ocorre-me a história de Gandhi: tendo partido o espelho, barbeou-se sem ele, sentindo-se mais livre. É a versão indiana da peripécia grega... Diógenes, vendo uma criança beber nas mãos, também abandonou a supérflua tijela. Sou menos filósofa do que Gandhi e Diógenes: lamento a perda do bordão. Porém... O que não tem remédio, remediado está: comprarei outro, logo que possa. Como uma barra, para me consolar – e prossigo o caminho.
Quando atravesso Bagunte, chuvisca um pouco. Tiro o impermeável da mochila? Prevendo a chuva, arrumei-o no cimo. Entro no café para beber um copo de leite e adiar a operação, compro uma bola, demasiado branca – não há outra variedade. Apesar de se sentirem pouco confortáveis, talvez os meus pés não tenham bolhas; prefiro prosseguir sem mais pormenores.
Deixou entretanto de chuvinhar, embora pareça que, levantando os braços, me penduro na borracha cinzenta que tapa todo o céu. As quedas de água da madrugada não esvaziaram os aéreos depósitos...
Desço um trilho inclinado, pelo qual a chuva terá, durante a noite, corrido em enxurrada, transformando-o em ribeiro, atenta para não escorregar, entre pedras e lama, quando aparece o peregrino italiano.
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sexta-feira, 30 de julho de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo LXIV
Décima sétima etapa: de Vilarinho a Barcelos
Após o dilúvio da madrugada, os caminhos continuam alagados. Portanto, novidade do dia: arrumei os crocs. Impossibilitada de usar este imaterial calçado, interroguei-me, algo inquieta, enquanto redobrava o nó dos atacadores, que parte dos vinte e oito quilómetros caminharia com as botas. Talvez poucos metros...
Se não as aguentar, abandono a caminhada, pois será insensato, com feridas nos pés, enfiá-los em lama e águas sujas. No entanto, uma vez saída de Vilarinho, até a desistência se complica, por não haver transportes públicos. Restar-me-á pedir boleia – um recurso do qual, por razões de segurança, não convém abusar.
Sempre que, excepcionalmente, recorri a esta solução, conheci pessoas com as quais, de outra maneira, nunca teria contactado. Quase todos dispomos, mesmo vivendo numa capital, de um círculo de relações homogéneo e eu, tanto em Lisboa, como em Paris, convivo com pintores, escritores, doutores, seres únicos e preciosos – os meus amigos. No entanto também me interessa ouvir os outros, aqueles cujos trabalhos eu não imaginava de maneira concreta: transportar – e descarregar – papel para reciclagem, desenhar barras sinaléticas nas estradas, levar água às vacas nos prados... Estes condutores, capazes de parar, de levar uma desconhecida, contaram-me, nos limites de um trajecto, as suas ocupações e preocupações, as suas vidas familiares, os seus sonhados projectos; tais conversas, algumas muito curtas, outras de uma ou duas horas, representam contributos decisivos para o que hoje sou – e ensinaram-me mais do que a maioria dos professores na Faculdade de Letras de Lisboa. (E no entanto tive boa formação universitária.)
Consciente dos riscos de um mau encontro, reservo contudo a boleia para circunstâncias excepcionais. Na verdade... Uma mulher prudente não partiria agora para Bagunte.
Estou a vê-la... Entra no café e, embora pareça só, o dono não se surpreende, por cada dia atender, às mesmas horas, gente com mochila e bizarros costumes. Todavia esta mulher encomenda em português um galão e inquire a que horas passa a camioneta de Vila do Conde. Aqui ele mira-a com mais atenção: de manhã os estrangeiros costumam prosseguir a pé e só à tarde, quando o abrigo se enche, buscam meios de transporte colectivo.
- É portuguesa...
- Sou.
- Não vai para Santiago?
- Ia... Mas tenho várias bolhas, não posso calçar as botas, mais vale regressar a casa.
- Vem a pé de onde?
- Do Porto.
A Mulher Prudente não pode vir de Lisboa. Se vem de Lisboa, abandone ou não a caminhada em Vilarinho, sem ser imprudente, opta todavia por – em certas circunstâncias – correr alguns riscos. Já o leitor tirou as lógicas conclusões: não sou esta mulher. Por isso – agora parto. (Descubro-me como oximoro ambulante: a ousada prudência e a cautela aventurosa são a minha especialidade.)
É domingo. Seis e meia da manhã. Vejo um céu carregado de cinzento – convém aproveitar enquanto as nuvens hesitam. Sem dúvida, em alguns lugares, a tromba de água arrastou pedras, criou torrentes... Será possível prosseguir? E se de súbito algum temporal transformar em ribeira o trilho onde me encontro? Ocorrem-me imagens de telejornal, pontes derruídas, carros arrastados, casas demolidas, ravinas derrocadas, árvores arrancadas, em plena Europa, alguns em Portugal, até em lugares por onde passo: perto de Queluz, morreu uma mulher, dentro de um carro, levada pelas águas, num percurso quotidiano.
O meu roteiro indica um atalho através da mata. Desta vez, por causa da lama e destes receios, prefiro caminhar à beira da estrada – agora não há carros.
É de manhã, levo as botas calçadas: sinto a mochila leve e caminho com gosto. Devoro uma sandes. Depois, sentindo ainda fome, vou trincando nozes, uma barra, uma banana... Conservo um apetite de ogre. Bom sinal.
Cai-me, ora na cara, ora nas mãos, de vez em quando, uma gota de chuva.
Capítulo LXIV
Décima sétima etapa: de Vilarinho a Barcelos
Após o dilúvio da madrugada, os caminhos continuam alagados. Portanto, novidade do dia: arrumei os crocs. Impossibilitada de usar este imaterial calçado, interroguei-me, algo inquieta, enquanto redobrava o nó dos atacadores, que parte dos vinte e oito quilómetros caminharia com as botas. Talvez poucos metros...
Se não as aguentar, abandono a caminhada, pois será insensato, com feridas nos pés, enfiá-los em lama e águas sujas. No entanto, uma vez saída de Vilarinho, até a desistência se complica, por não haver transportes públicos. Restar-me-á pedir boleia – um recurso do qual, por razões de segurança, não convém abusar.
Sempre que, excepcionalmente, recorri a esta solução, conheci pessoas com as quais, de outra maneira, nunca teria contactado. Quase todos dispomos, mesmo vivendo numa capital, de um círculo de relações homogéneo e eu, tanto em Lisboa, como em Paris, convivo com pintores, escritores, doutores, seres únicos e preciosos – os meus amigos. No entanto também me interessa ouvir os outros, aqueles cujos trabalhos eu não imaginava de maneira concreta: transportar – e descarregar – papel para reciclagem, desenhar barras sinaléticas nas estradas, levar água às vacas nos prados... Estes condutores, capazes de parar, de levar uma desconhecida, contaram-me, nos limites de um trajecto, as suas ocupações e preocupações, as suas vidas familiares, os seus sonhados projectos; tais conversas, algumas muito curtas, outras de uma ou duas horas, representam contributos decisivos para o que hoje sou – e ensinaram-me mais do que a maioria dos professores na Faculdade de Letras de Lisboa. (E no entanto tive boa formação universitária.)
Consciente dos riscos de um mau encontro, reservo contudo a boleia para circunstâncias excepcionais. Na verdade... Uma mulher prudente não partiria agora para Bagunte.
Estou a vê-la... Entra no café e, embora pareça só, o dono não se surpreende, por cada dia atender, às mesmas horas, gente com mochila e bizarros costumes. Todavia esta mulher encomenda em português um galão e inquire a que horas passa a camioneta de Vila do Conde. Aqui ele mira-a com mais atenção: de manhã os estrangeiros costumam prosseguir a pé e só à tarde, quando o abrigo se enche, buscam meios de transporte colectivo.
- É portuguesa...
- Sou.
- Não vai para Santiago?
- Ia... Mas tenho várias bolhas, não posso calçar as botas, mais vale regressar a casa.
- Vem a pé de onde?
- Do Porto.
A Mulher Prudente não pode vir de Lisboa. Se vem de Lisboa, abandone ou não a caminhada em Vilarinho, sem ser imprudente, opta todavia por – em certas circunstâncias – correr alguns riscos. Já o leitor tirou as lógicas conclusões: não sou esta mulher. Por isso – agora parto. (Descubro-me como oximoro ambulante: a ousada prudência e a cautela aventurosa são a minha especialidade.)
É domingo. Seis e meia da manhã. Vejo um céu carregado de cinzento – convém aproveitar enquanto as nuvens hesitam. Sem dúvida, em alguns lugares, a tromba de água arrastou pedras, criou torrentes... Será possível prosseguir? E se de súbito algum temporal transformar em ribeira o trilho onde me encontro? Ocorrem-me imagens de telejornal, pontes derruídas, carros arrastados, casas demolidas, ravinas derrocadas, árvores arrancadas, em plena Europa, alguns em Portugal, até em lugares por onde passo: perto de Queluz, morreu uma mulher, dentro de um carro, levada pelas águas, num percurso quotidiano.
O meu roteiro indica um atalho através da mata. Desta vez, por causa da lama e destes receios, prefiro caminhar à beira da estrada – agora não há carros.
É de manhã, levo as botas calçadas: sinto a mochila leve e caminho com gosto. Devoro uma sandes. Depois, sentindo ainda fome, vou trincando nozes, uma barra, uma banana... Conservo um apetite de ogre. Bom sinal.
Cai-me, ora na cara, ora nas mãos, de vez em quando, uma gota de chuva.
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