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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Memorial do Paraíso, de Silvio Castro - 12


30 de abril, quinta-feira


Quando havíamos terminado de comer e já estávamos prontos para descer à terra, chegou à nau-capitânea Sancho de Tovar com dois jovens que ele ontem recolhera na praia e que foram seus hóspedes muito especiais. Já que ele não comera, prepararam-lhe a mesa. Os hóspedes sentaram-se cada um na sua cadeira e comeram de tudo que lhes foi oferecido. Não deram vinho porque Sancho de Tovar dissera que eles não gostavam da bebida. Acabado de comer, descemos todos à terra. Logo que chegamos à praia eles começaram a aparecer. Chegaram quatrocentos, quatrocentos e cinqüenta. Alguns deles traziam arcos e setas, que todos usavam para o jogo das trocas. Comiam conosco de tudo que lhes oferecíamos. Alguns deles bebiam vinho; outros não o podiam suportar. E estavam então mais mansos e seguros entre nós do que nós estávamos entre eles. Não consigo encontrar uma razão para tal mansuetude e segurança, minha querida filha, senão na ingenuidade e pureza de coração dessa gente. Nisso muitas vezes penso que eles nos são superiores e deles muito deveremos aprender. Por exemplo posso contar-te um episódio acontecido neste dia que confirma este meu sentimento sobre o ânimo deles. Quando saímos do batel, disse-nos o Capitão-mor que seria bem que fôssemos diretamente à cruz que estava encostada a uma árvore, junto do rio, com a finalidade de ser colocada amanhã, 1º de maio, num posto de grande realce. E mais, que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. Assim o fizemos. E a esses dez ou doze que lá estavam, acenaram-lhes que fizessem o mesmo, e logo foram todos beijá-la.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Joam Roiz de Castel-Branco, um trovador do idioma galego-português, no Terreiro da Lusofonia

Desconhecem-se as datas precisas de nascimento e morte de Joam Roiz de Castel-Branco. Julga-se que terá vivido entre finais do século XV e as primeiras décadas do séc.XVI. Fidalgo da Casa Real de D.Manuel e, depois, da de D.João III, foi em 1515 nomeado contador da fazenda da Beira.

De acordo com o que hoje se sabe, a obra poética de João Roiz de Castell - Branco consiste em quatro composições incluídas no Cancioneiro Geral ,de Garcia de Resende. Duas são trovas com contornos epistolares: numa, dirigida a um amigo em Alcácer Ceguer, o autor traça um quadro dos prazeres da vida em Portugal, contrapondo-lhes riscos vários da vida militar no Norte de África; noutra, endereçada a um companheiro em Lisboa, faz o elogio do retiro rústico em terras beirãs, que opõe aos sobressaltos da vida do paço e às inglórias agruras das expedições ultramarinas. Este texto deve ser relacionado, com outros do Cancioneiro Geral, e com a tradição de louvor da aurea mediocritas imitação dos clássicos que seria com frequência cultivada pelos poetas do séc. XVI.

As outras duas peças são uma glosa a um vilancete castelhano  e a cantiga “Senhora, partem tam tristes”, de grande beleza formal e que desenvolve um tema recorrente no Cancioneiro Geral: o da partida. Joam Roiz de Castel-Branco, um dos construtores do galego-português, está, de pleno direito, neste Terreiro.

Fernando Correia da Silva apresenta-nos uma brilhante biografia ficcionada deste trovador. _________________________________
Fernando Correia da Silva

Paço em Sintra onde D. João II

foi aclamado rei.

(PERTURBANDO O REPOUSO DO POETA)


- Ó Joam Roiz de Castel-Branco:

sei que viveste na segunda metade do século XV. Sei que foste aplaudido trovador na corte de D. Joam II, o Príncipe Perfeito, monarca impulsionador dos Descobrimentos Portugueses. Sei que ao abandonares o Paço foste viver na cidade da Guarda, onde te dedicaste à agricultura e à contabilidade. Sei que hoje repousas no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Peço desculpa mas vou perturbar o teu repouso com a minha agitação dos séculos XX e XXI.

Reparo que estás acordando, já te espreguiças. Resmungas:

- Que quereis de mim, ó Mafoma?