Carlos Luna
Caetano Jozé da Sylva Sotomayor (ortografia antiga), modernamente um quase desconhecido, nasceu muito provavelmente em 1694, filho de Gaspar da Silva Moniz, "Provedor dos Reynos" e de Isabel Teresa
Sotomaior, Dama da Rainha D. Maria Ana da Áustria, esposa de D. João V. Faleceu em 18 de Agosto de 1739.
Note-se que, entre as famílias nobres, e até ao Século XIX, o apelido de pai precedia o de mãe em Portugal, tal como sucede ainda hoje em Espanha. Souto-Maior (usando agora a ortografia moderna ) era conhecido, no seu tempo, por "Camões do Rossio". A sua popularidade no Corte de D. João V, e principalmente em Lisboa, deixou rastos, inclusivamente na Literatura. Inácio Feijó e Almeida Garrett escreveram uma comédia intitulada "O Camões do Rossio", o que dá uma idéia de quão conhecido
era e de que forma era visto como representando toda uma época. O seu nome foi dado ao actual Largo D. João da Câmara, em frente da Estação do Rossio, até que, na década de 1930, um vereador da Câmara de
Lisboa, ignorante, pensando que tal "Camões" se referia ao imortal poeta Luís de Camões, mandou substituir o topónimo, com o argumento de que jà existia em Lisboa uma Praça Luís de Camões. Note-se ainda que
Souto-Maior é visto por Feijó e Garrett só como filho de uma época que para eles, liberais, era símbolo de tirania e mediocridade, e, logo, é considerado uma figura ridícula. Um claro exagero, desculpável no
contexto das paixões do Século XIX.
sábado, 26 de junho de 2010
Eugénio Tavares no Terreiro da Lusofonia
A Eugénio Tavares se deve a tomada de consciência, que, por finais do século XIX, se verificou entre as gentes do arquipélago de Cabo Verde de que havia uma cultura genuinamente autóctone. Descendente de europeus, foi dos primeiros a proclamar que os cabo-verdianos tinham direito a uma cultura diferenciada e a uma identidade própria. Eugénio Tavares, foi também um consciencializador activo da cabo-verdianidade, actuando no plano político e cultural e sofrendo as inevitáveis perseguições por parte do poder colonial, sendo obrigado a exilar-se.
Quase desconhecido em Portugal ou redutoramente referenciado como «criador de mornas», Eugénio Tavares foi um escritor, jornalista e polemista de grande valor. Agora que a literatura do arquipélago se afirma como uma das mais pujantes do universo lusófono, com nomes como o do romancista Germano Almeida, como o do grande Daniel Filipe, e o de Arménio Vieira, Prémio Camões de 2009, não devemos esquecer Eugénio Tavares, pioneiro das letras de Cabo Verde.
Eugénio Tavares, nasceu na ilha Brava a 18 de Outubro de 1867, onde faleceu em Junho de 1930. Autodidacta, adquiriu grande cultura, transformando-se na figura literária mais importante de Cabo Verde nas primeiras três décadas do século XX. Deixou uma vasta produção, em português e em crioulo – poemas, narrativas, peças de teatro e, sobretudo, artigos jornalísticos. Quando exilado nos Estados Unidos, fundou o jornal «Alvorada» em New Bedford. Com colaboração intensa na «Revista de Cabo Verde» e no jornal «A Voz de Cabo Verde», foi postumamente publicado um volume com as suas «Mornas». Da sua produção poética seleccionámos um poema em português:
Exilado
Pensa no que há de mais sombrio e triste;
terás, destes meus dias vaga imagem;
soturnos céus – como tu nunca viste –
nunca os doirou o halo de uma miragem.
O sol – um sol que só de nome existe –
envolto na algidez e na brumagem
dum frio como tu nunca sentiste,
do nosso sol parece a morta imagem
imerge o retransido pensamento
nas noites mais escuras, mais glaciais,
prenhes de raios e vendavais;
verás que anos de dor, esse momento
passado, na saudade e no penar,
longe do sol vital do teu olhar!
(Fairhaven, 1900)
Ouçamos uma morna com música e letra de Eugénio Tavares.
Quase desconhecido em Portugal ou redutoramente referenciado como «criador de mornas», Eugénio Tavares foi um escritor, jornalista e polemista de grande valor. Agora que a literatura do arquipélago se afirma como uma das mais pujantes do universo lusófono, com nomes como o do romancista Germano Almeida, como o do grande Daniel Filipe, e o de Arménio Vieira, Prémio Camões de 2009, não devemos esquecer Eugénio Tavares, pioneiro das letras de Cabo Verde.
Eugénio Tavares, nasceu na ilha Brava a 18 de Outubro de 1867, onde faleceu em Junho de 1930. Autodidacta, adquiriu grande cultura, transformando-se na figura literária mais importante de Cabo Verde nas primeiras três décadas do século XX. Deixou uma vasta produção, em português e em crioulo – poemas, narrativas, peças de teatro e, sobretudo, artigos jornalísticos. Quando exilado nos Estados Unidos, fundou o jornal «Alvorada» em New Bedford. Com colaboração intensa na «Revista de Cabo Verde» e no jornal «A Voz de Cabo Verde», foi postumamente publicado um volume com as suas «Mornas». Da sua produção poética seleccionámos um poema em português:
Exilado
Pensa no que há de mais sombrio e triste;
terás, destes meus dias vaga imagem;
soturnos céus – como tu nunca viste –
nunca os doirou o halo de uma miragem.
O sol – um sol que só de nome existe –
envolto na algidez e na brumagem
dum frio como tu nunca sentiste,
do nosso sol parece a morta imagem
imerge o retransido pensamento
nas noites mais escuras, mais glaciais,
prenhes de raios e vendavais;
verás que anos de dor, esse momento
passado, na saudade e no penar,
longe do sol vital do teu olhar!
(Fairhaven, 1900)
Ouçamos uma morna com música e letra de Eugénio Tavares.
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sexta-feira, 25 de junho de 2010
A casa mais estreita de Lisboa
Ethel Feldman
A história é toda ela verdadeira. E aquilo que achares exagerado, deixa passar, coloca à margem e segue comigo o texto, porque a casa existe. Se quiseres levo-te lá. Então, vais querer voltar a ler tudo o que achaste demasiado no meu texto.
A casa mais estreita de Lisboa. Toda branquinha por fora. No primeiro andar uma varandinha azul brinca com o resto do branco. Fica entre dois prédios. Daqueles normais que todos nós conhecemos. Sabes o que parece? Olha, parece que o arquitecto da época enganou-se e deixou um buraco entre os dois edifícios!
Ontem disseram-me:
- Então não sabes que naquela época os homens só tinham um metro e meio?
Confesso que esbocei um sorriso apatetado, um metro e meio tenho eu e mal caibo no apartamento!
Por dentro a casinha não tem sequer dois metros de largo. Cresce em altura enquanto estreita. Parece um conto de fadas. Quanto mais crescida mais estreita!
Eu quanto mais envelheço, mais cresço em largura.
Não posso alugar esse apartamento!
Um dia não caberia na casa. Um dia, tenho a certeza, acabaria presa na escada, no caminho entre o r/c e o primeiro andar. Todos os pequerruchos da rua iriam me visitar.
- Olha a fadinha gordinha. Está quase uma bolinha...
- Oh Fada, deixa-me subir! Não vês que bloqueias o nosso caminho?
Eu sei que ficaria com a cara toda encarnada. Para disfarçar com um sorriso, diria:
- Meu querido amiguinho, nem sabes a sorte que tens em não seguires por este caminho. Quem aqui subiu foi estreitanto-se, estreitando-se até que se transformou num fio...
- E quem te disse que ser fio não é baril?
Se depois de leres tudo achares que é tudo mentira, telefona-me que eu te faço uma visita guiada a essa casinha que cresce sempre em altura.
A história é toda ela verdadeira. E aquilo que achares exagerado, deixa passar, coloca à margem e segue comigo o texto, porque a casa existe. Se quiseres levo-te lá. Então, vais querer voltar a ler tudo o que achaste demasiado no meu texto.
A casa mais estreita de Lisboa. Toda branquinha por fora. No primeiro andar uma varandinha azul brinca com o resto do branco. Fica entre dois prédios. Daqueles normais que todos nós conhecemos. Sabes o que parece? Olha, parece que o arquitecto da época enganou-se e deixou um buraco entre os dois edifícios!
Ontem disseram-me:
- Então não sabes que naquela época os homens só tinham um metro e meio?
Confesso que esbocei um sorriso apatetado, um metro e meio tenho eu e mal caibo no apartamento!
Por dentro a casinha não tem sequer dois metros de largo. Cresce em altura enquanto estreita. Parece um conto de fadas. Quanto mais crescida mais estreita!
Eu quanto mais envelheço, mais cresço em largura.
Não posso alugar esse apartamento!
Um dia não caberia na casa. Um dia, tenho a certeza, acabaria presa na escada, no caminho entre o r/c e o primeiro andar. Todos os pequerruchos da rua iriam me visitar.
- Olha a fadinha gordinha. Está quase uma bolinha...
- Oh Fada, deixa-me subir! Não vês que bloqueias o nosso caminho?
Eu sei que ficaria com a cara toda encarnada. Para disfarçar com um sorriso, diria:
- Meu querido amiguinho, nem sabes a sorte que tens em não seguires por este caminho. Quem aqui subiu foi estreitanto-se, estreitando-se até que se transformou num fio...
- E quem te disse que ser fio não é baril?
Se depois de leres tudo achares que é tudo mentira, telefona-me que eu te faço uma visita guiada a essa casinha que cresce sempre em altura.
Apresentando Carlos Leça da Veiga
Carlos Leça da Veiga, nasceu em Lisboa em 1931. Médico infecciologista, foi durante 27 anos membro do Conselho Redactorial da "Revista Portuguesa de Doenças Infecciosas" onde publicou numerosos trabalhos. Enquanto estudante, pertenceu às Direcções do Club de Cinema de Coimbra, da Delegação em Coimbra do Circulo de Cultura Musical, do Conselho Cultural da Associação Académica de Coimbra e à Direcção Nacional Universitária do MUD Juvenil. É o presidente da Direcção da Associação Portuguesa de Infecção Hospitalar. Tem participado em numerosos debates, nomeadamente no Centro Nacional de Cultura. Foi um dos colaboradores de "Questões e Alternativas", revista de intervenção políitica.
Foi com dificuldade que obtivemos estes elementos, pois o Carlos Leça da Veiga queria que fosse assim: «nasceu, está vivo, é médico e, a pedido de um amigo, manda textos para o Estrolabio».
Foi com dificuldade que obtivemos estes elementos, pois o Carlos Leça da Veiga queria que fosse assim: «nasceu, está vivo, é médico e, a pedido de um amigo, manda textos para o Estrolabio».
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Carlos Mesquita
Acabamos de saber que faleceu a Mãe do nosso colaborador Carlos Mesquita. Perante um acontecimento tão triste, as palavras são inúteis. Um grande e solidário abraço, Carlos - os nossos sentidos pêsames.
Por sugestão da Clara Castilho aqui deixamos "Lacrimosa" do "Requiem", de Mozart,pelo Coro da Ópera de Viena e pela Orquesta Filarmónica de Viena dirigida por Karl Böhm.
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Por sugestão da Clara Castilho aqui deixamos "Lacrimosa" do "Requiem", de Mozart,pelo Coro da Ópera de Viena e pela Orquesta Filarmónica de Viena dirigida por Karl Böhm.
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República nos livros de ontem nos livros de hoje - 37 e 38 (José Brandão)
1908 Do Regicídio à ascensão do Republicanismo
Jorge Couto
(Apresentação)
Ministério da Cultura, 2008
1908 foi marcado pelo Regicídio, ocorrido em 1 de Fevereiro, o que provocou a queda da ditadura de João Franco, cujo governo tomara posse em 1906. Três dias antes, verificou-se uma tentativa de golpe revolucionário, de cariz republicano, em sequência da qual D. Carlos assinou um decreto que previa a deportação para o Ultramar daqueles que atentassem contra a segurança do Estado. D. Manuel subiu ao trono e foi empossado um novo governo, de «Acalmação», chefiado por Ferreira do Amaral, que não chegou ao final do ano, sendo substituído por Campos Henriques.
É uma viagem pelos principais acontecimentos de 1908 o que pode visitar nesta mostra, através das primeiras páginas de jornais e de alguns livros publicados nesse ano, como O Marquês de Bacalhoa, de António de Albuquerque, cuja principal personagem é o rei D. Carlos e que, apesar de apreendido, foi um sucesso editorial.
___________________________
Documentos Políticos Encontrados nos Palácios Reais Depois da Revolução Republicana de 5 de Outubro de 1910
Lisboa, 1915
Em sessão de 13 de Julho de 1911 votou a Assembleia Nacional Constituinte uma proposta do Deputado Eduardo Abreu para que uma comissão de cinco Deputados fosse encarregada da grave missão de inquirir, por todos os Ministérios, da existência de quaisquer documentos encontrados nos paços reais, dando, com urgência, conta do seu mandato em relatório onde consignasse o parecer sobre a importância ou oportunidade da publicação.
Na discussão dessa proposta, o seu autor, concordando em que nem todos os documentos deveriam ser publicados, desejou entretanto saber se eles pertenciam ou não à Nação; respondendo-lhe, por parte do Governo, o Ministro do Fomento que, «tendo o Governo apenas a responsabilidade da sua guarda e não o exclusivo do seu conhecimento, em nada a proposta do Deputado Eduardo Abreu era contrária ao pensamento do Governo ou aos interesses da Nação… ».
Jorge Couto
(Apresentação)
Ministério da Cultura, 2008
1908 foi marcado pelo Regicídio, ocorrido em 1 de Fevereiro, o que provocou a queda da ditadura de João Franco, cujo governo tomara posse em 1906. Três dias antes, verificou-se uma tentativa de golpe revolucionário, de cariz republicano, em sequência da qual D. Carlos assinou um decreto que previa a deportação para o Ultramar daqueles que atentassem contra a segurança do Estado. D. Manuel subiu ao trono e foi empossado um novo governo, de «Acalmação», chefiado por Ferreira do Amaral, que não chegou ao final do ano, sendo substituído por Campos Henriques.
É uma viagem pelos principais acontecimentos de 1908 o que pode visitar nesta mostra, através das primeiras páginas de jornais e de alguns livros publicados nesse ano, como O Marquês de Bacalhoa, de António de Albuquerque, cuja principal personagem é o rei D. Carlos e que, apesar de apreendido, foi um sucesso editorial.
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Documentos Políticos Encontrados nos Palácios Reais Depois da Revolução Republicana de 5 de Outubro de 1910
Lisboa, 1915
Em sessão de 13 de Julho de 1911 votou a Assembleia Nacional Constituinte uma proposta do Deputado Eduardo Abreu para que uma comissão de cinco Deputados fosse encarregada da grave missão de inquirir, por todos os Ministérios, da existência de quaisquer documentos encontrados nos paços reais, dando, com urgência, conta do seu mandato em relatório onde consignasse o parecer sobre a importância ou oportunidade da publicação.
Na discussão dessa proposta, o seu autor, concordando em que nem todos os documentos deveriam ser publicados, desejou entretanto saber se eles pertenciam ou não à Nação; respondendo-lhe, por parte do Governo, o Ministro do Fomento que, «tendo o Governo apenas a responsabilidade da sua guarda e não o exclusivo do seu conhecimento, em nada a proposta do Deputado Eduardo Abreu era contrária ao pensamento do Governo ou aos interesses da Nação… ».
Ontem e hoje: o crescimento das crianças (1)
Raúl Iturra
O que é uma criança? É todo ser que cresce entre o nascimento e a puberdade Já estava definida e, outros textos meus, com as citações que academia manda um intelectual fazer. Quer no meu O saber das crianças (1996), quer no meu Imaginário das crianças (1997), tive especial cuidado de dedicar ideias para delimitar o campo da pesquisa. Que tinha já sido definido no meu A construção social do insucesso escolar (1990), esse esgotado livro que tanto é procurado. Como em outros textos. Gostava acrescentar á minha tradicional definição, de que todo ser humano é criança em certos aspectos das suas relações, em quanto é adulto em outras. E ao contrario. Porque há campos do comportamento que sabemos, e campos da interacção no qual estamos menos desenvolvidos. Percebe-se de que um adulto é um ser crescido em corpo e em idade, capaz de reproduzir. E com as suas emoções bem definidas e detalhadas e orientadas. E com as suas opções entre alternativas, bem informadas. E com o seu comando sobre si próprio e o mundo da interacção, bem serenamente autoritário, firme.
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Uma medalha para Macário Correia!

O Presidente da Câmara de Faro, zangou-se com uma minoria de funcionários abusadores que prolongam o tempo necessário para beber o café. Numa circular interna, avisou que quem abusar leva com uma falta injustificada, acabou o recreio após as 10 horas e de tarde não há bica.
Diz Macário Correia, que dos 1030 funcionários há uma minoria que não respeita o cidadão/contribuinte, que vê filas de pessoas à espera enquanto o funcionário está ausente no cafèzinho.
O delegado sindical já veio dizer que precisa de ouvir os funcionários sobre o que pensam das novas medidas e que quer saber se o Presidente da Câmara tem provas dos abusos.
Eu é que não aprendo, estava à espera que o sindicato apoia-se Macário, pois este está a defender a reputação da "grande maioria" dos funcionários e a pôr nos eixos os relapsos do costume, mas não, o que o sindicato quer é manter o recreio e os abusos, que defraudam o bom serviço que o cidadão espera da Câmara!
É, óbvio, que estas medidas têm que ser tomadas sem receios, todos as compreendem, é preciso haver uma prática de mérito e de disponibilidade, principalmente nos funcionários públicos que são pagos por nós todos e que, diga-se ,gozam de privilégios que a maioria dos trabalhadores não tem!
As crises tambem dão espaço à introdução de melhorias e não se percebe a posição dos sindicatos que deveriam pugnar pela dignificação dos seus representados.
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Postal da África do Sul - Carlos Godinho envia-nos uma mensagem
Ainda bem que o Estrolabio cresce. Daqui da África do Sul vou acompanhando com menos atenção do que devia, mas o tempo corre e 24 horas não chegam para tudo. Estamos na terra, Durban, onde viveu Fernando Pessoa. Bom local. Belíssima cidade. Daqui a pouco é o jogo. Forte abraço.
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A televisão é para estúpidos?
Carlos Loures
A frase que dá o título a esta série de crónicas que hoje inicio, foi dita pelo escritor e editor Luiz Pacheco (1925-2008) , que aqui à direita nos pisca o olho tornando-nos cúmplices das suas digressões pelo seu pequeno inferno pessoal. No decurso de uma entrevista conduzida por João Paulo Cotrim: quando este lhe perguntou se a televisão estava a matar a literatura, Pacheco respondeu desabridamente – «A televisão não mata nada! A televisão é para estúpidos!»
Não sei se Cotrim, com a sua pergunta, não estaria a aludir à clássica passagem do romance Nôtre-Dame de Paris, de Victor Hugo, quando o arcediago abre a janela da sua cela, contempla por algum tempo a Nôtre-Dame, estende a mão para o livro impresso aberto na sua mesa e, lançando um olhar triste para a igreja, profere a conhecida frase: ceci tuera cela.», isto matará aquilo.
Groucho Marx (1890-1977), o genial actor norte-americano, costumava dizer a frase que a par com a de Pacheco, inspiraram este trabalho - «Acho a televisão muito educativa – logo que alguém a liga vou para outra sala ler um livro».
No fundo, as duas frases dizem a mesma coisa, por palavras e com intensidades diferentes. Em ambas está presente o pressuposto da prevalência do livro como instrumento e como veículo de cultura. No título desta série de crónicas, substituí o pachequiano ponto de exclamação por um ponto de interrogação.
A frase que dá o título a esta série de crónicas que hoje inicio, foi dita pelo escritor e editor Luiz Pacheco (1925-2008) , que aqui à direita nos pisca o olho tornando-nos cúmplices das suas digressões pelo seu pequeno inferno pessoal. No decurso de uma entrevista conduzida por João Paulo Cotrim: quando este lhe perguntou se a televisão estava a matar a literatura, Pacheco respondeu desabridamente – «A televisão não mata nada! A televisão é para estúpidos!»
Não sei se Cotrim, com a sua pergunta, não estaria a aludir à clássica passagem do romance Nôtre-Dame de Paris, de Victor Hugo, quando o arcediago abre a janela da sua cela, contempla por algum tempo a Nôtre-Dame, estende a mão para o livro impresso aberto na sua mesa e, lançando um olhar triste para a igreja, profere a conhecida frase: ceci tuera cela.», isto matará aquilo.
Groucho Marx (1890-1977), o genial actor norte-americano, costumava dizer a frase que a par com a de Pacheco, inspiraram este trabalho - «Acho a televisão muito educativa – logo que alguém a liga vou para outra sala ler um livro».
No fundo, as duas frases dizem a mesma coisa, por palavras e com intensidades diferentes. Em ambas está presente o pressuposto da prevalência do livro como instrumento e como veículo de cultura. No título desta série de crónicas, substituí o pachequiano ponto de exclamação por um ponto de interrogação.
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Criança uma obra em aberto - jogar/brincar
Clara Castilho
A euforia dos jogos de futebol passam-me ao lado. Sendo do tempo dos 3 F’s (Fátima, Futebol e Fado), continuo a sentir alergias.
É bom haver algo para entusiasmar as pessoas, mas é mau que a união se faça só em torno de questões deste tipo.
Para mim o futebol é o do vídeo que aponto (sapo.pt – “A Bola”). Neste sentido, sou até capaz de sugerir a pais de certas crianças (meninos e meninas) que os inscrevam em clubes de futebol… E até invento que sou da “Académica” ( do mal o menos…) quando vejo no olhar de uma criança que a vou desiludir imenso se não tiver um clube desportivo. Este vídeo, é claro que é feito por profissionais e com objectivos bem claro e necessários. No entanto, a verdade é que as crianças são capazes desta criatividade. O que é de nos deve incentivar a continuar a apostar nelas. E no JOGO. O futebol enquanto jogo, enquanto prazer do movimento, enquanto aprendizagem de regras, de saber estar concentrado, de esperar a sua vez… (ah, aprender a esperar a sua vez, a respeitar os outros, isto está cada vez mais difícil!) É este futebol que gostaria que houvesse por todo o lado no nosso país, onde as crianças tivessem espaços para se movimentarem (sobretudo nas cidades), onde se pudessem deslocar livremente sem que os pais sentissem receios. E um tempo, também, em que as crianças tivessem tempo para brincar! E brincar ao ar livre, não “brincar” em jogos de computador, ou entregues à televisão”babby sitter” (Play em inglês = jogar, brincar). Este é um assunto importantíssimo a que se tem que dar maior atenção. Onde estão as “cidades educadoras”? Onde está a aplicação do artº 31 da Convenção sobre os Direitos da Criança?
A euforia dos jogos de futebol passam-me ao lado. Sendo do tempo dos 3 F’s (Fátima, Futebol e Fado), continuo a sentir alergias.
É bom haver algo para entusiasmar as pessoas, mas é mau que a união se faça só em torno de questões deste tipo.
Para mim o futebol é o do vídeo que aponto (sapo.pt – “A Bola”). Neste sentido, sou até capaz de sugerir a pais de certas crianças (meninos e meninas) que os inscrevam em clubes de futebol… E até invento que sou da “Académica” ( do mal o menos…) quando vejo no olhar de uma criança que a vou desiludir imenso se não tiver um clube desportivo. Este vídeo, é claro que é feito por profissionais e com objectivos bem claro e necessários. No entanto, a verdade é que as crianças são capazes desta criatividade. O que é de nos deve incentivar a continuar a apostar nelas. E no JOGO. O futebol enquanto jogo, enquanto prazer do movimento, enquanto aprendizagem de regras, de saber estar concentrado, de esperar a sua vez… (ah, aprender a esperar a sua vez, a respeitar os outros, isto está cada vez mais difícil!) É este futebol que gostaria que houvesse por todo o lado no nosso país, onde as crianças tivessem espaços para se movimentarem (sobretudo nas cidades), onde se pudessem deslocar livremente sem que os pais sentissem receios. E um tempo, também, em que as crianças tivessem tempo para brincar! E brincar ao ar livre, não “brincar” em jogos de computador, ou entregues à televisão”babby sitter” (Play em inglês = jogar, brincar). Este é um assunto importantíssimo a que se tem que dar maior atenção. Onde estão as “cidades educadoras”? Onde está a aplicação do artº 31 da Convenção sobre os Direitos da Criança?
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo XXIX
O Serviço Nacional de Saúde
Dirijo-me ao centro de saúde da Mouraria em Janeiro, quando por fim obtenho o novo bilhete de identidade da minha mãe. A qual continua acamada. Consegue, com esforço, amparo e, por vezes, algumas quedas, ir da cama para o cadeirão. É impossível ela viver sozinha em Queluz e eu, depois da agressão que sofri à entrada do prédio, também não me sinto com ânimo para lá ficar. A minha mãe reside portanto agora na minha casa, por isso transfiro-a do centro de saúde de Queluz para o da Mouraria.
Ora ela não era diabética antes do AVC mas agora é; no hospital recomendaram-me que fosse ao médico de família levando uma carta do hospital e pedisse o atestado que lhe garanta a gratuidade do tratamento. É o que eu faço.
Sou recebida aos berros.
- Não tenho aqui nada!
O centro de saúde de Queluz ainda não enviou o dossier da minha mãe. Quando lhe explicam o fenómeno, a médica lança na minha direcção:
- Quer o quê de mim?
Porém recusa-se a ouvir. Não olha para os relatórios, radiografias e outros exames que apresento. Não está ali para assinar em rectângulos brancos, afirma ela, trabalha com pessoas e não com papéis – também não se dispõe a fazer uma visita domiciliária. Eu insisto na necessidade daquele atestado, ela continua aos berros, chama-me estúpida, já devia ter percebido.
- Não anda aí a limpar escadas, pois não?
Avança na direcção da porta. Não pode chamar o doente seguinte; não havia mais ninguém na sala de espera. Eu não me levanto. Tento acalmá-la. A senhora doutora tem razão mas a minha mãe precisa do atestado. Continuo sentada. Ela exalta-se cada vez mais. Eu teimo pensando: daqui a pouco, com tantos gritos, entra o segurança. Contudo, talvez habituado, ele não aparece. A médica também não se lembra de o chamar e, quando conclui que, de outra maneira, não se desembaraça de mim, acaba por passar os requeridos documentos.
Já os tenho na mão, devera agora desandar, zarpar de uma vez por todas, não pôr mais aqui os pés, uma miséria lá fora, entre drogados e prostitutas, esta violência aqui dentro. Inquiro o que devo fazer. Ela volta a ofender-se.
- Isso é trabalho de secretaria! Sou médica, não percebeu?!
Caíam-lhe os parentes na lama se explicasse o uso e funções do “Guia da Pessoa Com Diabetes”.
Eu sinto-me cada vez mais perplexa. Então os utentes do Serviço Nacional da Saúde têm que aturar isto?
Capítulo XXIX
O Serviço Nacional de Saúde
Dirijo-me ao centro de saúde da Mouraria em Janeiro, quando por fim obtenho o novo bilhete de identidade da minha mãe. A qual continua acamada. Consegue, com esforço, amparo e, por vezes, algumas quedas, ir da cama para o cadeirão. É impossível ela viver sozinha em Queluz e eu, depois da agressão que sofri à entrada do prédio, também não me sinto com ânimo para lá ficar. A minha mãe reside portanto agora na minha casa, por isso transfiro-a do centro de saúde de Queluz para o da Mouraria.
Ora ela não era diabética antes do AVC mas agora é; no hospital recomendaram-me que fosse ao médico de família levando uma carta do hospital e pedisse o atestado que lhe garanta a gratuidade do tratamento. É o que eu faço.
Sou recebida aos berros.
- Não tenho aqui nada!
O centro de saúde de Queluz ainda não enviou o dossier da minha mãe. Quando lhe explicam o fenómeno, a médica lança na minha direcção:
- Quer o quê de mim?
Porém recusa-se a ouvir. Não olha para os relatórios, radiografias e outros exames que apresento. Não está ali para assinar em rectângulos brancos, afirma ela, trabalha com pessoas e não com papéis – também não se dispõe a fazer uma visita domiciliária. Eu insisto na necessidade daquele atestado, ela continua aos berros, chama-me estúpida, já devia ter percebido.
- Não anda aí a limpar escadas, pois não?
Avança na direcção da porta. Não pode chamar o doente seguinte; não havia mais ninguém na sala de espera. Eu não me levanto. Tento acalmá-la. A senhora doutora tem razão mas a minha mãe precisa do atestado. Continuo sentada. Ela exalta-se cada vez mais. Eu teimo pensando: daqui a pouco, com tantos gritos, entra o segurança. Contudo, talvez habituado, ele não aparece. A médica também não se lembra de o chamar e, quando conclui que, de outra maneira, não se desembaraça de mim, acaba por passar os requeridos documentos.
Já os tenho na mão, devera agora desandar, zarpar de uma vez por todas, não pôr mais aqui os pés, uma miséria lá fora, entre drogados e prostitutas, esta violência aqui dentro. Inquiro o que devo fazer. Ela volta a ofender-se.
- Isso é trabalho de secretaria! Sou médica, não percebeu?!
Caíam-lhe os parentes na lama se explicasse o uso e funções do “Guia da Pessoa Com Diabetes”.
Eu sinto-me cada vez mais perplexa. Então os utentes do Serviço Nacional da Saúde têm que aturar isto?
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Apresentando Carlos Luna
Carlos Eduardo da Cruz Luna, nasceu em 1956 em Lisboa, de forma perfeitamente acidental, como faz questão de salientar Oriundo de uma família de Estremoz, é nessa cidade alentejana onde vive e ensina. Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é Professor de História, há 32 anos. No período que se seguiu à Revolução de Abril militou no MES. Ao longo da sua vida, tem-se batido por causas que considera justas, desde a liberdade para a Birmânia até aos Direitos do Povo Curdo ou a independência do Sara Ocidental, desde a ecologia até ao desenvolvimento sustentado de Portugal... e entre essas causas privilegia a da restituição de Olivença a Portugal. É de sua autoria o livro "Nos Caminhos de Olivença". Assumindo-se como um regionalista alentejano, visita quase semanalmente Olivença, onde tem muitos amigos e alguns não-amigos., acrescenta. Continua a estudar o território usurpado, apoiando iniciativas que visem a recuperação das antigas História e Língua.
A sua opinião sobre a questão de Olivença é de que esta tem muitas semelhanças com o diferendo que o estado espanhol mantém com o Reino Unido acerca de Gibraltar. Porém enquanto os espanhóis aproveitam todas as oportunidades para debater a questão de Gibraltar, "o Estado Português não fala em Olivença, é quase uma posição clandestina". É, por isso, uma luta difícil. Mas lutar por uma causa que considerou sempre justa é uma questão de princípio.
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Paul Éluard – Liberdade
Paul Éluard, pseudónimo de Eugène Emile Paul Grindel, nasceu em 1895, Saint-Denis (Paris) e morreu em 1952, Charenton-le-Pont (Paris). Poeta francês. Participou no movimento dadaísta, de Tristan Tzara, e depois no surrealismo, de André Breton. Desvinculou-se deste último movimento depois de ter aderido ao Partido Comunista Francês, embora continue a ser considerado como um dos maiores poetas surrealistas. Autor de uma extensa obra literária é, no entanto, o seu poema Liberté, escrito em 1942, quando a França estava ocupada pelas forças alemãs, que se transformou num ícone de Éluard. Muitos milhares de exemplares foram impressos, distribuídos clandestinamente, lançados sobre França pelos aviões britânicos. Ouçamo-lo, dito pelo grande actor francês Gérard Philipe (1922 –1959):
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quinta-feira, 24 de junho de 2010
Um peixe fora do aquário
Ethel Feldman
Todos os anos a família comemora o seu aniversário. Meu pai diz que a família é uma coisa que sempre existiu, minha mãe afirma que a família é mais que uma coisa mas concorda com seu tempo de vida. Numa data ao acaso festejamos o nosso aniversário.
Houve um tempo em que os velhos eram os responsáveis pelos festejos. Bons vinhos, queijos e presuntos eram escolhidos com todo requinte. Uma prima austríaca, obesa pela ausência da nicotina, trazia o esperado bolo moca como se este fosse o seu ingresso na festa.
Dos funerais lembro de dois, os dos últimos personagens que zelaram pelas nossas risadas. Os mesmos que reclamavam cansados dos nossos excessos. Depois deles as festas foram ganhando a cor da saudade. O vinho descobria sem vergonha a amargura das nossas risadas teimosas. O bolo que é agora comprado na pastelaria da esquina é tão indigesto como o resto da refeição.
Esperançados do sabor do passado a família reúne-se teimosamente todos os anos.
Enquanto a risada corre à solta nervosa, um grita EXISTO! o outro questiona DESDE QUANDO?
Todos os anos a família comemora o seu aniversário. Meu pai diz que a família é uma coisa que sempre existiu, minha mãe afirma que a família é mais que uma coisa mas concorda com seu tempo de vida. Numa data ao acaso festejamos o nosso aniversário.
Houve um tempo em que os velhos eram os responsáveis pelos festejos. Bons vinhos, queijos e presuntos eram escolhidos com todo requinte. Uma prima austríaca, obesa pela ausência da nicotina, trazia o esperado bolo moca como se este fosse o seu ingresso na festa.
Dos funerais lembro de dois, os dos últimos personagens que zelaram pelas nossas risadas. Os mesmos que reclamavam cansados dos nossos excessos. Depois deles as festas foram ganhando a cor da saudade. O vinho descobria sem vergonha a amargura das nossas risadas teimosas. O bolo que é agora comprado na pastelaria da esquina é tão indigesto como o resto da refeição.
Esperançados do sabor do passado a família reúne-se teimosamente todos os anos.
Enquanto a risada corre à solta nervosa, um grita EXISTO! o outro questiona DESDE QUANDO?
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