Carlos Loures
No romance de Mario Vargas Llosa, La tía Júlia y el escribidor, há a personagem deliciosa de Pedro Camacho, criador de rádio novelas, que tem uma obsessão contra os argentinos que chega ao ponto, de o embaixador da Argentina no Peru (no romance, entenda-se) ter ido à estação de rádio pedir a interrupção dos folhetins. As referências maldosas de Camacho aos argentinos vêm sempre, porém. embrulhadas em elogios como, «os nossos queridos irmãos portenhos, cuja proclamada virilidade é um mito, pois como se sabe são maioritariamente homossexuais passivos» ou «os nossos queridos irmãos argentinos que, como sabemos, têm a antiga tradição de fazer as necessidades fisiológicas num balde, na mesma divisão em que comem e dormem»… Não sei se a frases são exactamente assim, citei de memória, pois apenas quis dar um exemplo dos envenenados “elogios”aos argentinos que a personagem vai debitando ao longo da história. Diga-se de passagem que o livro de Vargas Llosa deu lugar a um magnífico filme americano, realizado por Jon Amiel e interpretado pelo Peter Falk, o velho Columbo, pelo Keanu Reeves e pela Barbara Hershey – Tune in Tomorrow (1990). O livro é delicioso e o filme uma pérola. Falk representa o papel de Pedro Camacho e os argentinos são substituídos pelos albaneses.
Ora bem, quando digo, os «nossos queridos irmãos brasileiros» não é com a intenção de em seguida os denegrir. Apraz-me que haja actualmente em Portugal um fluxo de imigração brasileira. Acho que, tanto quanto possível e cada um de per si o mereça, os devemos tratar tão bem como tratamos os nossos compatriotas. Nunca esquecendo também os milhões de luso-descendentes que vivem no Brasil e que são brasileiros.

