Manuela Degerine
Capítulo XXXI
Pedalada
Eu nasci em Lisboa mas cresci em Queluz e, mesmo quando andava na universidade, embora viesse, quando tinha tempo, à cinemateca, a museus, a bibliotecas, à Feira do Livro, a manifestações, na prática, cada dia, durante aqueles cinco anos, apressei-me do comboio para o metro e, quotidianamente, só frequentei a Faculdade de Letras. Depois fui viver para França.
Em Paris tenho um cartão, gratuito e de duração ilimitada, com o qual apanho todos os transportes públicos, pagando a mensalidade correspondente à zona em que quero circular – é barato e muito prático. Sendo funcionária pública, quando estou a dar aulas, reembolsam-me metade da mensalidade correspondente ao trajecto entre o domicílio e o local de trabalho; e algumas empresas privadas reembolsam até a totalidade. Ora em Lisboa, desde o dia 22 de Novembro, data em que me roubaram a precedente colecção, já juntei um Viva que, ignoro por que razão, ficou inutilizável, não obstante os cuidados, evitando dobrá-lo, evitando o contacto com o telemóvel, segundo Viva, que utilizei na linha de Sintra e na Fertagus, com o qual não posso andar na linha de Cascais, terceiro Viva com duas viagens de metro, que não serve na CP, nem na Carris, nem na Fertagus e quarto Viva com dois euros que, a qualquer altura, por qualquer outra razão, quando menos esperar, não poderei utilizar aqui, nem ali nem acolá. Quando saio levo os três cartões mais ou menos válidos, nunca se sabe, cuja validade máxima, claro, não ultrapassa um ano; isto seria simplificar, o que é contrário a todos os princípios que regem os transportes públicos na região de Lisboa. Cada vez que os cartões não servem para isto ou aquilo, por isto ou por aquilo, cumpre comprar outro; mais cinquenta cêntimos. Não me leva à ruína – mas como é que faz quem ganha o salário mínimo? Sobretudo isto revela uma mentalidade: valem todos os pretextos para depenar o utente. E para o dissuadir de apanhar transportes públicos.
Eu, na verdade, desisto. A minha paciência é grande no que contribui para a qualidade de vida; mas tem limites. Por isso, na maior parte das vezes, vou a pé. Esta cidade ultrapassa a mediocridade dos transportes públicos, não com mais carros – isso são reflexos de um passado monomaníaco – mas com outras opções.
A vantagem de uma andarilha viver nos Anjos é que, num instante, mesmo a pé, chega a todos os pontos da cidade. A Baixa? Dez minutos. A Gulbenkian? Quinze. O Chiado? Outros quinze. O CCB? Vou pela beira do Tejo.
Amo esta cidade com proporções perfeitas e todas as características de uma capital: museus e cinemas e teatros e lojas. E tanta diversidade. Isto é muito raro. As cidades costumam ter dimensões monstruosas. Ou serem provincianas. Aliás muitas acumulam até os dois defeitos.
Onde está a província nesta época global? Perguntará o leitor. Está na escassez de espaços culturais. Ou na necessidade de ser índigena para ter acolhimento. Ser do Porto (é apenas um exemplo) para expor no Porto; isto conduz sempre a um resultado pobre.
Em Lisboa deliciei-me há pouco com um festival intitulado Todos, caminhada de culturas, no qual – da música à culinária, passando pela fotografia, pelo cinema, por espectáculos de rua, por diversas outras festividades – a riqueza cultural do meu bairro teve fulgor. Gosto deste cosmopolitismo. E desta exigência; tivemos direito ao melhor. (Vivi uma das mais marcantes experiências musicais da minha vida num recital de guitarra chinesa. Aprendi a fazer comida indiana...)
E Lisboa tem o Tejo ao fundo da rua. Agora tem até mais Tejo porque enfim, graças à ciclovia, podemos admirá-lo num percurso de sete quilómetros. Por enquanto só andei na zona ribeirinha a pé mas projecto equipar-me dentro de pouco tempo com uma bicicleta. Chegarei depressa ao CCB. E ao Museu da Arte Antiga. E...
Sinto-me cada vez mais lisboeta.
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domingo, 27 de junho de 2010
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo V
Etapa 2, de Alverca à Azambuja
Segunda parte: Azambuja
Aí está a Azambuja, pequena mas não triste povoação, com visíveis sinais de vida, asseadas e com ar de conforto as suas casas.
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra
O que farás, leitor aventureiro, se a imprudência te conduzir a este extremo? Após um balanço muito rápido, já que a solução é urgente, eu concluo que me não resta outro recurso: peço boleia. Parece um risco mas, comparado com os camiões, um risco sensato. Estendo o polegar, três minutos depois pára um carro, vejo um rapaz com aspecto correcto, pergunto se vai para a Azambuja – ele chama-se Dmytro e tem os olhos verdes. Oferece-me uma água neste café da Azambuja.
Almeida Garrett dedica o terceiro capítulo das suas Viagens à descrição do café, que não pode ser clássica, por estar fora de moda, devera ser romântica, o que não convém, por o romantismo de 1843 não ser verosímil, invoca por isso a fé de Boileau: a verdade. Nada, nada, verdade e mais verdade. Encontro-me aqui em simétrica posição. Também devera, seguindo a elegância do meu tempo, pôr aqui um rap, espalhar seringas no chão, convidar traficantes guest star, iá, lançar tags nas paredes, animar tudo com palavrões... Ficava o café da Azambuja digno do CCB. Todavia... Na verdade quase nada o distingue, nem sequer o mau gosto, da maioria dos cafés de Lisboa. Demorei eu tanto para aqui chegar... Andei tantos quilómetros a pé... Corri tantos riscos... Ficam os leitores desiludidos? Eu também. Bebo uma Água das Pedras com a rodela de limão. Para me consolar. Sabe-me bem. Única particularidade: há moscas. Moscas que picam e que ninguém consegue enxotar.
Capítulo V
Etapa 2, de Alverca à Azambuja
Segunda parte: Azambuja
Aí está a Azambuja, pequena mas não triste povoação, com visíveis sinais de vida, asseadas e com ar de conforto as suas casas.
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra
O que farás, leitor aventureiro, se a imprudência te conduzir a este extremo? Após um balanço muito rápido, já que a solução é urgente, eu concluo que me não resta outro recurso: peço boleia. Parece um risco mas, comparado com os camiões, um risco sensato. Estendo o polegar, três minutos depois pára um carro, vejo um rapaz com aspecto correcto, pergunto se vai para a Azambuja – ele chama-se Dmytro e tem os olhos verdes. Oferece-me uma água neste café da Azambuja.
Almeida Garrett dedica o terceiro capítulo das suas Viagens à descrição do café, que não pode ser clássica, por estar fora de moda, devera ser romântica, o que não convém, por o romantismo de 1843 não ser verosímil, invoca por isso a fé de Boileau: a verdade. Nada, nada, verdade e mais verdade. Encontro-me aqui em simétrica posição. Também devera, seguindo a elegância do meu tempo, pôr aqui um rap, espalhar seringas no chão, convidar traficantes guest star, iá, lançar tags nas paredes, animar tudo com palavrões... Ficava o café da Azambuja digno do CCB. Todavia... Na verdade quase nada o distingue, nem sequer o mau gosto, da maioria dos cafés de Lisboa. Demorei eu tanto para aqui chegar... Andei tantos quilómetros a pé... Corri tantos riscos... Ficam os leitores desiludidos? Eu também. Bebo uma Água das Pedras com a rodela de limão. Para me consolar. Sabe-me bem. Única particularidade: há moscas. Moscas que picam e que ninguém consegue enxotar.
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