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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Evento da Literatura Brasileira - A Carta de Pero Vaz de Caminha sobre a Descoberta do Brasil

Sílvio Castro


O documento evidentemente real, a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita de 22 de abril a 1º de maio de 1500, enviada logo no dia seguinte a Lisboa, ao destinatário venturoso, D. Manuel, mais que um documento é um marco crucial para duas realidades ainda virtuais, a cultura e a literatura do Brasil, que imediatamente depois e a partir do evento fazem-se reais.

Ainda que saída do silêncio dos Arquivos da Torre do Tombo ao primeiro conhecimento das gentes somente no final do século XVIII, confinada que fora pela rigorosa regra do “segredo”, própria da política diplomática da Monarquia portuguesa das grandes descobertas; ainda que publicada pela primeira vez somente em 1817 pelo Pe. Manuel Aires do Casal na sua Corografia Brazílica ou Relação Histórico-Geográfica do Brasil, pela Imprensa Régia, Rio de Janeiro, a quase mágica Carta desde a sua chegada a Lisboa com a nave de Gaspar de Lemos, de retorno do Novo Mundo descoberto, passa a circular, divulgando as maravilhas que somente a partir de então o mundo começaria a conhecer. Assim acontece com a remessa das cartas de D. Manuel aos seus primos, os Soberanos de Castela, e ao Papa romano, mas igualmente através das revelações de uma outra grande potência diplomática, a veneziana, que quase tudo sabia e tudo revelava. As primeiras criações da linguagem literária brasileira, presentes na obra-prima do humanista Caminha, criações tradutoras de novas cores, luzes, perfumes, humanidade, começam assim a correr mundo.



A revelação do Brasil pela Carta de Caminha cria todo um roteiro de magia para a nova terra. As palavras do escrivão português, as primeiras palavras da literatura brasileira, revelam como que um futuro incondicional para a realidade brasileira que principia o seu percurso de realidade. A terra é cheia de graça e a consciência naturalista nasce a partir do gozo de seus ares e águas. É uma visão do paraíso, onde não importa se em verdade exista ouro ou prata ou pedras preciosas. Já a felicidade simples dos sentidos esclarece aos homens que o paraíso existe. E que nele tudo será possível.

“Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até
outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste ponto temos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte léguas por costa. A terra é toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é tudo praia redonda, muito chã e muito formosa.
A terra em si é de muitos bons ares, assim frios e temperados como os de Entre-Douro e Minho (...) As águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo aproveitá-la, tudo dará nela, por causa das águas que tem
...................

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, muito novas e muito gentis, com cabelos muito pretos e compridos, caídos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.“

O evento do texto de Caminha nos guiou na elaboração de um inédita metodologia para a historiografia literária brasileira e com ela definimos um método que coloca o início da literatura nacional do Brasil com o advento do grande marco perovaziano, coincidindo assim cronologicamente a história literária com a história sócio-política (S. Castro et alii, História da Literatura Brasileira, 3 vv., Lisboa, 2000).

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Memorial do Paraíso, de Sílvio Castro - 13 e último

Príncipe,

olhai! A festa recomeça.

(A cena se aclara um pouco mais. Do lado direito entram dois homens de passos indecisos e expressões atônitas: Afonso Ribeiro e o segundo degredado.

Do lado esquerdo aparecem dois jovens grumetes, arrebatados e efusivos nos gestos.

Os quatro homens caminham em meio às sombras. De repente, se encontram.

A cena se abre mais claramente.)

Afonso Ribeiro: "Quem vem lá, quem vem lá?"

1º grumete: "Calma, calma, Afonso Ribeiro, somos amigos".

2º degredado: "São dois dos nossos marinheiros".

Afonso Ribeiro: "Que fazeis aqui? a armada está partindo".

2º grumete: "Disso nós sabemos".

Afonso Ribeiro: "Mas, então, por que não estais lá? Por acaso alguma loucura vos impeliu a assumir o nosso desespero e aqui estais? ou vos fez perder o lume da razão ao ponto de abandonar o posto para onde nos levam os nossos sonhos? Que loucura é esta que conduz outras presenças cristães aonde pensávamos que doravante iria morar somente a nossa desesperação?"

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Memorial do Paraíso, de Sílvio Castro - 11



FESTA PARA O PRÍNCIPE VENTUROSO.

ATO 8º

(A cena é a mesma praia. No areal branco está um estrado onde se eleva um altar. Junto ao altar estão os muitos portugueses, o Capitão-mor e os capitães, e mais todos os outros que assistem à missa entoada por sacerdotes e religiosos. No fundo da cena, no alto das árvores e pelo chão, estão muitos naturais da terra, homens e mulheres.

De um ângulo da cena caminha o Mensageiro que acompanha o Príncipe.)

Príncipe,

ali estão os nossos diante do altar para assistir á missa. É a primeira vez que estas terras e estas gentes participam do Santo Sacrifício. O Nosso Senhor se mostra à sua gente nova - já agora Vossos súditos, meu Rei - e para eles surge a mesma esperança de salvação de que nós há muito gozamos, pela infinita bondade da Graça Divina.

Aqui estamos, Príncipe, nesta Vossa nova terra. É um mundo novo esta terra, feito de belezas e maravilhas. Caminhemos até lá, junto do altar e escutemos a pregação do piedoso frei Henrique de Coimbra. Escutai, Príncipe: a sua voz segura mistura-se com o verde das árvores, com o trilhar das aves, com a luz que alarga as dimensões infinitas desse paraíso real e nosso.

"Aqui estamos para difundir a Luz divina. Nestas benditas terras, diante desta gente dócil e gentil, animados pelo amor de Cristo, Nosso Senhor, aportamos para propagar a nossa Santa Fé. Esta Cruz que nos acompanha e que nomeia a terra que nasce sob o seu signo, esta Cruz será a guia de todos nós para a gloriosa missão de salvar esta gente, nossos irmãos. Eles são bons, ingênuos e gentis; eles já conhecem pela prÓpria natureza a verdade do Senhor; eles sÃo os mais novos filhos do Senhor, nosso Redentor. Aqui chegamos e aqui estamos para transfundir nesta boa gente a Luz que nos ilumina e salva. A esplendente luz que dÁ tanto realce Às maravilhas do paraÍso - que é esta nossa Terra da Santa Cruz - se confundir com a Luz da nossa Fé e todos serão iluminados. Para isso vimos. Para isso aqui ficaremos numa doce comunhão".

domingo, 1 de agosto de 2010

Memorial do Paraíso, de Sílvio Castro - 1

A minha terra era longe dali, no restante do mundo.
João Guimarães Rosa

Navegar, minha amada e infeliz filha, é poder num só momento viver tantos momentos; estar presente ao que se assiste e às lembranças; sentir e pressentir, chegar e esperar. O mar é este gentil caminho que nos leva em todas as direções e nos envolve como um manto. Navegar é estar sozinho sem solidão. Por isso te recordo, minha Maria, neste mar e nesta terra nova, e quero contar-te todas as andanças que me acompanham. Sei que te sentes sempre triste com a tua existência incompreendida, e quero alegrar-te um pouco e estar contigo em nossa casa. Então, pensei, escreverei para minha Maria todas as comoções das minhas viagens e as revelações delas. Para ela falarei de tudo que vivo e descubro, assim mesmo como farei para o meu Rei e meu Senhor. Já lá se vão tantos dias de minha partida, mas começarei hoje, como me ordenou meu Comandante. Quando daqui a dias a nave de Gaspar de Lemos retornar a Lisboa e nós continuaremos para as Índias, junto com a carta para El-Rei, irá também este diário para Maria. Nele, Maria, te contarei tudo. Começo hoje. Mas parto daquele primeiro dia em Belém. Assim, muitas coisas que te direi serão puras lembranças. Outras, verdades.

sábado, 31 de julho de 2010

Jorge Amado fala sobre "Memorial do Paraíso", de Sílvio Castro

Este romance do nosso colaborador Sílvio Castro foi lançado em Itália antes de ter sido publicada a edição em português. Jorge Amado, o grande escritor brasileiro, publicou no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, logo após o lançamento dessa edição em Itália, o artigo que temos o prazer de transcrever.



O memorial do paraíso

Jorge Amado

Li o romance de Sílvio Castro, Memoriale del Paradiso, na belíssima edição italiana do Centro Internazionale della Grafica de Venezia, com ilustrações preciosas de Luigi Rinciotti. As ilustrações completam o texto não menos precioso: a escrita do romance de Sílvio Castro tem um tratamento de iluminura, a graça e a fluidez.

Não é a primeira vez que leio romances de autor brasileiro em língua estrangeira antes que seja publicado em português. Durante a ditadura militar aconteceu-me idêntica experiência com livros cuja editoração no Brasil fizera-se impossível. Recordo ter lido, igualmente em língua italiana, romance de Ignácio de Loyola Brandão, inédito em língua portuguesa devido às circunstâncias de ordem política, a ordem política dos gorilas: creio que o excelente romancista que é Ignácio de Loyola se fez conhecido e admirado na Europa antes de se tornar um dos escritores preferidos do público nacional. Eu próprio, levado pelas contingências da vida pública, publiquei um livro, O Cavaleiro da Esperança, na Argentina, em 1942; somente em 1945 foi possível editá-lo em português.

Tendo lido Memoriale del Paradiso em italiano, desejo antes de mais referir-me à qualidade da tradução, muito boa, de Sandra Bagno e Laura Scalambrin, em língua(s) portuguesa(s), formadas ambas sob a direcção de Sílvio Castro, cujo extraordinário trabalho no estudo, na pesquisa e na divulgação da cultura brasileira no norte de Itália não cabe neste breve texto; o que ele tem realizado nesses trinta anos de cátedra em Veneza e em Pádua é matéria para muitas páginas. Mais vale lembrar que Sandra Bagno está debruçada sobre os materiais que deverão resultar no estudo definitivo que a figura tão importante que a figura tão importante e tão injustamente esquecida de Almachio Diniz está a reclamar.

Memorial do Paraíso é o primeiro volume de uma trilogia que, completada, será com certeza de notável importância como reconstrução histórica e literária: a este primeiro romance seguir-se-ão Os Senhores Singulares e Aventuras e desventuras do veneziano Piero Contarini entre os selvícolas brasileiros. Por fim teremos a recriação em termos de ficção dos dias iniciais da vida brasileira após a descoberta, um painel do Brasil em seus começos, quando ainda não existia nação, apenas as tribos e os recém-chegados europeus, os portugueses e os demais.

Este Memorial, primeiro volume da trilogia, nasce da carta de Pero Vaz de Caminha a dom Manuel, rei de Portugal (dela, por sinal, Sílvio Castro fizera publicar em 1984 uma primeira edição crítica em italiano), a acção narrativa se desenvolve através de uma série de cartas, espécie de diário, dirigidas pelo escriba português a Maria, “filha amada e infeliz”, nas quais pretende “tudo contar” e tem muito que contar. No bojo desse diário de epístolas se projeta um espetáculo teatral, a “Festa para o Príncipe Perfeito”, o texto ganha força de ação, enriquece-se com o diálogo, e complementa e amplia o que é revelado nas cartas a Maria.

Sílvio Castro conseguiu construir uma arquitectura original para o romance, nela os tempos e os espaços romanescos encontram a medida justa e certa da narrativa, a pluma de Pero Vaz de Caminha faz a unidade da peça e das missivas, mantendo sempre em alto nível a compreensão e a escrita. Tome-se de qualquer das páginas para que se comprove a maestria do autor: “Principe, lá sono i vostri nuovi sudditi”; releio o capítulo no gozo da leitura, no prazer da frase a revestir o assunto.

Pena citar em tradução italiana. Já que o faço, aproveito para recomendar aos editores brasileiros a publicação, o quanto antes, deste romance de Sílvio Castro. O ficcionista nada fica a dever ao mestre pesquisador, ao catedrático, ao ensaísta, ao historiador da literatura; além da erudição, o autor possui o dom da inventiva. E que à edição deste primeiro romance sigam-se as dos dois outros para que se complete a trilogia e nos seja dado saber como éramos e de que maneira tropeçamos os primeiros passos no caminho da nacionalidade brasileira.