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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Hipostenia




Maria Inês Aguiar

desci um a um os degraus com o peso do biltre, o rebuço do patife, a má língua da matrona, o Nobel da bizarrice e o povo nada me disse…
do poeta ficou o conceito, da liberdade a noção, da temperança a lembrança, e do povo?
ouvi o protesto solitário, o excremento solidário, a hipostenia de um verso, um instrumentista possesso, a melodia da prosápia, a orquestra da argúcia
e vi a astúcia, vi o vício, a súcia num vão de escada, o farrapo da utopia e o povo nada dizia…

procurei uma razão, questionei a geração, caminhei na multidão e vagueei pelo povo que não encontrei e do meu povo nada sei…

(Ilustração de Adão Cruz)

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Isto que eu escrevo


Maria Inês Aguiar

isto que eu escrevo não sou eu,
sou eu e os outros em pensamentos misturados
num desalinho de sentimentos complexos,
são somas de muitas raivas contidas, muitas vozes silenciadas,
muitas noites - madrugadas,
isto que eu escrevo
são intervalos de vontade rodopiando entre vagas de ilusão,
a impotência de parar o relógio
eternizando o momento em que nos quebramos
em mil bocados num encontro com o tempo,
isto que eu escrevo,
é o grito sufocado na garganta, um grito mudo
de quem vê pedaços de vidas caídas nas cidades de concreto,
de quem ouve o ulular dos sem tecto
isto que eu escrevo não sou eu,
é o reflexo dos outros em mim,
um cordão de múltiplas vidas em círculos de convulsão
isto que eu escrevo não sou eu,
sou eu e os outros e os outros ainda

(Ilustração pormenor de Adão Cruz)



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Sem nome

Maria Inês Aguiar

sinto-te o abandono sem nome nesse resto que te resta, vejo-te cadáver ao relento no troar da morte em festa e quando ouço a fome que te consome, o meu entendimento não dorme e se te chamo não respondes e escondes o teu sangue que berra a guerra do teu berço nesta terra que desconheço


(ilust. porm. Adão Cruz)


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Mordaça

Maria Inês Aguiar


ontem

como hoje

unem-se os eruditos

a perene convulsão de conflitos

os com(sorte) da evolução que da alma fizeram uma noção

a falácia duma trova indefinida

o culto do pensamento sagaz manipulado pelo tempo que passa incapaz

de com o machado que faz a guerra fazer a paz...!

 (ilust. porm. Adão Cruz)