Carlos Loures
Há vinte anos, em 1990, estava envolvido num projecto editorial, cuja direcção científica era conduzida pelo Professor Luís de Albuquerque, professor catedrático da Universidade de Coimbra, doutor honoris causa pela de Lisboa, figura cimeira na investigação histórica do período dos Descobrimentos, enfim, um grande intelectual, um cidadão exemplar e um homem bom. Foram três anos de convívio intenso, com reuniões todas as quartas-feiras pela manhã, Combinávamos o início do trabalho para as sete da manhã, pois o professor tinha reunião, salvo erro no Palácio Vale Flor, às 9:30 e às 9:15 em ponto vinha um motorista para o transportar. Chegávamos ambos mais cedo, seis e meia, sete menos um quarto. De noite ainda, nos meses de Inverno. Se eu chegava, por exemplo, às sete menos vinte e ele já estava na entrada à minha espera, era recebido com um chocarreiro: -«Então isto é que são horas?»
Nesse ano de 1990, publiquei um livro de poemas «O Cárcere e o Prado Luminoso» e, naturalmente, ofereci-lhe um exemplar dedicado. Era com um longo Poema ecologista (podendo também servir de prefácio) que abria a colectânea. Ironicamente 8tentando adoptar o ponto de vista do capitalismo), punha em causa a existência do poeta como elemento útil e acabava propondo que fosse reconvertido e transformado em copyrighter. . Pois Luís de Albuquerque escreveu uma réplica a este poema que hoje vos apresento. Guardo ciosamente o original escrito pelo punho do Professor e hoje compartilho convosco a leitura desse texto. Luís de Albuquerque, em plena actividade, presidindo à Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos, foi ceifado por um acidente cardiovascular e faleceu em Janeiro de 1992. Aqui vos deixo a parte inicial do meu poema e, em baixo, o valioso «contraditório» de Luís de Albuquerque., do qual tenho muita saudade.
sábado, 28 de agosto de 2010
Poesia. Mais um sopro na fogueira
Adão Cruz
(Mais uma achega ao texto de Carlos Loures)
Eu penso que a poesia é algo de muito subtil, uma espécie de brisa mágica, uma essencialidade rítmica e harmoniosa da vida, quase uma ascese ética e estética que nos transporta à mais nobre e sublime expressão da realidade, através das mais impressivas, expressivas e sugestivas formas da nossa linguagem. Ela combina a palavra justa com toda a energia sinestésica e sensível que faz o poema acordar ou deflagrar. A poesia não é a cópia da realidade, mas a simbolização, a evocação e a invocação da beleza e da nobreza da realidade. O fenómeno poético é entendido como harmonia verbal em que todos os materiais fonéticos e simbólicos se diluem num resultado de suprema fruição estética. Por isso eu tenho vindo a dizer que criar poesia não é encastelar versos, uns em cima outros em baixo, versos brancos ou escuros, fazer rebuscadas rimas, escrever labirínticas coisas que ninguém entende, inventar modas que não passam, muitas vezes, de execuções sumárias da poesia. O chamado poema, considerado a matriz literária habitual onde se revela a poesia, pode ser absolutamente estéril, ou mesmo a negação da poesia. A poesia percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, podendo ter uma presença mais viva num texto em prosa do que num poema, ou ser muito mais sentida num quadro ou numa peça de música do que em qualquer forma de expressão literária. Por isso se costuma chamar ao poema a poesia falada, à pintura a poesia calada e à música a poesia cantada.
(Mais uma achega ao texto de Carlos Loures)
Eu penso que a poesia é algo de muito subtil, uma espécie de brisa mágica, uma essencialidade rítmica e harmoniosa da vida, quase uma ascese ética e estética que nos transporta à mais nobre e sublime expressão da realidade, através das mais impressivas, expressivas e sugestivas formas da nossa linguagem. Ela combina a palavra justa com toda a energia sinestésica e sensível que faz o poema acordar ou deflagrar. A poesia não é a cópia da realidade, mas a simbolização, a evocação e a invocação da beleza e da nobreza da realidade. O fenómeno poético é entendido como harmonia verbal em que todos os materiais fonéticos e simbólicos se diluem num resultado de suprema fruição estética. Por isso eu tenho vindo a dizer que criar poesia não é encastelar versos, uns em cima outros em baixo, versos brancos ou escuros, fazer rebuscadas rimas, escrever labirínticas coisas que ninguém entende, inventar modas que não passam, muitas vezes, de execuções sumárias da poesia. O chamado poema, considerado a matriz literária habitual onde se revela a poesia, pode ser absolutamente estéril, ou mesmo a negação da poesia. A poesia percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, podendo ter uma presença mais viva num texto em prosa do que num poema, ou ser muito mais sentida num quadro ou numa peça de música do que em qualquer forma de expressão literária. Por isso se costuma chamar ao poema a poesia falada, à pintura a poesia calada e à música a poesia cantada.
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo XCII
Vigésima terceira etapa: de Redondela a Pontevedra (continuação III)
Por que carga de água nos desviaram de um caminho que, no fim de contas, não passava pela zona das obras? Outro mistério.
Apressamo-nos a sair daqui. Chegamos ao que Gérard Rousse assinala como “antiga estrada medieval”, sem dúvida há pouco restaurada; parece que acaba de ser construída. Miramo-la consternados porém, percorridos poucos metros, acabamos por nos rir, tais intentos raro perseveram: alguns metros bastam para a informação nos telejornais.
Respiramos, aliviados. Neste espaço talvez corramos outros riscos, escorregarmos, torcermos um pé, sermos picados por uma víbora, apanharmos com uma faísca ou uma árvore na cabeça – mas não seremos atropelados. Apenas acaba a parte restaurada onde, claro, aproveitaram para cortar as árvores, o caminho torna-se magnífico, à sombra de belos carvalhos e castanheiros, no meio de grandes giestas em flor, entre muros cobertos de hera e musgo.
Faz agora calor e eu, pouco previdente quanto à água que, no momento de encher as garrafas, me parece sempre pesada – sinto sede. Trago de novo as peúgas penduradas na mochila, as quais continuam molhadas e malcheirosas e, nestas andanças, começam a sujar-se. Em contrapartida o odor da camisola que, vestida, depressa secou, atenuou-se. Ou habituei-me e já não o sinto?
O caminho prolonga-se durante vários quilómetros de felicidade pedestre através desta paisagem excepcional.
Passamos Canicouva. Chegamos à capela de Santa Marta, tocante pela harmonia e simplicidade; onde nos sentamos um instante.
Em seguida caminhamos à beira de uma estrada não agressiva mas pouco agradável; e as mochilas encheram-se entretanto de chumbo – ou de ouro, quem sabe? Cada passo é uma vitória dura de alcançar. E... Se, pelos meus cálculos, devemos encontrar-nos a sete quilómetros de Pontevedra, quando olho para o roteiro de Gérard Rousse, vejo cinco linhas até ao albergue dos peregrinos... O autor não irá menos cansado do que nós ou, o mais provável, não terá encontrado onde restaurar o ânimo. Aliás, ao longo de toda a etapa, assinala uns seis cafés e restaurantes, sem recomendar algum com aquele entusiasmo que vem do estômago, passa pelo coração e enleva toda a sua alma gastronómica.
De novo caminhamos, caminhamos... e nunca mais chegamos. Avaliamos um “pouco depois” em mais de três quilómetros todavia, nestas circunstâncias, não desconfiamos menos das nossas percepções do que da falta de rigor do nosso guia espiritual, alcançamos enfim o café Paf, cujo nome exprime sem dúvida a queda dos peregrinos esgotados, um café que julgávamos haver passado, sem o ver, meia hora antes, no mínimo, deparamos com a família franco-germânica, que nos ultrapassou em Arcade, a qual ali devora extasiados hambúrgueres e declara a incapacidade para prosseguir, por agora, um agora com duração indeterminada, nem vale a pena esperarmos, ignoram se conseguirão lançar os pés – em sangue – ao caminho.
Nas minhas botas, avaliando pelas sensações, vai tudo normal. Doem-me as costas, sinto-me porém optimista: hoje já não choveu, a temperatura subirá. Se deixar de fazer frio amanhã, poderei desembaraçar-me do blusão e, a partir daí, a mochila, sem ficar leve, tornar-se-á sofrível.
Passamos enfim debaixo de uma ponte e, poucos metros adiante, cento e cinquenta, segundo Gérard Rousse que, na euforia da vitória, até indica números exactos – vemos o albergue de Pontevedra. Chegámos!
São seis e meia. Houve algumas pausas, embora todas breves: carregámos com as mochilas durante mais de dez horas.
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O FLiP8;, o dicionário Priberam online e o galego-português
Carlos Durão
Acedo com gosto ao amável convite do Estrolabio para fazer uma breve resenha de algo que nos honra a todos, nesta grande casa da Lusofonia. Trata-se da atualização do reconhecido programa FLiP, da empresa Priberam Informática, permitindo programas OpenOffice.
Para nós, galegos, é importantíssima esta oitava atualização, pois entre as variedades nacionais da língua que tradicionalmente lá figuravam: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Timor, hoje por primeira vez aparece a Galiza, até com a sua bandeira. Este é um facto (um feito, como dizemos acima da Raia) que nos orgulha a todos, e pelo que parabenizamos a Priberam Informática.
Talvez para alguns leitores seja isto novidoso, mas a consideração da língua galega como “variedade do português” (também “norma galega do português”), sempre afirmada pela filologia clássica e independente de nacionalismos, recebeu um revigorado impulso nos dous derradeiros anos, que são os que tem de vida a jovem Academia Galega da Língua Portuguesa: ela foi recebida de braços abertos pelas irmãs Academia de Ciências de Lisboa e Academia Brasileira de Letras. A sua Comissão de Lexicografia e Lexicologia forneceu um Léxico não exaustivo (1200 entradas aprox.) de palavras “tipicamente” galegas, de uso corrente, para se integrar no Vocabulário Ortográfico que pedia o Acordo Ortográfico, como também nos demais dicionários da Lusofonia.
E isso já está a acontecer: um exemplo é este FLiP8; também o dicionário Priberam online já começou a incorporar esse Léxico. Os leitores podem ali consultar duas típicas palavras galegas: “lôstrego” e “brêtema” (http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=lôstrego e http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=brêtema). Elas já figuravam, como exemplos de proparoxítonas com vogal tónica fechada, na Base XI, 2º a) do Acordo Ortográfico de 1990, de Lisboa, no que a Galiza participou, com uma delegação de observadores, nas sessões de trabalho (como antes no de 1986 no Rio).
A inclusão de léxico da Galiza no FLiP 8 é fruto, pois, do trabalho da CLL da AGLP, e do Protocolo de Cooperação assinado com a Priberam. Mas também do chamado reintegracionismo linguístico galego, ao longo de muitos anos e com os esforços de muitos “bons e generosos” (as palavras do nosso Hino) de ontem e de hoje, entre os que só mencionarei os saudosos Ernesto Guerra da Cal e Manuel Rodrigues Lapa. Bem hajam!
Está a amadurecer na Galiza a consciência de pertença ao tronco linguístico comum, da que procuram afastá-la obscuros poderes ao serviço do centralismo estatal espanhol. Para estes “o galego” está bem em estado de hibernação e como engraçado adorno folclórico; e para eles é intolerável que a Galiza assuma a sua língua como nacional e internacional, com todas as consequências: pois isso é o que está a acontecer hoje nas suas camadas mais novas. Já era hora!
(Carlos Durão, Londres, 27 agosto 2010)
(Algumas ligacões: http://aglp.net/index.php?option=com_content&task=view&id=117&Itemid=31
http://aglp.net/index.php?option=com_content&task=view&id=114 (Léx) e
http://aglp.net/images/stories/Documentos/lexico_aglp.pdf)
Acedo com gosto ao amável convite do Estrolabio para fazer uma breve resenha de algo que nos honra a todos, nesta grande casa da Lusofonia. Trata-se da atualização do reconhecido programa FLiP, da empresa Priberam Informática, permitindo programas OpenOffice.
Para nós, galegos, é importantíssima esta oitava atualização, pois entre as variedades nacionais da língua que tradicionalmente lá figuravam: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Timor, hoje por primeira vez aparece a Galiza, até com a sua bandeira. Este é um facto (um feito, como dizemos acima da Raia) que nos orgulha a todos, e pelo que parabenizamos a Priberam Informática.
Talvez para alguns leitores seja isto novidoso, mas a consideração da língua galega como “variedade do português” (também “norma galega do português”), sempre afirmada pela filologia clássica e independente de nacionalismos, recebeu um revigorado impulso nos dous derradeiros anos, que são os que tem de vida a jovem Academia Galega da Língua Portuguesa: ela foi recebida de braços abertos pelas irmãs Academia de Ciências de Lisboa e Academia Brasileira de Letras. A sua Comissão de Lexicografia e Lexicologia forneceu um Léxico não exaustivo (1200 entradas aprox.) de palavras “tipicamente” galegas, de uso corrente, para se integrar no Vocabulário Ortográfico que pedia o Acordo Ortográfico, como também nos demais dicionários da Lusofonia.
E isso já está a acontecer: um exemplo é este FLiP8; também o dicionário Priberam online já começou a incorporar esse Léxico. Os leitores podem ali consultar duas típicas palavras galegas: “lôstrego” e “brêtema” (http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=lôstrego e http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=brêtema). Elas já figuravam, como exemplos de proparoxítonas com vogal tónica fechada, na Base XI, 2º a) do Acordo Ortográfico de 1990, de Lisboa, no que a Galiza participou, com uma delegação de observadores, nas sessões de trabalho (como antes no de 1986 no Rio).
A inclusão de léxico da Galiza no FLiP 8 é fruto, pois, do trabalho da CLL da AGLP, e do Protocolo de Cooperação assinado com a Priberam. Mas também do chamado reintegracionismo linguístico galego, ao longo de muitos anos e com os esforços de muitos “bons e generosos” (as palavras do nosso Hino) de ontem e de hoje, entre os que só mencionarei os saudosos Ernesto Guerra da Cal e Manuel Rodrigues Lapa. Bem hajam!
Está a amadurecer na Galiza a consciência de pertença ao tronco linguístico comum, da que procuram afastá-la obscuros poderes ao serviço do centralismo estatal espanhol. Para estes “o galego” está bem em estado de hibernação e como engraçado adorno folclórico; e para eles é intolerável que a Galiza assuma a sua língua como nacional e internacional, com todas as consequências: pois isso é o que está a acontecer hoje nas suas camadas mais novas. Já era hora!
(Carlos Durão, Londres, 27 agosto 2010)
(Algumas ligacões: http://aglp.net/index.php?option=com_content&task=view&id=117&Itemid=31
http://aglp.net/index.php?option=com_content&task=view&id=114 (Léx) e
http://aglp.net/images/stories/Documentos/lexico_aglp.pdf)
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Narf e Manecas no Terreiro da Lusofonia - "Alô, irmão!"
Temos um grande prazer em trazer aqui ao nosso Terreiro Narf e Manecas Costa, artistas unidos pelo idioma comum - Narf é um cotado cantor galego. Manecas Costa é um dos artistas mais conhecidos da Guiné-Bissau, um exímio cantor e executante na guitarra, um grande, grande artista. Um galego e um guineense cantando... em Moçambique, no Teatro Avenida do Maputo.Um quadro lusófono perfeito. Vamos ouvir com atenção - "Alô, irmão!":
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Impostos aumentam sem dor..
Luis MoreiraNo Blasfémias descobriram esta linda brincadeira, mais um imposto como quem não quer a coisa, agora são as energias verdes. Até apresentam a factura, mais ou menos 50%, mais um "serviço não sei quê". E eu a julgar que íamos na frente, e estamos na frente mas é a pagar, que são sempre os mesmos, Deus nos valha.
Pagamos tudo mais caro, desde a energia à àgua, comunicações, automóveis, combustíveis...
a verdade é que a factura que pagamos da energia, 50% é para serviços vários que nem nos damos ao trabalho de saber quais são, tambem vale-nos de pouco, temos os melhores CEOs da Europa a tomar conta de nós, é porque está tudo bem...
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Terreiro da Lusofonia em repetição neste horário
A partir de 1 de de Setembro, começaremos a inserir neste horário (1:30) o Terreiro da Lusofonia, numa ordem diferente da que foi seguida na primeira apresentação - trata-se de posts que podem ter passado despercebidos e aos quais queremos dar o protagonismo que merecem.
Licenciamento zero!
Luis Moreira
A administração pública ser vista como um empecilho ao nosso desenvolvimento chegou ao governo. Já se tentaram soluções que, nas mais das vezes, deram para o torto, mais "boys e girls", mais despesa a fugir ao controlo, truques como as Parcerias Público Privadas que é uma especie de "faz hoje e pagará quem vier se puder" e que não aparecem nas contas, fundações, institutos...
Enfim, percebeu-se que um engenheiro público é tão honesto como o engenheiro privado, andaram na mesma escola, aprenderam o mesmo, o que os pode diferenciar é o mérito.Ora o mérito, não é privativo nem do público nem do privado, não há razão nenhuma para o privado andar a perguntar , a pedir, a pagar ao colega público se pode ou não fazer isto ou aquilo. É preciso e obrigatório conhecer a Lei e os regulamentos.
O governo percebeu que é preciso tirar a administração pública do centro da vida pública, por isso avançou, após derrota atrás de derrota, para o Licenciamento zero. E o que é o licenciamento zero? perguntarão os meus amigos. É que a partir de agora os técnicos devidamente credenciados pelas empresas, avançam com as obras e, paralelamente, vão metendo os papéis. São responsáveis por tudo, principalmente se não cumprirem, pagam caro, incluindo a carteira profissional.
Vi isto há vinte anos no Canadá, pequenos centros distribuídos pela cidade ( uma espécie de Lojas do cidadão) onde o cidadão interessado, tem acesso a tudo o que lhe diz respeito, quem está com o processo, dialoga com o técnico, informa-o do que está a acontecer, pede-lhe opinião, mas não há cá "senhores absolutos" que tudo emperram, a obra nasce, desenvolve-se, anda, mexe...
Até que enfim, que os socialistas começam a perceber que a iniciativa privada não precisa de padrinhos, nem de observadores, só precisa de quem os ajude e, mesmo assim, quando solicitam ajuda, não como na anedota da velhinha que não queria atravessar a estrada, mas foi obrigada...
A administração pública ser vista como um empecilho ao nosso desenvolvimento chegou ao governo. Já se tentaram soluções que, nas mais das vezes, deram para o torto, mais "boys e girls", mais despesa a fugir ao controlo, truques como as Parcerias Público Privadas que é uma especie de "faz hoje e pagará quem vier se puder" e que não aparecem nas contas, fundações, institutos...
Enfim, percebeu-se que um engenheiro público é tão honesto como o engenheiro privado, andaram na mesma escola, aprenderam o mesmo, o que os pode diferenciar é o mérito.Ora o mérito, não é privativo nem do público nem do privado, não há razão nenhuma para o privado andar a perguntar , a pedir, a pagar ao colega público se pode ou não fazer isto ou aquilo. É preciso e obrigatório conhecer a Lei e os regulamentos.
O governo percebeu que é preciso tirar a administração pública do centro da vida pública, por isso avançou, após derrota atrás de derrota, para o Licenciamento zero. E o que é o licenciamento zero? perguntarão os meus amigos. É que a partir de agora os técnicos devidamente credenciados pelas empresas, avançam com as obras e, paralelamente, vão metendo os papéis. São responsáveis por tudo, principalmente se não cumprirem, pagam caro, incluindo a carteira profissional.
Vi isto há vinte anos no Canadá, pequenos centros distribuídos pela cidade ( uma espécie de Lojas do cidadão) onde o cidadão interessado, tem acesso a tudo o que lhe diz respeito, quem está com o processo, dialoga com o técnico, informa-o do que está a acontecer, pede-lhe opinião, mas não há cá "senhores absolutos" que tudo emperram, a obra nasce, desenvolve-se, anda, mexe...
Até que enfim, que os socialistas começam a perceber que a iniciativa privada não precisa de padrinhos, nem de observadores, só precisa de quem os ajude e, mesmo assim, quando solicitam ajuda, não como na anedota da velhinha que não queria atravessar a estrada, mas foi obrigada...
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Certidão de Óbidos
Marcos Cruz
Tenho uma amiga que não sabe de onde veio, ou de quem veio, mais precisamente. Veio ter comigo assim, de repente, do nada, como terá vindo ter com ela mesma. Depois de algumas conversas, e percebendo que, embora perdidos na encruzilhada de sentidos que a vida nos aponta, ambos vivíamos em nós mesmos, e por isso nos entendíamos, confidenciou-me que o segredo da sua génese lhe fora sonegado desde que mostrou curiosidade sobre ele. Fê-lo, claro, porque faltavam cartas na mesa. Desorientada, naturalmente, disparou em todos os sentidos, como uma mãe que procura um filho desaparecido, tocando nos ombros de cada oportunidade, à espera de que ela se vire e a cara lhe sorria. Desenvolveu a fé. Falhou, falhou, falhou.
Foi aprendendo, por razões de sobrevivência tão intimamente ligadas a quem tem algo de fundamental para encontrar, mesmo não sabendo o que seja ou não tendo pistas sobre onde esteja, a retirar de cada falhanço a ilação certa, o aspecto bom. Reverteu em amor o que para quase todos seria medo e ódio, uma vida amarga, um mar de espinhos. Como a roda de um carro, ou talvez de uma bicicleta, dada a sua propensão, de raiz dedutível, para as coisas mais transparentes, menos engenhosas, foi acima e abaixo, ao oito e ao oitenta, e entre ambos chegou a deixar de rodar, por uns tempos. Ou seja, tentou tudo. O aconselhável e o impensável, o sensato e o louco, a diluição no colectivo e o radicalismo individual. E os tons do meio, tantos quantos pôde, até hoje, coleccionar. Quando, numa dessas vagas, deu comigo, era como se quase não lhe faltassem peças do puzzle mas não soubesse onde as pousar, como se não tivesse chão. Propus-lhe um uso incerto do meu, algures entre a realidade e a fantasia, um meio conto. Parecia decidida a ficar, a permanecer, mas acabou por deixar o meio conto a meio, não sem antes se fazer valer da experiência acumulada na sua busca pessoal para me desbloquear uma veia criativa, uma via construtiva, e acender mais uma luz no sentido da minha vida, ironia de um destino que ela, então, não reconhecia como tal, ou não reconhecia de todo. Foi para casa, para Óbidos, a terra onde nasceu. Ter-se-ão passado dois meses.
Hoje recebi uma carta dela. Lá dentro, li que não lhe importava já outro sentido na vida do que estar bem e em paz, e sorrir, com dignidade, esteja onde estiver, faça o que fizer, seja qual for o desafio que lhe aparecer pela frente. A questão terá deixado de ser descobrir o sentido da existência para passar a ser existir em todos os sentidos. Nos dela e nos dos outros, como existe, de facto, no meu. Pensando nisto, aliás, perguntei-me se o verdadeiro sentido da vida dela, por paradoxal e até algo triste que enganadoramente se afigure, não seria ajudar os outros a encontrar o sentido da vida deles. Varrendo com uma mão os pensamentos e já quase a guardar, com a outra, o envelope, estremeci de surpresa quando, ao passar os olhos pelo remetente, li: Rua do Cemitério. Então, não me perguntem porquê, tive a certeza de que a minha amiga estava bem, como que renascida. Aquela carta era uma certidão de nascimento. E, pelo que não deixa de ser outra ironia do destino, uma certidão de Óbidos.
Tenho uma amiga que não sabe de onde veio, ou de quem veio, mais precisamente. Veio ter comigo assim, de repente, do nada, como terá vindo ter com ela mesma. Depois de algumas conversas, e percebendo que, embora perdidos na encruzilhada de sentidos que a vida nos aponta, ambos vivíamos em nós mesmos, e por isso nos entendíamos, confidenciou-me que o segredo da sua génese lhe fora sonegado desde que mostrou curiosidade sobre ele. Fê-lo, claro, porque faltavam cartas na mesa. Desorientada, naturalmente, disparou em todos os sentidos, como uma mãe que procura um filho desaparecido, tocando nos ombros de cada oportunidade, à espera de que ela se vire e a cara lhe sorria. Desenvolveu a fé. Falhou, falhou, falhou.
Foi aprendendo, por razões de sobrevivência tão intimamente ligadas a quem tem algo de fundamental para encontrar, mesmo não sabendo o que seja ou não tendo pistas sobre onde esteja, a retirar de cada falhanço a ilação certa, o aspecto bom. Reverteu em amor o que para quase todos seria medo e ódio, uma vida amarga, um mar de espinhos. Como a roda de um carro, ou talvez de uma bicicleta, dada a sua propensão, de raiz dedutível, para as coisas mais transparentes, menos engenhosas, foi acima e abaixo, ao oito e ao oitenta, e entre ambos chegou a deixar de rodar, por uns tempos. Ou seja, tentou tudo. O aconselhável e o impensável, o sensato e o louco, a diluição no colectivo e o radicalismo individual. E os tons do meio, tantos quantos pôde, até hoje, coleccionar. Quando, numa dessas vagas, deu comigo, era como se quase não lhe faltassem peças do puzzle mas não soubesse onde as pousar, como se não tivesse chão. Propus-lhe um uso incerto do meu, algures entre a realidade e a fantasia, um meio conto. Parecia decidida a ficar, a permanecer, mas acabou por deixar o meio conto a meio, não sem antes se fazer valer da experiência acumulada na sua busca pessoal para me desbloquear uma veia criativa, uma via construtiva, e acender mais uma luz no sentido da minha vida, ironia de um destino que ela, então, não reconhecia como tal, ou não reconhecia de todo. Foi para casa, para Óbidos, a terra onde nasceu. Ter-se-ão passado dois meses.
Hoje recebi uma carta dela. Lá dentro, li que não lhe importava já outro sentido na vida do que estar bem e em paz, e sorrir, com dignidade, esteja onde estiver, faça o que fizer, seja qual for o desafio que lhe aparecer pela frente. A questão terá deixado de ser descobrir o sentido da existência para passar a ser existir em todos os sentidos. Nos dela e nos dos outros, como existe, de facto, no meu. Pensando nisto, aliás, perguntei-me se o verdadeiro sentido da vida dela, por paradoxal e até algo triste que enganadoramente se afigure, não seria ajudar os outros a encontrar o sentido da vida deles. Varrendo com uma mão os pensamentos e já quase a guardar, com a outra, o envelope, estremeci de surpresa quando, ao passar os olhos pelo remetente, li: Rua do Cemitério. Então, não me perguntem porquê, tive a certeza de que a minha amiga estava bem, como que renascida. Aquela carta era uma certidão de nascimento. E, pelo que não deixa de ser outra ironia do destino, uma certidão de Óbidos.
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Boaventura de Sousa Santos no Estrolabio - Des-democratização

Os regimes democráticos são regimes em movimento. Verdadeiramente não há democracia; há processos de des-democratização e de re-democratização. O que caracteriza uns e outros são as transformações que ocorrem nos vínculos políticos que unem o Estado e os cidadãos comuns e os vínculos sociais que unem os cidadãos entre si. Estes processos nunca se confinam exclusivamente ao Estado; ocorrem também na sociedade. Identificar os processos dominantes num dado momento é fundamental para tomar o pulso à qualidade da vida política e social. Os factores que os condicionam variam de país para país mas há também evoluções convergentes a nível internacional das quais é possível de deduzir o espírito da época. As três últimas décadas caracterizaram-se por um conflito muito intenso entre processos de democratização e de re-democratização, por um lado, e de des-democratização, por outro. Ao mesmo tempo que se democratizaram os sistemas políticos – Sul da Europa, anos setenta, Europa Central e de Leste, África e América Latina, anos oitenta e noventa – des-democratizaram-se as sociedades com o aumento das desigualdades sociais, da violência e da insegurança pública.
Tudo indica que este conflito foi decidido a favor dos processos de des-democratização que hoje, com a possível excepção de alguns países da América Latina, dominam o nosso tempo. Eis os sinais mais evidentes. Quando as desigualdades sociais se aprofundam, as políticas públicas, em vez de as reduzirem, ratificam-nas. Exemplos: eficácia fiscal centrada nas classes médias; precarização do emprego com as mudanças no direito do trabalho que se anunciam; a degradação do serviço nacional de saúde. A protecção dos cidadãos e dos não cidadãos contra actos arbitrários do Estado ou de outros centros de poder económico está a diminuir. Exemplos: o encerramento de centros de saúde sem avaliação de custos sociais; o desemprego decorrente das deslocalizações das empresas; a suspensão da regularização dos imigrantes. A falta de transparência das decisões e ausência de controle dos cidadãos sobre as políticas públicas. Exemplos: a corrupção endémica (o caso Somague é a ponte do iceberg); o tráfico de influências que domina as privatizações e os investimentos públicos (a localização do novo aeroporto é um exemplo). O aumento da violência e da insegurança pública. Exemplos: a incompreensível descoordenação entre as forças de segurança; a pasmosa falta de modernização dos meios de investigação criminal ante um crime cada vez mais modernizado; ausência de critérios para organizar o Estado segundo uma lógica territorial (serviços básicos) e uma lógica operacional (serviços especializados).
A des-democratização que ocorre no Estado é paralela à que ocorre na sociedade. Degradam-se as redes de confiança e de solidariedade; medicaliza-se a solidão e a angústia; reduz-se ao mínimo a aspiração familiar (a decisão de não ter filhos); eleva-se ao máximo o stress familiar quando há crianças e estas são as primeiras vítimas. Se a sociedade politicamente organizada não accionar processos de re-democratização, pode estar em causa a sobrevivência da democracia. O que vem não será uma ditadura. Será uma ditamole ou uma democradura.
(Publicado na revista "Visão" em 13de Setembro de 2007)
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As citações de Saramago - 4
Luis Moreira
Depois dos livros as citações para melhor compreensão do homem e do escritor.
Abandono de Portugal
Pago todos os impostos em Portugal e é lá que voto.Se não vivo em Portugal é porque fui maltratado, publicamente ofendido pelo governo de Cavaco Silva, de que era secretário de Estado Santana Lopes e subsecretário Sousa Lara. E no governo, a que pertencia Durão Barroso não se levantou uma única voz dizento "isto é um disparate, isto não se faz"
Balanço
A única coisa que ainda quero ter é vida.Vida para viver, vida para viver com quem vivo, se possível trabalhando. Se eu faço um balanço, operação bastante inútil, enfim, pois balanço feito pelo próprio é sempre suspeito...Se eu olhar para trás, independentemente dos triunfos, das glórias, aquilo de que eu gosto mais é de encontrar um sujeito consciente, coerente. Coerente. Nunca cedi às tentações do poder, nunca me pus à venda.
Espanha
Viajar por Espanha é surpreendente porque se está, permanentemente, a passar de um mundo a outro e isso, sim, é fascinante. Estão hoje, em virtude dessa diversidade, perfeitamente justificadas as autonomias, com aquela enorme diferença de caracteres. E isto não é um lugar comum: as pessoas são realmente diferentes, um andaluz é completamente diferente de um galego, um galego de um catalão, um castelhano de outro qualquer.
República nos livros de ontem nos livros de hoje - 123 e 124 (José Brandão)

Nova História – 1ª República Portuguesa
A. H. de Oliveira Marques
Editorial Estampa, 1984.
A instituição militar não existia como organização unificada no Estado imperial português quando a monarquia foi derrubada em 1910, e convém desde já arredar uma das muitas ideias feitas com curso legal assegurado, a saber, a opinião de que os militares tiveram uma continuada intervenção na sociedade portuguesa durante todo o século XIX.
Nada de mais falso no que respeita à segunda parte desse século em Portugal. Com efeito, após as últimas veleidades do Marechal Saldanha e com o advento de Fontes Pereira de Melo, a instituição militar desaparece dos centros de decisão políticos para se tornar um instrumento relativamente dócil e sempre subordinado ao monarca, fosse ele D. Luís, D. Carlos ou D. Manuel II.
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A Obra da República
Carlos Ferrão
Editorial O Século, 1966
O título «A Obra da Republica» é demasiado ambicioso para o conteúdo deste livro. Embora abranja apenas parte dele pareceu-nos o mais ajustado à sua intenção. Por aquela expressão deve entender-se a acção dos que, em seguida à proclamação do regime republicano, assumiram o encargo de dirigir a Nação e reparar os estragos legados pela monarquia e pelos que a serviram em cargos de direcção e responsabilidade, na política e na administração. Os republicanos do nosso tempo, depositários do pensamento que presidiu à propaganda do ideal democrático, sobretudo desde que teve ao seu serviço, como força política organizada, o Partido Republicano, por ignorância, algumas vezes, por má fé, na maioria dos casos, separaram, mutilando-a, a obra realizada antes e depois de 1910 pelos que serviram o interesse nacional sob a bandeira da República.
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Está aberto um debate sobre a poesia, antecedendo a "Maratona Poética"
Adão Cruz
(Uma achega ao magnífico texto de Carlos Loures)
Eu não sei o que é a poesia, penso que ninguém sabe verdadeiramente o que é a poesia, e duvido muito de quem diz que sabe. Desde a depuração absoluta da palavra à Respiração de Deus, já ouvi todas as definições. No entanto, penso que a poesia é um sentimento como outro qualquer. Por isso, em vez de poesia, prefiro chamar-lhe sentimento poético, como em vez de arte, prefiro dizer sentimento artístico. O sentimento poético é um sentimento como o sentimento do amor, como o sentimento da alegria, como o sentimento da tristeza. Parece-me, contudo, ser um sentimento muito subtil, quase mágico, provavelmente de uma neuronalidade muito delicada, uma espécie de musicalidade, uma essencialidade rítmica e harmoniosa que existe dentro de nós e nos permite, quando permite, a mais nobre e sublime expressão da realidade das coisas e da vida.
Penso, ainda, e parece haver estudos psicológicos, sociológicos e neurobiológicos que o comprovam, que o sentimento poético e o sentimento artístico enriquecem e enobrecem todos os nossos processos de humanização, criam grandes afinidades com a consciência, aproximam-nos de todos os mecanismos de identificação com a verdade, afinam todas as outras emoções e sentimentos, ajudam-nos no caminho do equilíbrio e da harmonia, e até da justiça, ou não devesse ser a justiça a convergência ao mais elevado nível, do equilíbrio e da harmonia.
E mais penso que, muitas vezes, o que andamos para aqui a fazer não tem nada a ver com poesia. Fazer poesia, ou melhor, pesquisar a poesia como eu gosto mais de dizer, é sentirmo-nos como uma espécie de garimpeiros da poesia. Todos sabemos que os garimpeiros são aqueles homens que, nas margens dos rios das regiões auríferas, passam dias, semanas, meses e anos, a lavar pedras e cascalho, a ver se encontram umas pepitas de ouro. Nós, os que nos consideramos pesquisadores de poesia, passamos os dias a lavar o cascalho das palavras a ver se encontramos algumas pepitas de poesia, o que nem sempre acontece. Com a agravante de que há ouro verdadeiro e ouro falso, nem sempre fáceis de distinguir.
E penso, ainda, que a poesia percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, seja o poema, sua matriz natural, seja a pintura, seja a música. E qualquer forma de expressão artística só é arte, se contiver dentro de si a essência poética. Arte e poesia são irmãs gémeas, não podendo viver uma sem a outra.
Penso ainda, e é mais a este ponto que eu quero chegar, que a poesia, pela sua natureza intimista, é para ser lida a sós, no mais recatado silêncio. Eu não sou grande adepto da poesia lida, dita ou declamada. Reconheço, talvez, algum carácter de excepção no que respeita à poesia chamada de intervenção. De resto, penso que é um tanto caricato andar a ler poesia à mesa dos cafés, poesia no eléctrico ou poesia nas feiras, como é moda ultimamente. Peço desculpa a quem tem uma opinião diferente da minha, mas o mal não está em ter opiniões, mas em não as ter. Eu passo a explicar porque assim penso.
Quando um autor faz um poema, cria-o com toda a sua vida, através de toda a sua estrutura vivencial, com todas as suas emoções e sentimentos, as suas paixões e frustrações, as suas memorizações, a sua cultura, a sua visão do mundo e das coisas. Quem vai ler esse poema não vai ler o poema do autor, mas o seu próprio poema, dado que vai lê-lo com a sua vida, com a sua estrutura anímica e vivencial, através das suas emoções e sentimentos, através das suas paixões e frustrações, deitando mão da sua cultura própria e da sua visão do mundo e das coisas, que podem nada ter a ver com a vida do autor. O poema do autor constitui apenas o estímulo, mais profundo ou menos profundo, mais poderoso ou menos poderoso, que consegue arrancar um novo poema do íntimo de quem lê. Ninguém vê com os nossos olhos, ninguém sente com o nosso íntimo e ninguém pensa com o nosso pensamento.
Suponhamos agora que uma pessoa, que podemos considerar terceira pessoa, resolve ler o poema em público, fazer uma espécie de interpretação colectiva do poema, podendo até escorregar para uma certa aberrância, especialmente se eu não me identifico minimamente com a pessoa, se não me identifico com a sua postura, com a sua linguagem gestual, com a sua voz, com a sua forma de dizer e de interpretar, então aquilo que ouvimos pode não passar do esqueleto do poema, dos andaimes do poema, ou para utilizar a metáfora referida atrás, do cascalho das palavras, porque nestas andanças, a essência poética, as tais pepitas de ouro, podem já ter-se perdido pelo caminho.
(Uma achega ao magnífico texto de Carlos Loures)
Eu não sei o que é a poesia, penso que ninguém sabe verdadeiramente o que é a poesia, e duvido muito de quem diz que sabe. Desde a depuração absoluta da palavra à Respiração de Deus, já ouvi todas as definições. No entanto, penso que a poesia é um sentimento como outro qualquer. Por isso, em vez de poesia, prefiro chamar-lhe sentimento poético, como em vez de arte, prefiro dizer sentimento artístico. O sentimento poético é um sentimento como o sentimento do amor, como o sentimento da alegria, como o sentimento da tristeza. Parece-me, contudo, ser um sentimento muito subtil, quase mágico, provavelmente de uma neuronalidade muito delicada, uma espécie de musicalidade, uma essencialidade rítmica e harmoniosa que existe dentro de nós e nos permite, quando permite, a mais nobre e sublime expressão da realidade das coisas e da vida.
Penso, ainda, e parece haver estudos psicológicos, sociológicos e neurobiológicos que o comprovam, que o sentimento poético e o sentimento artístico enriquecem e enobrecem todos os nossos processos de humanização, criam grandes afinidades com a consciência, aproximam-nos de todos os mecanismos de identificação com a verdade, afinam todas as outras emoções e sentimentos, ajudam-nos no caminho do equilíbrio e da harmonia, e até da justiça, ou não devesse ser a justiça a convergência ao mais elevado nível, do equilíbrio e da harmonia.
E mais penso que, muitas vezes, o que andamos para aqui a fazer não tem nada a ver com poesia. Fazer poesia, ou melhor, pesquisar a poesia como eu gosto mais de dizer, é sentirmo-nos como uma espécie de garimpeiros da poesia. Todos sabemos que os garimpeiros são aqueles homens que, nas margens dos rios das regiões auríferas, passam dias, semanas, meses e anos, a lavar pedras e cascalho, a ver se encontram umas pepitas de ouro. Nós, os que nos consideramos pesquisadores de poesia, passamos os dias a lavar o cascalho das palavras a ver se encontramos algumas pepitas de poesia, o que nem sempre acontece. Com a agravante de que há ouro verdadeiro e ouro falso, nem sempre fáceis de distinguir.
E penso, ainda, que a poesia percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, seja o poema, sua matriz natural, seja a pintura, seja a música. E qualquer forma de expressão artística só é arte, se contiver dentro de si a essência poética. Arte e poesia são irmãs gémeas, não podendo viver uma sem a outra.
Penso ainda, e é mais a este ponto que eu quero chegar, que a poesia, pela sua natureza intimista, é para ser lida a sós, no mais recatado silêncio. Eu não sou grande adepto da poesia lida, dita ou declamada. Reconheço, talvez, algum carácter de excepção no que respeita à poesia chamada de intervenção. De resto, penso que é um tanto caricato andar a ler poesia à mesa dos cafés, poesia no eléctrico ou poesia nas feiras, como é moda ultimamente. Peço desculpa a quem tem uma opinião diferente da minha, mas o mal não está em ter opiniões, mas em não as ter. Eu passo a explicar porque assim penso.
Quando um autor faz um poema, cria-o com toda a sua vida, através de toda a sua estrutura vivencial, com todas as suas emoções e sentimentos, as suas paixões e frustrações, as suas memorizações, a sua cultura, a sua visão do mundo e das coisas. Quem vai ler esse poema não vai ler o poema do autor, mas o seu próprio poema, dado que vai lê-lo com a sua vida, com a sua estrutura anímica e vivencial, através das suas emoções e sentimentos, através das suas paixões e frustrações, deitando mão da sua cultura própria e da sua visão do mundo e das coisas, que podem nada ter a ver com a vida do autor. O poema do autor constitui apenas o estímulo, mais profundo ou menos profundo, mais poderoso ou menos poderoso, que consegue arrancar um novo poema do íntimo de quem lê. Ninguém vê com os nossos olhos, ninguém sente com o nosso íntimo e ninguém pensa com o nosso pensamento.
Suponhamos agora que uma pessoa, que podemos considerar terceira pessoa, resolve ler o poema em público, fazer uma espécie de interpretação colectiva do poema, podendo até escorregar para uma certa aberrância, especialmente se eu não me identifico minimamente com a pessoa, se não me identifico com a sua postura, com a sua linguagem gestual, com a sua voz, com a sua forma de dizer e de interpretar, então aquilo que ouvimos pode não passar do esqueleto do poema, dos andaimes do poema, ou para utilizar a metáfora referida atrás, do cascalho das palavras, porque nestas andanças, a essência poética, as tais pepitas de ouro, podem já ter-se perdido pelo caminho.
O crescimento das crianças
Raúl Iturra
B - Pilar

Hermínio, Julho de 2010
Hermínio corria a cavalo. Como já o tinha dito. Corria. Corria rápido. Corria rápido para fazer barulho. Barulho nas pedras da rua. Da rua do lugar de Vilatuxe, em Vilatuxe. De Vilatuxe a Gondoriz Pequeno, a casa do lar familiar. Corria no seu cavalo por cima dos seus vinte anos. Para Esperanza poder ouvir. Poder palpitar. Poder pisar a raiva do seu peito. Peito do Hermínio, que desde os três anos de idade, corria a cavalo. Corria o seu pai. O José António, o senhor da metade de Vilatuxe, porque a outra metade era do seu irmão José (Genealogia 6). De Vilatuxe Paroquia, de Vilatuxe lugar, de Gondoriz Pequeno, de Gondoriz Grande. Dos Carvalhinhos. De outros sítios. José António era um monárquico, no tempo dos debates entre república e Monarquia, a seguir a primeira República do Estado Espanhol, em 1870. Hermínio gostava de ouvir esse pai. Pai que gostava dos cavalos e que pouco ou nada fazia que não fosse tomar conta deles. Cavalo entre os quais Hermínio cresceu e foi criado. Os cavalos que o seu pai usou até a idade da morte. E que o meu amigo, usa na juventude dos seus 70 anos, enquanto ensina um neto, Isaías, a ser senhor dos cavalos. A forte ideia de Hermínio foi sempre a de dominar a natureza, de semear, de reproduzir cabras e ovelhas e cavalos. Em pequeno, foi levado a casa da avó materna, Manuela Canda. Uma outra proprietária de Gondoriz, mas de Gondoriz Grande, com terras ao sul da Paroquia, quanto que as dos Medela ficavam ao norte, disseminadas por vários sítios.
B - Pilar

Hermínio, Julho de 2010
Hermínio corria a cavalo. Como já o tinha dito. Corria. Corria rápido. Corria rápido para fazer barulho. Barulho nas pedras da rua. Da rua do lugar de Vilatuxe, em Vilatuxe. De Vilatuxe a Gondoriz Pequeno, a casa do lar familiar. Corria no seu cavalo por cima dos seus vinte anos. Para Esperanza poder ouvir. Poder palpitar. Poder pisar a raiva do seu peito. Peito do Hermínio, que desde os três anos de idade, corria a cavalo. Corria o seu pai. O José António, o senhor da metade de Vilatuxe, porque a outra metade era do seu irmão José (Genealogia 6). De Vilatuxe Paroquia, de Vilatuxe lugar, de Gondoriz Pequeno, de Gondoriz Grande. Dos Carvalhinhos. De outros sítios. José António era um monárquico, no tempo dos debates entre república e Monarquia, a seguir a primeira República do Estado Espanhol, em 1870. Hermínio gostava de ouvir esse pai. Pai que gostava dos cavalos e que pouco ou nada fazia que não fosse tomar conta deles. Cavalo entre os quais Hermínio cresceu e foi criado. Os cavalos que o seu pai usou até a idade da morte. E que o meu amigo, usa na juventude dos seus 70 anos, enquanto ensina um neto, Isaías, a ser senhor dos cavalos. A forte ideia de Hermínio foi sempre a de dominar a natureza, de semear, de reproduzir cabras e ovelhas e cavalos. Em pequeno, foi levado a casa da avó materna, Manuela Canda. Uma outra proprietária de Gondoriz, mas de Gondoriz Grande, com terras ao sul da Paroquia, quanto que as dos Medela ficavam ao norte, disseminadas por vários sítios.
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Propostas indecentes !

Luis Moreira
Orçamento de Estado.
Em tempo de PEC (era para controlar as contas, dizem os pândegos...) cresce a receita em 5.3 e cresce a despesa em 5.6, o que só confirma o que já sabíamos. O dinheiro na mão dos governantes é como amendoim na casa dos macacos, nunca chega. Quer dizer o déficite em vez de baixar subiu cerca de 473 milhões. A nossa proposta, é que não haja discussão de Orçamento para 2011, usa-se o de 2010, não sobe a despesa nem a receita, e com duodécimos ninguem morre, e acaba-se já com esta guerrilha verbal para português ver...
Orçamento base zero
Técnica há muito conhecida, em vez de se projectar o Orçamento a partir de todos os erros do anterior, parte-se do zero. Como dá trabalho, proponho que se comece pelas fundações ( dezenas...) analisar caso a caso, as que não têm razão de existir, adeus ó vindima , acabar com elas em menos de um fósforo, mas não deixar que se criem outras tantas nos meses seguintes.
A seguir analisar as Comissões( às centenas...) que ninguem controla, mas que dão senhas de presença aos tais que ganham "só " o vencimento, o carro, a secretária e o motorista.
A seguir analisar os senhores e senhoras que à sombra do Estado têm mais que um emprego, dão aulas, são vogais disto e daquilo e, as mais das vezes, ainda tiram umas pensões por terem estado uns meses numa qualquer empresa pública.
Execução orçamental
Premiar quem conseguir executar minimamente o orçamento de investimento, segundo as boas práticas orçamentais e partilhar com os serviços quem conseguir poupar na execução do orçamento de exploração. Como sabem o truque é ao contrário, para que não hajam cortes orçamentais no ano seguinte, gasta-se tudo, o que há e o que não há para se arranjar pretexto para se pedir mais no ano seguinte. As noites de Novembro, último mês para a execução orçamental, são uma perdição com os serviços a gastarem tudo o que puderem: mais papel, mais pessoas, mais dinheiro para os gastos do gabinete, mais para a água,luz,combustível, combustíveis...
E, nos assessores, consultores, juriconsultos começar por cortar 2/3 e pôr os técnicos da administração pública a trabalhar porque não só são capazes como, nas mais das vezes, são eles que orientam os cérebros que nos custam milhões. Claro, depois há umas compensações...
PS: Esta consultoria é grátis...
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