27 de abril
Espero de não estar te aborrecendo, minha querida filha, com tantas notícias e novidades. Mas são tantas as descobertas que faço nesses dias de maravilhas que não sei como me limitar. Gostaria porém de poder transmitir à minha querida Maria, que tanto me falta nesta longa viagem, a felicidade que agora sinto nesta terra nova, depois de tantos dias difíceis passados por mim desde que deixei a nossa casa. Sei, Maria, que a tua bondade compreenderá os meus arroubos e a tua doçura mitigará os meus excessos. Por isso te conto tudo. Como se contasse a mim mesmo para assim viver duas vezes os mesmos sucessos dessa experiência que arrebata o meu coração.
Nesta segunda-feira, logo depois de comer, saímos todos para o abastecimento de água. É um belo espetáculo, minha querida Maria, ver tantos batéis que se destacam das naus e partem para a praia. Ali vieram ao nosso encontro muitos dos naturais da terra, mas não tantos como das outras vezes. Uma coisa que logo me chamou a atenção é que dentre eles poucos traziam arcos e setas. Inicialmente mantiveram-se um pouco afastados, para depois, pouco a pouco, misturarem-se conosco. Tudo isso com grandes demonstrações de simpatia. Abraçavam-nos e folgavam. Mas alguns logo depois se esquivavam. E logo retornavam ao maior prazer deles, as trocas. Davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha ou por qualquer outra coisa. Era tanta a simpatia recíproca nesses encontros que bem vinte ou trinta dos nossos se foram com eles em direção de um lugar onde muitos outros deles estavam em companhia de moças e mulheres. Tudo isso acontecia, minha Maria, com muita tranqüilidade e simplicidade. Quando de lá voltaram esses nossos trouxeram muitos arcos e barretes de penas de aves, de tantas cores, verde, amarelo, vermelho. Via-se nos olhos deles e de seus contos quanto estavam contentes de lá terem ido.
Já agora, minha adorada filha, estando mais perto deles e com mais continuidade, podia observar melhor muitos de seus usos. Naturalmente o que logo chamava a atenção era a maneira como se pintavam por todo o corpo. Esses enfeites tinham sempre um sentido e eram sempre feitos com grande perfeição, seja nos homens como nas mulheres. Dentre as cores que usam para a ornamentação do corpo a mais habitual é o vermelho. Eles trazem sempre à mão pequenos grãos que quando esmagados entre os dedos fazem um rutilante vermelho. Com ele, quanto mais se molham mais este vermelho se aviva. São tantas e brilhantes as cores dessas decorações que chegam a recordar-me a riqueza dos panos de Arras.
Todos trazem os lábios furados, sendo que muitos traziam ossos neles e outros sem ossos. Todos andavam com os cabelos raspados até por cima das orelhas. Na testa, de lado a lado, estavam sempre pintados de uma tintura preta, conseguindo com isso dar a impressão de um fita preta da largura de dois dedos. Além dos cabelos da cabeça raspavam, mas então completamente, as sombracelhas e as pestanas.
Então, o Comandante mandou Afonso Ribeiro e outros dois degredados que se fossem misturar com eles. E o mesmo disse a Diogo Dias que depois da festa de ontem tornara-se íntimo de muitos deles. Aos degredados ordenou que ficassem lá esta noite. Assim eles fizeram e, como depois contaram, caminharam por mais de uma légua e meia até uma povoação formada de nove ou dez casas, as quais eram tão compridas como a nossa nau-capitânea. Eram de boa altura, boas madeiras formavam as suas ilhargas e cobertas de palhas. Todas elas se compunham de um só espaço, sem qualquer repartição de cômodos, com muitos esteios internos. De esteio a esteio ficava colocada uma rede, atada com cabos aos esteios. Eram altas e nelas eles dormiam e praticamente viviam os diversos momentos de lazer. Debaixo da rede faziam seus fogos para se aquentarem. Cada casa tinha duas portas pequenas, uma em cada extremidade. E diziam que em casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, numa grande família. Assim eles os viram. E que lhes deram de comer os alimentos que tinham no momento, muito inhame e outros tipos de raízes encontráveis na terra e que eles comem com grande satisfação. Como já anoitecia fizeram com que eles voltassem, demonstrando depois de tanta hospitalidade que não queriam que eles lá passassem a noite. Não permitiram que ninguém ali pernoitasse, mas alguns quiseram acompanhá-los no retorno. Lá trocaram por quinquilharias que tinham levado papagaios vermelhos, grandes e formosos, e ainda mais dois de outro tipo, verdes e pequeninos. Igualmente obtiveram carapuças de penas verdes e mais uma espécie de pano de penas de muitas cores, um tecido tão belo que o Comandante o recolheu para presentear a D. Manuel, nosso Senhor.
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terça-feira, 10 de agosto de 2010
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Memorial do Paraíso, de Silvio Castro - 5
7 de abril
Muitas vezes toda a tripulação da nau e mais todos os outros viajantes se encontram diante do oratório suspenso, minha doce Maria, principalmente nas ave-marias. Então está também conosco o nosso Comandante. O nobre Pedro Álvares Cabral pede nessa ocasião a D. Enrique que comece os atos. Acompanhando D. Enrique, um dos religiosos franciscanos entoa as orações vesperais. Nessas horas, minha querida filha, o espírito divino desce sobre os homens e deslisa sobre o marulhar constante das águas. Olhando no horizonte, dentro do vago entardecer, me parece de poder ver nos infinitos distantes dessas águas uma paz e uma certeza que pertencem a toda humanidade. É um grande silêncio o figurar das velas e o murmúrio de vozes e lenhos e ondas.
8 de abril
Pedro Álvares Cabral, minha querida filha, o nosso mui leal e nobre Comandante, nos dá o maior exemplo de religiosidade. Ele sempre convive com o espírito de nossa Santa Religião. Sendo austero por natureza, por isso mesmo, pela sua natural índole religiosa é muito capaz de humanidade. É duro e gentil, a um só tempo. Além da participação com todos nós nos atos religiosos coletivos, ele tem na sua pequena cabina, colocada em posto de realce, uma bela cruz de metal. É uma peça não verdadeiramente rica, mas muito bela. É feita de bronze puxado, todo lavrado, gravado e dourado. A cruz pousa sobre um pequeno pedestal de madeira, também esse trabalhado com esmero. Na parte inferior, quase um báculo - toda lavrada, gravada e dourada - alarga-se uma base em arremedo de fortaleza circular sobre a qual se apóia o crucifixo com o Filho de Deus sacrificado. As pontas da cruz são desenhadas em forma de flor-de-lis. Diante da cruz Pedro Álvares Cabral medita sobre essa nossa longa caminhada que nos leva sempre adiante, para onde sabemos que chegar é a meta, mas ignoramos tudo que ela nos fará viver. O vulto debruçado do Comandante é como a nossa vigília diante de um futuro que é nosso e que, noite e dia neste mar, nos mete em vigilante atenção.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Memorial do Paraíso, de Sílvio Castro - 4
Senhor,
essas que choram mudas e tristemente são as vozes dos marinheiros depois da busca inútil. Na impenetrável calma do dia a navegação recomeça e as velas retomam o ocidente como uma grande procissão de fantasmas abismados.
Senhor,
onde estão minhas palavras aladas que tanto desejavam alegrar os Vossos ouvidos? Pra onde foram, para que perdidos lugares? Quem sabe, agora certamente caminham no fundo dos mares acompanhando as nossas desgraçadas caravelas que não cessam de percorrer todos os abismos abissais. São as naves de tantos heróis portugueses. Adiante delas vai a nau do infeliz capitão Vasco de Ataíde. Que não verá o que nós veremos.
23 de março, segunda-feira
Ah! que tragica e triste segunda-feira, minha querida Maria.
Depois que deixamos São Nicolau, a noite foi calma. Tudo corria bem depois daquele dia de decisões, as naves caminhavam seguras no mar calmo em busca de novos caminhos. No silêncio da noite, duas ou três vezes acordei-me sem motivo verdadeiro, pois não de insônia sofria, e retomava a consciência de encontrar-me naquela nau e naquele mar após os pequenos espaços de sonhos que me conduziam para terras firmes e conhecidas. Recuperando a minha realidade, podia escutar os muitos silêncios que aquela noite encobria. Adormeci-me definitivamente.
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terça-feira, 3 de agosto de 2010
Memorial do Paraíso, de Sílvio Castro - 3
FESTA PARA O PRÍNCIPE VENTUROSO.
Ato 2º
(A cena é a céu-aberto. No grande convés da nau-capitânea, num ângulo onde chegam as sombras dos grandes mastros e velas, está uma grande mesa retangular. Na cabeceira, em direção da popa, a cadeira de braços, ricamente trabalhada, do Comandante. Nos dois lados da mesa, seis de cada lado, as cadeiras para os capitães. Sobre a mesa, dispostos para os hóspedes, canecas com tampa, pratos covos e jarros gomil. Distante, num ângulo semi-iluminado, um tamborete baixo, onde se senta o Mensageiro.)
Senhor,
agora vereis uma cena de harmonia. Nela Vossa Alteza poderá mais uma vez verificar o gênio que guia os Vossos homens nos caminhos do desconhecido.
Era cedo quando aqui chegamos, nessas Vossas ilhas do Cabo Verde. São Nicolau nos está diante e assim todas aquelas outras do grupo a ocidente de Barlavento. Elas se desperdem pontilhando as águas desse mar, fronteando o Cabo. As outras, a oriente e de Sotavento recamam as águas.
Ali está a mesa onde daqui a pouco se sentarão com o Capitão-mor os doze outros capitães dessa Vossa armada. Aquela é a bela cadeira de braços, a predileta de Álvares Cabral. Naquelas canecas e naqueles pratos os bravos restaurarão as forças que o mar teima em minar. Daqueles belos jarros gomil, vindos de longe, de Vossos domínios da China, será servido o bom vinho que dará alegria e conforto àqueles que se preparam para o encontro infinito.
Escutai,
já as outras naves se aproximam da nau-capitânea. São os capitães que chegam e se acingem a subir a bordo. Eis o primeiro, o muito nobre Sancho de Tovar, ricamente coberto com a sua capa escarlate. Gonçalo Coelho segue-o logo depois na fidalguia constante de seus movimentos. Agora chega Bartolomeu Dias, a cabeça resoluta sempre descoberta, o vestuário despretensioso e o fazer lhano de quem pode a cada momento reencontrar o Tormentoso. O rico Aires Gomes sobe a bordo sem abandonar os adornos típicos de seu poder e bom-gosto: inseparável a pedra bazar que lhe está atacada ao peito para defendê-lo de todos os venenos e de todos os malefícios. Em seguida chegam Simão Miranda e Aires Correa, e o jovem Diogo Dias, e Gaspar de Lemos, e Pero de Ataíde, e Luís Pires, Simão de Pina e o sempre austero Nuno Leitão da Cunha. Chega Vasco de Ataíde, o último a subir a bordo. Parece que vem de longe e seus olhos miram distante. O infeliz capitão está presente e ausente, ao mesmo tempo, naquele olhar que não sabe liberar-se do ondejar intermitente das águas.
Ato 2º
(A cena é a céu-aberto. No grande convés da nau-capitânea, num ângulo onde chegam as sombras dos grandes mastros e velas, está uma grande mesa retangular. Na cabeceira, em direção da popa, a cadeira de braços, ricamente trabalhada, do Comandante. Nos dois lados da mesa, seis de cada lado, as cadeiras para os capitães. Sobre a mesa, dispostos para os hóspedes, canecas com tampa, pratos covos e jarros gomil. Distante, num ângulo semi-iluminado, um tamborete baixo, onde se senta o Mensageiro.)
Senhor,
agora vereis uma cena de harmonia. Nela Vossa Alteza poderá mais uma vez verificar o gênio que guia os Vossos homens nos caminhos do desconhecido.
Era cedo quando aqui chegamos, nessas Vossas ilhas do Cabo Verde. São Nicolau nos está diante e assim todas aquelas outras do grupo a ocidente de Barlavento. Elas se desperdem pontilhando as águas desse mar, fronteando o Cabo. As outras, a oriente e de Sotavento recamam as águas.
Ali está a mesa onde daqui a pouco se sentarão com o Capitão-mor os doze outros capitães dessa Vossa armada. Aquela é a bela cadeira de braços, a predileta de Álvares Cabral. Naquelas canecas e naqueles pratos os bravos restaurarão as forças que o mar teima em minar. Daqueles belos jarros gomil, vindos de longe, de Vossos domínios da China, será servido o bom vinho que dará alegria e conforto àqueles que se preparam para o encontro infinito.
Escutai,
já as outras naves se aproximam da nau-capitânea. São os capitães que chegam e se acingem a subir a bordo. Eis o primeiro, o muito nobre Sancho de Tovar, ricamente coberto com a sua capa escarlate. Gonçalo Coelho segue-o logo depois na fidalguia constante de seus movimentos. Agora chega Bartolomeu Dias, a cabeça resoluta sempre descoberta, o vestuário despretensioso e o fazer lhano de quem pode a cada momento reencontrar o Tormentoso. O rico Aires Gomes sobe a bordo sem abandonar os adornos típicos de seu poder e bom-gosto: inseparável a pedra bazar que lhe está atacada ao peito para defendê-lo de todos os venenos e de todos os malefícios. Em seguida chegam Simão Miranda e Aires Correa, e o jovem Diogo Dias, e Gaspar de Lemos, e Pero de Ataíde, e Luís Pires, Simão de Pina e o sempre austero Nuno Leitão da Cunha. Chega Vasco de Ataíde, o último a subir a bordo. Parece que vem de longe e seus olhos miram distante. O infeliz capitão está presente e ausente, ao mesmo tempo, naquele olhar que não sabe liberar-se do ondejar intermitente das águas.
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domingo, 1 de agosto de 2010
Memorial do Paraíso, de Sílvio Castro - 1
A minha terra era longe dali, no restante do mundo.
João Guimarães Rosa
Navegar, minha amada e infeliz filha, é poder num só momento viver tantos momentos; estar presente ao que se assiste e às lembranças; sentir e pressentir, chegar e esperar. O mar é este gentil caminho que nos leva em todas as direções e nos envolve como um manto. Navegar é estar sozinho sem solidão. Por isso te recordo, minha Maria, neste mar e nesta terra nova, e quero contar-te todas as andanças que me acompanham. Sei que te sentes sempre triste com a tua existência incompreendida, e quero alegrar-te um pouco e estar contigo em nossa casa. Então, pensei, escreverei para minha Maria todas as comoções das minhas viagens e as revelações delas. Para ela falarei de tudo que vivo e descubro, assim mesmo como farei para o meu Rei e meu Senhor. Já lá se vão tantos dias de minha partida, mas começarei hoje, como me ordenou meu Comandante. Quando daqui a dias a nave de Gaspar de Lemos retornar a Lisboa e nós continuaremos para as Índias, junto com a carta para El-Rei, irá também este diário para Maria. Nele, Maria, te contarei tudo. Começo hoje. Mas parto daquele primeiro dia em Belém. Assim, muitas coisas que te direi serão puras lembranças. Outras, verdades.
João Guimarães Rosa
Navegar, minha amada e infeliz filha, é poder num só momento viver tantos momentos; estar presente ao que se assiste e às lembranças; sentir e pressentir, chegar e esperar. O mar é este gentil caminho que nos leva em todas as direções e nos envolve como um manto. Navegar é estar sozinho sem solidão. Por isso te recordo, minha Maria, neste mar e nesta terra nova, e quero contar-te todas as andanças que me acompanham. Sei que te sentes sempre triste com a tua existência incompreendida, e quero alegrar-te um pouco e estar contigo em nossa casa. Então, pensei, escreverei para minha Maria todas as comoções das minhas viagens e as revelações delas. Para ela falarei de tudo que vivo e descubro, assim mesmo como farei para o meu Rei e meu Senhor. Já lá se vão tantos dias de minha partida, mas começarei hoje, como me ordenou meu Comandante. Quando daqui a dias a nave de Gaspar de Lemos retornar a Lisboa e nós continuaremos para as Índias, junto com a carta para El-Rei, irá também este diário para Maria. Nele, Maria, te contarei tudo. Começo hoje. Mas parto daquele primeiro dia em Belém. Assim, muitas coisas que te direi serão puras lembranças. Outras, verdades.
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sábado, 31 de julho de 2010
Jorge Amado fala sobre "Memorial do Paraíso", de Sílvio Castro
Este romance do nosso colaborador Sílvio Castro foi lançado em Itália antes de ter sido publicada a edição em português. Jorge Amado, o grande escritor brasileiro, publicou no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, logo após o lançamento dessa edição em Itália, o artigo que temos o prazer de transcrever.
O memorial do paraíso
Jorge Amado
Li o romance de Sílvio Castro, Memoriale del Paradiso, na belíssima edição italiana do Centro Internazionale della Grafica de Venezia, com ilustrações preciosas de Luigi Rinciotti. As ilustrações completam o texto não menos precioso: a escrita do romance de Sílvio Castro tem um tratamento de iluminura, a graça e a fluidez.
Não é a primeira vez que leio romances de autor brasileiro em língua estrangeira antes que seja publicado em português. Durante a ditadura militar aconteceu-me idêntica experiência com livros cuja editoração no Brasil fizera-se impossível. Recordo ter lido, igualmente em língua italiana, romance de Ignácio de Loyola Brandão, inédito em língua portuguesa devido às circunstâncias de ordem política, a ordem política dos gorilas: creio que o excelente romancista que é Ignácio de Loyola se fez conhecido e admirado na Europa antes de se tornar um dos escritores preferidos do público nacional. Eu próprio, levado pelas contingências da vida pública, publiquei um livro, O Cavaleiro da Esperança, na Argentina, em 1942; somente em 1945 foi possível editá-lo em português.
Tendo lido Memoriale del Paradiso em italiano, desejo antes de mais referir-me à qualidade da tradução, muito boa, de Sandra Bagno e Laura Scalambrin, em língua(s) portuguesa(s), formadas ambas sob a direcção de Sílvio Castro, cujo extraordinário trabalho no estudo, na pesquisa e na divulgação da cultura brasileira no norte de Itália não cabe neste breve texto; o que ele tem realizado nesses trinta anos de cátedra em Veneza e em Pádua é matéria para muitas páginas. Mais vale lembrar que Sandra Bagno está debruçada sobre os materiais que deverão resultar no estudo definitivo que a figura tão importante que a figura tão importante e tão injustamente esquecida de Almachio Diniz está a reclamar.
Memorial do Paraíso é o primeiro volume de uma trilogia que, completada, será com certeza de notável importância como reconstrução histórica e literária: a este primeiro romance seguir-se-ão Os Senhores Singulares e Aventuras e desventuras do veneziano Piero Contarini entre os selvícolas brasileiros. Por fim teremos a recriação em termos de ficção dos dias iniciais da vida brasileira após a descoberta, um painel do Brasil em seus começos, quando ainda não existia nação, apenas as tribos e os recém-chegados europeus, os portugueses e os demais.
Este Memorial, primeiro volume da trilogia, nasce da carta de Pero Vaz de Caminha a dom Manuel, rei de Portugal (dela, por sinal, Sílvio Castro fizera publicar em 1984 uma primeira edição crítica em italiano), a acção narrativa se desenvolve através de uma série de cartas, espécie de diário, dirigidas pelo escriba português a Maria, “filha amada e infeliz”, nas quais pretende “tudo contar” e tem muito que contar. No bojo desse diário de epístolas se projeta um espetáculo teatral, a “Festa para o Príncipe Perfeito”, o texto ganha força de ação, enriquece-se com o diálogo, e complementa e amplia o que é revelado nas cartas a Maria.
Sílvio Castro conseguiu construir uma arquitectura original para o romance, nela os tempos e os espaços romanescos encontram a medida justa e certa da narrativa, a pluma de Pero Vaz de Caminha faz a unidade da peça e das missivas, mantendo sempre em alto nível a compreensão e a escrita. Tome-se de qualquer das páginas para que se comprove a maestria do autor: “Principe, lá sono i vostri nuovi sudditi”; releio o capítulo no gozo da leitura, no prazer da frase a revestir o assunto.
Pena citar em tradução italiana. Já que o faço, aproveito para recomendar aos editores brasileiros a publicação, o quanto antes, deste romance de Sílvio Castro. O ficcionista nada fica a dever ao mestre pesquisador, ao catedrático, ao ensaísta, ao historiador da literatura; além da erudição, o autor possui o dom da inventiva. E que à edição deste primeiro romance sigam-se as dos dois outros para que se complete a trilogia e nos seja dado saber como éramos e de que maneira tropeçamos os primeiros passos no caminho da nacionalidade brasileira.
O memorial do paraíso
Jorge Amado
Li o romance de Sílvio Castro, Memoriale del Paradiso, na belíssima edição italiana do Centro Internazionale della Grafica de Venezia, com ilustrações preciosas de Luigi Rinciotti. As ilustrações completam o texto não menos precioso: a escrita do romance de Sílvio Castro tem um tratamento de iluminura, a graça e a fluidez.
Não é a primeira vez que leio romances de autor brasileiro em língua estrangeira antes que seja publicado em português. Durante a ditadura militar aconteceu-me idêntica experiência com livros cuja editoração no Brasil fizera-se impossível. Recordo ter lido, igualmente em língua italiana, romance de Ignácio de Loyola Brandão, inédito em língua portuguesa devido às circunstâncias de ordem política, a ordem política dos gorilas: creio que o excelente romancista que é Ignácio de Loyola se fez conhecido e admirado na Europa antes de se tornar um dos escritores preferidos do público nacional. Eu próprio, levado pelas contingências da vida pública, publiquei um livro, O Cavaleiro da Esperança, na Argentina, em 1942; somente em 1945 foi possível editá-lo em português.
Tendo lido Memoriale del Paradiso em italiano, desejo antes de mais referir-me à qualidade da tradução, muito boa, de Sandra Bagno e Laura Scalambrin, em língua(s) portuguesa(s), formadas ambas sob a direcção de Sílvio Castro, cujo extraordinário trabalho no estudo, na pesquisa e na divulgação da cultura brasileira no norte de Itália não cabe neste breve texto; o que ele tem realizado nesses trinta anos de cátedra em Veneza e em Pádua é matéria para muitas páginas. Mais vale lembrar que Sandra Bagno está debruçada sobre os materiais que deverão resultar no estudo definitivo que a figura tão importante que a figura tão importante e tão injustamente esquecida de Almachio Diniz está a reclamar.
Memorial do Paraíso é o primeiro volume de uma trilogia que, completada, será com certeza de notável importância como reconstrução histórica e literária: a este primeiro romance seguir-se-ão Os Senhores Singulares e Aventuras e desventuras do veneziano Piero Contarini entre os selvícolas brasileiros. Por fim teremos a recriação em termos de ficção dos dias iniciais da vida brasileira após a descoberta, um painel do Brasil em seus começos, quando ainda não existia nação, apenas as tribos e os recém-chegados europeus, os portugueses e os demais.
Este Memorial, primeiro volume da trilogia, nasce da carta de Pero Vaz de Caminha a dom Manuel, rei de Portugal (dela, por sinal, Sílvio Castro fizera publicar em 1984 uma primeira edição crítica em italiano), a acção narrativa se desenvolve através de uma série de cartas, espécie de diário, dirigidas pelo escriba português a Maria, “filha amada e infeliz”, nas quais pretende “tudo contar” e tem muito que contar. No bojo desse diário de epístolas se projeta um espetáculo teatral, a “Festa para o Príncipe Perfeito”, o texto ganha força de ação, enriquece-se com o diálogo, e complementa e amplia o que é revelado nas cartas a Maria.
Sílvio Castro conseguiu construir uma arquitectura original para o romance, nela os tempos e os espaços romanescos encontram a medida justa e certa da narrativa, a pluma de Pero Vaz de Caminha faz a unidade da peça e das missivas, mantendo sempre em alto nível a compreensão e a escrita. Tome-se de qualquer das páginas para que se comprove a maestria do autor: “Principe, lá sono i vostri nuovi sudditi”; releio o capítulo no gozo da leitura, no prazer da frase a revestir o assunto.
Pena citar em tradução italiana. Já que o faço, aproveito para recomendar aos editores brasileiros a publicação, o quanto antes, deste romance de Sílvio Castro. O ficcionista nada fica a dever ao mestre pesquisador, ao catedrático, ao ensaísta, ao historiador da literatura; além da erudição, o autor possui o dom da inventiva. E que à edição deste primeiro romance sigam-se as dos dois outros para que se complete a trilogia e nos seja dado saber como éramos e de que maneira tropeçamos os primeiros passos no caminho da nacionalidade brasileira.
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domingo, 11 de julho de 2010
Insones, noctívagos & afins - Flor, telefone, moça
Carlos Drummond de Andrade
Não, não é um conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras vezes não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente, porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.
Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.
- Sei de um caso de flor que é tão triste!
E sorrindo:
- Mas você não vai acreditar, juro.
Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.
- Era uma moça que morava na rua General Polidoro – começou ela. – Perto do cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que de não ver passar nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.
Não, não é um conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras vezes não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente, porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.
Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.
- Sei de um caso de flor que é tão triste!
E sorrindo:
- Mas você não vai acreditar, juro.
Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.
- Era uma moça que morava na rua General Polidoro – começou ela. – Perto do cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que de não ver passar nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Carlos Drummond de Andrade vem ao Terreiro da Lusofonia
trazendo "O amor natural"
O grande poeta brasileiro (1902-1987) é por demais conhecido e a sua obra (lembremos apenas Sentimento do Mundo ou A Rosa do Povo) faz parte do património das literaturas de língua portuguesa. Há uma dimensão, porém, não muito frequentada pela crítica e que se refere a um volume de poesia, O Amor Natural, até pelo modo, quase clandestino, como foi publicado. Em Agosto de 1985, a um jornalista que lhe pedia notícias sobre o livro, Drummond respondeu-lhe que não tinha intenção de publicar os seus versos eróticos, receando que o leitor os considerasse pornográficos.
Na verdade, o volume já tinha sido publicado em 1981 numa edição reservada de apenas dois exemplares, um dos quais entregue ao escritor argentino Manuel Graña Etcheverry, crítico literário e genro do poeta. O outro exemplar foi submetido à apreciação de outros amigos e estudiosos, que o avaliaram com apreço, mas Drummond continuou a mantê-lo em silêncio.
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quinta-feira, 24 de junho de 2010
"Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto e Chico Buarque no Terreiro da Lusofonia
João Cabral de Melo Neto, foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Nasceu no Recife em 1920 e morreu no Rio de Janeiro em1999. Diplomata de profissão, a sua poesia caracterizou-se por um grande rigor formal, pela utilização de vocábulos que sugeriam secura, parcimónia e austeridade . Membro da Academia Brasileira de Letras, recebeu com vários prémios literários. Foi apontado como candidato ao Prémio Nobel.
As suas principais obras foram:
Pedra do Sono (1942); Os Três Mal-Amados (1943);O Engenheiro (1945); Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode (1947); O Cão sem Plumas (1950);O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade do Recife (1954);Dois Parlamentos (1960);Quaderna (1960);A Educação pela Pedra (1966);Morte e Vida Severina (1966);Museu de Tudo (1975);A Escola das Facas (1980);Auto do Frade (1984);Agrestes (1985);Crime na Calle Relator (1987);Primeiros Poemas (1990);Sevilha Andando (1990).
Morte e Vida Severina é uma das suas obras mais conhecidas. Chico Buarque de Holanda, musicou-a. No vídeo, podemos ouvir um excerto desse trabalho do então jovem músico em torno do poema de João Cabral de Melo Neto.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Dorival Caymmi e Jorge Amado no Terreiro da Lusofonia - "É doce morrer no mar"
Apresentámos no nosso Terreiro «É doce morrer no mar», interpretado por duas grandes cantoras - a cabo-verdiana Cesária Évora e a brasileira Marisa Monte. Podemos ler toda a letra:
É doce morrer no mar,
Nas ondas verdes do mar
A noite que ele não veio foi,
Foi de tristeza pra mim
Saveiro voltou sozinho
Triste noite foi pra mim
É doce...
Saveiro partiu de noite, foi
Madrugada não voltou
O marinheiro bonito
Sereia do mar levou.
É doce...
Nas ondas verdes do mar, meu bem
Ele se foi afogar
Fez sua cama de noivo
No colo de Iemanjá
Dorival Caymmi contou que esta maravilhosa canção foi criada, numa reunião de amigos, em casa do coronel João Amado de Faria, pai de Jorge Amado. Num ambiente descontraído, Dorival criou a canção partindo de um tema de "Mar Morto", romance de Jorge sobre os mestres de saveiros: "É doce morrer no mar / nas ondas verdes do mar".
Jorge compôs mais alguns versos, completando a canção. Ainda se fez um pequeno concurso entre os amigos presentes (Érico Veríssimo, Clóvis Amorim e outros), mas foram os versos do Jorge que venceram.
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quarta-feira, 19 de maio de 2010
Apresentando Sílvio Castro
Apresentação da obra Poesia do Socialismo Português, Sílvio Castro é o terceiro, ao centro. O nosso colaborador, António Gomes Marques, faz a apresentação. O acto decorreu no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira.
Sílvio Castro, nasceu em Laranjais, Rio de Janeiro, em 1931. Poeta, ficcionista, ensaísta e titular da cátedra de Língua e Literatura Portuguesa e de Literatura Brasileira na Universidade de Pádua. Em 1960-61, foi presidente da União Brasileira de Escritores. No campo da ficção, a sua obra mais divulgada é Memorial do Paraíso — o Romance do Descobrimento do Brasil, uma bela interpretação da “Carta de Pero Vaz de Caminha” ao rei D. Manuel, onde pela primeira vez o Brasil é descrito, trabalho a que Jorge Amado rendeu rasgados elogios. O seu livro mais recente, Poesia do Socialismo Português no Percurso de 1850 a 1974, estudo que ostenta como objectivo central demonstrar a existência, no período considerado, de um recorrente projecto de associar a poesia à realidade sociopolítica portuguesa.
As suas obras mais importantes são: Infinito Sul (1956); As Noites (1958); Machado de Assis e a Cidade do Rio de Janeiro (1959); Tempo Presente (1961); Rachel de Queiroz e o Romance Nordestino (1961);Raiz Antiga (1965); Tempo Veneziano (1967); Campo Geral: Estrutura e Estilo de Guimarães Rosa (1970); A Revolução da Palavra: Origens e Estrutura da Literatura (1976);Teoria e Política do Modernismo Brasileiro (1979); A Carta de Pero Vaz de Caminha (1987): O percurso sentimental de Cesário Verde (1990); Viver em Malabase (1993); Memorial do Paraíso — o Romance do Descobrimento do Brasil (1998); História da Literatura Brasileira (2000); Poesia do Socialismo Português no Percurso de 1850 a 1974 (2010).
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