sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Para que serve a Arte - uma visão pessoal

Adão Cruz

Para quem cria, a obra é um processo de aprendizagem permanente. A criação espevita a nossa reflexão, desenvolve todo o processo de humanização, cria uma singular afinidade com a consciência, aproxima-nos de todos os mecanismos de identificação da verdade, afina as emoções e os sentimentos, apura o sentido da beleza, da ética, da estética e até da justiça, dado que esta se pode considerar fruto da harmonia e do equilíbrio, as grandes traves da Arte e da verdadeira vida.
A Arte é uma relação de vida. A montante e a jusante da Arte existem as emoções e os sentimentos. A montante prevalecem as emoções e os sentimentos do autor da obra, a jusante predominam as emoções e os sentimentos daqueles que contemplam a obra criada. Pode dizer-se que a Arte é uma espécie de degrau entre este desnível do mundo interior e do mundo exterior, uma espécie de portal entre duas dimensões, o principal factor na equação que um dia poderá resolver o problema da paz individual e colectiva.
Quando alguém produz uma chamada obra de Arte, neste caso uma pintura, introduz na tela toda a sua vida, ainda que inconscientemente, todas as suas vivências, todas as suas memorizações, todas as suas aprendizagens, todas as suas emoções, todos os seus sentimentos, paixões e devaneios, todas as suas frustrações, todas as suas potencialidades reflexivas, toda a sua cultura, toda a sua visão do mundo e das coisas. Quem contempla essa obra não vai ver a obra do autor mas a sua própria obra, a obra de quem a vê, dado que vai contemplá-la através das suas próprias vivências, através da sua cultura, das suas emoções, dos seus sentimentos, da sua visão do mundo e das coisas, que podem não ter nada a ver com os elementos da estrutura mental do criador da obra. A contemplação de um quadro não exige forçosamente uma análise intelectiva. É muito mais importante o impacto que a obra produz no espectador. Ela actua sobre o seu sentir e não só sobre a sua inteligência. Claro que um espectador pouco inteligente, sem imaginação, sem sentimento artístico, vazio de ideias e de ideais, não verá nada.

A obra funciona de estímulo, mais ou menos poderoso e profundo, capaz de desencadear toda uma cascata de sentimentos no observador, por vezes muito mais intensos do que os do criador, podendo ter a força requerida para desnudar o seu íntimo e arrancar-lhe emoções muitas vezes desconhecidas, apagadas ou esquecidas no mais recôndito dos seus arquivos mentais. Perante uma obra de Arte, suporte de meditação, meio de fixação da atenção e de excitação mental, o espectador sente-se obrigado a um exame de consciência e a uma necessidade de rotura com os seus velhos conceitos. A Arte é uma fonte de conhecimento e é tanto mais nova quanto mais novas forem as ideias que usa na concepção da realidade, quanto maior for o abalo que produz nas formas caducas de ver o mundo e a realidade. Como já se disse atrás, a Arte é impacto, desconcerto de espírito e agente de mudança das formas de pensar. Quando o público se identifica serenamente com a obra e mostra coerência com determinadas formas artísticas, é de temer que essas formas já tenham perdido a sua capacidade revolutiva. Assim se entende que não é a Arte que deve descer à compreensão do povo, mas é o povo que tem de ascender aos patamares da natureza revolucionária da Arte. Uma política cultural, isto é, o ensino de uma autêntica cultura formativa e digna, está longe da estafada ideia de que convém dar ao povo o que o povo pede. É escandaloso ouvir dizer que se deve servir o povo com coisas que lhe dêem prazer e não com intelectualices! Esta luta é uma luta de todos, um verdadeiro e poderoso sentir da necessidade desta ascensão como uma das prioridades da estruturação humana. Uma luta travada pelo saber de todos os tempos, uma luta perpétua contra a ignorância dos que não sabem, dos que julgam que sabem tudo e dos que não sabem aquilo que não sabem.

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (40)

E com esta nota, fecho o livro. Consciente estou de não ter referido a Maria João Mota, mas é preciso a deixar em paz para acabar a redacção da sua tese de doutoramento.



Devo confessar que estes tricinco em Portugal, têm sido um mar de rosas, comparados aos anos do Chile, de Cambridge e, especialmente, pela satisfação dada a mim da amizade, visitas, trabalhos e imensos trabalhos solicitados pelo Departamento e pelo ISCTE, hoje Governado pelo Professor Luís Antero Reto . Não apenas o corpo docente, bem como o secretariado todo, têm passado a ser a minha companhia, neste desgarrado livro, que passa a ser agora editado por quem deve: a editora que o publique e por essa querida Senhora, Maria Paula Almeida.

A Sereiazinha (6) - por Hans Christian Andersen

(Conclusão)

No dia seguinte, o navio entrou no porto da bela cidade do rei vizinho. Todos os sinos tocaram e das torres altas soaram trombetas, enquanto os soldados formavam com bandeiras flutuando ao vento e baionetas cintilantes. Cada dia havia uma festa. Bailes e reuniões de socie¬dade seguiam-se uns aos outros, mas a princesa ainda não chegara; estava a ser educada longe dali, num templo santo, disseram. Aprendia aí todas as virtudes reais. Por fim chegou.


A sereiazinha sentiu-se curiosa de ver a sua beleza e teve de reconhecê-lo: era a figura mais bonita que vira. A pele era fina e macia e, por detrás das longas pestanas escuras, sorria um par de olhos azuis-escuros, leais.


- És tu! exclamou o príncipe. - Tu que me salvaste, quando jazia como um cadáver na costa! - e apertou a noiva nos braços, que se fez vermelha. - Oh! Sou demasiado feliz! - disse ele para a sereiazinha. - O melhor, aquilo que nunca ousei esperar, tornou-se realidade para mim. Vais alegrar-te com a minha felicidade, pois gostas mais de mim do que todas as outras! - E a sereiazinha beijou-lhe a mão e pareceu-lhe sentir já o coração quebrar-se-lhe. A manhã do seu noivado trar-lhe-ia, pois, a morte e transformá-la-ia em espuma do mar.


Todos os sinos repicavam, os arautos percorriam as ruas a cavalo, a anunciar o noivado. Em todos os altares ardiam óleos aromáticos e preciosas lâmpadas de prata. Os sacerdotes balança¬ram os turíbulos, e noivo e noiva deram um ao outro as mãos e receberam a bênção do bispo. A sereiazinha estava vestida de seda e ouro, e segurava a cauda da noiva, mas os seus ouvidos não ouviam a música festiva, os olhos não viam a cerimónia santa, pensava na sua noite de morte, em tudo que havia perdido neste mundo.


Ainda nessa noite foram noiva e noivo para bordo do navio, os canhões soaram, todas as bandeiras flutuavam ao vento e no meio do navio estava erguida uma preciosa tenda de ouro e púrpura e com as mais bonitas almofadas. Aí ia o casal de noivos dormir na noite calma e fresca.


As velas enfunaram ao vento e o navio deslizou ligeiro e sem grande oscilação sobre o mar claro.


Quando escureceu, acenderam-se lâmpadas de cores variegadas e os homens do mar dan¬çaram danças alegres na coberta. A sereiazinha teve de lembrar-se da primeira vez que veio ao cimo do mar e viu a mesma pompa e alegria e lançou-se a rodopiar na dança, pairou, como paira a andorinha quando é perseguida, e todos manifestaram com júbilo a sua admiração, nunca dan¬çara tão maravilhosamente! Era como se facas afiadas lhe golpeassem os pés finos, mas ela não o sentia, feriam-na no coração mais dolorosamente. Sabia que era a última noite que veria aquele por quem havia deixado a família e o lar, por quem havia perdido a bonita voz e sofrido diaria¬mente tormentos infindos, sem vacilar. Era a última noite, respirava o mesmo ar que ele, via o mar fundo e o céu azul com estrelas. Uma noite eterna sem pensamentos e sonhos esperava por ela que não tinha nenhuma alma, nem podia alcançá-la. E tudo foi alegria e satisfação no navio bem para além da meia-noite, enquanto ela dançava com o pensamento da morte no coração. O príncipe beijou a linda noiva e ela acariciou-lhe o cabelo negro, e de braço dado foram repousar na tenda magnífica.


Fez-se silêncio e houve calma no navio, só o timoneiro ficou ao leme. A sereiazinha pôs os braços alvos na amurada e olhou para leste à procura de ver a aurora, o primeiro raio de sol, sabia ela, iria matá-la. Viu então as irmãs subirem ao de cima do mar. Estavam pálidas como ela, o seu cabelo longo e bonito não flutuava mais ao vento, fora cortado.


- Oferecemo-lo à bruxa para que nos ajudasse a conseguir que não morresses esta noite. Deu-nos uma faca, está aqui. Vês como é afiada! Antes de o sol se levantar, tens de a espetar no coração do príncipe e quando o seu sangue quente se derramar sobre os teus pés, transformar-se-ão estes numa cauda de peixe e tu voltarás a ser uma sereia, poderás descer na água até nós e viver os teus trezentos anos antes de vires a ser espuma morta e salgada. Despacha-te! Estás a ver a faixa vermelha no céu? Em poucos minutos vai nascer o sol e terás então de morrer! — E lançaram um suspiro estranho e profundo mergulhando nas ondas.


A sereiazinha afastou o tapete de púrpura da tenda e viu a bela noiva a dormir com a cabeça no peito do príncipe, beijou-lhe a linda testa, olhou para o céu, onde a aurora luzia mais e mais, olhou para a faca afiada e voltou a fitar os olhos no príncipe, que em sonhos pronun¬ciava o nome da noiva. Ela só estava nos seus pensamentos e a faca tremeu na mão da sereia... mas lançou-a para longe nas ondas que brilharam vermelhas onde caiu. Era como borbulhassem gotas de sangue ao de cima da água. Ainda uma vez olhou para o príncipe, com o olhar meio enublado, depois lançou-se do navio ao mar, onde o seu corpo se desfez em espuma.


Nasceu então o sol. Os seus raios tombaram suaves e quentes sobre a espuma do mar fria de morte e a sereiazinha não sentiu a morte, viu o sol luminoso e por cima dela pairarem centenas de belas criaturas transparentes. Podia ver através delas as velas brancas do navio e as nuvens vermelhas do céu. As suas vozes eram melodiosas, mas tão espirituais que nenhum ouvi¬do humano podia ouvi-las, tal como nenhuns olhos terrestres podiam vê-las. Sem asas pairavam pela sua própria leveza no ar. A sereiazinha viu que tinha um corpo como elas, que se elevava mais e mais da espuma.


- Para quem venho eu? — disse ela e a sua voz soou como a dos outros seres, tão espiritual que nenhuma música terrestre pode transmiti-la.


- Para as Filhas do Ar! — responderam as outras. - As sereias não têm uma alma imortal, não podem nunca alcançá-la, só se ganhassem o amor dum ser humano. Dum poder estranho depende a sua existência eterna. As Filhas do Ar também não têm alma eterna, mas podem elas próprias com boas acções obter uma. Voamos para as terras quentes, onde o ar pestilento e abafado mata os homens. Aí produzimos frescura. Espalhamos perfume de flores no ar e damos frescura e alívio. Se nos tivermos esforçado trezentos anos por fazer o bem, podemos então alcan¬çar uma alma imortal e participar na felicidade eterna dos seres humanos. Tu, pobre sereiazinha, esforçaste-te com todo o coração pelo mesmo que nós, sofreste e suportaste dores, elevaste-te para o mundo dos espíritos do ar e agora podes tu própria com boas acções conseguir uma alma imortal dentro de trezentos anos.


E a sereiazinha ergueu os braços claros para o sol de Deus e, pela primeira vez, sentiu correrem-lhe lágrimas... No navio havia outra vez alarido e vida, viu o príncipe com a sua linda noiva a procurá-la. Olhavam tristes para a espuma borbulhante, como se soubessem que se lan¬çara nas ondas. Invisível, beijou a testa da noiva, sorriu para ele e subiu com as outras Filhas do Ar na nuvem cor-de-rosa que flutuava no céu.


- Em trezentos anos ascenderemos assim para o reino de Deus!


- Também podemos mais cedo alcançá-lo! — murmurou uma — Entramos invisíveis nas casas dos homens, onde há crianças e por cada dia que encontramos uma criança boa, que faz a alegria dos pais a merece o seu amor, Deus encurta o nosso tempo de prova. A criança não sabe, quando voamos pela casa e, se tivermos de sorrir de alegria por ela, é-nos tirado um ano dos trezentos, mas se virmos uma criança malcriada e má, então temos de chorar lágrimas de tristeza e cada lágrima aumenta de um dia o nosso tempo de prova!

Ensino: CNE - a cultura da avaliação é ainda incipiente

Luís Moreira


O Conselho Nacional de Educação considera que as escolas privadas devem ser também alvo de avaliação externa. Desde 2006 que a Inspecção- Geral da Educação já avaliou 984 agrupamentos e escolas não agrupadas do sector público.


Numa recomendação sobre a avaliação externa o CNE sugere que "seja definida a obrigatoriedade de as escolas apresentarem um plano de melhoria" O CNE lembra que é assim que se faz em muitos outros países, sendo feita depois, no fim do processo, uma monitorização da concretização do plano de melhoria.


Cá no país ainda não foi efectuada nenhuma aferição dos efeitos dos programas e defende que este balanço deve ser feito por uma entidade externa e independente do ME. Este processo é importante e ainda mais porque a classificação das escolas tem consequências para a fixação das quotas para a atribuição aos professores das classificações de Excelente e Muito Bom.


Claro que o CNE também reconhece que ainda não há consenso sobre esta matéria, mas isso já todos esperávamos, pois se a corporação de professores defende a "impossibilidade" de avaliar as escolas e os professores e que todos os professores devem chegar ao topo da carreira...


Mas o que tem que ser pode muito, a avaliação é cada vez mais consensual, as quotas para os níveis mais elevados da carreira como consequência do mérito são já defendidas por muitos professores, e a razão e os processos com provas dadas vão ter vencimento.

Não se pode trocar o mérito pela preguiça, nem a exigência pela irresponsabilidade. É tempo de se avançar no caminho da qualidade e dos resultados.

Por muito que custe aos que esperam sentados.

Uma voz da Galiza - Manuel María (1929-2004)

Manuel María foi uma das vozes mais emblemáticas do ressurgimento do galego como língua literária. Grande poeta, escreveu obras como Mar maior (1963), Os sonhos na gaiola (1968), Remol (1970), Cantos rodados para alheados e colonizados (1973), O livro das badaladas (1977), O caminho é uma nostalgia (1985), As lúcidas luas do Outono (1988), Os longes do solpor (1993) e tantos outros – cerca de três dezenas de obras.


Nasceu em Outeiro de Rei, em 6 de Outubro de 1929 e faleceu na Corunha, em 8 de Setembro de 2004. Filho de camponeses, exaltou na sua obra o labor dos trabalhadores do campo, dos labregos. Foi um homem que não fugiu ao compromisso político, mas sem esquecer a dimensão humana no seu todo, incluindo o amor e a fraterna amizade. Da obra 99 Poemas de Manuel María (Razão Actual, Porto, 1972), seleccionei «O labrego». De notar que a palavra «labrego», que para os portugueses pode ter uma conotação levemente pejorativa, para os galegos é o vocábulo usado para «camponês»:

O Labrego

Un labrego tan só é unha cousa
que case non repousa.


Da sementeira a seitura,
pasando pela cava,
a súa vida é moi dura
e moi escrava.


Sempre trafegando,
arando,
sachando,
malhando,
gadanhando,
percurando o gando.


Sempre a olhar pró ceo
com medo e com receo.
Sempre a sementar ilusión
ponhendo na semente o corazón
pra colheitar probeza e mais tristura.


Dilhe ao labrego da beleza
da campía,
da súa fermosura
e poesia.


Dírache que sí,
que a beleza pra tí.


Pró labrego é o trabalho
o andar tocado do caralho,
o pan mouro i o toucinho.


(Múdanse de calzado ou de traxe
cando van de viaxe,
de feira ou de romaxe
e xantan, eses días, pulpo e vinho);
os eidos ciscados, minifundiados
que quér decir atomizados);
o matarse sachar de sol a sol
pra lograr seis patacas
com furacas,
catro grãos de centeo i unha col;
o dobregarse sobor dos sucos
pra pagar gabelas e trabucos;
o vivir entre esterco i animales
en chouzas case inhabitabeles.


I aguantar, aguanta e aguantar,
Agardando morrer pra descansar
.













Marcos da primeira década do século XXI – O Ambiente; A Crise económica

Luís Rocha


Estou na Costa da Caparica. O mar está agitado e praticamente não se vê areia. As ondas vão e vêm rebentando na costa, rejubilando de alegria com estrondo e espuma, à carícia da pouca areia que resta.

A visão desta manifestação da natureza, ao mesmo tempo que fascina pela sua beleza reflecte também a sua fúria contra o que o ser humano está a fazer no Planeta.

Chega ao fim a primeira década do século XXI e, apesar de os países ditos mais importantes se terem reunido todos os anos, com o objectivo de diminuir o mal que sabem estar a fazer, todas as reuniões terminaram, com decisões sobre o que cada país terá de pagar para continuar a matar o Planeta.

Sempre Galiza! - Gala homenaxe (2007) a Zeca Afonso - 8

coordenação de Pedro Godinho

Do seu último disco (1973) anterior ao 25 de Abril de 1974, o primeiro que mão amiga me fez ouvir (tocou-me de tal forma que logo procurei ouvir todos os outros) e me fez sentir o espírito da resistência à ditadura, a canção que deu título ao LP, Venham mais cinco cantada por Tito Paris, Vitorino, Janita Salomé, Júlio Pereira e Luis Pastor. Do mesmo álbum, Janita Salomé interpreta Era um redondo vocábulo.




As Nuvens

João Cabral de Melo Neto





As oito da manhã, aqui no Estrolabio, é a hora da poesia. Hoje é a vez de um grande poeta brasileiro – João Cabral de Melo Neto (1920 —1999) .

Da sua colectânea O Engenheiro (1945),

As Nuvens



As nuvens são cabelos

crescendo como rios;

são os gestos brancos

da cantora muda;



são estátuas em voo

à beira de um mar;

a flora e a fauna leves

de países de vento;



são o olho pintado

escorrendo imóvel;

a mulher que se debruça

nas varandas do sono;



são a morte (a espera da)

atrás dos olhos fechados

a medicina, branca!

Nossos dias brancos.

Noctívagos, insones & afins: o Fagundes faz-nos muita falta

Carlos Antunes


O Jorge Fagundes foi sempre um homem muito solidário, antes e depois do 25 de Abril. Foi um dos advogados que mais presos políticos defendeu no Tribunal Plenário antes do 25 de Abril: presos do Golpe de Beja, maoístas da FAP, militantes clandestinos do PCP, não descriminando nenhum anti-fascista pela sua tendência ideológica.

Depois do 25 de Abril, foi o grande organizador da defesa dos presos do PRP. Convidando amigos advogados de todo o país, montou uma defesa extraordinária deste grande processo político. Foi ele que se encarregou pessoalmente da minha defesa e da Isabel do Carmo.

Já em liberdade, e porque tínhamos escritório na mesma rua, face a face, almoçávamos praticamente todos os dias. Tinha um humor fantástico e aproveitava o convívio do almoço para contar histórias inesquecíveis, muitas delas ligadas aos tribunais. Se o Sporting perdesse num domingo, a segunda-feira era sempre dia de luto. E como ele dizia , não era caso para menos...


A sua posição de grande e reconhecido advogado não o impedia de assumir responsabilidades políticas com grande coerência. Foi convidado para ser director do jornal Página Um, em 1976, cargo que assumiu com toda a coragem, mesmo quando choviam os processos jurídicos contra o jornal e contra ele como director. Sem alardes, era um homem com uma grande coerência revolucionária.



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Nota: Logo que soubemos do falecimento de Jorge Fagundes, solicitámos ao Carlos Antunes, grande amigo de Fagundes, um depoimento. Depoimento que só hoje nos é possível apresentar.

Os dez mais: Há quanto tempo a não via

Manuela Degerine




As rádios e televisões francesas não falam de outra coisa: chegou a neve. Dezasseis graus negativos em Orleães, aldeias sem electricidade, a circulação interrompida, os camionistas encalhados, náufragos da neve, na metáfora radiofónica, alguns voos e Eurostar suprimidos, cidades com transportes paralisados, múltiplas estratégias de substituição – uma das quais é circular de bicicleta. Os pneus para a neve esgotados, as botas para a neve vendidas. As crianças radiantes por não haver escola. As crianças felizes por brincarem na neve. Os grandes debates: o sal nas estradas, a arquitectura ecológica, o pico do consumo de energia temido, atingido e, por fim, não ultrapassado graças ao civismo dos habitantes da Bretanha que apagaram as luzes inúteis, adiaram as lavagens de roupa e desceram dois graus no aquecimento das casas. Uf... A descoberta, nas aldeias sem electricidade, de outro modo de vida: a botija de água quente, a conversa junto da lareira, o deitar às nove da noite... Como no tempo dos nossos avós. As entrevistas nas Galeries Lafayette, permanecer elegante no frio, não às fibras termolactil, sim às camisolas de cachemira... O abrigo dos sem-abrigo.


Assisto a tudo com uma estranheza crescente, não só porque passei o ano em Lisboa, onde o calor me sinistrou durante três meses, mas também porque em Paris francamente... As temperaturas diurnas andam à volta dos zero graus o que, com meias e luvas de lã, duas camisolas e um blusão de penas, se vive muito agradavelmente. Tenho caminhado por ruas e parques sem me sentir refrigerada. Diversas vezes, durante percursos de bicicleta, caíam farrapos de neve; achei muito bonito. As casas, os transportes, todos os edifícios públicos e privados são aquecidos – excessivamente. Demasiado branca e pura para se tornar banal, não podemos contudo dizer que seja aqui novidade; no entanto quem vê o telejornal fica com a impressão de, na história climática da França, ter agora caído neve pela primeira vez. Parece que estamos no Rio de Janeiro.


Ou em Lisboa. Ontem, saturada de branco, rumo à RTPi... Portugal é verde no Inverno. E qual não é o meu espanto? O país estava todo virado para a Serra da Estrela. Mais neve, mais estradas interrompidas, mais autocarros imobilizados. Mais blablá refrigerado. Na verdade... Em Portugal ainda compreendo: pouco frequente na maior parte do território, constitui uma informação, entre o pavor – carros virados – e o estético e o lúdico. As imagens são de facto bonitas e, para a maioria dos portugueses, evocam viagens à montanha, a dos dois mil menos sete, a única, a da Estrela; no mínimo: a descoberta do sku durante uma viagem escolar. Lembro-me que, na primeira vez, teria uns cinco anos, provei a neve: na minha imaginação a Serra de Estrela era o cume dos gelados de coco. Achei um tanto insípido. Comecei a compreender que as estrelas cobertas com gelado são reais na imaginação. Já não é pouco. A realidade da neve? Essa conhecem-na os habitantes das serras, esta e outras, no Centro e no Norte do país pois, no mínimo, desde o tempo dos Montes Hermínios, mais ano, menos ano, se confrontam com o frio e as escorregadelas. Por estranho que pareça a alguns, muito antes de as reportagens os descobrirem a eles, já os habitantes das serras conheciam a neve e sabiam o que fazer quando ela cai; até sabiam, como na Serra da Lousã, tirar proveito económico da neve que, desde o século XVIII, era recolhida perto do Coentral e encaminhada para Lisboa por conta de Julião Pereira de Castro – para fazer gelados.


Interrogo-me há uma semana sobre o papel desta glaciação mediática, deste carnaval branco, deste furor invernal, esquecidos a crise, o terrorismo, o Irão e o tráfico de droga. (Já nem falo do desemprego.) Trata-se de informar, de variar, de divertir, de preencher um vazio, de instalar um ambiente pré-natalício? Jingle bells?... Sem dúvida um pouco disto tudo.


Música romântica do Século XX - 43

Carmen la de Triana, é um filme de Florián Rey rodado em1938 nos estúdios da UFA, em Berlim. Estava-se em plena Guerra Civil. Imperio Argentina (1910-2003) foi a estrela principal desta versão cinematográfica da Carmen,  de Prosper Mérimée. O filme, de índole costumista e tradicionalista, veicula os valores da espanholidade defendidos por Franco e pela Falange. Uma canção, tornou-se famosa - Los piconeros (os carvoeiros), com letra de Ramón Perelló e música de Juan Mostazo. Existem múltiplas versões - Rocío Jurado, Sara Montiel, Amália Rodrigues, Concha Piquer... Apresentamos a original, a de Imperio Argentina.





Uma curiosidade. No filme de Fernando Trueba La niña de tus ojos (1998), onde, de maneira pícara, se conta a odisseia dos actores espanhóis que foram a Berlim rodar Carmen la de Triana, Penélope Cruz interpreta em alemão Los piconeros. Assim:


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010




Em Nome da Liberdade

Ethel Feldman

Entre touros e porcos - sangue
O homem trabalha todos os dias
Num só, mata a sede e a fome
O corpo treme e fode

Aquele morreu de morte matada
Na cela o grito seco, calado
No corpo, a dor não revelada
Um buraco na terra
Dentro dela, a mulher adúltera
No rosto, a vergonha explorada
Na mão do justiceiro, pedras
Na procissão, um anjo de cera
Nas costas, o peso
Entre touros e porcos -  sangue
Ordena a tradição, submissão
Grita o porco por compaixão
Na mão do homem - faca afiada
De morta matada
Morreu apedrejada
Um é preto, outro pobre
Criança sem nome, com fome
Na rua, a procissão
Nas costas, um anjo
Pobres de espírito
Pobres, sem nome
Dia de festa
Dá-me teu corpo suado, em nome do Homem
Rega meu ventre de vinho, em nome do Homem
Rasga-me por dentro, em nome do Homem
Amanhã parte, em nome da Liberdade
Ama.



Boaventura de Sousa Santos no Estrolabio - A Reuniversidade


Na minha última crónica descrevi um cenário perturbador do futuro da universidade em resultado dos processos de reforma actualmente em curso. Fiz questão de salientar que se trata apenas de um cenário possível e que a sua ocorrência pode ser evitada se forem tomadas algumas medidas exigentes.


Primeiro, é preciso começar por reconhecer que a nova normalidade criada pelo cenário descrito significaria o fim da universidade tal como a conhecemos. Segundo, é necessário tirar as consequências dos vícios da universidade anterior ao processo de Bolonha: inércia e endogamia por detrás da aversão à inovação; autoritarismo institucional disfarçado de autoridade académica; nepotismo disfarçado de mérito; elitismo disfarçado de excelência; controle político disfarçado de participação democrática; neofeudalismo disfarçado de autonomia departamental ou facultária; temor da avaliação disfarçado de liberdade académica; baixa produção científica disfarçada de resistência heróica a termos de referência estúpidos e a comentários ignorantes de referees.


Terceiro, o processo de Bolonha deve retirar do seu vocabulário o conceito de capital humano. As universidades formam seres humanos e cidadãos plenos e não capital humano sujeito como qualquer outro capital às flutuações do mercado. Não se pode correr o risco de confundir sociedade civil com mercado. As universidades são centros de saber no sentido mais amplo do termo, o que implica pluralismo científico, interculturalidade e igual importância conferida ao conhecimento que tem valor de mercado e ao que o não tem. A análise custo/benefício no domínio da investigação e desenvolvimento é um instrumento grosseiro que pode matar a inovação em vez de a promover. Basta consultar a história das tecnologias para se concluir que as inovações com maior valor instrumental foram desenvolvidas sem qualquer atenção à análise custo/benefício. Será fatal para as universidades se a reforma for orientada para neutralizar os mecanismos de resistência contra as imposições unilaterais do mercado, os mesmos que, no passado, foram cruciais para resistir contra as imposições unilaterais da religião e do Estado. Quarto, a reforma deve incentivar as universidades a desenvolverem uma concepção ampla de responsabilidade social que se não confunda com instrumentalização. No caso português, os contratos celebrados entre as universidades e o Governo no sentido de aumentar a qualificação da população tornam ridícula a ideia do isolamento social das universidades mas, se nem todas as condições forem cumpridas, podem sujeitar as instituições a um stress institucional destrutivo que atingirá de maneira fatal a geração dos docentes na casa dos trinta e quarenta anos. Quinto, para que tal não suceda, é necessário que a todos os docentes universitários sejam dadas iguais oportunidades de realizar investigação, não as fazendo depender do ranking da universidade nem do tópico de investigação, não sendo toleradas nem cargas lectivas asfixiantes,nem a degradação dos salários (mantendo as carreiras abertas e permitindo que os salários possam ser pagos, em parte, pelos projectos de investigação).


Sexto, o processo de Bolonha deve tratar os rankings como o sal na comida, ou seja, com moderação. Para além disso, deve introduzir pluralidade de critérios na definição dos rankings à semelhança do que já vigora noutros domínios: nas classificações dos países, o índice do PIB co-existe hoje com o índice de desenvolvimento humano do PNUD.


Tudo isto só será possível se o processo de Bolonha for cada vez mais uma energia endógena e cada vez menos uma imposição de peritos internacionais que transformam preferências subjectivas em políticas públicas inevitáveis; e se os encarregados da reforma convencerem a UE e os Estados a investir mais nas universidades, não para responder a pressões corporativas, mas porque este é o único investimento capaz de garantir o futuro da ideia da Europa enquanto Europa de ideias.


(Publicado em 23-09-2010 na revista "Visão")

Guerra Colonial - Um testemunho de Adão Cruz



O efeito de uma mina


Adão Cruz em Binta- Guidage
Binta-Guidage
Fiz este trajecto penoso, mais do que uma vez, entre Binta e Guidage, mas em 1967. Eram aquartelamentos

que faziam parte do meu batalhão. De uma das vezes, a coluna em que eu seguia demorou cerca de sete horas para fazer vinte quilómetros, por causa dos atascamentos. Nesse dia fomos atacados por um enxame de abelhas selvagens. Para quem não sabe, tal ataque era mais temido do que uma emboscada. Para além de consequências menos graves, tive um soldado com um choque anafiláctico que quase me ia morrendo. Tenho fotos dessa terrífica viagem. Encontrava-se nessa altura em Guidage a comandar o pelotão, o meu grande amigo alentejano alferes Barrulas que aí sofreu vários ataques. Num desses ataques, estando eu em Bigene, via os clarões ao longe, com o coração nas mãos, e comentava para os meus companheiros "pobre Barrulas, coitado". Encontrei-o anos mais tarde numa festa do Avante e abraçámo-nos longamente.

(fotos de Adão Cruz)
Binta - Guidage - Preparando o terreno
O alferes Barrulas à direita e Adão Cruz ao centro
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A partir de dia 3 de Janeiro, todos os dias às 18 horas

CRONOLOGIA DA GUERRA COLONIAL

uma obra do historiador José Brandão
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Os poetas. ladrões de fogo ou artífices do verbo?

Carlos Loures

Definir a natureza da arte poética, é, como poderemos ver no apreciável painel que vamos expor na nossa “maratona poética”, uma discussão tão antiga quanto a civilização. Platão, Aristóteles, Horácio, Boileau, milhares de filósofos e de poetas discorreram sabiamente sobre este tema. Teremos oportunidade de, nas 24 horas do dia 8 de Setembro, ler 72 textos – poemas, textos poéticos, citações… Uma ampla panorâmica sobre esse tema tão discutido ao longo dos séculos.

“Ladrões de fogo” foi uma designação que usei num texto que publiquei na revista “Pirâmide” , da qual já aqui tenho falado. Nesse texto comparo os poetas a Prometeu. O poeta é um ladrão de fogo, um mago. Pelo poder da palavra cria a beleza para a ofertar aos homens. A comparação faz sentido, é sugestiva, mas talvez haja outra, menos bela, mas não menos verdadeira. Vejamos.

O poeta produz esta magia usando palavras comuns e não palavras mágicas. Esta capacidade de, com palavras usadas no dia a dia, construir um poema, pode conduzir-nos à tal conclusão, complementar da primeira – além de mago, o poeta é um artífice.

A comparação com Prometeu trazendo o fogo do Olimpo para a terra ou, como também já li algures, com Orfeu enfeitiçando a natureza, homens, animais e plantas, com o seu canto melodioso, é muito bonita. Mas equipará-lo a um trabalhador leva-nos a uma imagem , menos “poética” no sentido convencional, mas mais integradora da arte poética no quotidiano.: -o poeta é um artífice. A expressão «artes e ofícios» tem aqui pleno cabimento - o poeta é, portanto, um homem comum, um artista como um sapateiro ou um alfaiate o são. Em vez de cabedal ou de tecido, usa palavras, sentimentos e conceitos como matéria prima. Ofício: poeta. Daria lugar a conversas como esta: - "Ah, sim o Jorge. Olha, foi colocado como poeta na Covilhã".