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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010


Dia de Lisboa - evocação. Afonso X, Fiama Hasse Pais Brandão, João Zorro e Teresa Salgueiro.

Carlos Loures



Música: Afonso X
Letra: João Zorro
Concepção: Pedro Caldeira Cabral
Arranjo: Jorge Varrecoso Gonçalves e Vasco Azevedo


É também uma cantiga de amigo (marinha), de dístico de rima toante (í-o e á-o), com refrão composto de duas partes (uma intercalada entre o 1º e o 2º verso do dístico e a outra no final da estrofe): fala a donzela (namorada) da sua decisão ou desejo de ir ver o barco / navio, que o rei mandou preparar para uma missão e nela deseja partir com o seu amigo. É seu autor João Zorro, o jogral de Lisboa e do Tejo (viveu certamente durante o reinado de D. Dinis), e sobretudo das suas barcas, tão bem evocadas no século XX por Fiama Hasse Pais Brandão. Encontra-se registada nos cancioneiros B (Biblioteca Nacional, nº 1157) e V (Vaticana, nº 759):

En Lixboa, sobre lo mar

Barcas novas mandei lavrar.
Ai, mia senhor velida!


En Lixboa,, sobre lo ler
Barcas novas mandei fazer.
Ai, mia senhor velida!


Barcas novas mandei lavrar
E no mar as mandei deitar.
Ai, mia senhor velida!


Barcas novas mandei fazer
E no mar as mandei meter.
Ai mia senhor velida!



 Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)



Lisboa tem barcas novas





Lisboa tem barcas

agora lavradas de armas

Lisboa tem barcas novas
agora lavradas de homens


Barcas novas levam guerra
As armas não lavram terra


São de guerra as barcas novas
ao mar mandadas com homens


Barcas novas são mandadas
sobre o mar


Não lavram terra com armas
os homens


Nelas mandaram meter
os homens com a sua guerra


Ao mar mandaram as barcas
novas lavradas de armas


Barcas novas são mandadas
sobre o mar


Em Lisboa sobre o mar
armas novas são mandadas


Nota: Adriano Correia de Oliveira criou uma lindíssima versão musical deste tema. Não o encontrámos, no entanto, disponível.


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dia de Lisboa - António Gedeão, Maluda, Joaquim Pessoa, José Fanha, Carlos Mendes e Alberto Ribeiro (e nós com eles) despedem-se de Lisboa.

E assim, 24 horas depois, chegamos ao final deste "Dia de Lisboa".  Agradecemos todas as ajudas que nos foram dadas neste trabalho. Saudamos em particular o blogue "Lisboa no Guiness" onde recolhemos a canção do Alberto Ribeiro e desejamos que a campanha de Vítor Marceneiro seja coroada de êxito. Todo o material que aqui apresentamos, está ao seu dispor. Por agora, chegamos ao fim.

Três despedidas e um bilhete postal - António Gedeão, o grande poeta que vivia dentro do corpo do cientista Rómulo de Carvalho, oferece-nos um poema - "Adeus a Lisboa", cujo manuscrito podemos ver
abaixo, á direita. Carlos Mendes, com música sua e poema de Joaquim Pessoa, sob o mesmo título, brinda-nos com uma bonita canção, Alberto Ribeiro, o eterno cantor de "Coimbra", sela a despedida com o seu adeus. Tudo escrito nas costas de um lindo postal de Maluda que, nascida em Goa, não podia ser mais lisboeta.

António Gedeão (1906-1997)

 - ao lado: manuscrito do poema


Adeus, Lisboa




Vou-me até à Outra Banda
no barquinho da carreira.
Faz que anda mas não anda;
parece de brincadeira.
Planta-se o homem no leme.
Tudo ginga, range e treme.


Bufa o vapor na caldeira.
Um menino solta um grito;
assustou-se com o apito
do barquinho da carreira.
Todo ancho, tremelica
como um boneco de corda.
Nem sei se vai ou se fica.
Só se vê que tremelica
e oscila de borda a borda.




Chapas de sol, coruscantes
como lâminas de espadas,
fendem as águas rolantes
esparrinhando flamejantes
lantejoulas nacaradas.
Sob o dourado chuveiro,
o barquinho terno e mole,
vai-se afastando, ronceiro,
na peugada do Sol.




A cada volta das pás
moendo as águas vizinhas,
nos remoinhos que faz,
nos salpicos que me traz
e me enchem de camarinhas,
há fagulhas rutilantes,
esquírolas de marcassites,
polimentos de pirites,
clivagens de diamantes,


Numa hipnose colectiva,
como um friso de embruxados,
ao longe os olhos cravados
em transe de expectativa,
todos juntos, na amurada,
numa sonolência de ópio,
vemos, na tarde pasmada,
Lisboa televisada
num vasto cinemascópio.
O sol e a água conspiram
num conluio de beleza,
de elixires que se evadiram
de feiticeira represa.
Fulva, no céu incendido,
em compostura de pose,
a cidade é colorido
cenário de apoteose.
Há lencinhos agitados
nos olhos de todos nós,
engulhos de namorados,
embargamentos na voz.
Nesta quermesse do ar,
neste festival de tons,
quem se atreve a acreditar
que os homens não sejam bons?




Adeus, adeus, ribeirinha
cidade dos calafates,
rosicler de água-marinha,
pedra de muitos quilates.
Iça as velas, marinheiro,
com destino a Calecu.
Oh que ventinho rasteiro!
Que mar tão cheio e tão nu!
Ó da gávea! Põe-te alerta!
Tem tento nos areais.
Cá vou eu à descoberta
das índias Orientais.
Não tenho medo de nada,
receio de coisa nenhuma.

A vida é leve e arrendada
como esta réstea de espuma.
Toda a gente é séria e é boa!
Não existem homens maus!
Adeus, Tejo! Adeus Lisboa!
Adeus, Ribeira das Naus!
Adeus! Adeus! Adeus! Adeus!


Uma canção com o mesmo título, com poema de José Fanha e música de Carlos Mendes. Canta o Carlos Mendes.



Alberto Ribeiro, uma voz muito conhecida e admirada, o cantor de «Coimbra» , intérprete com Amália Rodrigues do filme «Capas Negras», despede-se também de Lisboa.



Adeus Lisboa! Adeus Amigos, até já. Encontramo-nos, sabem onde? - No Porto. O "Dia do Porto" será em Novembro, em data que anunciaremos oportunamente.

Dia de Lisboa - A Ala dos Namorados, Míisia, Amália Rodrigues, Jorge Palma e Mariza - canções de Lisboa

Estamos quase a chegar ao termo desta longa maratona. Esperamos que tenham apreciado as dezenas de artistas que trouxemos até ao nosso modesto palco. Agora, apresentamos quatro canções, sem outra relação entre si que não seja o serem dedicadas a Lisboa. Em primeiro lugar a Ala dos Namorados - «Loucos de Lisboa» ( música de João Gil e letra de João Monge) na magnífica interpretação de Nuno Guerreiro. Não esqueçam que

São os loucos de Lisboa
Que nos fazem recordar
A Terra gira ao contrário
E os rios correm para o mar




Mísia, uma intéprete de grande expressividade, canta-nos "Que fazes aí Lisboa?", uma composição de Amália Rodrigues.



Vamos ouvir de novo Amália Rodrigues, agora em "Lisboa não sejas Francesa"  uma composição de José Galhardo e de Raul Ferrão Em 1945 estreava-se a opereta "A Invasão", escrita por José Galhardo, Raul Ferrão, Vasco Santana e outros. Tinha um elenco de luxo - Vasco Santana, António Silva, Mirita Casimiro e Amália Rodrigues, entre muitos outros. Amália ainda não era a vedeta internacional em que se converteu anos depois. A opereta, sobre a resistência lisboeta à ocupação francesa durante a primeira invasão,  a de Junot em 1807, obtinha nesta canção um pico de popularidade - toda a gente a trauteava - a peça esteve dois anos em exibição.


E para terminarmos da melhor maneira este penúltimo bloco, ouçamos Jorge Palma e Mariza - "Canção de Lisboa", uma composição de Jorge Palma.

Dia de Lisboa - LIa Gama, Fernando Correia da Silva e Almada Negreiros, falam dos cáfés de Lisboa

Fernando Correia da Silva diz-nos como era no Café Chiado



Na Rua Garrett, em Lisboa, o Café Chiado é uma gruta mágica. Para além da
estudantada, ali abancam os surrealistas Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neill e Mário Henrique Leiria. Também os artistas plásticos Ribeiro Pavia, João Abel Manta, António Alfredo, o escultor José Dias Coelho. E ainda dois pretinhos angolanos, o Agostinho Neto que estuda Medicina e o Mário Pinto de Andrade que estuda Filologia Clássica, juntamente com o seu irmão Joaquim. O Agostinho é cara de pau, estou em crer que os seus lábios jamais ameaçaram sorrir. Justamente o contrário do Mário, que dá tudo o que pode por uma boa gargalhada. A este faço a vontade. Estamos em Janeiro de 1951 e faz muito frio. Digo, para quem me queira ouvir:

- Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.

À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho, obviamente.

Insisto, quero verificar as diferenças até ao fim. Há um frequentador do Café, um homem de meia idade, com físico e cara de Buda. Tem um parafuso desapertado. Se ninguém lhe dá palavra, fica as tardes a contemplar uma chávena vazia de café. Chamo-lhe Sr. Engenheiro mas não sei se engenheiro ele é. Meto conversa, gosto das suas respostas que, normalmente, perdem o norte.

- Então, Sr. Engenheiro, onde é que foi ontem?
- Ontem fui à Feira Popular.
- Fazer o quê?
- Fui à montanha russa.
- E depois?
- Aquilo subiu, subiu, subiu e, lá no alto, parou.
- E depois?
- Depois começa a descer, a descer, a descer, ai que aflição.
- E depois?
- Depois chego cá abaixo e como um bife com batatas fritas.

Gargalhadas, o Mário mais que todos. O Agostinho continua impávido, rigidez.

Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:

- Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.
- Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro...
- A ver vamos se é mania ou intuição...

Era mesmo intuição. Anos depois, durante a guerra pela independência de Angola, o Mário e o Agostinho entraram num tal confronto que o Mário teve que emigrar para a Guiné-Bissau.


Almada Negreiros na sua tertúlia da Brasileira do Chiado



Para terminar, Lia Gama canta.nos os cafés de Lisboa. Ora aqui estão três versões coincidentes.


Dia de Lisboa - Anoitece em Lisboa - Cesário Verde e Kátia Guerreiro

Duas maneiras, separadas por um século e meio e por muitas outras coisas, de ver o anoitecer e a noite em Lisboa. Cesário Verde, em meados do século XIX, via assim essa hora soturna:

Cesário Verde (1855-1886)


Ave Marias


1

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.
E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.
Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!
Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

(in Sentimento de um Ocidental )





Katia Guerreiro  canta  "Lisboa à Noite" .

Dia de Lisboa - Lisboa no cinema


Carla Romualdo


Lisboa tem razões para envaidecer-se da sua passagem pelo grande ecrã. Se o primeiro filme produzido e realizado em Portugal foi da autoria do portuense Aurélio da Paz dos Reis e se rodou à porta da Fábrica Confiança, na Rua de Santa Catarina, bem no centro da Invicta, depressa o cinema português tomou a capital como cenário.

De entre as primeiras longas-metragens, ainda mudas, realizadas em Portugal várias tiveram Lisboa como cenário: “O Rapto de Uma Actriz” (1907), de Lino Ferreira, “O Quim e o Manecas” (1916), de Ernesto de Albuquerque, “O Primo Basílio” (1922), de Georges Pallu, “Lisboa, Crónica Anedótica” (1930), de Leitão de Barros.

E esta tendência confirma-se nas primeiras longas-metragens sonoras, a começar pela primeira que se realizou em Portugal, “A Severa”, de Leitão de Barros, realizada em 1931, e a que se seguiria, dois anos depois, “A Canção de Lisboa”, de Cottineli Telmo, do qual se poderia dizer que ainda hoje dificilmente se encontra algum português maior de dez anos que não o tenha visto pela menos uma vez.

A marcha do “Olh’o balão”, o “Fado do estudante”, a canção da agulha e do dedal, o esternocleidomastoideu, “Chapéus há muitos, seu palerma!”. Quantos filmes poderiam orgulhar-se de se terem perpetuado de tal forma na memória de gerações de espectadores como “A canção de Lisboa”?



Os anos seguintes corresponderiam ao "período de ouro" da comédia portuguesa, com uma sucessão de filmes cuja acção decorre em Lisboa: “O Pátio das Cantigas” (1932), de Francisco Ribeiro, cuja acção decorre num típico pátio lisboeta, “O Pai Tirano” (1941), de António Lopes Ribeiro, centrado nas desventuras amorosas de um empregado dos armazéns Grandela, ou ainda “O Leão da Estrela” (1947) e “O Costa do Castelo” (1943), ambos de Artur Duarte. Comédias de costumes, nas quais se exaltam os valores do regime: a honradez na pobreza, a humildade abençoada pela Divina Providência, a casinha modesta e alegre.

Novos ventos soprarão no cinema português a partir dos anos 60, com aquilo a que se convencionaria chamar “cinema novo”. “Verdes Anos” (1963), de Paulo Rocha, com a extraordinária música de Carlos Paredes, rodado na zona do café Vává, traçava o retrato de uma geração encerrada numa Lisboa claustrofóbica.





Seguem-se-lhe “Belarmino” (1964), de Fernando Lopes, retrato em grande plano desse filho de Lisboa caído em declínio, e “Domingo à tarde” (1965), de António de Macedo, adaptação do romance homónimo de Fernando Namora.

Os anos 80 são inaugurados com uma entrada triunfal da Lisboa de má fama nas salas de cinema: Intendente, Bairro Alto, Alfama. É por lá que se passeiam Kilas e a sua amante, a artista de variedades Pepsi-Rita, notáveis Mário Viegas e Lia Gama, cujos passos errantes são embalados pela banda sonora de Sérgio Godinho. “Kilas, o mau da fita” (1980), de José Fonseca e Costa, continua a ser um dos maiores êxitos de bilheteira do cinema português.







“Saudades para D. Genciana” (1983), de Eduardo Geada, transpõe para o cinema o universo literário de José Rodrigues Miguéis e recupera a Lisboa dos anos que antecederam a instauração do Estado Novo, centrando a acção numa pensão da Avenida Almirante Reis.

Nos anos seguintes, Lisboa será cenário recorrente dos mais emblemáticos filmes portuguesas da década de 80: “Crónica dos Bons Malandros” (1984), de Fernando Lopes, “O Lugar do Morto” (1984), de António Pedro Vasconcelos, “O Vestido cor de Fogo” (1985), de Lauro António, “Recordações da Casa Amarela” (1989), de João César Monteiro, este último premiado com o Leão de Prata no Festival de Veneza.







“A Caixa” (1994), de Manoel de Oliveira, cuja acção decorre nas Escadinhas de S. Cristóvão, onde um mendigo cego (Luís Miguel Cintra) defende a custo a caixa das esmolas;





“Corte de Cabelo” (1995), aclamada primeira longa-metragem de Joaquim Sapinho, rodada na totalidade em Lisboa e em particular no Amoreiras Shopping;

“Ossos” (1997), de Pedro Costa, retrato documental da vida no gueto, o bairro das Fontainhas.

E “Capitães de Abril” (2000), de Maria de Medeiros, relato épico das 24 horas mais marcantes da história contemporânea portuguesa.





Recentemente, estreou-se “Desassossego”, de João Botelho, audaciosa adaptação do “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa, a obra fragmentária de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na baixa de Lisboa.





Lisboa no cinema estrangeiro

No cinema Lisboa já foi Assunción, a capital paraguaia (em “The boys from Brazil”, 1978, de Franklin J. Schaffner) e Santiago do Chile (em “A Casa dos Espíritos”, 1993, Billie August), já foi pano de fundo nunca  identificado em filmes como “The Ninth Gate” (1999), de Roman Polanski, mas foi igualmente cenário privilegiado, quando não protagonista de uns quantos títulos, dos quais o primeiro terá sido “Lisbon” (1956), de Ray Milland, filme de espionagem que incluía na banda sonora o tema “Lisboa antiga”.

Em 1969, James Bond chegava a Lisboa, haveria de instalar-se no Estoril, e acabaria por casar-se e rapidamente enviuvar num dos piores filmes da saga: “007, Ao Serviço de Sua Majestade”, de Peter Hunt.

Amália Rodrigues canta “Barco Negro” em “Amantes do Tejo” (1955), de Henri Verneuil, filme desengraçado mas que vale hoje pela interpretação de Amália e por se ter tornado um documento da Lisboa dessa década.






A luz de Lisboa ficaria eternizada em “Dans la ville blanche” (1983) de Alain Tanner, o que em muito se deve ao trabalho do português Acácio de Almeida, director de fotografia neste filme.

Em “Lisbon Story” (1994), Wim Wenders lança-se numa busca enigmática dos sons de Lisboa, cruzando-se com os Madredeus e com o realizador Manoel de Oliveira numa súbita aparição chaplinesca.

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Ao longo das últimas décadas, Lisboa foi cenário em filmes tão diferentes como “A Casa da Rússia” (1990), de Fred Schepisi, “Noites Bravas” (1992), de Cyrill Collard, “Des Nouvelles Du Bon Dieu” (1996), de Didier Le Pêcheur, “Afirma Pereira” (1995), do realizador italiano Roberto Faenza, ou “The Dancer Upstairs” (2002), primeiro filme realizado pelo actor norte-americano John Malkovich, protagonizado pelo espanhol Javier Bardem e que incluía no elenco Luís Miguel Cintra e Alexandra Lencastre.

E se é certo que nele Lisboa nunca é mais do que uma miragem longínqua, como poderia ficar de fora desta lista o filme em que Lisboa é sinónimo de liberdade, ainda que em trânsito para outro continente? Lisa e Lazlo partem para Lisboa, Rick fica para trás. Podemos ver muitas vezes esta cena, ele nunca tomará aquele avião para Lisboa e no fundo sabemos que foi melhor assim. “Casablanca” (1942), de Michael Curtiz, pois claro.




Fontes:
Base temática de cinema do Instituto Virtual Camões, base de dados Amor de Perdição, e a enciclopédica memória do Carlos Loures



Ray Conniff-Lisbon Antiga

Dia de Lisboa -Lisboa na literatura universal

João Machado


A primeira referência escrita que se encontra sobre Lisboa, feita por um romano, é a do académico Marco Terêncio Varrão (116 – 27, a. C.). Informa que as éguas locais concebem pelo vento, sem necessidade de terem contacto com os machos, lenda provavelmente transmitida pelos povos locais, (ver na Revista Municipal de Lisboa, n.º 56 (1953), o artigo de Arlindo de Sousa, Antologia de Lisboa).

Encontram-se também referências a Lisboa em Pompónio Mela ( (no De Situ Orbis), em Estrabão e Ptolomeu.

Vários viajantes ingleses de nomeada, a partir da Restauração (1640), visitaram Portugal e estiveram em Lisboa, tendo-se referido à nossa capital nos seus escritos, em prosa e em verso. Falamos a seguir de alguns dos mais conhecidos:

No século XVIII, há a referir Henry Fielding (1707-1754), autor de Tom Jones, tido como o pai do romance inglês. Escreveu Journal of a Voyage to Lisbon, em que conta a sua viagem para Portugal, onde veio procurar descansar do esgotamento provocado pelo seu trabalho como magistrado. Foi a sua última obra, pois Fielding faleceu em Lisboa em 8 de Outubro de 1754.


William Beckford  (1760-1844), , político e viajante inglês, autor de obra variada, com destaque para o conto oriental Vathek esteve em Portugal nos fins do século XVIII, e escreveu, com bastantes anos de atraso, narrações das suas viagens intituladas, Italy, With Sketches of Spain and Portugal e Recollections of an Excursion to the Monasteries of Alcobaça and Batalha. Na segunda obra descreve pormenorizadamente um passeio, feito a partir da sua casa de Lisboa.

Byron (1788 – 1824), um dos grandes poetas românticos ingleses, esteve em Lisboa em 1809, no início de uma grande viagem pelo sul da Europa. No Childe Harold’s Pilgrimage, canto I, estrofe XVII, dá uma imagem de Lisboa bastante negativa, embora comece por gabar o aspecto à primeira vista. Aliás Byron dá uma imagem negativa dos portugueses em geral, chegando a lamentar que a natureza tenha sido excessivamente pródiga com eles, quanto à paisagem. Transcreve-se a seguir a estrofe acima referida:

But whoso entereth within this town,
That, sheening far, celestial seem to be,
Disconsolate will wander up and down,
Mid many things unsightly to strange e’e;
For hut and palace show like filthily,
The dingy denizens are reared in dirt,
No personage of high or mean degree
Doth care for cleaners of surtout or shirt,
Though shent with Egypt’s plague, unkempt, unwashed, unhurt.

No número 60 da Revista Municipal, do ano de 1954, no artigo Lisboa no folclore e na poesia culta do Brasil, Gastão de Bettencourt faz uma resenha muito variada, que inclui desde Evocação lírica de Lisboa, de Cecília Meireles, Entre-mar e Rio, do diplomata Ribeiro Couto, até ao Auto dos Fandangos, dos mestiços do Nordeste Brasileiro.

Mais recentemente, o alemão Thomas Mann (1875-1955), faz decorrer parte do seu último romance, Bekenntisse des Hochstaplers Félix Krull (As Confissões de Félix Krull, Cavalheiro de Indústria), em Lisboa. Trata-se aliás de um romance, que decorre vagamente no fim do século XIX, e que ficou por acabar, devido à morte do autor. Félix Krull assume a identidade do marquês de Venosta, nobre luxemburguês, e substitui-o numa viagem a que este pretende escapar, devido a um problema de amores. E numa Lisboa não muito real vive algumas peripécias.

O último romance de Erich Maria Remarque (1898-1970), Die Nacht von Lissabon (Uma noite em Lisboa) trata do problema dos refugiados durante a II Grande Guerra Mundial, que passam por Lisboa em trânsito para a América.


book trailer for "Die Nacht von Lissabon" from Christian Selent on Vimeo.



John Le Carré (1931 - ), em The Russia House, um romance de espionagem que decorre no fim da Guerra Fria, põe o herói a ser interrogado pelos serviços secretos ingleses em Lisboa. É famosa a referência ao Príncipe Real, e aos discursos de um velho místico que seria o professor Agostinho da Silva.


António Muñoz Molina (1956 - ) escreveu El Invierno en Lisboa, o qual, na modesta opinião de quem escreve estas linhas, nada tem a ver com a capital de Portugal. Usa a sonoridade do nome, e do personagem central da novela (?), Biralbo. Alguns dizem que é uma homenagem ao romance negro, e ao jazz. Será?

A Morte Branca, de Pierre Kyria (1938 - ), recebeu referências elogiosas na imprensa francesa. O crítico do Nouvel Observateur comparou o romance de Kyria a uma obra de Agatha Christie, onde se está sempre à espera de revelações fulgurantes, e o do Magazine Littéraire considerou-o um grande livro. É uma história em que um jovem romântico se vê envolvido em situações complicadas, decorrendo a trama numa pensão familiar de Lisboa. Kyria revela um conhecimento grande da cidade, embora a história pudesse decorrer em qualquer outro local. Este escritor também escreveu Lisbonne, livro sobre o qual não temos referências.

A Small Death in Lisbon, de Robert Wilson (1957 - ) é um romance policial, que trata de sequelas do tempos dos nazis, e de crimes actuais.

O Homem de Lisboa, de Thomas Gilfford, conta a história da burla de Alves dos Reis.

Em El Club Dumas, Arturo Pérez-Reverte (1951 -), faz Lucas Corso, o personagem central, passar por Lisboa a caminho de Sintra, procurando um livro. E contar recordações de outra viagem a Lisboa.

Leslie Charteris (1907 – 1993), criador de O Santo, fez decorrer em Lisboa uma das aventuras do seu herói, The Saint in Pursuit. O título da obra em português é O Santo e o Mistério de Lisboa.


O primeiro romance do norte-americano Richard Zimler (1956 - ), O Último Cabalista de Lisboa, decorre na Lisboa do início do século XVI, e tem como pano de fundo os massacres de cristãos novos.

Pierre Mercier, suíço de língua francesa, escreveu Comboio Nocturno para Lisboa, a história de um suíço que impede o suicídio de uma portuguesa, e a seguir lê um livro de um português resistente à ditadura. Desperta-se nele a curiosidade de saber mais sobre este homem, e assim vem até Portugal.

Dia de Lisboa - Percy Grainger e Pablo Neruda

Muitos estrangeiros escreveram sobre Lisboa. Cervantes, Voltaire. Lord Byron... É matéria de que se ocupou o João Machado. Aqui, registamos dois desses olhares sobre a cidade - a do compositor australiano Percy Grainger (1882.1961) e a do chileno Pablo Neruda (1904-1973).

Não abunda a música sinfónica sobre Lisboa. Tentámos encontrar uma gravação de "Lisboa em Camisa" op.53", do maestro António Victorino d'Almeida, inspirada na obra homónima de Gervásio Lobato, mas não a encontrámos disponível. Ouçamos Lisbon, o primeiro andamento da sinfonia Lincolnshire Posy , de Percy Grainger, dedicado a Lisboa, interpretado pela Bay Brass Ensemble:






Pablo Neruda, o grande poeta chileno, Prémio Nobel da Literatura de 1971, dedicou este seu longo poema,  La Lámpara Marina, a Álvaro Cunhal. Foi escrito em 1953 quando o dirigente do PCP estava preso e se temia pela sua vida. Sobre uma Lisboa  prisioneira da ditadura salazarista, disse o poeta:

La Lámpara Marina



I

El puerto
Color de cielo


Cuando tú desembarcas
en Lisboa,
cielo celeste y rosa rosa,
estuco blanco y oro,
pétalos de ladrillo,
las casas,
las puertas,
los techos,
las ventanas,
salpicadas del oro limonero,
del azul ultramar de los navíos.

Cuando tú desembarcas
no conoces,
no sabes que detrás de las ventanas
escuchan,
rondan
carceleros de luto,
retóricos, correctos,
arreando presos a las islas,
condenando al silencio,
pululando
como escuadras de sombras
bajo ventanas verdes,
entre montes azules,
la policía
bajo las otoñales cornucopias
buscando portugueses,
rascando el suelo,
destinando los hombres a la sombra.

(in Poemas de Obras, 3 ª ed.., Buenos Aires, Editorial Losada, 1967)

Podemos agora ouvir o poema completo, excelentemente declamado pelo actor Tavares Marques, numa tradução eivada de castelhanismos e de erros, mas que, dada a beleza do original,  resiste a esses equívocos linguísticos. A gravação foi feita durante uma homenagem prestada pelo PCP à memória de Álvaro Cunhal e realizou-se no claustro do Tribunal da Boa-Hora, onde funcionou o sinistro "Plenário".


Dia de Lisboa - Paulo de Carvalho e Mariza

A canção "Lisboa menina e Moça", com letra de José Carlos Ary dos Santos e música de Paulo de Carvalho, é mais conhecida através da interpretação de Carlos do Carmo. Mas a versão do compositor, de Paulo de Carvalho é também excelente. Aqui está ela:



"Maria Lisboa", de David Mourão-Ferreira e de Alain Oulman, também se tornou famosa na voz da inimitável Amália Rodrigues. Mariza, não imita, recria - esta versão é diferente e igualmente de grande qualidade:

Dia de Lisboa - Gigliola Cinquetti e Pasión Vega cantam Lisboa em castelhano

Gigliola Cinquetti uma italiana e a espanhola Pasión Vega cantam Lisboa em castelhano - Gigiola Cinquetti, a mesma de "Non ho l'età", canta a versão espanhola da famosa canção de José Galhardo, Amadeu do Vale e Raul Portela.

Estes autores criaram-na para a voz de Hermínia Silva. Foi estreada no Teatro Variedades, em 1932, na revista Pirilau. Hemínia apresentou-a e foi dela a primeira gravação em disco. No entanto, sendo o «Olhai, senhores» já um êxito a nível interno, seria Amália Rodrigues, nos anos do pós-guerra quem tornaria a canção mundialmente conhecida.

A interpretação da Gigliola é interessante, mas talvez um pouco descolorida.



A madrilena Pasión Vega inclui no seu repertório a canção "Lejos de Lisboa", de Ernesto Haffter e Pablo Guerrero. É uma cantora muito em voga e tem uma voz bem timbrada, dando à melodia (vulgar) intencionais sonoridades de fado.

Dia de Lisboa - Memórias de um imigrante (Luís Rocha - da revista à portuguesa ao 1º de Maio de 1974)

Luís Rocha

Até 1963 só conhecia de Lisboa a estação de Santa Apolónia e a Praça do Chile onde vivia um tio meu que visitei uma ou duas vezes com os meus pais. A única coisa que recordo dessa época era a de que brincava com os meus primos, no terraço existente por cima do último andar (3º) do prédio onde viviam.

A ideia de vir para Lisboa começou desde cedo a germinar no meu cérebro como o único objectivo a alcançar. A partir dos 13 anos senti que tinha de sair da cidade onde nasci (Castelo Branco) e que nada tinha para me oferecer no futuro.

Foi assim que em Setembro de 1963, desembarquei em Santa Apolónia, acompanhado da minha mãe para fazer exame de admissão ao Instituto Comercial de Lisboa. Fiquei aprovado. Matriculei-me no ensino nocturno, pois precisava trabalhar para me sustentar.

Voltei definitivamente a Lisboa em Outubro de 1963 e, depois de responder a vários anúncios, fui admitido em Novembro para a contabilidade de uma empresa, nas Escadinhas da Praia, no Bairro de Santos.

Começou assim o meu contacto com a cidade de Lisboa. Todos os dias apanhava o eléctrico na Praça do Chile para Santos (Como andava sempre atrasado depressa aprendi a saltar para o eléctrico em movimento – era giro).
Ia a almoçar a casa e voltava para a empresa, de onde saía por volta das 18 horas, seguindo depois a pé para o Instituto Comercial (chamado “Cortiço”) na Rua das Chagas ao Calhariz. As aulas começavam ás 19 horas.

Em 1963 já havia o metropolitano de Lisboa – troço Restauradores/Rossio; em 1966 o troço Rossio/Anjos e em 1972 a ligação Anjos/Alvalade. N altura não gostava muito de andar debaixo da terra como as toupeiras e por isso privilegiava o eléctrico e os autocarros.

A adaptação ao novo modo de vida (trabalhar de dia e estudar de noite), mas principalmente o fascínio por conhecer a cidade de Lisboa (mais à noite do que de dia), tiveram como consequência que no primeiro ano lectivo só passei a duas disciplinas (cadeiras) e no segundo ano a quatro.

Foram dois anos de descoberta desta cidade que, de tal modo me fascinou, que nunca mais daqui saí (já lá vão 47 anos). Aqui aprendi a ser homem, do dia e da noite. Tenho na memória muitas estórias dessa vivência. A cidade era tão grande e oferecia tanto que num dia podia viver várias vidas.

Tudo era diferente para melhor e para pior. Por exemplo na casa de meus pais havia uma casa de banho, com sanita e chuveiro. Aqui em Lisboa vivi em alguns bairros antigos onde não havia casa de banho. Existia apenas uma “Sanita” que estava no exterior da casa (no vão das escadas traseiras). Tomava banho num balneário público na Rua do Poço do Borratém.

Frequentei os bares/cabaret do Intendente, do Cais do Sodré, da Praça da Alegria da Baixa, da Av. da Liberdade e todos os outros onde (ainda jovem) me deixavam entrar.

Ia aos bailes na Casa do Alentejo, na Casa de Trás-os-montes e Alto Douro, na Casa do Algarve, na Casa de Lafões, na casa das Beiras, na casa da ….. Espanhola (na Rua da Trindade, próximo da cervejaria) e até em sociedades recreativas na zona do Beato e outras.

Havia também bailes no fim do ano e Carnaval em quase todos os cinemas e teatros de Lisboa (Monumental, Roma, Império, Condes, Éden, S. Jorge, Jardim Cinema, Paris, Promotora, etc.). Nas festas dos Santos populares dançávamos nas Ruas do Bairro Alto, Alfama, Mouraria, Bica, e outros.

Também dançávamos nas casas de algumas meninas que, como não iam a outros bailes, convenciam as mães a organizar pequenas festas.

Quando as festas se prolongavam até de madrugada, íamos beber cacau à Praça da Ribeira.

Estudava no “Paladium” à noite no piso superior, onde estavam os bilhares, junto a uma porta que diziam em tempos fazer ligação com o cabaret “Príncipe Negro” na Calçada da Glória.

Nesse café conheci pela primeira vez a figura do “chulo”, situação que de inicio me incomodou mas a que depois me habituei. Sentava-se à mesa com uma mulher na frente; Pedia “o dinheiro”. Ela colocava notas sobre a mesa. Ele dizia que era pouco e dava pontapés nas pernas da senhora, por debaixo da mesa. Os pontapés só terminavam quando o “chulo” entendia que as notas sobre a mesa eram suficientes.



Vivi o ambiente do Parque Mayer. Lembro-me de ver o teatro de Revista, em particular e várias vezes aquelas em que entrava uma jovem mulher, que deixava todos a suspirar:




Vi pela primeira vez a polícia a bater nas pessoas de forma indiscriminada na Rua Áurea, quando estava à espera da minha namorada que trabalhava num Banco.
Apenas tive tempo de me esconder num vão de escada.

Como o dinheiro era pouco fiz-me sócio da “Livrelco” (próximo da feira Popular) Em Entrecampos, para poder ler os livros que gostava.
Era uma cooperativa de estudantes, consumidores de livros, que teve uma grande importância histórica na última época do regime fascista, o período marcelista. Foi extinta pelo governo em fins de 72 ou princípio de 73.
Em relação há música o sistema era outro. Todos os sábados ia com a namorada à loja “Discoteca Melodia” na Rua do Carmo. Entrávamos, escolhíamos vários discos (single) e depois ouvíamos, por uns “headphones”, durante cerca de duas horas os últimos êxitos que iam sendo publicados de música estrangeira. Para podermos estar todo aquele tempo, no final comprávamos um disco.

No verão ia à praia de Carcavelos, com as raparigas que viviam no Bairro onde morava. Apanhávamos o eléctrico e depois o comboio nos Cais do Sodré às 6 horas da manhã. Naquela praia aprendi a nadar sem mestre.

Vi quase todos os espectáculos de música Rock dos anos 60, que se exibiam em Lisboa (geralmente no Monumental), portugueses e estrangeiros.

Como amante de música desde pequeno, nunca gostei muito do fado por achar que era tudo uma grande tragédia mas, chegado a Lisboa depressa entendi que o Fado era parte da cidade e não era só “choraminguices”. O fado tinha várias expressões que retratavam a vida social de Lisboa (os bairros pobres, a classe média, os ainda "fidalgos", estórias de cavalos e touradas, a exaltação do património da cidade, das suas vistas, do mar e dos seus poetas.

Frequentei por isso também todas as casas de fado que havia nos bairros típicos de Lisboa.

Vivi nas ruas de Lisboa o dia 25 de Abril de 1974 e senti a verdadeira liberdade no 1º de Maio de 1974 na Alameda D. Afonso Henriques. Todos se sentiam livres e falavam entre si de igual para igual.



Por tudo isto e o muito que tenho na memória, fica a imagem desta linda cidade de Lisboa, que me adoptou aos 17 anos e cuja beleza redescubro cada vez que a revejo de um miradouro, da ponte 25 de Abril, de um cacilheiro ou de um avião.

Dia de Lisboa - O s golfinhos e as gaivotas da Augusta Clara e os Madredeus - moram todos em Lisboa.


Augusta Clara de Matos (texto e foto)

Da minha janela não vejo o Tejo. A pior coisa que pode acontecer a uma alfacinha. Não tem água que chegue é só meio alface. Já mo tinham dito mas por outras razões.

Com as alfaces é muito complicado. Têm as folhas tenras, precisam de água. Duras é que elas não são e com a secura não se dão.


Por isso, quando saio, é para lá que me viro. Vou descendo, descendo, até chegar à beira da água e apetecia-me ficar lá a morar.

Sou a Menina do Mar da Sophia e, se encontrasse o rapazinho da casa branca, havíamos de mergulhar os dois à procura dos golfinhos do Mar da Palha que eu via quando era do tamanho dele e atravessava o Tejo no cacilheiro.

Eram nossos amigos, não nos tinham medo. Nós debruçados na amurada com os pés no ar e eles nadavam, nadavam com a espuma e connosco, à frente, ao lado do barco. Felizes, fazíamos uma algazarra. E eles respondiam.

Nem nos apetecia largar o barco. Mas, na volta, lá estavam eles para nos levar a casa.

Para onde foram os meus golfinhos do Mar da Palha? Quem os maltratou para já não nos quererem acompanhar na travessia?

Agora, sempre que alguma emoção forte me toca, há um pólo magnético que me convoca a ir vivê-la para a beira-rio. Seja um sentimento feliz, um desgosto ou, apenas estar comigo própria, com um bom livro ou só a olhar o movimento do Estuário.

No meio desta cidade turbulenta onde está a ser cansativo viver, é lá que encontro paz.

Nunca mais vi os golfinhos. Agora tenho as gaivotas. E o Tejo, sempre o meu Tejo.

“E mesmo que esteja frio e os barcos fiquem no rio, parados sem navegar”…eu gosto de lá estar.


Madredeus – Moro em Lisboa

Dia de Lisboa - Vamos ao teatro!

Três momentos teatrais, começamos com Eunice Muñoz evocando Ivone Silva em "Passa por mim no Rossio"



 Luis Mariano numa opereta parisiense La Caravelle d'Or, canta uma canção dedicada a Lisboa - Lisbonne. Ouçamo-lo:



E agora, andemos um pouco mais para trás - Estevão Amarante na revista "O Tremoço Saloio" que subiu à cena em 1929, no palco do Teatro São Luiz: - cantava o famoso «Fado do 31». Podemos agora escutar esse fado cantado por Rodrigo.

Dia de Lisboa - Falemos então da lumiosa urbe.

Carlos Loures


Olisipo se chamava antes de ser tomada pelos Romanos, que a baptizaram de Felicitas Julia Olisipo. Os Árabes vieram depois chamaram-lhe Aschbouna. Olisipo, Felicitas Julia, Aschbouna. Tanto faz. É, teimo eu, pois sou quem manda e tudo pode no território desta crónica (já que não mando em nada mais), uma nave orgulhosa. E guardada por dois corvos. Assim dizem as suas armas inspiradas na história, ou, se melhor preferirmos, na lenda de São Vicente, ou talvez mesmo em ambas as cousas.

Segundo a Legenda Aurea, um texto hagiográfico que o frade dominicano Iacopo de Varazze escreveu na Itália do século XIII, nos alvores do quarto século da era Cristo, talvez em 304, um clérigo de nome Vicente, nascido em Huesca, oriundo de uma família ilustre, foi nomeado arquidiácono da diocese de Saragoça, na romana província Tarraconense. O seu superior, o bispo diocesano, que sofria de um defeito na fala, pois seria gago, encarregara Vicente de falar em seu nome aos fiéis. Ouvindo rumores de que as prédicas de Vicente eram demasiado eloquentes e podiam predispor o povo contra o domínio romano, Daciano, o magistrado encarregado de executar as leis imperiais e os éditos de Roma naquela região, mandou que o bispo e o arquidiácono fossem trazidos à sua presença.


Vicente falou pelo bispo gago e por si mesmo, reafirmando as suas convicções. O resultado não foi o melhor: o tartamudo apenas foi desterrado, mas Vicente foi barbaramente torturado em Valência por ordem de Daciano, tendo-lhe sido dilacerada a carne com garfos de ferro em brasa, deitando-o depois os torcionários numa cama feita também de ferro que previamente aqueceram até ficar incandescente. Meteram-lhe depois o torturado corpo num cárcere de reduzidas dimensões, com os pés apertados em cepos de madeira.
Na Legenda Aurea conta-se que, em dada altura, a cela ficou inundada por uma incandescente luminosidade e que as estacas pontiagudas que revestiam o sobrado se transformaram num colorido tapete de flores. Em redor, os anjos entoavam cânticos divinos... Em suma, eu imagino que deve ter sido tudo muito bonito. Neste ponto, um descancarado diabinho que me povoa a mente e que dá pelo nome de lucidez, sussurra-me que o martirizado corpo de Vicente e o seu cérebro atormentado pela tortura, o levaram a estas celestiais alucinações. (…)

Dia de Lisboa - Afonso X, Fiama Hasse Pais Brandão, João Zorro e Teresa Salgueiro.




Música: Afonso X
Letra: João Zorro
Concepção: Pedro Caldeira Cabral
Arranjo: Jorge Varrecoso Gonçalves e Vasco Azevedo

É também uma cantiga de amigo (marinha), de dístico de rima toante (í-o e á-o), com refrão composto de duas partes (uma intercalada entre o 1º e o 2º verso do dístico e a outra no final da estrofe): fala a donzela (namorada) da sua decisão ou desejo de ir ver o barco / navio, que o rei mandou preparar para uma missão e nela deseja partir com o seu amigo. É seu autor João Zorro, o jogral de Lisboa e do Tejo (viveu certamente durante o reinado de D. Dinis), e sobretudo das suas barcas, tão bem evocadas no século XX por Fiama Hasse Pais Brandão. Encontra-se registada nos cancioneiros B (Biblioteca Nacional, nº 1157) e V (Vaticana, nº 759):

En Lixboa, sobre lo mar
Barcas novas mandei lavrar.
Ai, mia senhor velida!

En Lixboa,, sobre lo ler
Barcas novas mandei fazer.
Ai, mia senhor velida!

Barcas novas mandei lavrar
E no mar as mandei deitar.
Ai, mia senhor velida!

Barcas novas mandei fazer
E no mar as mandei meter.
Ai mia senhor velida!


 Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)


Lisboa tem barcas novas


Lisboa tem barcas
agora lavradas de armas

Lisboa tem barcas novas
agora lavradas de homens

Barcas novas levam guerra
As armas não lavram terra

São de guerra as barcas novas
ao mar mandadas com homens

Barcas novas são mandadas
sobre o mar

Não lavram terra com armas
os homens

Nelas mandaram meter
os homens com a sua guerra

Ao mar mandaram as barcas
novas lavradas de armas

Barcas novas são mandadas
sobre o mar

Em Lisboa sobre o mar
armas novas são mandadas


Nota: Adriano Correia de Oliveira criou uma lindíssima versão musical deste tema. Não o encontrámos, no entanto, disponível.

Dia de Lisboa -Almada Negreiros, Amália Rodrigues, David-Mourão Ferreira e Alain Oulman

Este quadro é do mestre Almada Negreiros (1893-1970)



David-Mourão Ferreira (1927-1996) escreveu o poema,

Maria Lisboa



É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata;
na canastra, a caravela,
no coração, a fragata.


Em vez de corvos no chaile,
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile com o mar.

É de conchas o vestido,
tem algas na cabeleira,
e nas velas o latido
do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria;
seu apelido: Lisboa.

Alain Oulman (1928-1990), compôs a música e Amália Rodrigues (1920-1999) interpretou-a como só ela sabia. O resultado foi este:


Dia de Lisboa - Lisboa, a Poesia, a Música & etc.



Lemos algures que Lisboa é a cidade do mundo à qual mais poemas foram dedicados. Não sabemos se é verdade, nem isso nos interessa. Imaginem que contaram nessa lista de centenas ou milhares de composições com letras de fados - algumas magníficas, como as do David Mourão-Ferreira, por exemplo, outras de uma banalidade atroz?

Imaginem que contaram com as letras das marchas da cidade? Bem, achamos que uma cidade como Lisboa merece ser cantada pelos poetas. Porém, não podemos impedir os poetastros e os versejadores de a cantarem também .Até porque  Lisboa é uma cidade que faz de cada um dos lisboetas um poeta. E lisboetas são todos os que vivem em Lisboa e nela não vivendo, todos os que a amam.

Estamos desde o primeiro minuto deste dia a publicar poesia, música, pintura, cijo tema é Lisboa. Agora vêm também aí alguns textos. Mas para já, aqui temos mais um poema de Fernando Pessoa:

Lisbon Revisited (1926)



Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

( Álvaro de Campos, in "Poemas")


Informamos que estes dias temáticos são para continuar - o próximo será sobre  a cidade portuguesa, romãntica por excelência - o Porto. E não ficaremos por aí...

A figura de um desses lisboetas, o Fernando pintado pelo grande Almada Negreiros abre esta primeira crónica matinal. Encerramo-la com outro lisboeta, João Villaret, dizendo o seu "Recado a Lisboa":

Dia de Lisboa - Sérgio Godinho e Caetano Veloso


Sérgio Godinho e Caetano Veloso. Nem um nem outro são lisboetas, mas ambos sentem a magia do amanhecer nesta cidade, mesmo que essa magia seja  feita de corpos cansados, de mentes fatigadas, de vidas frustradas - e ai de quem acorde estremunhado...

Lisboa que amanhece

Cansados vão os corpos para
 casa                                                                                                              
Dos ritmos imitados doutra dança
A noite finge ser
Ainda uma criança de olhos na lua
Com a sua
Cegueira da razão e do desejo


A noite é cega, as sombras de Lisboa
São da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
Amou como se fosse a mais indefesa
Princesa
Que as trevas algum dia coroaram




Não sei se dura sempre esse teu beijo
Ou apenas o que resta desta noite
O vento, enfim, parou
Já mal o vejo
Por sobre o Tejo
E já tudo pode ser
Tudo aquilo que parece
Na Lisboa que amanhece


O Tejo que reflecte o dia à solta
æ noite é prisioneiro dos olhares
Ao Cais dos Miradoiros
Vão chegando dos bares os navegantes
Amantes
Das teias que o amor e o fumo tecem


E o Necas que julgou que era cantora
Que as dádivas da noite são eternas
Mal chega a madrugada
Tem que rapar as pernas para que o dia
Não traia
Dietriches que não foram nem Marlénes




Em sonhos, é sabido, não se morre
Aliás essa é a Única vantagem
De após o vão trabalho
O povo ir de viagem ao sono fundo
Fecundo
Em glórias e terrores e aventuras




E ai de quem acorda estremunhado
Espreitando pela fresta a ver se é dia
E as simples ansiedades
Ditam sentenças friamente ao ouvido
Ruído
Que a noite se acostuma e transfigura
Na Lisboa que amanhece.

(Música e letra de Sérgio Godinho)