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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um conto de Natal de Sophia de Mello Breyner Andresen - A Noite de Natal

O amigo
 
 
Era uma vez uma casa pintada de amarelo com um jardim à volta. No jardim havia tílias, um cedro muito antigo, uma cerejeira e dois plátanos.  Era debaixo do cedro que Joana brincava. Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao grande tronco escuro. Depois imaginava os anõezinhos que, se existissem, poderiam morar naquelas casas. E fazia uma casa maior e mais complicada para o rei dos anões.
Joana não tinha irmãos e brincava sozinha. Mas de vez em quando vinham brincar os dois primos ou outros meninos. E, às vezes, ela ia a uma festa. Mas esses meninos a casa de quem ela ia e que vinham a sua casa não eram realmente amigos: eram visitas. Faziam troça das suas casas de musgo e maçavam-se imenso no seu jardim.
E  Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros meninos. Só sabia estar sozinha.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Um dia me darei conta

Adão Cruz


Um dia me darei conta

do teu corpo infindável.

Um dia, sorridente,

me sentirei infinito, nunca esgotado

o desejo que nos abraça

e nos atormenta

à distância dos sentidos sempre fugazes

sempre perdidos no corpo finito.

Um dia me darei conta

do tempo que não se perde para lá das formas

do tempo em que não murcham os rebentos

cálidos da minha carne

e o sangue não perde o fulgor

das cores abertas ao sol.

Um dia me darei conta

e nesse dia gostaria de partir.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Inventamos a língua

Ethel Feldman


Nossas palavras já não se entendem
quando te digo
Boa Noite
Respondes
Boa Noite
E
Viras o rosto para o lado oposto

ENTÃO
meu corpo cala
perdido
Nossas palavras
doentes
perdem
o rumo


Desnorteados
SONHAMOS
um dialecto
em cada silêncio trocado
um passo
em cada compasso
a cor da despedida
em cada porto visitado

A minha
na tua
a cada jura de Amor

sexta-feira, 2 de julho de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 48 (José Brandão)


A Escola do Paraíso

José Rodrigues Miguéis

Editorial Estampa, 1982

José Rodrigues Miguéis recorda a sua primeira infância num dos melhores romances portugueses. A cidade do princípio do século, os primeiros automóveis, a cidade iluminada a gás, dos teatros do Príncipe Real, do animatógrafo, a cidade que acabava na Rotunda, para lá os campos de corridas ao Campo Grande.

Os hábitos, a carbonária, a aristocracia decadente, o regicídio e a proclamação da I República. As profissões, os portugueses e galegos que chegavam à capital. Tudo contado magistralmente pelos olhos de um menino que cresceu a ver o brilho do sol das sacadas pombalinas viradas ao Tejo. Menino que reteve minuciosamente a memória das cores, dos cheiros, das gentes e de tudo quanto foi sendo, intensamente, o seu mundo.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Caetano José da Silva Souto-Maior, um alentejano na corte de D.João V e uma figura popular de Lisboa - 3

Carlos Luna



D. João V mostrou ter grande predilecção pelo jocoso juiz académico, consentindo-lhe o que a outros não consentiria... como veremos. Caetano José, sentindo-se apoiado pelo Rei, aproveitava-se disso para fazer várias "travessuras" que, em última análise, divertiam a Corte. Algumas vezes acompanhou o Soberano, que apreciava a sua companhia, nomeadamente ao Convento de Odivelas, onde estava a amante do Rei (Madre Paula) e onde este, divertido, punha o seu matreiro versejador, com os seus poemas inigualáveis e a sua alegria irónica, em confronto com "a audácia travessa de algumas freirinhas também dadas à poesia"...

Enquanto magistrado, era conhecido como uma pessoa correcta e íntegra no cumprimento dos seus deveres, sendo muitas vezes encarregado de importantes e difíceis missões oficiais. O poeta sabia, com graça, fazer-se perdoar pelo Rei quando agia de forma menos convencional. Pelas histórias que dele se contavam, podemos considerá-lo como uma espécie de Bocage prematuro, no que deste se mitificou quase sempre sem fundamento. Contavam-se histórias divertidas sobre respostas prontas, cheias de inteligência ( e em verso ) dades por Caetano José em situações embaraçosas, ou perante gente com más intenções. Entre tudo isto, o povo de Lisboa considerava-o como um dos poucos magistrados honestos que nela tinham exercido cargos. Dois episódios, referidos por José Maria da Costa Silva ("Ensaio biographico-crítico sobre os Melhores Poetas Portugueses", 1855), destacam-se de muitos outros. O primeiro refere-se a uma ordem de prisão que Caetano José, enquanto Corregedor, teve de fazer cumprir, ainda que fosse amigo do perseguido.