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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ausente

Ethel Feldman

cala a gargalhada, solta o pranto, soluça baixo o escárnio, dança sem modos o canto. desagua o rio quando nasce. ri quando chora, cala o pranto.
grita em silêncio o  engano.

voa a gaivota outro canto. branco tão branco

mar ou rio, salgado ou doce, nada o peixe
não ri
não chora
nada

nada/oco/vazio
espanto/branco
dor/sem cor/sabor
amargo/azia/azedo
medo/começo/morto
terra/semen/fértil-estéril
ventre/entre/mente/
vazio/oco/nada



cala a gargalhada - nada
solta o pranto - oco
Soluça baixo o escárnio - vazio
dança sem modos - branco
nada o peixe - ventre
caminha - mente


nada/oco/vazio

grita em silêncio o engano
baixio/lodo/lama/lótus




nasce a lua na noite

despe o sol o dia

morre a poente

no colo do ausente

domingo, 28 de novembro de 2010

Novo poema grande da noite mais triste ou um saboroso manguito à sorte e ao tempo

Adão Cruz (Parido no dia do recente aniversário de Herberto Hélder e dedicado ao estrolabio e suas gentes)



Foi a noite mais triste
a mais negra noite mais triste do que todas as sombras
mais triste do que a noite de Orfeu
mais triste do que a sombra dos coqueiros sem lua
mais negra do que o mergulho do tarrafe nas águas fundas do Cacheu.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Dia do Porto: Na Foz do Douro, frente à casa de Eugénio de Andrade

Adão Cruz


Adão Cruz

Generoso abraço

verdade solitária!

O mar infindo onde colhes as palavras

e o pequeno gesto da areia fina

bulida dos pés das gaivotas.

Entra-me nos olhos o mar

como em ti.

Como tu

tenho os olhos inundados de mar

mas fogem-me as sílabas férteis

que ele te põe nos lábios e nos versos.

A vibração das palavras d’água

salva-me da paz sacrificial

das rochas erectas e firmes.

Quase me sinto futuro

aqui

a lembrar que o passado só existe

para enganar o presente.

Sinto-me bem

aqui

ao lado do possível e do impossível

na orla do silêncio das tuas palmeiras

saboreando o Sal da Língua

como fruto roubado

que me liberta da longa noite

acumulada na boca.

Arde em mim a luz de fogo

que abre o mar e o peito

quando o sol se derrama e vai dormir.

Aqui

eu sinto bem dentro dos sentidos

o esplendor da água fervente

e dos corpos entontecidos

que só podem amar-se no ventre do mar.

Um vento leve com cheiro a maçãs

acaricia-me a face

trazendo pela mão a paz da tarde

e quase me adormece.

Perdi a página já não sei onde ia

também o sol se foi e com ele o dia.

Bate agora a noite com estrondo

no casco frágil da solidão.

Penso que tudo se vai desmoronar

talvez morrer

mas

de novo retomados

teus versos dizem-me que não.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Utopia

Adão Cruz

Sempre te amei utopia, pequeno sol deste universo sonhado insondável magia!
Como te amo ainda fímbria de meus restos teofânica nuvem deste cabalístico mundo!
Os mesmos dedos o mesmo perfil o mesmo cabelo o mesmo cigarro o mesmo voo de abutre sobre a minha cabeça tonta o mesmo voo de milhafre de corvo de cisne de gaivota de pomba inocente.
Como te amo abetarda que sou presa à terra sem asas de pássaro!
Na planura dos mil campos e das mil fontes corro atrás do teu cheiro dia e noite como louco animal de pêlo macio sem medo dos espinhos de acanto.
Como te amo nos escombros dos meus dias!
A miragem do teu perfume combina o ar e a luz que fazem respirar a memória.
Ninguém te viveu e amou como eu!
Peregrino de mim mesmo só em ti me detenho.
Por te amar só a ti eu não via eras o céu e o mar eras a noite e o dia.magia!


 (Ilustração porm. Adão Cruz)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Sem nome

Maria Inês Aguiar

sinto-te o abandono sem nome nesse resto que te resta, vejo-te cadáver ao relento no troar da morte em festa e quando ouço a fome que te consome, o meu entendimento não dorme e se te chamo não respondes e escondes o teu sangue que berra a guerra do teu berço nesta terra que desconheço


(ilust. porm. Adão Cruz)


terça-feira, 23 de novembro de 2010

Uma andorinha do Árctico

Adão Cruz




Abri as janelas do meu peito a uma andorinha do Árctico.

Trazia um sonho no bico sonho que eu perdi não sei onde nem quando não sei se na vida errando não sei se dentro de ti.

Vinda das auroras de frescura trazia em cada asa um poema e um abraço de ternura no cortante gume de um dilema.

Abri o peito a uma andorinha do Árctico e com abraços quentes como tâmaras fundimos nosso enlace num só poema.


(ilust. Adão Cruz)

Na outra margem

Eva Cruz


De junco tecidos

os teus pés descalços

voam por entre os lírios amarelos

não do Letes

mas do teu Vigues.

Águas de vida e não de esquecimento.

Nem quero que te redimas na outra margem.

Não tens nada a purificar.

Na gota de orvalho reconheces

a seiva da tua mãe

que te leva pela mão.

É a energia condensada

da tua inexistência

a organizar a matéria.

O som de címbalos e trombetas

neutrões e protões

desperta o Letes

para um novo sol.

Talvez reencontres o teu Deus de amor.

Vive na outra margem.

De lá para cá é só um passo

e o teu ser é tão infinito

que cabe neste espaço.

(Ilustração Adão Cruz)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Utopia

Adão Cruz

 
Sempre te amei utopia, pequeno sol deste universo sonhado insondável magia!
Como te amo ainda fímbria de meus restos teofânica nuvem deste cabalístico mundo!
Os mesmos dedos o mesmo perfil o mesmo cabelo o mesmo cigarro o mesmo voo de abutre sobre a minha Cabeça tonta o mesmo voo de milhafre de corvo de cisne de gaivota de pomba inocente.
Como te amo abetarda que sou presa à terra sem asas de pássaro!
Na planura dos mil campos e das mil fontes corro atrás do teu cheiro dia e noite como louco animal de pêlo macio sem medo dos espinhos de acanto.
Como te amo nos escombros dos meus dias!
A miragem do teu perfume combina o ar e a luz que fazem respirar a memória.
Ninguém te viveu e amou como eu!
Peregrino de mim mesmo só em ti me detenho.
Por te amar só a ti eu não via eras o céu e o mar eras a noite e o dia.magia!


(Ilustração pormenor Adão Cruz)

domingo, 21 de novembro de 2010

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Silêncio e Lua

(dedicado à Isabel Fernandes, ao Jorge Alves, à Andreia Dias e ao Adão Cruz)

Augusta Clara de Matos

Quando chegámos, tinha havido guerra no Olimpo. O sémen de algum deus poderoso espalhara-se pelo céu e semi-escondera a Lua. Uma abóbada opalescente e translúcida filtrava um pouco de luar, o bastante para tornar a noite mágica.

Rodeava-nos o silêncio e só se ouvia o piar do mocho.

Mas, durante o dia, no Monte dos Abibes, não se consegue esse silêncio porque o Mao Zedong e o Chu En-Lai cavalgam desalmadamente atrás dos gatos a quem declararam uma guerra sem quartel que leva os pobres dos felinos a trepar às árvores a uma velocidade supersónica e a fazer equilíbrio nos suportes da armação da parreira.

Não se pense que pairam por ali as almas penadas dos antigos dirigentes comunistas chineses. O Mao e o Chu são os dois cachorros perdigueiros que os donos, os
meus amigos Isabel e Jorge, em cujo monte me sinto em casa, sabe-se lá por que secretas motivações da mente humana, resolveram baptizar desta maneira. Eles que nunca na vida foram maoistas.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A saudade vai de barco



Adão Cruz

A saudade vai de barco leva na frente a luz vermelha que fende as águas verdes.

Atrás uma palmeira menina do deserto aprisionada no sonho.

Balançam copos de vinho à flor do mar incerto e a música desce ao fundo do mar.

O peito estremece e entrelaça os remos nas mãos da água que já não abraça o ventre do casco verde.


(ilust. porm. Adão Cruz)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Deus como problema (1)



Adão Cruz

Ao ler, há já uns tempos, na revista Visão, um artigo de José Saramago, “Deus como problema”, fui repescar um texto meu, escrito há alguns anos, baseado na resposta que dei à carta de um amigo e cujo tema era o problema de Deus. Com algumas considerações desse meu amigo e com o texto de Saramago tentarei uma reflexão que possa constituir uma espécie de calibração para todos aqueles a quem a lastimável situação do mundo em que vivemos não é de todo indiferente.


A genuína pureza da poesia vive e anda por aí em tudo o que é vida, mas não é fácil captar a sua complexa simplicidade. Como não é fácil, ou não se quer, entender a complexa simplicidade da evidência que também anda por aí, em quase tudo. O medo da evidência apavora as mentes que, de uma forma ou de outra, perderam a liberdade ou rejeitam a liberdade, sobretudo a liberdade de pensar. Interiorizam mecanismos fortemente redutores que são aceites acriticamente, porque não existe ou foi tacticamente anulada a capacidade crítica, ou são impostos por uma espécie de fé ou crença consuetudinária, impiedosamente dogmática, que cristaliza toda a forma de pensar, mesmo de pessoas habituadas e traquejadas numa moderna cultura científica da evidência.

Estas as pessoas, ainda assim, de boa fé. Porque as há, e não são poucas, que fazem da má fé o antídoto da evidência que não conseguem negar. Por isso o texto de José Saramago me impressionou, ao mostrar que o mundo é muito claro, pelo menos até onde nos permite que o seja.

Deus continua a ser um grande problema, ou melhor, o homem continua a ser incapaz de resolver o problema de Deus, a equação cujo resultado estabeleceu como certo sem conhecer os dados que a compõem.

Há muito tempo que deixei de discutir fé e religião com gente crente. Dogmas e argumentos condicionados não são permeáveis à razão, e as conclusões são sempre frustrantes. Sou ateu, rigorosamente ateu, mas já fui crente. Esta parte negativa da minha vida teve um lado positivo. Permite-me, hoje, a comparação entre a falsa liberdade da aleatória felicidade de um certo obscurantismo e a aliciante liberdade da possível felicidade de uma razão não mais miscível com qualquer grande ou pequena crendice.

A paz nascida da libertação de todas as angústias metafísicas, em favor do valor da vida e da força projectora da curiosidade humana, a paz e a serenidade de uma total descrença mística constituem a grande oferta que a vida me fez.

Como aconteceu a Saramago, também a mim me acusarão de impiedade, sacrilégio, blasfémia, profanação, desacato. De tudo isto é capaz quem não tem o mínimo pejo em aceitar e colaborar nos tais espectáculos estilo cecil b. de mille, como foi o revoltante show do funeral daquele que deveria ser o representante da humildade e da pobreza, sobretudo quando comparado com o funeral do rei da Arábia Saudita, um dos homens mais ricos do mundo, esse sim, um deus terreno cuja riqueza mundana e fraqueza humana lhe permitiriam, sem escândalo, um sepulcro de ouro em vez da campa rasa.

(Continua).

(ilustração de Javier de Juan-Creix)

Mordaça

Maria Inês Aguiar


ontem

como hoje

unem-se os eruditos

a perene convulsão de conflitos

os com(sorte) da evolução que da alma fizeram uma noção

a falácia duma trova indefinida

o culto do pensamento sagaz manipulado pelo tempo que passa incapaz

de com o machado que faz a guerra fazer a paz...!

 (ilust. porm. Adão Cruz)


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Este livro

Adão Cruz 


Este livro este copo esta mesa este mar d’águas quentes bordando a lodo o cais de Pidjiguiti onde caiu meu corpo no dia da memória

este livro este copo este mar d’água e sangue estoirado na cabeça do último suspiro da vida e da história

este livro este Viriyamu fuzilado na penugem de Cinteya nas balas de Vaina no esventrar de Zostina

esta cabeça atulhada de milhões de pensamentos perdidos na estrada

este chão de Babi-Yar de sangue regado nas lágrimas caladas do Dniepre

esta cabeça esgotada de acordar pensamentos este grito do vento na terra lembrada dos rios da morte e do silêncio

esta cabeça cansada de eternizar momentos em séculos de nada!

(ilust. porm. adão cruz)

Era uma vez uma Serra e um Vale

Eva Cruz



Chega à Serra o Inverno

amanhece tarde anoitece cedo.

No caminho novo

canta a gaita do guarda-soleiro

conserta varetas amola tesouras

pedal e roda fazem milagres.

É tempo de apanhar agulhas

que os ventos de Outono

estenderam nos matos.

Pinhas sequinhas

enchem sacos de linhagem

espalham pinhões de asas

pelo chão.

É tempo do frio que se avizinha

tempo de agasalhar o Inverno

que vai abraçar a Serra

num abraço de frio

que Raquel aquece pela vida fora.



Vem na saudade

de muitos Invernos

já não há guarda-soleiros

nem agulhas nem pinhões de asas

anoitece cedo e tarde amanhece.

(In Era uma vez Future Kids)


(Ilustração de Adão Cruz)

Existir

Ethel Feldman

Curto é o tempo

que mal me conheço

tão longo é o tempo

que nunca me alcanço

seja o segundo

o tempo deste existir

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Quatre Barres - Direcció de Josep Anton Vidal

Aquest espai, dedicat a tots els amics d'Estrolabio i, de manera molt especial, als que segueixen el nostre bloc des de les terres de parla catalana. Aquí parlarem de cultura lusòfona i de cultura catalana, i de les qüestions i els problemes que ens afecte als uns i als altres.


_____________________


Mário de Sá-Carneiro 

(1890-1926)

Traducció de Josep A. Vidal





IMATGE FALSA


És sols or fals allò que em fa el ulls d'or;
sóc esfinx sens misteri en el ponent.
La tristesa de tot el que no fou
en la meva ànima cau veladament.

Al meu dolor s'hi esberlen coltells d'ànsia,
rebrots de llum amb tenebra es mixturen.
Les ombres que propago no perduren,
com l'Ahir, m'és l'Avui només distància.

Ja no tremolo davant del secret;
res no m'exalça ja, res no m'aterra:
la vida em passa pel damunt en guerra,
sense ni el més petit estremiment!

Sóc l'estel ebri del cel desviat,
sirena folla que fugí del mar,
sóc temple sense déu que prest caurà,
imatge falsa encara al pedestal.




Mário de Sá-Carneiro num desenho de Almada Negreiros  


Estátua falsa

Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:

A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...

(da obra "Indícios de Oiro", publicada postumamente em 1937 pela Presença)

Acordei esta noite

 Adão Cruz



Acordei esta noite com o gotejar da chuva monótono sonolento.
Dormia comigo a saudade e comigo acordou amargando horas sem raízes no tecer de angústias e desânimos.
Pura fantasia a textura dos sentimentos!
Os galos cantavam ao longe no romper da madrugada e a claridade incerta da janela
abria mansamente os meus olhos que sonhavam.
Ousei tocar a tua mão branca sabendo que tocava o lado esquecido da vida.
Tinhas morrido já na véspera o sabia mas esqueceu-mo o dormir.
Fugi para a cidade e vagueei pelas ruas adormecidas até os galos calarem o seu cantar.
Por baixo de um céu de nuvens levei meus passos para o lado do mar.
As ondas abriam-se nos rochedos negros e eu não tive medo.

Deixei que as pernas me pesassem ao longo da praia em passos leves de areia fina.

(Ilustração de Adão Cruz)

domingo, 14 de novembro de 2010

Poetas do trigo



Eva Cruz


Sementes de água
gotas de trigo no chão duro
cresce o pão mal repartido.

Ergue-se o punho erguido
de Homens Inteiros
poetas do trigo
na fome da Revolução.

Ceifeira da noite
com medo do dia
semeia a morte
mais pobre a seara.
Ceifeiras do dia
foices vermelhas
cantares de esperança
não deixam a morte
matar a seara.

Sementes de água
gotas de trigo
não morre a seara
não morrem os Homens
os Homens Inteiros
poetas do trigo repartido.


(Ilustração de Adão Cruz)

sábado, 13 de novembro de 2010

A caminho de casa

Ethel Feldman

Era Páscoa e ela levantava o cálice da avó em tributo da terra prometida. Da cor do vinho doce era a vontade daqueles que motivados pela mesma vontade estampavam o sorriso na face. No decorrer das tardes as canções ninavam as crianças ainda de colo e ela aprendia a cantar porque o futuro prometia bem-estar.

Os velhos contavam histórias de uma terra sem nome onde o homem mata outro homem, sem nunca saber porquê.

Na minha infância, minha mãe falava da guerra, da dor e miséria dos homens sacrificados. Antes de morrer cantavam.

No fim da rua a padaria vendia pão ázimo. Na esquina o rabino apertava o passo em busca da esperança.

Meu avô vendia relógios, de porta em porta. Minha avó ajustava a vida, dia a dia.

As escadas da escola cresciam a cada degrau consumido. As brincadeiras de roda prometiam um namorado casamenteiro.

As mulheres eram putas porque o país que as acolheu dava o pão em troca da fornicação.

Os homens vendiam chapéus de chuva em pleno Verão, esperando a colheita no Inverno seguinte.

À noite fechavam as mãos em cada mão, faziam uma roda e riam da vida que a miséria não assistia.

Cantavam o hino da terra que sonharam em busca de paz.

O mundo sabia de cor, a cor da dor de quem nunca teve a sorte de nascer imperador.

O peixe era doce e cru. A beterraba avinagrada.

A vontade de ser feliz era tanta como a tua agora que acabas de nascer.

O jejum era dos pobres que o faziam dia após dia.

Na rua Newton Prado moravam os meus avós. Vizinhos da vida viajaram sem regresso com um sorriso que não esqueço.

O homem mata o homem e nunca sabe porquê.

As mulheres vendem o prazer em troca da vida apetecida.

Bendita a memória que me assombra com um sorriso sem fim.

Nasce o dia agora, promessa de outro dia que nasce outra vez.


(Ilustração de Adão Cruz)