Carlos Loures
A primeira vez que fui ao Porto, viajei com os meus pais, pois era um miúdo pequeno, com seis ou sete anos. Chegámos num sábado, numa manhã de Primavera, fria, mas luminosa. Saímos do comboio na Estação de São Bento e logo fiquei maravilhado com as diferenças – o empedrado das ruas, os eléctricos não eram amarelos, mas acastanhados e (pareceram-me) mais largos do que os de Lisboa, os prédios escuros… Via muito cinema e a Baixa do Porto, pareceu-me um cenário londrino. O incêndio da guerra lavrava ainda. A falta de combustível obrigava os carros a usar uns depósitos de gasogénio. Já os tinha visto em Lisboa, mas pareceu-me haver mais no Porto. Tudo era ou me parecia diferente.
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010
domingo, 22 de agosto de 2010
O Romantismo social português: 9 – Cesário Verde
Sílvio Castro
Cesário Verde, nascido em 1855 e morto em 1886, representa um singular fenômeno no quadro geral do romantismo português. Com ele a poesia de Portugal ganha improvisamente uma modernidade desconhecida. Seus poemas, mesmo participando de uma longa tradição, rompe com os tempos e se projeta muito além de uma época pessoal, ainda que sendo principalmente fruto dela.
Filho de uma rica família de comerciantes, desde muito cedo ligou a própria existência à atividade do pai, para nela criar e desenvolver uma personalidade quase anônima, mas que cedo se projeta como uma revolução. Nasce assim um intelectual e um criador lírico que, aparentemente integrado a um ambiente burguês insuperável, de natureza mercantil, dele jamais faz parte.
A poesia de Cesário nasce no silêncio da vida que realmente não é aquela sua aparente. Mas os poemas que ele vai criando na sua curta existência lentamente o projetam num novo mundo, fantástico ainda que imediatamente real e reconhecível. Nasce com esta poesia um novo sistema de linguagem, inicialmente em contraposição a qualquer possibilidade de receptividade, mas que cedo irá desvendar a própria força no forjar diálogos e sentimentos novos.
A língua poética do poeta revolucionário é feita com a aparente sintaxe da
comunicação comum, na qual o poeta intromete a genialidade criadora de novos ritmos e de morfemas que corroem qualquer forma de indiferença e incompreensão. Novos mundos são então projetados aos que desde logo sabem penetrar na complexidade de uma nova semântica poética, na qual a metalinguagem é presença copiosa.
Partindo da tradição romântica dos sentimentos mais pessoais e da participação
serena com a natureza, o poeta cedo alarga o seu cenário sentimental ao plano urbano. A partir daí, com o surgir de uma Lisboa inédita aos ritmos poéticos portugueses e ao gosto geral de uma época, a poesia de Cesário Verde se faz revolucionária. A aparente dicção prosaica se revela fonte de invenções e de liberdade. Com ela, a receptividade se faz conquista de liberdade partecipativa.
Tudo se origina das mais profundas raízes do poeta, alimentadas de forte universalismo e de uma mágica capacidade de criar mundos inicialmente encubertos aos olhos, prontos a serem vividos na perfeita receptividade.
O sentimento do mundo do poeta é universal, ainda que sempre ligado ao seu mundo
urbano. Este se faz renovador a cada canto de uma praça ou à descoberta da gente mais simples que caminha pelas ruas pedregosas:
“ Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
..............................................................................
Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de “dom”!
..............................................................................
E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.
E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!”
O mais consciente hino tradutor de “O sentimento dum ocidental” português é significativamente dedicado ao poeta que comovia Portugal com os seus gritos pela liberdade e a favor dos simples, dos humildes, dos desgraçados: Guerra Junqueiro. Como acontece com o poeta de Os Simples, a complexa e revolucionária poética de Cesário Verde é ela igualmente um canto da liberdade sempre reconhecida. Com esse canto a poesia de língua portuguesa se projeta no futuro enquanto um tempo real e concreto.
A partir da poesia de Cesário Verde o romantismo cumpre um longo percurso, atingindo o mais amplo sentido social e desde então fazendo-se uma constante no processo de evolução dos tempos criativos. Com ela estavam abertas as portas de todos os realismos.
Cesário Verde, nascido em 1855 e morto em 1886, representa um singular fenômeno no quadro geral do romantismo português. Com ele a poesia de Portugal ganha improvisamente uma modernidade desconhecida. Seus poemas, mesmo participando de uma longa tradição, rompe com os tempos e se projeta muito além de uma época pessoal, ainda que sendo principalmente fruto dela.
Filho de uma rica família de comerciantes, desde muito cedo ligou a própria existência à atividade do pai, para nela criar e desenvolver uma personalidade quase anônima, mas que cedo se projeta como uma revolução. Nasce assim um intelectual e um criador lírico que, aparentemente integrado a um ambiente burguês insuperável, de natureza mercantil, dele jamais faz parte.
A poesia de Cesário nasce no silêncio da vida que realmente não é aquela sua aparente. Mas os poemas que ele vai criando na sua curta existência lentamente o projetam num novo mundo, fantástico ainda que imediatamente real e reconhecível. Nasce com esta poesia um novo sistema de linguagem, inicialmente em contraposição a qualquer possibilidade de receptividade, mas que cedo irá desvendar a própria força no forjar diálogos e sentimentos novos.
A língua poética do poeta revolucionário é feita com a aparente sintaxe da
comunicação comum, na qual o poeta intromete a genialidade criadora de novos ritmos e de morfemas que corroem qualquer forma de indiferença e incompreensão. Novos mundos são então projetados aos que desde logo sabem penetrar na complexidade de uma nova semântica poética, na qual a metalinguagem é presença copiosa.
Partindo da tradição romântica dos sentimentos mais pessoais e da participação
serena com a natureza, o poeta cedo alarga o seu cenário sentimental ao plano urbano. A partir daí, com o surgir de uma Lisboa inédita aos ritmos poéticos portugueses e ao gosto geral de uma época, a poesia de Cesário Verde se faz revolucionária. A aparente dicção prosaica se revela fonte de invenções e de liberdade. Com ela, a receptividade se faz conquista de liberdade partecipativa.
Tudo se origina das mais profundas raízes do poeta, alimentadas de forte universalismo e de uma mágica capacidade de criar mundos inicialmente encubertos aos olhos, prontos a serem vividos na perfeita receptividade.
O sentimento do mundo do poeta é universal, ainda que sempre ligado ao seu mundo
urbano. Este se faz renovador a cada canto de uma praça ou à descoberta da gente mais simples que caminha pelas ruas pedregosas:
“ Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
..............................................................................
Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de “dom”!
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E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.
E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!”
O mais consciente hino tradutor de “O sentimento dum ocidental” português é significativamente dedicado ao poeta que comovia Portugal com os seus gritos pela liberdade e a favor dos simples, dos humildes, dos desgraçados: Guerra Junqueiro. Como acontece com o poeta de Os Simples, a complexa e revolucionária poética de Cesário Verde é ela igualmente um canto da liberdade sempre reconhecida. Com esse canto a poesia de língua portuguesa se projeta no futuro enquanto um tempo real e concreto.
A partir da poesia de Cesário Verde o romantismo cumpre um longo percurso, atingindo o mais amplo sentido social e desde então fazendo-se uma constante no processo de evolução dos tempos criativos. Com ela estavam abertas as portas de todos os realismos.
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sábado, 21 de agosto de 2010
O Romantismo social português: 8 – Guerra Junqueiro
Sílvio Castro
Possivelmente Guerra Junqueira será o mais popular poeta do romantismo comparticipante do social em Portugal, não somente preso pelo seu público nacional, mas igualmente entre os brasileiros de seu tempo. No Brasil como que se ombreia com Castro Alves, o mais amado dos poetas românticos brasileiros; ambos, Junqueiro e Castro Alves guiados pela exuberante linguagem lírica de origem huguiana.
Guerra Junqueiro vive de certo modo à parte, mas intensamente, as experiências da Geração de 70. Nele poesia e consciência política se abraçam em forma absolutamente pessoal.
O lirismo do autor de Oração à Luz resulta de uma formação fortemente religiosa, cedo transformada em experiência pessoal intensa. A religiosidade juqueiriana se aproxima então da participação com a natureza, dela se reapropiando e fazendo de tudo uma própria metafísica.
As dimensões de uma religiosidade panteista original e a logo adquirida consciência política da realidade social, em que vive, fazem de Guerra Junqueiro um poeta especial. Surgem assim vozes aparentemente contraditórias, mas eficazes: cantos feitos de subjetividade profundamente religiosa e uma viva batalha contra o poder temporal da Igreja e as deformações produzidas pelo mesmo no ambiente social, sob uma semântica poética resultada da linguagem corrente e de forte espírito satírico, como no poema “O Baptismo”:
Possivelmente Guerra Junqueira será o mais popular poeta do romantismo comparticipante do social em Portugal, não somente preso pelo seu público nacional, mas igualmente entre os brasileiros de seu tempo. No Brasil como que se ombreia com Castro Alves, o mais amado dos poetas românticos brasileiros; ambos, Junqueiro e Castro Alves guiados pela exuberante linguagem lírica de origem huguiana.
Guerra Junqueiro vive de certo modo à parte, mas intensamente, as experiências da Geração de 70. Nele poesia e consciência política se abraçam em forma absolutamente pessoal.
O lirismo do autor de Oração à Luz resulta de uma formação fortemente religiosa, cedo transformada em experiência pessoal intensa. A religiosidade juqueiriana se aproxima então da participação com a natureza, dela se reapropiando e fazendo de tudo uma própria metafísica.
As dimensões de uma religiosidade panteista original e a logo adquirida consciência política da realidade social, em que vive, fazem de Guerra Junqueiro um poeta especial. Surgem assim vozes aparentemente contraditórias, mas eficazes: cantos feitos de subjetividade profundamente religiosa e uma viva batalha contra o poder temporal da Igreja e as deformações produzidas pelo mesmo no ambiente social, sob uma semântica poética resultada da linguagem corrente e de forte espírito satírico, como no poema “O Baptismo”:
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010
O Romantismo social português: 7- Teófilo Braga
Sílvio Castro
A história civil e cultural de Teófilo Braga está sempre muito ligada àquela de Antero de Quental. Ambos filhos da mesma Ponta Delgada, se distinguem inicialmente pelas correspondentes origens familiares. Enquanto Antero nasce e cresce num ambiente de elevadas condições materiais e sociais, Teófilo é filho de pais pobres, e na pobreza cresce, o que o leva a sacrifícios desde a mais jovem idade. Porém, mesmo dentro das maiores dificuldades, assistido sempre pelos genitores que com sacrifícios conseguem fazer com que o filho encete a carreira dos estudos superiores.Assim, pode o moço Teófilo deixar o seu natio Açores para o curso de Direito na Universidade de Coimbra. Ali encontra, já gozando a fama de grande poeta, Antero de Quental, mais velho do que ele de apenas um ano, sendo Teófilo Braga de 1843.
À natural liderança anteriana, já forte em todo o ambiente acadêmico conimbrense,
adere o sempre decidido e firme espirito do futuro lider socialista e republicano. Essa adesão correspondia a uma grande admiração pelo poeta e pelo pensador, como desde então se apresentava o autor das Odes Modernas.
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quinta-feira, 19 de agosto de 2010
O Romantismo social português:6 - Antero de Quental
Sílvio Castro
A exaltação da utopia enquanto fator de existência informa praticamente toda a vida de Antero de Quental. Com uma conclusão aparentemente contraditória, o suicídio, a procurada solitária morte no banco do jardim público de Ponte Delgada, em 11 de Setembro de 1891. O mesmo suicídio que aterrorizou o religioso João de Deus, mas que não o impediu de dedicar ao mais jovem amigo o belíssimo epitáfio, “No túmulo de Antero”:
“Aqui jaz pó: eu não; eu sou quem fui,
- Raio animado dessa Luz celeste,
À qual a morte as almas restitue,
Restituindo à terra o pó que as veste.”
João de Deus constituiu para Antero uma referência primordial. Ainda que aparentemente entre os dois poetas as distinções sejam claramente visíveis, assim aconteceu. O mesmo Antero capaz da mais profunda participação com o lirismo condicionado preferencialmente pela reflexão filosófica, o mesmo Antero que diante da complexidade dos fenômentos sociais procurava através da experiência direta e prática as possíveis soluções para os mesmos, percorrendo o mundo a procura de novas possibilidades do agir coerente, esse mesmo Antero é aquele que admira irrestritamente o poeta de Flores de Campo e que dele partira seja para a conquista lírica, seja para uma visão específica da mensagem do liberalismo.
A exaltação da utopia enquanto fator de existência informa praticamente toda a vida de Antero de Quental. Com uma conclusão aparentemente contraditória, o suicídio, a procurada solitária morte no banco do jardim público de Ponte Delgada, em 11 de Setembro de 1891. O mesmo suicídio que aterrorizou o religioso João de Deus, mas que não o impediu de dedicar ao mais jovem amigo o belíssimo epitáfio, “No túmulo de Antero”:
“Aqui jaz pó: eu não; eu sou quem fui,
- Raio animado dessa Luz celeste,
À qual a morte as almas restitue,
Restituindo à terra o pó que as veste.”
João de Deus constituiu para Antero uma referência primordial. Ainda que aparentemente entre os dois poetas as distinções sejam claramente visíveis, assim aconteceu. O mesmo Antero capaz da mais profunda participação com o lirismo condicionado preferencialmente pela reflexão filosófica, o mesmo Antero que diante da complexidade dos fenômentos sociais procurava através da experiência direta e prática as possíveis soluções para os mesmos, percorrendo o mundo a procura de novas possibilidades do agir coerente, esse mesmo Antero é aquele que admira irrestritamente o poeta de Flores de Campo e que dele partira seja para a conquista lírica, seja para uma visão específica da mensagem do liberalismo.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
O Romantismo social português: 5 – João de Deus
Sílvio Castro
Ao contrário de quanto sucede com Soares de Passos, ninguém, e não só em Portugal, se colocará contra a afirmação de que João de Deus é um dos mais representativos poetas do romantismo social português. Paradoxalmente, em aparência, o subjetivismo lírico presente em tantos poemas do autor de Ramos de flores, lirismo embebido de vida recolhida diretamente do quotidiano e traduzida numa linguagem que retoma o melhor ritmo da tradição lirica nacional, esse lirismo profundamente individualista, mas ao mesmo tempo de ressonâncias universais, não obscura a face partecipante do poeta. Desde a apoteose pública em Lisboa que foram os funerais de João de Deus, falecido no dia 11 de Janeiro de 1896, estando o poeta por completar os seus sessenta e seis anos, Portugal o considera como um doce, mas firme herói civil.
A partir diretamente da linguagem poemática, o lirismo de João de Deus é simples e direto. A simplicidade resulta da consciência do autor de que os sentimentos, ainda os mais pessoais, podem ser transmitido diretamente ao seu leitor sem necessidade de altos recursos retóricos. Mas no fundo o resultado alcançado por essa linguagem se faz igualmente um grandíssimo resultado de uma retórica expressiva. João de Deus produz uma poesia que recorda sempre o ritmo das falas existenciais. A ingenuidade percebida a partir delas não é a tradução de uma simplicidade conceitual do poema, mas a percepção de um ritmo poemático que se faz reconhecer comum a todos. Assim é quando o poeta se debruça sobre o seu direto sentimento amoroso ou quando se faz cantor em procura da tradução do sentido maior do ser individual:
Os olhos sempre que os pus
Fitos nos astros do dia
(Parece que se introduz
Tanta luz na fantasia...)
Sabem o que acontecia?
Fechava os olhos e via
Do mesmo modo essa luz.
Assim foi certa visão
Que tive por meus pecados!
Nunca uma breve impressão
Em meus olhos descuidados
Deu tamanhos resultados...
Que é vê-la de olhos fechados,
Ainda no coração!
(“Sol íntimo”)
Esta mesma simplicidade encontramos na tradução que o poeta dá ao seu sentimento religioso, expresso liricamente em maneira tal a confundir-se com o de todo o mundo; ainda que, em circunstâncias e testemunhos diretamente pessoais do mesmo sentimento, o poeta adote uma ortodoxia católica quase paradoxal. Como acontece no momento da comemoração de Antero de Quental, uma das grandes admirações do poeta, com a publicação de um livro com testemunhos dos amigos. João de Deus se recusa participar na homenagem de um suicídio. Somente os pedidos dos confrades mais íntimos, o leva a contribuir com um belíssimo poema-epitáfio que faz parte do magnífico volume que é o Anthero de Quental – In Memorian.
A grande consciência de linguagem usada por João de Deus nos seus poemas, tanto naqueles da mais profunda subjetividade individual, quanto nos muitos de sentida participação com o mundo e com o “outro”, leva o poeta a uma de suas maiores criações, a Cartilha maternal, de 1876.
A poesia de João de Deus, principalmente naqueles poemas que passam do Flores do Campo (1868), ao Campo de Flores (1893), constituem um amplo e revelador sistema de metalinguagem. Este sistema encontrará na Cartilha maternal sua consequência lógica. Daí a surpreendente modernidade da pedagogia que caracterizou as últimas ações públicas de João de Deus. As crianças portuguesas, por diversas gerações, puderam aprender a língua já renovada por Garrett e muitas vezes compreendê-la e usá-la em diversos planos de linguagem. Possivelmente dela se originam alguns dos fatores que formam a ironia do falar de muitos portugueses. Ironia que o gênio de João de Deus traduzia principalmente nas suas composições satíricas, como em “Último suspiro”:
“Fui a semana passada
Visitar o hospital,
E vi numa enfermaria
O pobre de Portugal;"
................................
Ao contrário de quanto sucede com Soares de Passos, ninguém, e não só em Portugal, se colocará contra a afirmação de que João de Deus é um dos mais representativos poetas do romantismo social português. Paradoxalmente, em aparência, o subjetivismo lírico presente em tantos poemas do autor de Ramos de flores, lirismo embebido de vida recolhida diretamente do quotidiano e traduzida numa linguagem que retoma o melhor ritmo da tradição lirica nacional, esse lirismo profundamente individualista, mas ao mesmo tempo de ressonâncias universais, não obscura a face partecipante do poeta. Desde a apoteose pública em Lisboa que foram os funerais de João de Deus, falecido no dia 11 de Janeiro de 1896, estando o poeta por completar os seus sessenta e seis anos, Portugal o considera como um doce, mas firme herói civil.
A partir diretamente da linguagem poemática, o lirismo de João de Deus é simples e direto. A simplicidade resulta da consciência do autor de que os sentimentos, ainda os mais pessoais, podem ser transmitido diretamente ao seu leitor sem necessidade de altos recursos retóricos. Mas no fundo o resultado alcançado por essa linguagem se faz igualmente um grandíssimo resultado de uma retórica expressiva. João de Deus produz uma poesia que recorda sempre o ritmo das falas existenciais. A ingenuidade percebida a partir delas não é a tradução de uma simplicidade conceitual do poema, mas a percepção de um ritmo poemático que se faz reconhecer comum a todos. Assim é quando o poeta se debruça sobre o seu direto sentimento amoroso ou quando se faz cantor em procura da tradução do sentido maior do ser individual:
Os olhos sempre que os pus
Fitos nos astros do dia
(Parece que se introduz
Tanta luz na fantasia...)
Sabem o que acontecia?
Fechava os olhos e via
Do mesmo modo essa luz.
Assim foi certa visão
Que tive por meus pecados!
Nunca uma breve impressão
Em meus olhos descuidados
Deu tamanhos resultados...
Que é vê-la de olhos fechados,
Ainda no coração!
(“Sol íntimo”)
Esta mesma simplicidade encontramos na tradução que o poeta dá ao seu sentimento religioso, expresso liricamente em maneira tal a confundir-se com o de todo o mundo; ainda que, em circunstâncias e testemunhos diretamente pessoais do mesmo sentimento, o poeta adote uma ortodoxia católica quase paradoxal. Como acontece no momento da comemoração de Antero de Quental, uma das grandes admirações do poeta, com a publicação de um livro com testemunhos dos amigos. João de Deus se recusa participar na homenagem de um suicídio. Somente os pedidos dos confrades mais íntimos, o leva a contribuir com um belíssimo poema-epitáfio que faz parte do magnífico volume que é o Anthero de Quental – In Memorian.
A grande consciência de linguagem usada por João de Deus nos seus poemas, tanto naqueles da mais profunda subjetividade individual, quanto nos muitos de sentida participação com o mundo e com o “outro”, leva o poeta a uma de suas maiores criações, a Cartilha maternal, de 1876.
A poesia de João de Deus, principalmente naqueles poemas que passam do Flores do Campo (1868), ao Campo de Flores (1893), constituem um amplo e revelador sistema de metalinguagem. Este sistema encontrará na Cartilha maternal sua consequência lógica. Daí a surpreendente modernidade da pedagogia que caracterizou as últimas ações públicas de João de Deus. As crianças portuguesas, por diversas gerações, puderam aprender a língua já renovada por Garrett e muitas vezes compreendê-la e usá-la em diversos planos de linguagem. Possivelmente dela se originam alguns dos fatores que formam a ironia do falar de muitos portugueses. Ironia que o gênio de João de Deus traduzia principalmente nas suas composições satíricas, como em “Último suspiro”:
“Fui a semana passada
Visitar o hospital,
E vi numa enfermaria
O pobre de Portugal;"
................................
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segunda-feira, 16 de agosto de 2010
O Romantismo social português: 3 – Herculano
Sílvio Castro
Alexandre Herculano é a primeira grande figura literária inteiramente formada e integrada no Movimento romântico. O seu romantismo é total, pois envolve o autor em todas as suas manifestações e criações. Em Herculano, desde a mocidade, a expressão romântica tem a capacidade de traduzir tanto a mais recôndita, ainda que sempre muito ponderada, subjetividade lírica, quanto a mais ousada participação pública.
Filho dos tempos de grandes turbamentos porque passa a vida nacional, a estes dedica a mais profunda participação cívica e neles se incorpora para uma sempre atenta defesa das liberdades individuais e públicas.
Envolvido desde a mocidade nas lutas sociais de seu país, cedo realiza a experiência de um exílio que se faz mais difícil pelas limitadas condições materiais vindas das origens do muito moço Herculano. Inicialmente refugia-se na Inglaterra, mas ali não encontra o melhor correspondente aos seus sonhos de crescimento geral. Na França, logo em seguida procurada, ao contrário encontrará o refúgio positivamente desejado. Em contacto com a cultura francesa em plena efervecência romântica, Herculano saberá edificar a sua própria estrutura.
Alexandre Herculano é a primeira grande figura literária inteiramente formada e integrada no Movimento romântico. O seu romantismo é total, pois envolve o autor em todas as suas manifestações e criações. Em Herculano, desde a mocidade, a expressão romântica tem a capacidade de traduzir tanto a mais recôndita, ainda que sempre muito ponderada, subjetividade lírica, quanto a mais ousada participação pública.
Filho dos tempos de grandes turbamentos porque passa a vida nacional, a estes dedica a mais profunda participação cívica e neles se incorpora para uma sempre atenta defesa das liberdades individuais e públicas.
Envolvido desde a mocidade nas lutas sociais de seu país, cedo realiza a experiência de um exílio que se faz mais difícil pelas limitadas condições materiais vindas das origens do muito moço Herculano. Inicialmente refugia-se na Inglaterra, mas ali não encontra o melhor correspondente aos seus sonhos de crescimento geral. Na França, logo em seguida procurada, ao contrário encontrará o refúgio positivamente desejado. Em contacto com a cultura francesa em plena efervecência romântica, Herculano saberá edificar a sua própria estrutura.
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domingo, 15 de agosto de 2010
O Romantismo social português: 2 – Almeida Garrett
Sílvio Castro
Almeida Garrett é, quase certamente, o primeiro romântico na literatura portuguesa que incorpora a uma inicial predisposição individualista determinada consciência política. Daí a sua particular importância no quadro do Romantismo social português, para o qual traz marcantes contribuições.
Escritor de evidente formação árcade e iluminista, ele assiste à passagem do tempo setecentista, marcado particularmente pela política cultural do regime pombalino, àquele oitocentista, começado pelas crises institucionais que principiam com o reinado de D. Maria I, se alarga com a invasão napoleônica, o fim da mesma, a revolução de 1820 e a fase do “vintismo”, até chegar às lutas fraticidas culminadas com a vitória de D. Pedro IV e correspondente restauração de uma certa estabilidade nacional.
O jovem Garret, partindo de suas raízes neo-clássicas, vive intensamente
Almeida Garrett é, quase certamente, o primeiro romântico na literatura portuguesa que incorpora a uma inicial predisposição individualista determinada consciência política. Daí a sua particular importância no quadro do Romantismo social português, para o qual traz marcantes contribuições.
Escritor de evidente formação árcade e iluminista, ele assiste à passagem do tempo setecentista, marcado particularmente pela política cultural do regime pombalino, àquele oitocentista, começado pelas crises institucionais que principiam com o reinado de D. Maria I, se alarga com a invasão napoleônica, o fim da mesma, a revolução de 1820 e a fase do “vintismo”, até chegar às lutas fraticidas culminadas com a vitória de D. Pedro IV e correspondente restauração de uma certa estabilidade nacional.
O jovem Garret, partindo de suas raízes neo-clássicas, vive intensamente
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sábado, 14 de agosto de 2010
O Romantismo social português: 1 – Considerações gerais
Sílvio Castro
Movimento de vanguarda, possivelmente o primeiro nesse sentido, o Romantismo se apresenta historicamente em forma complexa, englobando e propondo as mais diversas dimensões para a nova criação literária. Herdeiro dos melhores valores da tradição neo-clássica, entretanto logo se mostra contrário às mesmas e disponível à conquista de surpreendentes e inéditas dimensões artísticas.
Movimento de vanguarda, possivelmente o primeiro nesse sentido, o Romantismo se apresenta historicamente em forma complexa, englobando e propondo as mais diversas dimensões para a nova criação literária. Herdeiro dos melhores valores da tradição neo-clássica, entretanto logo se mostra contrário às mesmas e disponível à conquista de surpreendentes e inéditas dimensões artísticas.
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quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Há utopias que se transformam em realidade. Outras nem por isso.
Carlos Loures
As utopias não se limitam ao universo literário. Os falanstérios, ideados pelo pensador francês Charles Fourier (1772-1837), reflectiam o desejo de passar à prática uma generosa utopia, baseada no pressuposto de que e o ser humano é intrinsecamente bom, depositário de uma harmonia natural que reflecte a harmonia do Universo, e que a maldade está na sociedade e não no homem. Edificaram-se algumas comunas que não poderiam albergar mais de 1600 pessoas e teriam de ser auto-suficientes, permutando com outros falanstérios os excedentes da sua produção.
Em França, nos Estados Unidos, no Brasil, no México, criaram-se falanstérios que foram dando com os burrinhos na água. Cada pessoa decidia a actividade a que se devia dedicar o que, desde logo deve ter causado problemas. E depois, os males do mundo poderão estar principalmente na sociedade, mas lá que o homem não é "intrinsecamente bom", todos os sabemos.
As utopias não se limitam ao universo literário. Os falanstérios, ideados pelo pensador francês Charles Fourier (1772-1837), reflectiam o desejo de passar à prática uma generosa utopia, baseada no pressuposto de que e o ser humano é intrinsecamente bom, depositário de uma harmonia natural que reflecte a harmonia do Universo, e que a maldade está na sociedade e não no homem. Edificaram-se algumas comunas que não poderiam albergar mais de 1600 pessoas e teriam de ser auto-suficientes, permutando com outros falanstérios os excedentes da sua produção.
Em França, nos Estados Unidos, no Brasil, no México, criaram-se falanstérios que foram dando com os burrinhos na água. Cada pessoa decidia a actividade a que se devia dedicar o que, desde logo deve ter causado problemas. E depois, os males do mundo poderão estar principalmente na sociedade, mas lá que o homem não é "intrinsecamente bom", todos os sabemos.
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