sexta-feira, 2 de julho de 2010

Que se passa na PT?

Luis Moreira

A UE já veio dizer que é ilegal a golden share que o estado tem na PT.75% dos accionistas já disseram que aceitam a proposta da Telefónica, incluindo as grandes empresas portuguesas que se gastaram a falar no interesse nacional mas que, face ao monte de dinheiro, já esqueceram tudo o que respeita ao interesse nacional.

Pateticamente, Sócrates anda a agitar a golden share que a partir do dia 16 não vale nada, a PT está nas mãos dos espanhóis e se não for a bem vai a mal, lança uma OPA sobre a própria PT e fica com a empresa e com a Vivo. O BES, que sempre esteve na frente do combate do interesse nacional, já está vendedora, isto tem a ver com as tremendas dificuldades que a banca tem tido para se financiar nos mercados internacionais, face à situação explosiva portuguesa.

Andamos vigiados atentamente, e o BCE vai financiando a tesouraria para podermos pagar o merceeiro e o padeiro, porque a questão agora já não são as obras públicas do patético Sócrates, agora são as coisas comezinhas que já não conseguimos pagar.

Novas Viagens na Minha Terra - 36


Manuela Degerine

Capítulo XXXVI

Inquietude

No dia 1 de Maio volto a Tomar. A viagem é mais demorada do que eu previa: por causa das obras na linha, há transbordo para autocarros. Chego a casa às onze da noite e só então começo a preparar as bagagens para o Caminho de Santiago…

Planeava partir com a mochila das primeiras etapas, logo uma observação rápida me obriga a desistir: uma das anilhas parece prestes a soltar-se. Mais uma… Impõe-se por isso levar a outra, mais pesada, mais desconfortável, mais malcheirosa, mesmo no primeiro dia, por absorver a transpiração – mas mais resistente. Desta vez quero ir tão longe quanto puder. Portanto, de preferência: até Santiago de Compostela.

Caetano José da Silva Souto-Maior, um alentejano na corte de D.João V e uma figura popular de Lisboa - 7

Outro soneto, dedicado ao mesmo tema do anterior

SALVAMENTO MARÍTIMO, APÓS UM NAUFRÁGIO DE UMA JOVEM INDIANA POR UM GRANDE GENERAL PORTUGUÊS (O POETA IMAGINA SER O GENERAL)

Não assustes. oh bárbaro elemento,
a inocente, que tenho ao peito unida,
que à glória desta acção compadecida
respeita até das ondas o violento.

Tu logras o furor, eu logro o intento
de ficarmos com sorte repartida:
asilo nobre de uma tenra vida;
sepulcro avaro de ouro macilento.

Se tenho a varonil integridade,
que consegues no horror dessa inclemência,
ou que importa a infeliz calamidade?

Quando fica no exemplo da violência
desprezado o interesse da piedade,
e vencida a desgraça da inocência.



Soneto ao Rei D. Pedro II, que, por ter morrido, não chegou a ver a sua própria estátua de pedra.

Senhor, a vossa efígie venerada
é por vós com razão desconhecida;
porque ficou na cópia pareceda
de reverente a pedra desmaiada.

Que importa que do artífice lavrada
pareça que o cinzel lhe infunde a vida,
se a grandeza só pode esclarecida
ser nas vossas vitórias retratada?


Estranhais esta imagem justamente,
se a luz original está diante,
o reflexo perdeu-se de repente.


´Inda sendo o retrato semelhante,
porque em chegando o Sol a estar presente,
mudam sempre as estrelas de semblante.

António Chainho e o seu projecto LisGoa no Terreiro da Lusofonia

António Chainho (Santiago do Cacém, 1938) é aquilo que, usando um chavão, se pode considerar um nome incontornável da nossa música tradicional, quer como executante exímio de guitarra portuguesa, quer como compositor. Na passada segunda-feira, dia 28 de Junho, apresentou na FNAC de Almada uma nova etapa do seu projecto LisGoa. Este vídeo gravado durante esse espectáculo permite-nos ouvir a cantora luso - goesa Rubi Machado e a fadista portuguesa Isabel de Noronha.

Síntese da música goesa com o fado, este projecto do mestre António Chainho, com temas cantados em hindi, em concanim (dialecto de Goa) e em português é uma ponte entre o universo lusófono e as raízes culturais do povo goês, tão esquecido e abandonado à sua sorte. O Terreiro da Lusofonia põe passadeira vermelha para António Chainho, para os seus músicos, e para esta sua iniciativa cultural.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Patrão Lopes (Joaquim Lopes, salva-vidas: 1798 - 1890) - I

Fernando Correia da Silva

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1798: Joaquim Lopes nasce em Olhão. - 1804: Entra na Escola Primária. - 1817: Emigra para Gibraltar, onde fica apenas 11 meses. - 1819: Segue para Lisboa e daqui para Paço de Arcos. - 1820: Remador na falua que liga a Torre do Bugio a Paço de Arcos. - 1823: 1.º salvamento, de pai e filho, na confluência do rio Oeiras com a foz do Tejo. - 1824: Casa com Maria do Rosário, sua prima em 3.º grau. - 1828: Salva o sargento Francisco de Sales. - 1833: É nomeado patrão da falua do Bugio. - 1856: Salva a tripulação da escuna inglesa Howard Primorose. - 1858: Tenta salvar os náufragos da escuna inglesa British Queen. - 1859: Salva o Comandante e mais dois tripulantes do Stephanie, navio francês. - 1864: Salva grande parte da tripulação do bergantim espanhol Achiles; salva toda a tripulação do iate português Almirante; El-rei D. Luís coloca-lhe ao pescoço o colar da Ordem da Torre e Espada, a mais alta condecoração portuguesa. - 1866: É nomeado mestre da Armada e graduado segundo-tenente. - 1882: Com 85 anos, e já tolhido das pernas, ainda tenta socorrer Lucy, lugre francês. - 1890: Por causa do Ultimatum devolve todas as condecorações que recebera do governo inglês; com 92 anos, morre em Dezembro do mesmo ano.



Filho de pescador, nasceste nos finais do sec. XVIII, à beira-mar, no Algarve, em Olhão. Vais à escola, aprendes a ler, a escrever e a contar, mas aos dez anos já estás a ajudar o teu pai na faina da pesca e logo começas a tratar o mar por tu. Trepas ao mastro, ferras a vela, lanças e puxas as redes, limpas e lavas o convés, manejas remo e croque, mas o que mais impressiona os outros pescadores é a tua assombrosa forma de nadar, pareces um golfinho a brincar por entre as ondas.

Na tua família o dinheiro é escasso. Por isso, aos 19 anos, com a benção dos teus pais, emigras para Gibraltar, em busca de melhor sorte. Mas não suportas o novo ambiente e, 11 meses depois, tornas a casa. Melhor dizendo: tornas à cabana dos teus pais.

Mais uns mesitos em Quarteira (Algarve) e partes para Lisboa. Dali vais para Paço de Arcos, frente à foz do Tejo, onde vivem muitos algarvios. Seduz-te o choque permanente entre as águas fluviais a abrirem passagem para o mar alto e as do oceano a quererem assaltar o leito do rio...

Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 44

Carlos Leça da Veiga

Só Portugal é que não podia ter colónias? (Continuação)

Mesmo tendo de reconhecer-se que nos anos finais do século dezoito, tal como no decurso dos do décimo nono, não estava minimamente estabelecida a noção da globalização e a história dos estados – a génese da sua explicação – teria, de sobremaneira, uma feição eminentemente idealista, apesar disso, já era impossível, a qualquer intelectualidade portuguesa, não saber e, sobretudo, não perceber que o pioneirismo português de Quinhentos, que deu ao mundo novos mundos não era – como não é – uma lenda criada por alguns entusiastas da saga dos Descobrimentos e que foi coisa de tal modo influente e consequente no viver nacional e internacional que só quem pensa perverso não conseguia, como não consegue, vislumbrar e aperceber-se das suas consequências culturais inevitáveis e, coisa indiscutível, perenes.

Mal avisado andará quem imagine conseguir poder viver-se sem uma matriz histórica, contudo, não será por querer fazê-lo que deve cair-se no erro do integralismo, como o dum Alfredo Pimenta e, proclamar – voltar a proclamar – que na História portuguesa tudo quanto a glorifique é bom e errado (falso) qualquer coisa que a manche ou infame.

Sondagem - a direita vem aí ou é a mesma coisa?



Luís Moreira

PSD - 37% ; CDS -6% ;PS - 32% ; PCP -10%; BE -8%, isto coloca PSD mais CDS à beira da maioria absoluta.Quando o eleitorado se move, vencendo a inércia é para continuar, para além das medidas anti populares e dificuldades que o governo vai ter que enfrentar.

O desgaste do governo é muito sério, estamos numa espécie de limbo, desapareceram,discutem-se as SCUTs o que quer dizer que a factura está a chegar.700 milhões de euros/ano e a partir de 2012, 1 300 milhões/ano, e há três meses o grande desígnio de Sócrates era lançar obras públicas em parcerias público/privadas.

Esta dinâmica é írreversível? Ainda há muitos indecisos mas o descrédito de Sócrates é muito sério, não parece que neste mar de dificuldades que ele teimou em não ver,possa inverter a situação.

A terceira depressão - Paul Krugman (saído no New York Times no dia 28 de Junho)


O Paul Krugman foi Prémio Nobel da Economia em 2008. É americano e nasceu em 1953. É professor na Universidade de Princeton. Ensina Economia e Assuntos Internacionais. Descreve-se a ele próprio como um liberal (à maneira americana, com o significado de tolerante, progressista, de ideias abertas). Geralmente classificado como de centro-esquerda, concorda a economia de mercado e a globalização. É portanto um tipo com ideias moderadas (como se costuma dizer). Há imensa coisa sobre ele na internet. Tem uma obra enorme e é colunista no New York Times e escreve para muitas publicações. Pessoalmente penso que a depressão actual é muito profunda, e que se não sairmos rapidamente, a bem ou a mal, do sistema capitalista, vamos sofrer um grave retrocesso civilizacional. Por isso proponho que incluamos este artigo no nosso blogue Estrolabio. (João Machado)


As recessões são comuns, mas as depressões são raras. Tanto quanto eu conheço, apenas dois períodos da história económica foram na altura comummente descritos como "depressões": os anos de deflação e instabilidade após o Pânico de 1873 e os anos de desemprego em massa que seguiram a crise financeira de 1929 a 1931.

Nem a Longa Depressão do século XIX nem a Grande Depressão do século XX foram períodos de declínio ininterrupto - pelo contrário, ambas incluíram fases de crescimento económico. Mas estes momentos de melhoria nunca foram suficientes para anular os prejuízos causados pela quebra inicial, e foram seguidos por recaídas.

Receio que estejamos nos primeiros estágios de uma terceira depressão. A probabilidade é que ela seja mais parecida com a Longa Depressão do que com a Grande Depressão, que foi muito mais severa. Mas o custo – para a economia mundial e, acima de tudo, para os milhões de vidas arruinadas pela falta de empregos – será, ainda assim, imenso.

Introdução a Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

O socialismo e os seus começos ao longo do século XIX



Aconteceu a Revolução Industrial no Século XVIII na Grã-Bretanha. Rapidamente se espalhou por todo o Continente Europeu e as suas colónias. O emprego acontecia nas cidades, os campos e sítios rurais ficaram vazios.

Uma luta começara: ao dos proprietários de meios de produção, que começaram a investir a sua fortuna em indústrias e manufacturas para fabricar bens que rendessem lucro e mais-valia, pagando salários miseráveis aos que proporcionavam os meios de trabalho, aos que cediam a sua força de trabalho e a da sua família, denominados mais tarde proletários, a seguir uma análise da situação social, da parte de um filósofo, Kart Heinrich Pembroke Marx.

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 46 e 47 (José Brandão)


Episódios da Minha Vida
Volume – I

Magalhães Lima
Perspectivas & Realidades, s. d.



As notas que constituem as minhas Memórias podem considerar se um testamento político. São um documento da minha passagem pela Terra. Alguns episódios são páginas vividas que poderão contribuir para a História do Partido Republicano em Portugal.

Amei a vida e a liberdade com igual fervor. Poucos viveram tão intensamente como eu, porque poucos também amaram tanto a vida. O que deixo escrito são fragmentos da minha alma. Ao despedir-me do mundo, posso bem dizer que vivi para o ideal.

Dedico este livro à memória de Teófilo Braga. Cumpro, ao mesmo tempo, um dever e uma devoção. Incompreendido e caluniado em vida, a sua imortalidade começou no dia da sua morte. Mais do que uma glorificação, este modesto preito representa um agradecimento enternecido ao Mestre amado quem tanto devo.
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Episódios da Minha Vida
Volume II

Magalhães Lima

Perspectivas & Realidades, s. d.


«De futuro é preciso que o carácter sobreleve a todos os mesquinhos interesses e a todas as baixas intrigas. É no carácter que repousa a estabilidade de uma instituição. É preciso que a República se torne sinónimo de virtude, como a definiam os atenienses. É preciso que a República seja republicana!». Com estas palavras finalizou anteontem Magalhães Lima a sua notável conferência.



Não podia reunir-se em fórmulas mais límpidas e perfeitas a aspiração que se desenvolve no peito dos verdadeiros republicanos deste país, como não se podia de uma maneira mais sóbria e mais justa definir a situação a que desgraçadamente chegámos, mercê das culpas de todos nós.

Com a sua inexcedível autoridade republicana, Magalhães Lima fez, implicitamente, o processo da actualidade política portuguesa, porquanto requer que, de futuro, a República seja republicana, para o que serão claros indícios da sua genuinidade a virtude e o carácter.

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E, no entanto, ela move-se...

Luís Moreira




O nosso amigo Adão Cruz, num belo e elucidativo texto fala-nos no Homem como um ser constituindo um todo, onde o "material" e o "espiritual" são uma e a mesma coisa, sem um não existe o outro e vice-versa. Essa diferença resulta das conexões que existem entre as partes que constituem o todo, há uma "causa-efeito" que funciona sempre, resultado das condições em que se formam, das circunstâncias de cada um e de todos os seres humanos.

Subscrevo inteiramente, não acredito em algo que não se possa explicar, aí estaremos no domínio da Fé, do acredito porque sim, o que não quer dizer que não exista( se existir um ser humano que acredite em Deus, eu acredito em Deus,Saramago dixit). A formação científica do nosso aventador, ainda para mais sendo médico, não poderia deixar de o levar a essa conclusão tão objectiva, tantas foram as vezes em que se viu perante a vida e a morte do seu semelhante, sabendo que para aquela "causa" só há um "efeito", fosse ele um ente que pudesse tudo e muito sofrimento seria evitado. Não há pois nada para além daquilo que está ao alcance da ciência, e mal estaríamos se "um ente que pode tudo" não quisesse!

A questão dos tabacos - Centenário da República

Carlos Loures


Temos estado a analisar alguns dos motivos que conduziram à queda do regime monárquico. Vimos já como as comemorações camonianas de 1880, lideradas por personalidades republicanas e pelo Partido Republicano Português, fundado em 1876, que aproveitou esses festejos patrióticos para demonstrar a sua capacidade de mobilização e de organização, cooptando numerosos aderentes, contribuiram para o avanço do ideal republicanista.

O Ultimato de 1890 foi outro passo de gigante dado pelos republicanos. Na verdade, o rei e o governo, perante o humilhante “memorando” britânico, pouco poderiam ter feito. A Grã-Bretanha era a super-potência da época e o nosso Exército e a Armada não dispunham de capacidade bélica para a enfrentar. E disso se tratava, pois o nosso “velho aliado” logo nos ameaçou veladamente de bombardear com os seus navios as nossas principais cidades. Creio que uma análise serena e isenta nos levará à conclusão que a questão do regime era irrelevante – Monarquia ou República teriam tido de ceder.

Novas Viagens na Minha Terra



Manuela Degerine

Capítulo XXXV

Passeio pelos museus (conclusão, por ora)

Museu Nacional do Azulejo: O vermelho e o preto

O Museu do Azulejo expõe um trabalho intitulado Casa Perfeitíssima, 500 anos da fundação do Mosteiro da Madre de Deus, 1509-2009. Esta exposição – de paredes vermelhas, uma cor aqui, esta sim, muito significativa – centra-se na figura da fundadora, a rainha D. Leonor, esposa de D. João II e irmã de D. Manuel I, fundadora não só deste convento mas também das Misericórdias e do Hospital das Caldas da Rainha. O conjunto é composto por peças encomendadas pela rainha, oferecidas à rainha ou, de alguma maneira, significativas do ambiente cultural e religioso em que ela viveu. Por exemplo: a Noticia da Fundação do convento da Madre de Deos de Lisboa das religiosas descalças da primeira regra de nossa Madre Santa Clara, publicado em 1639. Ou a tapeçaria de lã e seda, fabricada em Bruxelas, representando o Baptismo de Cristo, uma encomenda de D. Leonor para o convento. Ou o Retábulo das Sete Dores da Virgem, do pintor flamengo Matsys, por ela comprado para o altar da igreja.

Caetano José da Silva Souto-Maior, um alentejano na corte de D.João V e uma figura popular de Lisboa - 6

Carlos Luna



Soneto a uma dama que enviou, zangada, ao poeta, uns escritos que deste recebera... e que ele queimou.















Morrei, doces despojos, que algum dia
fostes de Clori(*) persuasão gloriosa,
que a chama, ainda que triste, venturosa,
vai conservar no fogo a idolatria.


Para desprezo ser de Clori ímpia
basta arder nessa luz pouco formosa,
porque da chama, que é menos preciosa,
não fica sendo a cinza menos fria.


Não fostes cridos, viestes desprezados,
e das iras de Clori como objectos
sereis sempre uma injúria aos meus cuidados.


Eu só posso mostrar nestes afectos,
fazendo-vos agora desgraçados,
que sois constantes, e que sois discretos.

______

(*) Clóri: deusa grega das flores; a "Mulher".

Enganos

António Sales



Estilhaço no meu peito
o punho errante
da suplicação e ira fermentadas.
Solto a voz amarela da revolta
no meio da pobre gente atormentada.


Olhos marinhos
por lágrimas sulcados,
percursos espinhosos no rumo de viver,
veleiros de esperanças vãs
naufragados
nas cinzas uterinas das manhãs.