Mostrar mensagens com a etiqueta vila franca de xira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta vila franca de xira. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Comunicação social e democracia - III - O Vida Ribatejana suspendeu a publicação



João Machado


Há alguns dias alguém me avisou de que o Vida Ribatejana já não aparecerá na próxima semana. Na segunda-feira confirmei o facto junto de várias pessoas. A empresa proprietária, a CCS - Cultura e Comunicação Social, Lda., pediu a declaração do estado de insolvência.

O Vida Ribatejana é (espero que continue a sê-lo) um semanário de Vila Franca de Xira. Fundado em 1917, por Fausto Nunes Dias, é sem dúvida o jornal mais conhecido do Ribatejo. Ainda não há muito tempo, reportando-nos à imprensa local, era um dos jornais mais lidos no Distrito de Lisboa. Ultimamente já não era (não sei se alguma vez o foi) o de maior tiragem (da ficha técnica constam 10000 exemplares), ou o mais lido, por várias razões, a começar pela financeira. Foi perdendo muita publicidade, o que possivelmente precipitou a situação actual. Outro problema que agravou a situação do jornal foi a redução da comparticipação do Estado no porte pago.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo VII

Etapa 3, da Azambuja a Vila Franca

Segunda parte

A sociedade já não é o que foi, não pode tornar a ser o que era; mas muito menos ainda pode ser o que é. O que há-de ser, não sei.


Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra



Miro mais uma vez a mochila tentando encontrar uma solução. Ao fim de algum tempo, que terá sido curto, parecendo muito demorado, ocorre-me que posso coser a alça. Ainda bem que trago agulha e linhas... Meia hora de costura à beira do campo, sentada em cima de um saco de plástico, por o lugar me parecer sujo; aproveito para reforçar também a outra alça. E prossigo o caminho.

Mais à frente tenho dúvidas quanto ao trajecto. Parece-me que saí do caminho, sigo à periferia de um campo, através de uma vegetação alta, porém continuo em frente – o caminho para Reguengo deve também orientar-se naquela direcção e a caminhada entre silvas e roseiras bravas não me desagrada. De facto, quando chego à estrada, logo vejo a primeira seta amarela num poste: ah!

Em Reguengo paro na fonte para encher as garrafas, vem uma mulher falar comigo, onde vai a menina, assim sozinha, vai com Deus, é verdade, mas não tem medo? Uma enfermeira foi assaltada e violada à saída do hospital Amadora-Sintra. E uma rapariga da região também foi raptada junto à estação da Azambuja. Eu, digo-lhe a verdade, até de ir à Valada tenho medo. Fixo a interlocutora perguntando aos meus botões se haverá tantos bandidos que a desejem violar e assaltar, mesmo no caminho para a Valada, que dista dois quilómetros de Reguengo; mas agradeço o cuidado.

A partir de Reguengo, durante quase vinte quilómetros, o meu trajecto acompanha um dique. Chego a Valada às onze e meia. Surpreende-me o apetite que sinto. Sento-me num parque, à sombra, entre o dique e a praia fluvial, como a sanduíche colossal que me prepararam no restaurante onde ontem jantei, como mais bolachas vitaminadas, como laranjas, nozes e figos, acabo com o chocolate preto e, agora vim prevenida, até faço um chá sumptuoso da Mariage Frères numa garrafa de plástico... Consigo parar o banquete antes da indigestão. Sigo para Porto de Muge.

Nestas minhas andanças, caminhar é um prazer, a verdadeira dificuldade, o suplício máximo está no calor. Em Valada voltei a encher as garrafas todas, três litros de água, que bebo nos três quilómetros até Porto de Muge. Não posso deixar esta localidade sem voltar a enchê-las pois a seguir atravesso um território de catorze quilómetros não habitados. Um sol de crestar, de derreter, de estrugir, de esturricar... Passa um homem de bicicleta com um balde de marmelos, pergunto se há algures uma fonte, ele explica-me onde, mais adiante, depois exclama, num espanto sincero: Vai sozinha! Vá com Deus!

Compreendo a crítica dos leitores. No entanto a piedade pela peregrina não me incomoda, não me sinto sequer hipócrita, inserida numa estrutura que não me é afinal alheia. A fé que arrasta os peregrinos para Fátima ou Santiago não me parece muito distinta da loucura me faz caminhar neste inferno: a curiosidade.

Acompanho o dique por uma estrada poeirenta, a vegetação do talude encontra-se branca de pó, eu cobri-me em Porto de Muge com uma camada de protector solar, quando passa um tractor, uma carrinha, uma camioneta, o que é frequente, a poeira cola-se ao creme: devo parecer um palhaço branco. Vou bebendo a água, a mochila deixa de pesar, os pés não me doem; se não estivesse calor, sentiria gosto na caminhada mas, com esta temperatura, sofro.

Avisto, a certa altura, um grupo de jornaleiros a arrancar e queimar plantas num campo; os quais me fitam com um espanto muito evidente. Se vissem passar uma marciana não fariam outra cara. Qual a razão deste pasmo? A imprudência de uma mulher neste descampado? A insensatez de me expor sem necessidade ao calor? Talvez ambas as coisas. Observo os homens que conduzem tractores e camionetas: parecem-me honestos trabalhadores. Dizem boa tarde e seguem em frente. Embora o caminho seja de facto isolado, à beira de campos imensos, não sinto medo nenhum.

As minhas botas chegam acima do tornozelo e parecerem bem fechadas porém, a certa altura, uma pedra minúscula, quase um grão de areia, consegue entrar por cima, entre a bota e a perna direita. Uma regra é que, apenas sentimos algo, devemos de imediato parar e verificar, contudo eu não vejo por perto sombra nem espaço onde, molhada com me encontro, me sente sem ficar enlameada; guardo para mais tarde a busca da pedra. Avanço mais dois ou três quilómetros, continuo sem poder poisar a mochila, também molhada, assentar um saco de plástico, onde me apoiar; atravesso um deserto poeirento. Quando me forço a fazê-lo, é tarde demais: tenho uma bolha na planta do pé direito.

E agora?

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Apresentando João Machado

João Machado nasceu em Lisboa, em 1943. É licenciado pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (actual ISCSP). Católico na adolescência, pertenceu à Juventude Universitária Católica (JUC), afastou-se depois da religião. Com 21 anos colaborou num estudo orientado pela Professora Palmira Duarte, “ A Imagem da Mulher em Portugal”, estudo baseado em inquéritos à população. O trabalho de campo para realização desses inquéritos, levou-o a percorrer a Grande Lisboa, nomeadamente a chamada «cintura industrial» e a contactar uma realidade social que desconhecia.

Uma doença grave manteve-o internado num sanatório durante muito tempo. Iniciou a sua vida profissional dando aulas de Geografia, foi admitido no Ministério da Obras Públicas e, em 1970, começando a trabalhar no Serviço de Promoção Social do Ministério da Saúde e Assistência Social da altura.. Em 1972 esteve quatro meses num estágio profissional nos Estados Unidos, principalmente no Estado do Minnesota.

Em 1975, foi colocado, a seu pedido, no serviço de Acção Directa da Amadora, levando-o, a contactar a dramática realidade dos bairros degradados. Nos últimos anos de actividade, exerceu funções de inspecção. Toda a sua carreira profissional decorreu, até à aposentação em 2008, na Função Pública.

Para além da sua actividade profissional como sociólogo, manteve alguma actividade literária colaborando em enciclopédias, escrevendo verbetes ou traduzindo-os Desenvolveu também vários trabalhos para o então chamado Centro de Reflexão Cristã, sob a orientação da Professora Manuela Silva. Leitor compulsivo, desde jovem que deseja dedicar-se à literatura, desiderato que tenciona concretizar em breve, apresentando o seu primeiro romance. Militante do Bloco de Esquerda, integra a Assembleia Municipal da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Etapa 1, até Vila Franca de Xira

Primeira parte: o trajecto para o Parque das Nações

Eu hei-de propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino de Portugal ao menos uma vez cada ano.

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra



São 8 deste mês de Setembro, ano de graça de 2009, uma terça-feira, dia sem nota e de boa estreia. Às sete e trinta saio de casa. Levo mochila e botas de caminhada, um litro de água, nozes, passas, chocolate preto, biscoitos enriquecidos com germe de trigo e uma quantidade de vitaminas. Rua do Forno do Tijolo, Rua Angelina Vidal, Rua do Vale de Santo António. No Poço do Bispo começo a caminhar à beira do Tejo, entre os carros e o porto, numa zona que poderia ser aprazível.

Lisboa continua uma cidade de carros: a única capital do mundo onde não é possível apanhar o autocarro com uma mala. Por exemplo. Ora sem transportes atractivos, sem ruas acessíveis aos peões – não há cidade. Há estradas, viadutos, ruído, violência, gases tóxicos, carros estacionados nos passeios, quando há passeios; no meio disto, não apetece caminhar e mesmo, com frequência, não é possível caminhar.