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domingo, 27 de junho de 2010

Caetano José da Silva Souto-Maior, um alentejano na corte de D.João V e uma figura popular de Lisboa - 2

Carlos Luna

 

Note-se que o "Camões do Rossio", apesar do seu espírito folgazão e "satirizante", era "um erudito de valor, muito estudioso e conhecedor das leis". O Padre D. Manuel Caetano de Sousa, em 1720, escolheu-o para ser membro da Academia Real de História, ao lado de 49 pares. Foi encarregado de escrever as "Memórias Eclesiásticas do Bispado de Leiria". Regularmente, publicava relatórios dos seus estudos académicos, e era assíduo nas reuniões convocadas na Academia, ou noutras instituições. Deixou escritas ( e algumas ainda não publicadas várias obras de carácter jocoso, e até uma colecção de Sonetos Cómicos. Escreveu também composições muito "sérias", como "Epicédios na Morte da Serníssima Senhora D. Francisca, Infanta de

Portugal", "Glória de Erice: Epitalâmio ao casamento dos Ex.mos Snrs. D. Francisco Xavier de Meneses e D. Maria José da Graça e Noronha", "Óperas de Metastásio (tradução)", "Catálogo dos Bispos de Leiria",
"Contas dos Estudos Académicos do Paço", e "Silva e Romance ao ser reeleita Abadessa de Santa Clara de Lisboa a Madre D.

Margarida Bautista". Num estilo completamente diferente, a que adiante se fará ampla referência, terá escrito "A Martinhada". Caetano José tinha mesmo alguma qualidade. Afinal, ele nem sequer escreveu principalmente poemas satíricos, como veremos nos dois sonetos seguintes.

O primeiro destinava-se a uma Dama da Corte, e procurava convencê-la a viver a vida, e a não continuar doentiamente a chorar em frente a uma pintura que representava a sua mãe falecida.

Senhora, esse retrato, esse portento
tanta saudosa dor nunca alivia,
que a memória da amada companhia
não melhora, duplica o sentimento.


Lembrado, o bem perdido é mal violento,
e ofende essa pintura a fantasia.
Não pode ser remédio, é tirania
fazer parcial do dano o entendimento.


Fugi dessa belíssima aparência
que o pranto justamente vos persuade
que as lágrimas fez crédito de ausência.


E o vosso amor, das cores na verdade,
há-de achar, para abono da impaciência,
a formosura unida co`a saudade.



O outro punha Afonso de Albuquerque, numa atitude generosa. O polémico guerreiro teria deixado rderem-se num naufrágio muitas riquezas para salvar uma menina indiana de ser tragada pelas águas. É supostamente Albuquerque que fala, dirigindo-se ao mar.

Não assustes, oh bárbaro elemento,
a inocente, que tenho ao peito unida,
que a glória desta acção compadecida
respeita até das ondas o violento.




Tu logras o furor, eu logro o intento
de ficarmos com sorte repartida.
Asilo nobre de uma tenra vida
sepulcro avaro de ouro macilento.


Se tenho a varonil integridade,
que consegues no horror dessa inclemência
ou que importa a infeliz calamidade ?


Quando fica no exemplo da violência
desprezado o interesse da piedade
e vencida a desgraça da inocência.


(Continua)

sábado, 26 de junho de 2010

Caetano José da Silva Souto-Maior, um alentejano na corte de D.João V e uma figura popular de Lisboa - 1

Carlos Luna

Caetano Jozé da Sylva Sotomayor (ortografia antiga), modernamente um quase desconhecido, nasceu muito provavelmente em 1694, filho de Gaspar da Silva Moniz, "Provedor dos Reynos" e de Isabel Teresa
Sotomaior, Dama da Rainha D. Maria Ana da Áustria, esposa de D. João V. Faleceu em 18 de Agosto de 1739.

Note-se que, entre as famílias nobres, e até ao Século XIX, o apelido de pai precedia o de mãe em Portugal, tal como sucede ainda hoje em Espanha. Souto-Maior (usando agora a ortografia moderna ) era conhecido, no seu tempo, por "Camões do Rossio". A sua popularidade no Corte de D. João V, e principalmente em Lisboa, deixou rastos, inclusivamente na Literatura. Inácio Feijó e Almeida Garrett escreveram uma comédia intitulada "O Camões do Rossio", o que dá uma idéia de quão conhecido
era e de que forma era visto como representando toda uma época. O seu nome foi dado ao actual Largo D. João da Câmara, em frente da Estação do Rossio, até que, na década de 1930, um vereador da Câmara de
Lisboa, ignorante, pensando que tal "Camões" se referia ao imortal poeta Luís de Camões, mandou substituir o topónimo, com o argumento de que jà existia em Lisboa uma Praça Luís de Camões. Note-se ainda que
Souto-Maior é visto por Feijó e Garrett só como filho de uma época que para eles, liberais, era símbolo de tirania e mediocridade, e, logo, é considerado uma figura ridícula. Um claro exagero, desculpável no
contexto das paixões do Século XIX.