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domingo, 27 de junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo XXXI

Pedalada

Eu nasci em Lisboa mas cresci em Queluz e, mesmo quando andava na universidade, embora viesse, quando tinha tempo, à cinemateca, a museus, a bibliotecas, à Feira do Livro, a manifestações, na prática, cada dia, durante aqueles cinco anos, apressei-me do comboio para o metro e, quotidianamente, só frequentei a Faculdade de Letras. Depois fui viver para França.

Em Paris tenho um cartão, gratuito e de duração ilimitada, com o qual apanho todos os transportes públicos, pagando a mensalidade correspondente à zona em que quero circular – é barato e muito prático. Sendo funcionária pública, quando estou a dar aulas, reembolsam-me metade da mensalidade correspondente ao trajecto entre o domicílio e o local de trabalho; e algumas empresas privadas reembolsam até a totalidade. Ora em Lisboa, desde o dia 22 de Novembro, data em que me roubaram a precedente colecção, já juntei um Viva que, ignoro por que razão, ficou inutilizável, não obstante os cuidados, evitando dobrá-lo, evitando o contacto com o telemóvel, segundo Viva, que utilizei na linha de Sintra e na Fertagus, com o qual não posso andar na linha de Cascais, terceiro Viva com duas viagens de metro, que não serve na CP, nem na Carris, nem na Fertagus e quarto Viva com dois euros que, a qualquer altura, por qualquer outra razão, quando menos esperar, não poderei utilizar aqui, nem ali nem acolá. Quando saio levo os três cartões mais ou menos válidos, nunca se sabe, cuja validade máxima, claro, não ultrapassa um ano; isto seria simplificar, o que é contrário a todos os princípios que regem os transportes públicos na região de Lisboa. Cada vez que os cartões não servem para isto ou aquilo, por isto ou por aquilo, cumpre comprar outro; mais cinquenta cêntimos. Não me leva à ruína – mas como é que faz quem ganha o salário mínimo? Sobretudo isto revela uma mentalidade: valem todos os pretextos para depenar o utente. E para o dissuadir de apanhar transportes públicos.

Eu, na verdade, desisto. A minha paciência é grande no que contribui para a qualidade de vida; mas tem limites. Por isso, na maior parte das vezes, vou a pé. Esta cidade ultrapassa a mediocridade dos transportes públicos, não com mais carros – isso são reflexos de um passado monomaníaco – mas com outras opções.

A vantagem de uma andarilha viver nos Anjos é que, num instante, mesmo a pé, chega a todos os pontos da cidade. A Baixa? Dez minutos. A Gulbenkian? Quinze. O Chiado? Outros quinze. O CCB? Vou pela beira do Tejo.

Amo esta cidade com proporções perfeitas e todas as características de uma capital: museus e cinemas e teatros e lojas. E tanta diversidade. Isto é muito raro. As cidades costumam ter dimensões monstruosas. Ou serem provincianas. Aliás muitas acumulam até os dois defeitos.

Onde está a província nesta época global? Perguntará o leitor. Está na escassez de espaços culturais. Ou na necessidade de ser índigena para ter acolhimento. Ser do Porto (é apenas um exemplo) para expor no Porto; isto conduz sempre a um resultado pobre.

Em Lisboa deliciei-me há pouco com um festival intitulado Todos, caminhada de culturas, no qual – da música à culinária, passando pela fotografia, pelo cinema, por espectáculos de rua, por diversas outras festividades – a riqueza cultural do meu bairro teve fulgor. Gosto deste cosmopolitismo. E desta exigência; tivemos direito ao melhor. (Vivi uma das mais marcantes experiências musicais da minha vida num recital de guitarra chinesa. Aprendi a fazer comida indiana...)

E Lisboa tem o Tejo ao fundo da rua. Agora tem até mais Tejo porque enfim, graças à ciclovia, podemos admirá-lo num percurso de sete quilómetros. Por enquanto só andei na zona ribeirinha a pé mas projecto equipar-me dentro de pouco tempo com uma bicicleta. Chegarei depressa ao CCB. E ao Museu da Arte Antiga. E...

Sinto-me cada vez mais lisboeta.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo XXVIII

Paranóia

Agora não saio de casa sem revistar a mochila, hesito aliás em levar algumas malas e mochilas para a rua; uso sacos sem valor. Deixei de trazer comigo batom, escova do cabelo, canetas, correctores, marcadores... Para não voltar a comprar tudo pela terceira vez. Levo o guarda-chuva na mão, apenas se está a chover.

Escrevo com esferográficas. Lenços, só de papel. Telemóvel, nem sempre. Máquina fotográfica, raramente. Dinheiro, o indispensável. Documentos, em fotocópia. E carrego os cartões Viva com dois euros. Vivo no utilitário e no funcional; reservo a graça, a estética, a fantasia e o descuido para quando voltar a Paris.

Não consigo desembaraçar-me da inquietação. Nem do rancor. Roubaram-me duas vezes o diário. Sinto um arrepio quando me interrogo onde podem andar os textos nos quais comentava o que vivi nos últimos meses: os encontros, as conversas, as surpresas, os projectos, as dúvidas, as manias, as angústias, as descobertas. As moradas e números de telemóvel dos amigos. Diversos códigos. Alguns segredos. Prefiro imaginar que os romenos puseram o caderno no lixo – e ninguém o apanhou. Quanto ao segundo diário, tinha um mês e pouco sigilo, mas foi levado por um lusófono que, sem dúvida, o leu para ficar a saber onde as chaves serviam. Revolto-me quando penso nisto: aquela criatura viu os papéis do hospital, leu no diário a dor, a angústia, a ansiedade, não foi ao menos capaz de pôr os documentos da minha mãe num marco do correio! (Não lhe quero chamar animal, por respeito pelos animais: é uma coisa imunda.)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine

Capítulo XXVII

Liberdade fundamental

Tinha reservado uma viagem a Paris no dia 12 de Dezembro – passei o dia todo a ver as horas. Agora estava a registar a bagagem. Agora estava a embarcar. Agora estava no Orlybus. Agora abria a porta de casa...

Encontro-me fora da minha vida. De diversos pontos de vista. Fui roubada duas vezes num mês (uma na rua da Palma, no dia 20 de Outubro; outra em Queluz, no dia 22 de Novembro) e isto, mesmo em Portugal, parece excessivo.

Os polícias:

- Ah, se já foi assaltada, sabe que não pode trazer nada de valor...

Então neste país não se pode andar com o necessário? Eu, em Paris, durante tantos anos, nunca me interroguei: será que posso levar isto? Trouxe sempre o que me apetecia – equilibrava o peso e a necessidade. Nunca fui roubada. (E também não conheço ninguém que o fosse.)

O meu irmão, a propósito de tudo e de nada, exclama:

- Para seres atacada?! Não queres duas sem três.

Os meus amigos:

- Usas chapéus, roupas caras: chamas a atenção. Os ladrões correm todos atrás de ti.

Está visto que a culpa é minha. Alicio os ladrões. Até os que não eram, passam por mim: não resistem. Se eu continuasse a viver em Paris, os ladrões lisboetas andavam todos a trabalhar.

Então, para não serem atacados na rua, os portugueses estão condenados às calças de ganga sujas? Ou, para se poderem vestir a preceito, vêem-se confinados: dentro do carro, dentro de edifícios? Como no Brasil?

O Estado português não me garante a liberdade de poder circular pela cidade onde nasci e vivo. Ou a liberdade de ser quem sou.

Acabo por transigir: compro uma gabardina cor de burro quando foge, modelo saco de batatas. É o meu tapa-elegâncias. O meu uniforme português. Começo a compreender as mulheres que, nos países islâmicos, usam burkas para terem paz.

Não gosto do que a Minha Terra tem feito de mim.