António Gomes Marques
Há pessoas que escrevem livros, de imediato publicados, que não necessitam de publicidade e, logo à partida, têm a garantia de venda de milhares de exemplares. Há escritores, uns bons e outros excelentes, que se vêem e desejam para encontrar editor e cujas obras, quando editadas, se vão arrastando ao longo do tempo numa venda lenta e que, muito de vez em quando, lá esgotam a edição. O fenómeno não é apenas português. Claro que também acontece que estes escritores, se têm a sorte de as livrarias lhes darem visibilidade, conseguem passar a ser conhecidos e, naturalmente, a ser procurados; no entanto, com raríssimas excepções, o número de exemplares de cada edição dificilmente ultrapassa os 3000 exemplares. Mas são estes escritores que merecem que deles falemos, que gritemos ao Mundo: «Olhem para aquele livro, leiam-no, discutam-no, pensam-no!»
Mostrar mensagens com a etiqueta italo calvino. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta italo calvino. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 30 de junho de 2010
domingo, 16 de maio de 2010
Italo Calvino nos 25 anos da morte
A aventura de dois esposos
(Conto de Italo Calvino traduzido por Sílvio Castro)
O operário Artur Massolario fazia o turno da noite, aquele que acaba às seis da manhã. Para retornar à sua casa tinha diante de si um longo percurso, feito em bicicleta nas belas estações, com o bonde nos meses chuvosos e invernais. Ele chegava em casa entre as seis e quarenta e cinco e as sete, isto é, certas vezes um pouco antes, outras um pouco depois que tocasse o despertador da mulher, Élide.
As mais das vezes os dois rumores: o som do despertador e o seu passo que entrava se sobrepunham na mente de Élide, chegando-lhe em fundo ao sono, o sono compacto da manhã cedo que ela tentava de espremer ainda por alguns segundos com o rosto afundado no travesseiro. Depois se levantava de repente e logo enfiava sem olhar os braços no roupão, com os cabelos cobrindo-lhe os olhos. Assim ela aparecia diante dele na cozinha, enquanto Artur tirava para fora da bolsa os recipiente vazios que levava consigo para o trabalho: a marmita, a garrafa térmica, e os depositava na pia. Já tinha acendido o fogão e preparado tudo para fazer o café. Bastava que ele a mirasse, a Élide vinha o impulso de passar a mão sobre os cabelos, de arregalar os olhos, como se todas as vezes se envergonhasse um pouco por causa dessa primeira imagem que o marido tinha dela entrando em casa, ela sempre assim em desordem, com o rosto de semi-adormecida. Quando duas pessoas dormiram juntos é uma outra coisa, se acorda pela manhã, ambos a sair do mesmo sono, se é em empate.
Diversas vezes, pelo contrário, era ele que entrava no quarto para acordá-la, com a chícara de café, um minuto antes que o despertador tocasse; então tudo era natural, a cara que luta para sair do sono tomava uma espécie de doçura preguiçosa, os braços que se levantavam para estirar-se, desnudos, acabavam por envolver o pescoço dele. Abraçavam-se. Artur estava vestido com o casacão impermeável; sentindo-o próximo ela podia saber o tempo que fazia: se chovia, nevava ou caia a neblina, conforme o seu grau de humidade e de frio. Mas ainda assim lhe perguntava: como vai lá fora? – e então ele começava com o seu habitual resmungo meio irônico, descrevendo os inconvenientes porque tinha passado, começando pelo fim: o percurso em bicicleta, o tempo encontrado saindo da fábrica, diferente daquele da noite anterior, e os problemas do trabalho, os sussurros que corriam pelo seu setor, e assim por diante.
Naquela hora, a casa estava sempre pouco aquecida, mas Élide se tinha despido completamente, um pouco tremendo, e se lavava, no pequeno banheiro. Depois ele chegava, mais com calma, se desnudava e se lavava também ele, lentamente, liberava-se da poeira e do gordurento da oficina. Assim estando todos os dois em redor da mesma pia, meio nus, um pouco transidos de frio, vez em quando empurrando-se reciprocamente, roubando de mão a mão o sabonete, a pasta de dente, e continuando a dizer as coisas que queriam dizer-se, chegava o momento das confidências, e às vezes, por ventura ajudando-se a turno a esfregar as costas, se insinuava uma carícia, e se viam abraçados.
Mas, de repente, Élide: - Meu Deus! Que horas são? – e corria a meter-se as meias, a saia, tudo numa corrida, de pé, e com a escova que já passava alto e baixo pelos cabelos, e aproximava o rosto ao espelho da cômoda com os ganchos dos cabelos estreitos entre os lábios. Artur a seguia, tinha acendido um cigarro, e a fixava, em pé, fumando, e sempre parecia um pouco embaraçado por ter de estar ali sem nada poder fazer. Élide estava pronta, vestia depressa o capote no corredor, davam-se um beijo, abria a porta e logo se sentia que descia correndo pelas escadas.
Artur ficava sozinho. Seguia o rumor dos saltos dos sapatos de Élide abaixo pelos degraus, e quando não mais a sentia, mais a continuava a seguir com o pensamento, aquele trotear rápido pelo pátio, o portão, a calçada, até a parada do bonde. O bonde, o sentia bem, em verdade: ranger, parar, e o esbater do estrado cada vez que uma pessoa subia. “Ah! acabou de tomá-lo”, pensava, e via sua mulher agarrada a um suporte em meio à multidão de operários e operárias no “onze”, que a conduzia até a fábrica como em todos os dias. Apagava a ponta do cigarro, fechava as venezianas das janelas, criava a penumbra, ia para a cama.
A cama era como a tinha deixado Élide quando se levantara, mas do seu lado, aquele de Artur, era quase intacto, como se tivesse sido apenas refeito. Ele se deitava no próprio lado, do melhor jeito, mas depois alongava uma perna para lá, aonde tinha ficado o calor de sua mulher, depois se alongava também a outra perna, e dessa maneira, pouco a pouco, mudava completamente para o lado de Élide, um nicho di tepidez que ainda conservava a forma do corpo dela, e então afundava o rosto no seu travesseiro, no seu perfume, e depois caia no sono.
Quando Élide retornava, de noite, Artur desde muito girava pelos aposentos da casa: tinha acedido o aquecedor, preparado alguma coisa para cozinhar. Determinados trabalhos ele os fazia, naquelas horas antes do jantar, como refazer o leito, passar a escova de chão por um pouco, até mesmo preparar a água para a lavagem das roupas sujas. Élide, em seguida, achava que tudo tinha sido feito de mal-geito, tudo errado, mas ele, se se deve dizer a verdade, não se empenhava a fundo nessas coisas: o que ele fazia era uma espécie de ritual enquanto a esperava, quase um ir ao seu encontro, porém sempre permanecendo entre as paredes de casa, enquanto lá fora as luzes se acendiam e ela passava pelas lojas em meio àquela animação exagerada dos bairros nos quais existem muitas mulheres que fazem as compras no fim da tarde.
Em determinado momento sentia o passo pela escada, muito diferente daquele da manhã, agora lento, pesado, porque Élide subia cansada pelo jornada de trabalho e carregada de sacolas das compras. Artur saia para ir ao seu encontro, pegava as sacolas, entravam falando um com o outro. Ela se jogava em cima de uma cadeira da cozinha, sem tirar o capote, enquanto ele arrumava as coisas das compras. Depois: - Bem, vamos lá! – ela dizia, e se levantava, tirava o capote, se vestia com um vestido de casa. Começavam a preparar a comida: jantar para todos os dois, depois a merenda que ele levava para a fábrica para o intervalo de trabalho da uma da madrugada, o almoço que ela devia levar consigo amanhã para o trabalho e aquele que deveria já estar pronto para quando ele, no dia seguinte, se levantasse.
Ela, por um lado se dedicava a preparar as coisas, por outro se sentava na cadeira de palha e dizia a ele o que deveria fazer. Ele, pelo contrário, aquele era o momento em que mais se sentia repousado, se prodigava aqui e ali, em verdade gostaria de fazer tudo ele, mas sempre um pouco distraído, com a cabeça já ligada a outras coisas. Em tais momentos, às vezes, quase chegavam ao ponto de discutir, de dizer algumas coisas de ruim, porque ela gostaria de vê-lo mais atento a quanto fazia, que procurasse ser mais ativo, ou senão que fosse mais atento a ela, que lhe fosse mais próximo, lhe desse mais consolações. Pelo contrário, ele depois do primeiro entusiasmo porque ela chegara de volta, logo tinha a cabeça fora das coisas de casa, fixado no pensamento de apressar tudo porque tinha de ir embora.
Preparada a mesa, arrumadas todas as coisas de maneira que não se tivesse necessidade de levantar por nada, então chegava o momento da tristeza que a ambos acometia, porque nem um, nem o outro tinha mais tempo para estarem juntos, e então quase não conseguiam levar o garfo à boca, pela única vontade que tinham de estar ali como agora com as mãos unidas.
Mas, ainda não chegara ao café que ele já estava à procura da bicicleta e a verificar se tudo estava no lugar. Abraçavam-se. Artur somente então parecia compreender como era suave e tépida a sua mulher. Porém, metia às costas o cano da bicicleta e descia atento às escadas.
Élide lavava os pratos, refazia toda a casa, as coisas que o marido tinha feito, balançando a cabeça. Agora ele corria pelas ruas escuras, entre os raros faróis, talvez já ultrapassado o gazômetro. Élide se deitava, apagava a luz. Deitada na própria parte da cama, alongava um pouco um pé na direção do lado de seu marido, para procurar o calor dele, mas cada vez que o fazia compreendia que onde ela dormia era mais quente, sinal que também Artur ali tinha dormido, e por isso provava uma grande ternura.
(tradução de Sílvio Castro)
(Conto de Italo Calvino traduzido por Sílvio Castro)
O operário Artur Massolario fazia o turno da noite, aquele que acaba às seis da manhã. Para retornar à sua casa tinha diante de si um longo percurso, feito em bicicleta nas belas estações, com o bonde nos meses chuvosos e invernais. Ele chegava em casa entre as seis e quarenta e cinco e as sete, isto é, certas vezes um pouco antes, outras um pouco depois que tocasse o despertador da mulher, Élide.
As mais das vezes os dois rumores: o som do despertador e o seu passo que entrava se sobrepunham na mente de Élide, chegando-lhe em fundo ao sono, o sono compacto da manhã cedo que ela tentava de espremer ainda por alguns segundos com o rosto afundado no travesseiro. Depois se levantava de repente e logo enfiava sem olhar os braços no roupão, com os cabelos cobrindo-lhe os olhos. Assim ela aparecia diante dele na cozinha, enquanto Artur tirava para fora da bolsa os recipiente vazios que levava consigo para o trabalho: a marmita, a garrafa térmica, e os depositava na pia. Já tinha acendido o fogão e preparado tudo para fazer o café. Bastava que ele a mirasse, a Élide vinha o impulso de passar a mão sobre os cabelos, de arregalar os olhos, como se todas as vezes se envergonhasse um pouco por causa dessa primeira imagem que o marido tinha dela entrando em casa, ela sempre assim em desordem, com o rosto de semi-adormecida. Quando duas pessoas dormiram juntos é uma outra coisa, se acorda pela manhã, ambos a sair do mesmo sono, se é em empate.
Diversas vezes, pelo contrário, era ele que entrava no quarto para acordá-la, com a chícara de café, um minuto antes que o despertador tocasse; então tudo era natural, a cara que luta para sair do sono tomava uma espécie de doçura preguiçosa, os braços que se levantavam para estirar-se, desnudos, acabavam por envolver o pescoço dele. Abraçavam-se. Artur estava vestido com o casacão impermeável; sentindo-o próximo ela podia saber o tempo que fazia: se chovia, nevava ou caia a neblina, conforme o seu grau de humidade e de frio. Mas ainda assim lhe perguntava: como vai lá fora? – e então ele começava com o seu habitual resmungo meio irônico, descrevendo os inconvenientes porque tinha passado, começando pelo fim: o percurso em bicicleta, o tempo encontrado saindo da fábrica, diferente daquele da noite anterior, e os problemas do trabalho, os sussurros que corriam pelo seu setor, e assim por diante.
Naquela hora, a casa estava sempre pouco aquecida, mas Élide se tinha despido completamente, um pouco tremendo, e se lavava, no pequeno banheiro. Depois ele chegava, mais com calma, se desnudava e se lavava também ele, lentamente, liberava-se da poeira e do gordurento da oficina. Assim estando todos os dois em redor da mesma pia, meio nus, um pouco transidos de frio, vez em quando empurrando-se reciprocamente, roubando de mão a mão o sabonete, a pasta de dente, e continuando a dizer as coisas que queriam dizer-se, chegava o momento das confidências, e às vezes, por ventura ajudando-se a turno a esfregar as costas, se insinuava uma carícia, e se viam abraçados.
Mas, de repente, Élide: - Meu Deus! Que horas são? – e corria a meter-se as meias, a saia, tudo numa corrida, de pé, e com a escova que já passava alto e baixo pelos cabelos, e aproximava o rosto ao espelho da cômoda com os ganchos dos cabelos estreitos entre os lábios. Artur a seguia, tinha acendido um cigarro, e a fixava, em pé, fumando, e sempre parecia um pouco embaraçado por ter de estar ali sem nada poder fazer. Élide estava pronta, vestia depressa o capote no corredor, davam-se um beijo, abria a porta e logo se sentia que descia correndo pelas escadas.
Artur ficava sozinho. Seguia o rumor dos saltos dos sapatos de Élide abaixo pelos degraus, e quando não mais a sentia, mais a continuava a seguir com o pensamento, aquele trotear rápido pelo pátio, o portão, a calçada, até a parada do bonde. O bonde, o sentia bem, em verdade: ranger, parar, e o esbater do estrado cada vez que uma pessoa subia. “Ah! acabou de tomá-lo”, pensava, e via sua mulher agarrada a um suporte em meio à multidão de operários e operárias no “onze”, que a conduzia até a fábrica como em todos os dias. Apagava a ponta do cigarro, fechava as venezianas das janelas, criava a penumbra, ia para a cama.
A cama era como a tinha deixado Élide quando se levantara, mas do seu lado, aquele de Artur, era quase intacto, como se tivesse sido apenas refeito. Ele se deitava no próprio lado, do melhor jeito, mas depois alongava uma perna para lá, aonde tinha ficado o calor de sua mulher, depois se alongava também a outra perna, e dessa maneira, pouco a pouco, mudava completamente para o lado de Élide, um nicho di tepidez que ainda conservava a forma do corpo dela, e então afundava o rosto no seu travesseiro, no seu perfume, e depois caia no sono.
Quando Élide retornava, de noite, Artur desde muito girava pelos aposentos da casa: tinha acedido o aquecedor, preparado alguma coisa para cozinhar. Determinados trabalhos ele os fazia, naquelas horas antes do jantar, como refazer o leito, passar a escova de chão por um pouco, até mesmo preparar a água para a lavagem das roupas sujas. Élide, em seguida, achava que tudo tinha sido feito de mal-geito, tudo errado, mas ele, se se deve dizer a verdade, não se empenhava a fundo nessas coisas: o que ele fazia era uma espécie de ritual enquanto a esperava, quase um ir ao seu encontro, porém sempre permanecendo entre as paredes de casa, enquanto lá fora as luzes se acendiam e ela passava pelas lojas em meio àquela animação exagerada dos bairros nos quais existem muitas mulheres que fazem as compras no fim da tarde.
Em determinado momento sentia o passo pela escada, muito diferente daquele da manhã, agora lento, pesado, porque Élide subia cansada pelo jornada de trabalho e carregada de sacolas das compras. Artur saia para ir ao seu encontro, pegava as sacolas, entravam falando um com o outro. Ela se jogava em cima de uma cadeira da cozinha, sem tirar o capote, enquanto ele arrumava as coisas das compras. Depois: - Bem, vamos lá! – ela dizia, e se levantava, tirava o capote, se vestia com um vestido de casa. Começavam a preparar a comida: jantar para todos os dois, depois a merenda que ele levava para a fábrica para o intervalo de trabalho da uma da madrugada, o almoço que ela devia levar consigo amanhã para o trabalho e aquele que deveria já estar pronto para quando ele, no dia seguinte, se levantasse.
Ela, por um lado se dedicava a preparar as coisas, por outro se sentava na cadeira de palha e dizia a ele o que deveria fazer. Ele, pelo contrário, aquele era o momento em que mais se sentia repousado, se prodigava aqui e ali, em verdade gostaria de fazer tudo ele, mas sempre um pouco distraído, com a cabeça já ligada a outras coisas. Em tais momentos, às vezes, quase chegavam ao ponto de discutir, de dizer algumas coisas de ruim, porque ela gostaria de vê-lo mais atento a quanto fazia, que procurasse ser mais ativo, ou senão que fosse mais atento a ela, que lhe fosse mais próximo, lhe desse mais consolações. Pelo contrário, ele depois do primeiro entusiasmo porque ela chegara de volta, logo tinha a cabeça fora das coisas de casa, fixado no pensamento de apressar tudo porque tinha de ir embora.
Preparada a mesa, arrumadas todas as coisas de maneira que não se tivesse necessidade de levantar por nada, então chegava o momento da tristeza que a ambos acometia, porque nem um, nem o outro tinha mais tempo para estarem juntos, e então quase não conseguiam levar o garfo à boca, pela única vontade que tinham de estar ali como agora com as mãos unidas.
Mas, ainda não chegara ao café que ele já estava à procura da bicicleta e a verificar se tudo estava no lugar. Abraçavam-se. Artur somente então parecia compreender como era suave e tépida a sua mulher. Porém, metia às costas o cano da bicicleta e descia atento às escadas.
Élide lavava os pratos, refazia toda a casa, as coisas que o marido tinha feito, balançando a cabeça. Agora ele corria pelas ruas escuras, entre os raros faróis, talvez já ultrapassado o gazômetro. Élide se deitava, apagava a luz. Deitada na própria parte da cama, alongava um pouco um pé na direção do lado de seu marido, para procurar o calor dele, mas cada vez que o fazia compreendia que onde ela dormia era mais quente, sinal que também Artur ali tinha dormido, e por isso provava uma grande ternura.
(tradução de Sílvio Castro)
Etiquetas:
a aventura de dois esposos,
italo calvino,
sílvio castro
sábado, 15 de maio de 2010
Italo Calvino nos 25 anos da morte

Sílvio Castro
A figura de Calvino no quadro literário italiano do Novecentos se apresenta como referência essencial e como marco de criatividade poética. Através de uma obra marcada por evidente modernidade, em consonância com os pontos que definem as experiências revolucionárias que transformaram não só a literatura, mas praticamente todas as expressões culturais do século XX, ele se coloca possivelmente como o escritor italiano mais universal de seu tempo.
Até mesmo as suas origens como que preanunciam a sua futura personalidade universal. Nascido em Cuba, em Santiago de Las Vegas, nas vizinhanças de Havana, aos 15 de outubro de 1923, filho de um pai da Ligúria, agrônomo de profissão, e de uma mãe sarda, doutora em ciências sociais, Calvino certamente absorveu da infância as influências de um ambiente familiar embebido de preocupações e atividades científicas. Seu pai chega a Cuba, onde permanece por três anos, depois de vinte no México. Sua mãe, pesquisadora científica num tempo em que as italianas ainda não gozavam dos plenos direitos civis e políticos, viveu sempre dedicada à sua formação científica e deu aos filhos, em particular a Calvino, o exemplo de uma personalidade forte e rigorosa. O futuro escritor, homem de empenho político e social, parte dessas características familiares, bem como de sua fortuita, mas marcante experiência pessoal de um nascimento na América Latina. Calvino se sentirá sempre muito preso à cultura latino-americana, não só àquela de língua espanhola, mas igualmente à brasileira. Conhecida era a sua particular admiração por Jorge Amado.
Retornado com a família em Itália em 1925, com ela se instala naquela Ligúria do pai, precisamente em São Remo. A paisagem do mar lígure, das grandes colinas e da longa costa de sua terra de formação, estará presente em muitos de seus livros. Sua mocidade ele a passa nos tempos difíceis do fascismo, nunca inteiramente aceito pela maioria dos lígures, e se prepara para participar das lutas pela extinção do regime. Apenas terminado o curso universitário em Letras, em comunhão com os ideais que a partir de 8 de setembro de 1943 lutam pela redemocratização da Itália, o jovem Calvino adere à Resistência e terminada a guerra se inscreve no Partido Comunista Italiano do qual se demitirá em 1956, depois da invasão soviética da Hungria. Em 1º de agosto de 1957, numa carta aberta a L’Unità, jornal do PCI e no qual desde há muito colaborava, dirigindo a página cultural, ele concluia a exposição dos motivos de seu ato e de sua vontade de não dever partecipar de uma discussão estatutária prevista para casos semelhantes:
“Desejo que, dado o espírito ponderado dessas minhas demissões, que me fossem evitados os colóquios previstos pelo Estatuto, que não fariam senão inclinar a serenidade dessa minha despedida. Peço-vos de publicar esta carta em L’Unità para que assim o meu comportamento apareça claro aos meus companheiros, aos amigos, aos adversários. Desejo enviar uma saudação àqueles companheiros que nos seus setores de trabalho lutam para afirmar justos princípios, e também àqueles mais distantes de minhas posições aos quais respeito como combatentes anciãos e valorosos, e ao qual respeito dou o máximo valor, apesar das nossas opiniões divergentes; e a todos companheiros trabalhadores, à parte melhor do povo italiano, dos quais continuarei a considerar-me o companheiro.”
O espírito de militante independente foi sempre uma característica do homem Calvino no percurso de seus sessenta e dois anos de vida.
De sua obra vão recordados os momentos culminantes, começando com a trilogia plena de fantasia criativa de “I nostri antenati”, com os excepcionais Il visconte dimezzato (1952), Il barone rampante (’57), Il cavaliere inesistente (’59). Em 1963, Marcovaldo ovvero Le stagioni in città, que trata justamente um dos temas, aquele urbano, mais caros à modernidade de Calvino. A respeito da relação entre o homem e o universo urbano, ele teve a dizer: “De uma cidade não gozes as sete ou setenta maravilhas, mas a resposta que dá a uma tua pergunta.” Do ano 1964 são as Cosmicomiche; de 1972 as fantásticas Le città invisibili e do ano seguinte, Il castello dei destini incrociati; de 1979, Se una notte d’inverno un viaggiatore, para chegar até a experiência da ficção científica com Palomare, de 1983.
Alguns anos atrás um editor brasileiro me convidou a fazer a tradução da “Obra Completa”, de Calvino, que ele estava por publicar. Não pude aceitar o convite em face de meus empenhos de pesquisa e didatica na Universidade italiana, pelos meus muitos trabalhos em via de conclusão ou em projetos, bem como porque não me reconhecia como um tradutor profissional. Para compensar uma frustração que jamais superei completamente em razão daquela resposta negativa, hoje proponho junto a este artigo, antecipador dos vinte e cinco anos da morte de Calvino – 19 de setembro de 1985 – a tradução de um dos seus contos presentes no volume Racconti, de 1958, justamente aquele de título “L’avventura di due sposi”, que nos mostra um Calvino politicamente militante, mas independente e principalmente um grande criador literário.
Desejo concluir este meu testemunho em homenagem aos vinte e cinco anos da morte de Italo Calvino reafirmando o quanto ele tivesse em consideração as literaturas de língua portuguesa, em modo especial aquela brasileira. Como clara demonstração de uma tal atenção reproduzo no original, com a correspondente minha tradução, uma carta que diz da troca de idéias que tive oportunidade de manter com ele sobre a produção literária de nossos autores. Desde os primeiros anos de minha experiência italiana, sempre em curso, procurei falar constantemene com os mais representativos operadores editoriais da Itália, como testemunho no meu volume de 1993, Trenta anni di portoghese a Padova e a Venezia. Calvino colaborou intensamente com a editora Einaudi, ali introduzido por Cesare Pavese, um dos responsáveis editoriais da Editora, e nela foi por muito tempo programador da política editorial. A carta abaixo que aqui publico pela primeira vez está assinada por Paolo Fossati, diretor editorial:
Torino, 4 marzo 1969
Professor
Silvio Castro
Fondamenta de Ca’ Bernardo 2196
S. Polo
V e n e z i a
Gentile Professore,
La ringrazio anche a nome di Calvino, che mi ha passato la Sua lettera, per le proposte che fà alla nostra casa editrice.
In particolare per ciò che concerne i due poeti brasiliani, di cui però vorremo farci un’idea più precisa. Lei potrebbe, in via preliminare a una nostra decisione, farci avere una cartella crítica di presentazione dei due e qualche traduzione Sua dei medesimi? Con questo materiale in mano potremo decidere.
Circa il Pavese: noi non ci interessiamo di sollecitare o collocare edizioni dei nostri escritori presso altri editori, e non ho quindi possibilità di proporre il Suo lavoro.
Lei può seguire la via inversa rivolgendosi alle case editrici interessate. Mi sembra l’unica soluzione pratica.
Gradisca un cordiale saluto
(Paolo Fossati)
(Muito gentil Professor,
Agradeço-lhe também em nome de Calvino, que me passou a sua carta, pelas propostas que nela faz à nossa casa editora.
Em particular pelo que se refere aos dois poetas brasileiros, dos quais porém que queremos ter uma idéia mais precisa. Poderia o senhor, em via preliminar a uma nossa decisão, fornece-nos uma página crítica de apresentação dos dois e algumas traduções suas dos mesmos? Com este material em mãos poderemos decidir.
Quanto a Pavese: nós não nos interessamos de solicitar ou colocar edições de nossos escritores junto a outros editores, e de consequência, portanto, não tenho possibilidade de propor o seu trabalho.
O senhor pode seguir a via inversa, contactando as editoras interessadas. Parece-me que seja esta a única solução prática.
Queira aceitar uma cordial saudação
(Paolo Fossati)
Tudo o que foi pedido por Fossati foi feito. Os dois poetas em questão eram Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Quanto a questão Pavese, certamente houve uma possível confusão por parte do responsável editorial de Einaudi em relação aos meus termos na carta que enviei a Calvino. Em verdade eu indagava, começando a trabalhar na tradução das “Poesias Completas” de Cesare Pavese, como estava a questão da venda de direitos da mesma para a área da língua portuguesa. Isso em face do problema ainda vigente hoje de direitos vendidos a editoras portuguesas para toda a nossa área linguística, com evidente dificuldades para os editores brasileiros. Logicamente eu, no momento em que considerasse concluído o trabalho da minha tradução, trataria diretamente com os editores brasileiros interessados. Mas a tradução entrou pelos anos. Agora está pronta, com uma longa apresentação crítica. Dentro em pouco farei propostas aos editores que fossem interessados à poesia de Pavese. Assim, essa será a minha segunda tradução de poetas italianos contemporâneos, depois da primeira, dos “Poemas Escolhidos de Quasímodo”, publicada pela editora Globo de Porto Alegre. A edição da minha tradução da poesia de Pavese será também, da minha parte, mais uma homenagem a Calvino, tendo em vista a grande amizade que o unia ao poeta de Lavorare stanca.
Etiquetas:
itália,
italo calvino,
jorge amado,
silvio castro
Subscrever:
Mensagens (Atom)

