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sábado, 1 de janeiro de 2011

Noctívagos, insones & afins: Eduardo Guerra Carneiro

Hoje, presto homenagem a um noctívago que, faz sete anos, mergulhou na noite eterna. Transcrevo parte de um texto sobre Eduardo Guerra Carneiro.Carlos Loures








A frase “Isto anda tudo ligado” já é antiga, mas quem lhe deu vida nova e foros de expressão erudita foi o escritor e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, que a usou como título num seu livro de poemas «Isto Anda Tudo Ligado». E este título, como disse Jorge Listopad, numa nota publicada na «Colóquio-Letras», que aparentemente é um «slogan banal», tem sido centenas de vezes utilizado, por escritores, jornalistas, por músicos (como Sérgio Godinho) e não só. Creio que muitos que o utilizam já nem o relacionam com o grande poeta e a maravilhosa pessoa que foi o Guerra Carneiro.


Não é o meu caso. Fui muito amigo e companheiro de luta do autor destas palavras.


Na fotografia abaixo, tirada em Novembro de 1962, em Coimbra, da esquerda para a direita podemos ver o Egito Gonçalves, eu, o Eduardo e o António Cabral, ainda sacerdote católico na altura. O Eduardo, de perfil, parece ausente, alheado, coisa que lhe acontecia com frequência.


Fomos ali reunir-nos por questões políticas e culturais – a expansão do Centro de Cultura Ibero Americana, que pretendíamos alargar editando um boletim periódico multilingue (nos idiomas da Península a que juntaríamos resumos em francês e inglês). Mas voltemos ao Guerra Carneiro e ao seu livro.



quinta-feira, 30 de dezembro de 2010





Os poetas. ladrões de fogo ou artífices do verbo?

Carlos Loures

Definir a natureza da arte poética, é, como poderemos ver no apreciável painel que vamos expor na nossa “maratona poética”, uma discussão tão antiga quanto a civilização. Platão, Aristóteles, Horácio, Boileau, milhares de filósofos e de poetas discorreram sabiamente sobre este tema. Teremos oportunidade de, nas 24 horas do dia 8 de Setembro, ler 72 textos – poemas, textos poéticos, citações… Uma ampla panorâmica sobre esse tema tão discutido ao longo dos séculos.

“Ladrões de fogo” foi uma designação que usei num texto que publiquei na revista “Pirâmide” , da qual já aqui tenho falado. Nesse texto comparo os poetas a Prometeu. O poeta é um ladrão de fogo, um mago. Pelo poder da palavra cria a beleza para a ofertar aos homens. A comparação faz sentido, é sugestiva, mas talvez haja outra, menos bela, mas não menos verdadeira. Vejamos.

O poeta produz esta magia usando palavras comuns e não palavras mágicas. Esta capacidade de, com palavras usadas no dia a dia, construir um poema, pode conduzir-nos à tal conclusão, complementar da primeira – além de mago, o poeta é um artífice.

A comparação com Prometeu trazendo o fogo do Olimpo para a terra ou, como também já li algures, com Orfeu enfeitiçando a natureza, homens, animais e plantas, com o seu canto melodioso, é muito bonita. Mas equipará-lo a um trabalhador leva-nos a uma imagem , menos “poética” no sentido convencional, mas mais integradora da arte poética no quotidiano.: -o poeta é um artífice. A expressão «artes e ofícios» tem aqui pleno cabimento - o poeta é, portanto, um homem comum, um artista como um sapateiro ou um alfaiate o são. Em vez de cabedal ou de tecido, usa palavras, sentimentos e conceitos como matéria prima. Ofício: poeta. Daria lugar a conversas como esta: - "Ah, sim o Jorge. Olha, foi colocado como poeta na Covilhã".

O meu amigo Romeu Correia



Carlos Loures

A revista “Nova Síntese” (Edições Colibri), publicou no seu número 4, dedicado ao tema “O rural e o urbano no neo-realismo”, um texto do Professor Alexandre Castanheira, com o título “Romeu Correia, um neo-realista esquecido”. O texto começa com uma citação do crítico literário João Gaspar Simões que, no jornal Sol de 21 de Maio de 1949, dizia sobre “Trapo Azul”, o romance de estreia de Romeu Correia: «Um jovem cheio de talento que insuflou ao “neo-realismo” decrépito uma vida que o “neo-realismo” nunca tivera entre nós».


Não vou referir-me hoje ao magnífico texto de Alexandre Castanheira, nem dissecar esta precipitada notícia necrológica de Gaspar Simões, crítico inteligente, mas controverso, que considerava decrépito um movimento que ainda mal ensaiara os primeiros passos. Basta consultar as datas de publicação de grandes obras de Redol, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, para verificar que as grandes obras do neo-realismo não tinham ainda sido publicadas em 1949. Mas o texto incentivou-me a escrever hoje sobre Romeu Correia.


quarta-feira, 29 de dezembro de 2010





Has dit que sóc poeta

Josep A. Vidal

Has dit que sóc poeta perquè saps que faig versos,

i sí, és cert, en faig. Consirós, cerco i lligo

els mots, l'un rere l'altre, i aixeco arquitectures

de mètrica insegura, maldestres i inconnexes,

amb rebles i artificis i retòrica abstrusa,

amb ritmes que coixegen i rimes vacil•lants.

Dogmàtics de la rima, matemàtics del metre,

buròcrates del ritme, acadèmics de res,

diran ínclits poetes, tot arrufant les celles

amb un gest de desdeny: "I és d'això, que en dius vers?"

Però, jo seguiré aplicant-me maldestre

a la feina obstinada de lligar mot amb mot,

i cercaré la rima com l'ocell cerca l'aire,

com l'arrel cerca l'aigua furgant en terra eixuta,

com cerca el riu el mar, com la pluja la terra,

com l'alè el moribund...

Com el meu cos el teu, jo assedegat de tu.

I em diré a mi mateix, una i altra vegada,

el nom de cada cosa com una lletania

per ordenar-me el món: la pedra, l'aigua, el foc,

el sol, la terra, l'aire... La vela al mar, la tarda...

I l'horitzó, tan lluny! –Una broma infinita,

la mar i el cel confosos, un rengle de muntanyes...

I el neguit incessant, la set insaciable...

Les pregoneses tèbies del teu si... La mirada

de l'infant, i les llàgrimes; les arrugues del vell,

i el pas del temps, i el buit... La tendresa, l'encís

del teu bes, i l'esclat del meu cos que s'afluixa

i es vessa en el teu cos, tremolós, que m'abraça...

La solitud, el plor, la cambra del malalt,

l'olor de resclosit, la tos, el ronc, l'esput,

la ranera impotent, els ulls esbatanats...

I el ventre afeixugat de la dona prenyada,

i els crits d'infants que juguen al celobert...

La suor del teu cos enganxada al meu cos,

i el teu alè i el meu fonent-se en la besada.

I l'instant que s'esmuny. I la mort, i l'absència...

Potser tenen raó i es soroll de xaranga,

però, no puc estar-me'n.

Els mots em fan present el temps inabastable,

cada instant que hem viscut,

el moment que s'esmuny entre els meus dits com l'aigua,

com la sorra i la pols; com un foc que s'apaga,

com l'infant que vaig ser

-aquell que cavalcava corsers imaginaris,

i encenia fogueres de fullaraca als vespres

i les veia apagar-se amb un estremiment-,

com la veu, com el bes, com la mirada...

Com la mà dels amics que he vist marxar per sempre

i el teu pas amb el meu al caient de la tarda.


Chamaste-me poeta...

Chamaste-me poeta, pois sabes que faço versos,
e, sim, é verdade que os faço. Com rigor, construo
e ligo as palavras, uma após outra, ergo arquitecturas
de insegura métrica, desconexas e trôpegas,

com desperdícios, artifícios e retórica abstrusa,
com ritmos que coxeiam e hesitantes rimas.
Dogmáticos da rima, matemáticos do metro,
burocratas do ritmo, académicos de coisa nenhuma,
dirão os ínclitos poetas, franzindo o cenho,
com um gesto de desdém: “É a isto que chamas versos?”


Porém, continuarei a entregar-me, trôpego, mas teimoso,
à ingente tarefa de ligar palavra com palavra,
procurando a rima como o pássaro procura os ares,
como a raiz procura a água escavando a terra enxuta,
como o rio demanda o mar e a chuva a terra,
e o moribundo o alento…
Como o meu corpo procura o teu, de ti sedento.
E, para mim mesmo, uma e outra vez direi
o nome de cada coisa, como uma litania
para ordenar o meu mundo: a pedra, a água, o fogo,
o sol, a terra, o ar…Uma vela aberta ao mar, a tarde…
E o horizonte, tão distante! Uma bruma infinita,
o mar e o céu confundindo-se, uma sucessão de montanhas…
E o anseio incessante, a insaciável sede…
A profunda quentura do teu seio…O olhar
do menino, as suas lágrimas; as rugas do velho,
a passagem do tempo, e o vazio… A ternura, o encanto
do teu beijo, e a explosão do meu corpo que se distende
e derrama no teu trémulo corpo que me abraça…
A solidão, o pranto, a cama do doente,
O bafo do quarto fechado, a tosse, o ronco, o escarro,
o estertor impotente, os olhos sem pálpebras…
E o ventre carregado da mulher grávida…
Os gritos das crianças brincando no pátio vizinho…
O suor do teu corpo colando-se ao meu corpo
e a tua respiração e a minha fundindo-se no beijo.
E o instante que foge. E a morte e a ausência…

Talvez tenham razão e seja o som da charanga,
mas é inevitável.
As palavras tornam presente o tempo inatingível,
Cada instante que vivemos,
o momento que se esvai como a água entre os meus dedos,
como o pó e a areia; como um fogo que se extingue,
a criança que já fui
- aquele que cavalgava imaginários corcéis,
e fazia fogueiras com as folhas secas,
vendo-as apagar-se com um estremecimento -,
como a voz, como o beijo, como o olhar…
Como a mão dos amigos que vi partir para sempre
e os teus passos com os meus ao cair da tarde.

(Versão portuguesa de Carlos Loures)

Raul Brandão, um «rasto visível» na literatura portuguesa do século XX - 2

Com sua esposa, Angelina Brandão (quadro de Columbano)
Falemos então deste escritor forjado não só pela sua grande sensibilidade como também pela sua experiência de vida – a escolar, a jornalística, a militar... A obra de todos os escritores é sempre, de uma ou de outra forma, o produto das suas respectivas vivências. Raul Brandão, porém, é um homem que baseia os seus livros em consistentes alicerces, construídos com a argamassa das recordações que foi acumulando, memórias de seres humanos com os quais se foi cruzando ao longo da sua existência. As suas personagens, a Candidinha, o Gabiru, o Gebo, a Joana, a Luísa, o Ziem, o Vaz, são arrancadas à vida real, sentimo-las palpitar, na sua carne de papel e tinta – convivem e interagem connosco.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Raul Brandão, um «rasto visível» na literatura portuguesa do século XX - 1

Carlos Loures


É muito difícil encontrar um escritor português cuja obra, como a de Raul Brandão, tenha influenciado de forma tão evidente a escrita de tantos outros escritores das gerações e das escolas literárias que à sua se seguiram. A matriz positivista comtiana cujas pegadas encontramos também em escritores portugueses anteriores e posteriores, como Guerra Junqueiro, Teixeira de Pascoais, Fernando Pessoa, para não falar na grande maioria dos escritores da chamada Geração de 70 e, depois, a dimensão humanitarista por ele assimilada, sobretudo, através da atenta leitura dos grandes ficcionistas russos Tolstoi, Dostoievski e Gorki, irá ter eco, século XX adentro, no grupo da Presença – José Régio, Branquinho da Fonseca, António Navarro, João Gaspar Simões, Edmundo de Bettencourt, Adolfo Casais Monteiro, Miguel Torga, Fausto José... e evidenciar a sua semente noutras obras posteriores, como a de Ferreira de Castro, José-Rodrigues Miguéis, José Gomes Ferreira, Manuel Mendes, Carlos de Oliveira, Jorge de Sena, José Cardoso Pires, Herberto Hélder, para referir apenas alguns dos casos mais relevantes.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade vem ao Terreiro da Lusofonia

trazendo "O amor natural"


Manuel Simões e Carlos Loures



O grande poeta brasileiro (1902-1987) é por demais conhecido e a sua obra (lembremos apenas Sentimento do Mundo ou A Rosa do Povo) faz parte do património das literaturas de língua portuguesa. Há uma dimensão, porém, não muito frequentada pela crítica e que se refere a um volume de poesia, O Amor Natural, até pelo modo, quase clandestino, como foi publicado. Em Agosto de 1985, a um jornalista que lhe pedia notícias sobre o livro, Drummond respondeu-lhe que não tinha intenção de publicar os seus versos eróticos, receando que o leitor os considerasse pornográficos.

Na verdade, o volume já tinha sido publicado em 1981 numa edição reservada de apenas dois exemplares, um dos quais entregue ao escritor argentino Manuel Graña Etcheverry, crítico literário e genro do poeta. O outro exemplar foi submetido à apreciação de outros amigos e estudiosos, que o avaliaram com apreço, mas Drummond continuou a mantê-lo em silêncio.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Maria Rosa Colaço (1935-2004)*

A Maria Rosa foi-me apresentada pelo escritor Romeu Correia, seu vizinho em Almada. Foi uma amizade instantânea que começou, ainda nos anos 50, numa tarde de Inverno, no primeiro andar do café Avis nos Restauradores. Era uma rapariga bonita, inteligente, bondosa, calma, com a sabedoria alentejana do seu Torrão natal a cintilar-lhe nos olhos.

Sobre a nossa amizade, ela descreve, mencionando-a, o cenário em que decorreu em «O Amor Tem Tantos Nomes» (1998), lembrando aqueles anos cinzentos que a nossa juventude, irreverente e lutadora, conseguia colorir. Alta madrugada, cantávamos debaixo das janelas do Aljube, «Estupidamente, claro, porque os tiranos não se removem com canções nem falsos heroísmos, mas isso eu não, sabia porque aos dezoito anos só sabemos coisas importantes e únicas…», diz Maria Rosa.

Pediu-me que fizesse a apresentação deste livro, o que fiz com prazer em Oeiras, na livraria e galeria municipal Verney. Foi a penúltima vez que estivemos juntos. Falávamos muito pelo telefone. No ano seguinte sofri um acidente de automóvel que me deixou sequelas que se foram arrastando por quatro operações cirúrgicas, um ano quase fora do mundo e os seguintes de lenta recuperação. Pelo telefone, fui relatando a minha situação e segui a doença do marido, a excelente pessoa que o Malaquias de Lemos era, e depois a sua, dizendo que estava maluca quando me afirmava que morreria em breve. Ríamo-nos até às lágrimas quando dávamos conta de que estávamos só a falar de doenças.

sábado, 25 de dezembro de 2010

"Por uma simples questão de sensatez, não acredito em Deus. Em nenhum."

Carlos Loures


Não gosto do Natal. É uma época desagradável para mim. Não sou crente e, portanto, a face religiosa da festa, não me diz nada. Festa da família? A minha família não precisa de dias especiais para se reunir, nem de datas certas para manifestarmos os sentimentos que nos unem. Porém, não consigo fugir totalmente aos tentáculos do polvo comercial que, em Dezembro, esbraceja para sacar às pessoas em geral, crentes ou não, tudo o que possa.

E depois é o sortilégio da comida. Não gosto do Natal, mas gosto de algumas iguarias a ele associadas - a começar pelo bolo-rei. E assim, todos os anos nos reunimos no almoço dia 25. Em 1977, eu e minha mulher e os filhos, com os meus pais estávamos à mesa, embora já tivéssemos almoçado.

Ainda fumava e estava a contas com uma cigarrilha, acompanhado pelo meu pai que só fumava em ocasiões especiais. A televisão estava acesa, mas com o som desligado, e ninguém lhe prestava atenção. Começaram a dar filmes e fotografias do Charlot e pensámos que era mais um programa natalício. Porém, estranhámos a frequente intervenção do locutor que, com ar grave, falava entre os pequenos filmes que estavam a emitir. Como todos, dos mais novos aos mais velhos, éramos seus admiradores, subi o som. Então percebemos – Charles Chaplin tinha morrido.


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um histórico do fado coimbrão -Edmundo de Bettencourt

Carlos Loures

Conheci Edmundo de Bettencourt numa tertúlia, uma das muitas que existiam em Lisboa. Reunia esta nos fins de tarde no café Restauração da Rua 1º de Dezembro, no centro de Lisboa. Paravam por ali, além do jurista, poeta e cantor madeirense, o Alfredo Margarido (1928-2010), que viria a ser professor da Sorbonne e que  faleceu recentemente, o Manuel de Castro (1934-1971), um grande poeta quase desconhecido, às vezes, outro madeirense célebre, o Herberto Hélder. Mais raramente o Renato Ribeiro, com a sua mulher a Fernanda Barreira.
Ocasionalmente, algum «imigrante» vindo do Gelo – era só atravessar a rua e andar meia dúzia de metros.



Edmundo Bettencourt, para além de notável poeta e ímpar cantor do fado de Coimbra, era uma pessoa afável, muito cordial, com memórias muito interessantes do seu tempo de estudante - foi ele que me chamou a atenção para os "históricos" do fado coimbrão - o Augusto Hilário e o António Menano, do mago da guitarra , o Artur Paredes. Falou-me do Luís Goes e de um nome que, na altura, nada me disse - José Afonso -  que, na sua opinião, viiria a ser o cantor. Dada a sua modéstia, "esqueceu-se" de referir um histórico incontornável que se chamava Edmundo de Bettencourt.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Centenário Ricardo Carvalho Calero - Ainda não lhe foi feita justiça

Carlos Loures

Este ano de 2010, foi o ano das comemorações do centenário do Professor Ricardo Carvalho Calero (1910-1990), ano que está a chegar ao fim. Com júbilo, os que amam a Galiza, a sua língua, a sua cultura, puderam confirmar que há muitos galegos apostados em recuperar a subjugada identidade da sua Nação. Honrar a memória de Ricardo Carvalho Calero é uma das maneiras de o fazer.

Não sei se é oportuno ou se alguma coisa já se está a fazer nesse sentido, mas parece-me que deveria ser dirigiada uma petição à Real Academia Galega no sentido de em 2011 ser Ricardo Carvalho Calero a ser homenageado no dia das Letras Galegas. Porque é inacreditável que ainda não tenha sido escolhido. Na realidade para quem, como eu, está analisando a questão de fora, tendo apenas os dados disponíveis a toda a gente, torna-se incompreensível que a um homem como Ricardo Carvalho Calero que, inclusivamente, foi indigitado como presidente da Real Academia Galega, seja negada a homenagem que desde há dez anos lhe é proposta. Porquê?

Dia de Lisboa - evocação. Afonso X, Fiama Hasse Pais Brandão, João Zorro e Teresa Salgueiro.

Carlos Loures



Música: Afonso X
Letra: João Zorro
Concepção: Pedro Caldeira Cabral
Arranjo: Jorge Varrecoso Gonçalves e Vasco Azevedo


É também uma cantiga de amigo (marinha), de dístico de rima toante (í-o e á-o), com refrão composto de duas partes (uma intercalada entre o 1º e o 2º verso do dístico e a outra no final da estrofe): fala a donzela (namorada) da sua decisão ou desejo de ir ver o barco / navio, que o rei mandou preparar para uma missão e nela deseja partir com o seu amigo. É seu autor João Zorro, o jogral de Lisboa e do Tejo (viveu certamente durante o reinado de D. Dinis), e sobretudo das suas barcas, tão bem evocadas no século XX por Fiama Hasse Pais Brandão. Encontra-se registada nos cancioneiros B (Biblioteca Nacional, nº 1157) e V (Vaticana, nº 759):

En Lixboa, sobre lo mar

Barcas novas mandei lavrar.
Ai, mia senhor velida!


En Lixboa,, sobre lo ler
Barcas novas mandei fazer.
Ai, mia senhor velida!


Barcas novas mandei lavrar
E no mar as mandei deitar.
Ai, mia senhor velida!


Barcas novas mandei fazer
E no mar as mandei meter.
Ai mia senhor velida!



 Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)



Lisboa tem barcas novas





Lisboa tem barcas

agora lavradas de armas

Lisboa tem barcas novas
agora lavradas de homens


Barcas novas levam guerra
As armas não lavram terra


São de guerra as barcas novas
ao mar mandadas com homens


Barcas novas são mandadas
sobre o mar


Não lavram terra com armas
os homens


Nelas mandaram meter
os homens com a sua guerra


Ao mar mandaram as barcas
novas lavradas de armas


Barcas novas são mandadas
sobre o mar


Em Lisboa sobre o mar
armas novas são mandadas


Nota: Adriano Correia de Oliveira criou uma lindíssima versão musical deste tema. Não o encontrámos, no entanto, disponível.


Os dez mais - Academia Galega da Língua Portuguesa

Carlos Loures


Em 6 de Outubro de 2008 foi criada a Academia Galega de Língua Portuguesa, sediada em Santiago de Compostela e presidida pelo Professor José Martinho Montero Santalha. Segundo Montero Santalha, a criação da Academia corresponde a uma ideia do Professor Carvalho Calero que, na década de 80, concebeu o projecto de uma instituição que «mantivesse de modo inequívoco a unidade linguística da Galiza com os outros países de língua portuguesa». A cerimónia de fundação da Academia, de qual pudemos apreciar alguns dos momentos mais importantes no vídeo abaixo, realizou-se no Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago de Compostela. Foi apadrinhada pelos Professores Malaca Casteleiro e Artur Anselmo, da Academia das Ciências de Lisboa, pelo escritor moçambicano João Craveirinha (filho de José Craveirinha), pelo Professor Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta, pelo Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, pelo Professor Elías Torres Feijó, presidente da Associação Internacional de Lusitanistas e vice-reitor da Universidade de Santiago de Compostela, entre outros.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Fialho de Almeida - 3

(Conclusão)

O FIM - «FALANDO SOZINHO, COMO UM CONDENADO»


Fialho de Almeida «Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fora!», diz Raul Brandão. E continua: «Este, de ventre e barbicha de bode, esta figura de que os mortos se conseguiram apoderar, agarrado à terra, conservador, discutindo com o padre da freguesia os melhoramentos da sua igreja, este é – enfim! enfim! – o descendente autêntico dos cavadores alentejanos. Custou... As suas melhores obras – as que sonhou e nunca se resolveu a escrever – leva-as ele para a cova... De quando em quando ainda tem uma revolta: – É horrível a vida na aldeia. Se não fossem os livros, já me tinha suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e desta vida artificial de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com ninguém, não tenho ninguém com quem comunicar. São de bronze aqueles filhos da p...! E nem a mais pequena sombra de sensibilidade. E se imaginam que a gente não tem dinheiro, estamos perdidos!... – Fuja. – Não posso. Quem me há-de tratar daquilo? E, depois, criei interesse às oliveiras que plantei, à vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites em que pego num livro e saio. Há uma estrada em volta de Cuba – e eu ali ando à roda, toda a noite, a falar sozinho como um condenado!»

Os dez mais - Evento - Quatro momentos-chave do galego-português

Carlos Loures

Da forma atrabiliária que já denunciei, fui ziguezagueando pelos temas que dizem respeito ao idioma galego-português. Não esquecendo que o objectivo destes textos é o de determinar o momento chave de uma dada literatura. Em jeito de quem apanha pedaços dispersos, eu diria que houve três momentos chave na história do galego-português. Refiro-me à língua falada desde a Alta Idade Média nos territórios da antiga província romana da Gallaecia, uma variante neolatina ou, como diz com maior rigor científico Carvalho Calero, uma forma primitiva do romance hispânico ocidental. Forma que veio a resultar no galego-português (ou galaico-português).

Muito basicamente, descrevi, com a ajuda do Professor Villares, o momento da separação das duas partes irmãs, em que começou a deriva histórica e consequentemente a linguística. Deste período medieval há, quanto a mim, um primeiro evento assinalável - quando, no século XII, a poesia lírica produzida e escrita em galego-português, ultrapassando as suas fronteiras geográficas, chegava a Leão e Castela – as «Cantigas de Santa Maria», do rei Afonso X, o Sábio, foram escritas em galego-português.


Depois da separação política enquanto a agressão aculturante do castelhano começava o seu trabalho, a Sul do Minho a língua comum construía-se, enriquecia-se - Fernão Lopes, Gil Vicente, Sá de Miranda, Camões, para referir só alguns nomes, tiveram na criação da língua e na sua fixação em monumentos literários. E neste segundo ciclo da língua, há um segundo momento crucial quando Portugal, virando costas à Europa, se aventurou mar fora. Foi mercê dessa decisão e da política de navegações sonhada por D. Henrique e levada a cabo por D. João II, que começou a grandeza da língua, hoje falada por 240 milhões de pessoas em nove nações, sendo que a projecção demográfica para 2050 prevê que 350 milhões a falem.

Porém, ao longo de seis séculos de domínio estrangeiro, o galego fora invadido por castelhanismos, inquinado foneticamente e não só. Na Galiza o idioma parecia perdido. Mas não – no século XIX, com o Rexurdimento de Rosalía, Murguia, Pondal e tantos outros, a língua e a cultura galegas começaram a recuperar a sua identidade usurpada. Este renascer do amor pelo idioma, quando o galego estava já remetido à condição de dialecto rural do castelhano é, na minha opinião, o terceiro momento-chave na história da cultura galega.

Diria que estamos a viver um quarto momento-chave. Os filólogos portugueses e galegos (Manuel Rodrigues Lapa, Ricardo Carvalho Calero e muitos outros) criaram condições para que se pensasse na reintegração do galego na família da lusofonia. Do ponto de vista da ciência linguística não parece existir dúvida de que português e galego nasceram de uma mesma matriz. Podemos chamar por isso galego-português ao idioma que, sob duas formas dialectais, falamos lá e aqui. Reintegrar o galego no português ou o português no galego (chamo de novo a atenção para o excelente trabalho de Carlos Durão – “Síntese do reintegracionismo contemporâneo” – trabalho de grande envergadura, é uma das mais claras exposições sobre este tema que me tem sido dado ler). Mas que fique bem claro que quando se fala de reintegrar, não se fala de Portugal anexar politicamente a Galiza, mas sim do regresso do seu idioma à família a que nunca deixou de pertencer.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Fialho de Almeida - 2

(Continuação)

FIALHO FICCIONISTA. A «GUERRA» COM EÇA

Embora seja mais conhecido pela sua faceta de cronista panfletário, Fialho de Almeida é um admirável contista, tendo legado à literatura portuguesa algumas das mais belas páginas que nesse género se escreveram (como, por exemplo e entre muitos outros, A Ruiva, O Sineiro de Santa Ágata ou O violinista Sérgio num café da Mouraria, texto com que abre um dos panfletos do primeiro volume de Os Gatos). . Porém, usando sempre de uma extrema exuberância verbal, atinge esses momentos de grande beleza estilística, para logo a seguir usar uma linguagem eivada de galicismos (como diz Brandão, talvez apenas para seduzir alguns seus epígonos de café, os tais «noctâmbulos» que o escutavam e admiravam?). Por outro lado, alguns escritos seus raiam mesmo os limites do mau gosto e da grosseria (o que ocorre, nomeadamente, em numerosos textos de Os Gatos).

Como ele próprio reconhece, é um «prosador colérico», um crítico demolidor, impiedoso e, por vezes, excessivo e injusto. Terá sido o caso da sua polémica com Eça de Queirós. Costuma dizer-se que os críticos literários mais severos e implacáveis foram ou são, em geral, escritores frustrados. Esta, como todas, é uma generalização abusiva, pois Fialho deixou-nos das mais belas páginas da literatura do seu tempo, nomeadamente alguns dos seus contos. Não nos legou, porém, um só romance. As tentativas que fez nesse sentido saíram frustradas. Terá essa circunstância algo a ver com a violência com que analisa Os Maias?

Direcció de Josep Anton Vidal

Aquest espai, dedicat a tots els amics d'Estrolabio i, de manera molt especial, als que segueixen el nostre bloc des de les terres de parla catalana. Aquí parlarem de cultura lusòfona i de cultura catalana, i de les qüestions i els problemes que ens afecten als uns i als altres.

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Dos poemes de Carlos Loures


Parlem de paisatge
            "Però, com podíem cantar
            amb el peu estranger damunt el cor?"

                    Salvatore Quasimodo: "Giorno dopo Giorno"

Com vols que hi hagi flors, amic, en els meus versos,
com esperes garlandes i flors primaverals del meu poema?
Al meu voltant hi ha homes humiliats, infants
descalços i afamats, dones prenyades
treballant els camps. Com vols, amic,
que vegi aquest cel blau del qual em parles,
el sol etern, que canti la bellesa del paisatge
si el sofriment humà descoloreix les coses?
És cendrós el paisatge, color de cendra el cel,
per això els meus poemes són cendrosos i mancats de bellesa.
(És que és bella la fam?)
Sí, prou que ho sé, la poesia no és economia política,
i també sé humilment que malgrat els meus versos
tot seguirà cendrós... la nova albada
no la desvetllaran els meus poemes
ni tampoc els dels altres; però també sé prou
que la poesia ha de ser la veritat del poeta,
la manera que té d'explicar el món
i mirar de canviar-lo. És per això que et dic:
un dels dos s'equivoca, i estic segur que ets tu,
perquè em demanes una poesia que mai no podrà néixer
de qui vulgui restar fidel sempre al seu poble.
Quan el cel sigui blau, jo et prometo, amic meu,
que el meu vers ho dirà, i el poema serà per a mi com un lliri,
deixarà aquest color de llot, de sang.
Quan el cel sigui blau, amic meu,
abans no!


Volia un país de sol per a donar-te’l

Volia un país de sol per a donar-te’l
amb amants i amb infants als jardins,
amb ocells lliures cantant entre el brancatge
i la llum pels carrers en llibertat
–amb les coses als llocs que hem somiat
i no pas als indrets on ara són,
amb les armes carregades per guardar-les.
Un país on solquéssim les nítides albades
amb un somriure franc dibuixat a les cares.
Un país sense murs i sense pors,
ni segells a les cartes que escrivim,
ni orelles amatents al que ens diem,
secretament.
Però, amor meu, vam néixer massa d’hora,
i arribàrem encara a temps de viure
el temps que ara vivim
amb llàgrimes silents rere el somriure,
amb la ràbia amagada en les carícies
i una muda esperança empresonada
a dins dels nostres cors empresonats.
I vam ser a temps encara de sofrir
aquest temps que ara sofrim
dia a dia i que solquem
amb els besos vigilats,
amb els nostres secrets atalaiats,
i l'amor amputat i presoner
amb què estimem.
Amor meu, no desertem
del temps i del país en què hem nascut
(que viure un altre temps dins d’aquest temps
o ser estranys al país
sense sortir-ne
és també desertar).
Com que és aquest el temps que ens ha tocat,
com que és aquest el país que hem rebut,
ara hem de conquerir el sol que els il·lumini,
robant-lo del silenci i la mordassa
que ens ofega la veu – No desertem
–l’odi, la por, la mort
que fugin, que abandonin
si l’amor els ofèn i els amenaça.
–Tu i jo ens quedem!

Amb els companys
i amb l’amor dels companys,
l’amor serà més fort
que l’odi, que la por i que la mort.
La llum es fa també amb els nostres besos,
amb les paraules furtives que escrivim,
els mots que l’opressor no veu ni sent.
La llum es fa també amb els nostres fills,
ells banyen de llum nova
les ombres que ara amb l’odi s’han obert
enmig de les carícies, els besos, les paraules.
En ells s’aixecarà la llum d’un nou demà,
i aquesta llibertat empresonada al clos dels nostres cors
inundarà els carrers de sol,
amor meu.

            (Carlos Loures: O cárcere e o prado luminoso, LIsboa, 1990)

            (traducció de Josep A. Vidal)

domingo, 19 de dezembro de 2010




A homenagem ao velho poeta




Carlos Loures



No princípio daqueles anos 60 do século XX, apesar da boa e mítica reputação que a década viria depois a adquirir, as coisas eram muito diferentes do que hoje são e nem sempre a diferença era para melhor. As minorias étnicas ou religiosas, as mulheres, as crianças, os homossexuais, eram segregados de uma forma impiedosa e os seus direitos, mesmo aqueles que estavam consagrados na letra das leis, espezinhados com a cumplicidade de muitos progressistas e até, por vezes, de alguns dos lesados. Também se deve dizer, para sermos justos, que talvez nenhuma outra geração tenha feito tanto para derrubar tabus e preconceitos, barreiras e estúpidas ideias estratificadas ao longo de séculos e que tinham rastejado e sobrevivido a quase dois mil anos de cristianismo, às revoluções francesa e soviética, a um século de socialismo, a duas guerras mundiais, à proclamação de múltiplas independências em África e na Ásia, chegando quase intactos àquela época, aos famosos e progressistas anos 60.



Fialho de Almeida - 1

Carlos Loures


ENTRE EMPLASTROS E PÍLULAS



Quando em 1866, com apenas nove anos de idade, José Valentim Fialho de Almeida ruma a Lisboa a ideia da família é dar-lhe a possibilidade de estudar e de se formar a nível superior. Matriculado no Colégio Europeu, no Largo do Barão, ali frequenta os estudos regulamentares até 1872. Na sua Autobiografia, publicada em A Esquina, Fialho relata ter sido sempre um bom estudante, «uma criaturinha triste e sossegada», razões que se juntam ao facto de seu pai nunca o poder vir visitar e de, devido à sua pobreza, não poder mandar bons presentes ao director, para lhe valerem seis anos de privações e de maus tratos, suportados por uma «resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho», que pela vida fora irá ser, segundo ele, a sua independência e a sua força. Escutemos então a voz do próprio Fialho: «No meu tempo de colegial [...] a vida no internato era a seguinte. Erguíamo-nos da cama às cinco horas, Verão e Inverno, estudávamos até às oito, hora regulamentar do almoço [...] depois do que, entrávamos de novo nas salas de estudo, onde nos amesendávamos até às quatro da tarde [...] Quatro horas dadas, caligrafia durante hora e meia, e ia-se jantar.[...] Nas aulas. quase sempre fechadas, sem respiradouros, nem capacidade aérea, nem tiragem, havia constantemente um fétido morno a leite azedo [...] Os dormitórios eram no andar de cima dum prédio velho, grosseiramente adaptado à moradia de tamanha tropa de indivíduos [...] Os banhos raríssimos. Aos domingos de manhã, meia hora de ginástica em argolas e barras, não obrigatória, mas à vontade das famílias, que ainda nesse tempo, as da província sobretudo, consideravam a ginástica como um exercício de palhaços.»1 Mas, se, como por estas palavras se pode ver, as coisas já não estão a correr muito bem ao nosso jovem alentejano, elas irão ainda piorar. Em 1872, por se ter agravado a já de si precária situação económica da família, vê-se obrigado a abandonar o colégio. Tem 15 anos e arranja uma modesta colocação como praticante de farmácia numa lúgubre botica do Largo do Mitelo, perto do Campo de Santana. Aí vive sete anos a «apodrecer entre emplastros e pílulas». Diz ele: «Ninguém pode imaginar os tormentos que eu passei. Davam-me três horas aos domingos para oxigenar os pulmões cansados de respirar fedentinas de drogas e ervas podres; a minha alimentação era uma berundaga que sobrava do jantar da família do patrão, e que mal poderei comparar como nutriência e aspecto, às mais asquerosas pastas que os soldados distribuem nos quartéis, à pobralhada. Dormia num cacifro de seis palmos de largo por vinte de comprido e dez de altura, numa enxerga metida numa espécie de gaveta, que, que de manhã reentrava na parede, e da qual tanta vez pedi a Deus me talhasse o caixão onde acabar os meus grotescos males por uma vez. A baiuca onde eu praticava era tão velha, infecta, escura e desordenada, que ainda hoje me surpreendo da triunfância vital deste arcabouço que pôde resistir sete anos àquele inferno de ratos, pias rotas, miséria alimentícia, e rançuns de unguentos pré-históricos.»

sábado, 18 de dezembro de 2010

Guilherme de Azevedo(1839-1882) - IV

Carlos Loures




A alma nova / Guilherme d'Azevedo ;
 introdução e notas de Manuel Simões. -
Lisboa : Imprensa Nacional-Casa da Moeda,
 imp. 1981.
 Escritor «menor»?


Guilherme de Azevedo, no que se refere à opinião que dele faziam os seus coevos, foi estimado por Junqueiro (que ljhe dedicou a Velhice do Padre Eterno), por Magalhães Lima e por Bordalo, louvado por Antero e por tantos outros, exaltado por Ramalho e um pouco ridicularizado, diga-se, embora com algum carinho, pela pena ferina, cruelmente impiedosa, de Fialho de Almeida que, sendo ele próprio um «rapaz da província ao assalto da capital», parece não ter perdoado a Guilherme a sua ousadia de, vindo de Santarém, ter conquistado as colunas dos principais jornais de Lisboa e do País e de serem as suas crónicas lidas avidamente, os seus ditos e frases jornalísticas repetidos pelas mesas dos cafés e de ter sido convidado a fixar-se em Paris (que, na época, era por aqui considerada a capital do mundo, a fonte de todas as ideias e prodígios). Outros contemporâneos, que com ele conviveram e se cruzaram, manifestaram o seu respeito por este homem que as circunstâncias da vida tornaram amargo, mas que em vez de fel destilava pela sua pena um humor ácido, talvez, mas humor, em todo o caso.

É, pela generalidade dos investigadores e historiadores da literatura portuguesa (como, por exemplo, Mário Dionísio), considerado um «escritor menor». Porém, o que significa ser um escritor menor? Será que existe ou em algum tempo existiu uma medida objectiva que permita avaliar da grandeza ou da menoridade de quem cria? A esse respeito, voltamos a Manuel Simôes que, na introdução à edição de 1981 de A Alma Nova, nos diz:

«As razões por que a história das ideias e, de modo particular, a história da literatura, não conserva de um autor senão uma referência de segunda ordem são complexas e dependem muitas vezes de circunstâncias externas ao próprio movimento dos factos sociais, impostas como são por condicionamentos propositadamente desviantes da cultura progressista de um país. Compreende-se, por isso, que Guilherme d’Azevedo tenha sido um autor esquecido, ignorado pela feroz máquina repressiva que tem canalizado a cultura portuguesa, e posto no índex das figuras marginais da história das ideias precursoras do socialismo em Portugal.»

E, mais adiante: «Guilherme d’Azevedo, numa espécie de testamento poético» [...]«e acentuando a função social do seu verbo, manifesta a esperança de que alguns dos seus versos, pelo menos, «fiquem presos/como fios de luz, ao manto da Justiça!». Que um tal desiderato se cumpriu é coisa que mesmo o leitos de hoje poderá verificar e porventura ampliar com a perspectiva histórica que o tempo lhe coferiu; simultaneamente dar-se-á também conta de como tem sido injusto e injustificado o esquecimento duma figura que activamente participou na batalha da «geração de 70» e que, não obstante a evidência de elementos catalisadores (e sua colocação retórica) de gazetilha, foi a primeira voz com incidência na renovação da forma poética do último quartel do nosso século XIX.»


O fim

No dia 6 de Abril de 1882, quinta-feira de Endoenças, Bordalo Pinheiro dirige-se à Casa de Saúde Dubois, no Faubourg Saint-Denis, onde Guilherme está internado. No Março anterior um grupo de amigos o levara para lá. Uma enfermeira detém-o à entrada - o amigo está muribundo, avisa-o. De facto, no seu quarto, o poeta agoniza. Pouco depois, aparecem também, Tomás Lino de Assunção e o dramaturgo Eduardo Garrido. Guilherme tenta ainda comunicar com eles, estendendo-lhes dois dedos trémulos. Ao cabo de uma hora tudo está terminado. Bordalo modela-lhe em gesso a máscara mortuária. No sábado seguinte, seguido por um escasso grupo de amigos, faz-se o funeral. Descreve Fialho:

«Este enterro foi a mais triste coisa que se pode imaginar. Chovia, e os amigos do morto eram tão poucos! De sorte que no cemitério o préstito cerrava-se, fazendo-se ainda mais pequeno, por que não se perdesse naquela terra estrangeira esse calor da Pátria que vinha dos corações batendo de ansiedade. Cada qual lhe lançou então na cova a pá de terra consoante os ritos de amizade, e ouvia-se a voz do visconde de Faria dizer fanhosamente:
– Eu cá sempre o tive por uma pessoa ordinária: três anos em Paris, e nem sequer um cartão me foi deixar ao consulado!...»


Os seus restos mortais são trasladados para Portugal em 1887.

(Excerto de uma biografia publicada pelo autor em "Vidas Lusófonas")