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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Mata-Cães ou o criador e a criatura *

Carlos Loures


Em meados dos anos 80, entre as muitas coisas que fazia, tinha a meu cargo a leitura de originais de uma pequena editora – a Salamandra, do Bruno da Ponte e do Veiga Pereira. Como sempre acontece a quem tem essa responsabilidade, era obrigado a ler muitos textos sem qualquer interesse, sem qualidade e, portanto, sendo de gente desconhecida, sem qualquer viabilidade de edição. Fazia um pequeno relatório de leitura e depois os donos da editora tomavam as suas medidas.


Muito raramente, era surpreendido pelo aparecimento de textos que se distinguiam no meio desse amálgama de lixo produzido por infatigáveis escrevinhadores. Devo abrir um parêntesis para vos confessar que o ler grandes doses de má literatura, acaba por embotar a capacidade crítica. Começamos a ler um texto já com a ideia de que se vai ler mais uma pessegada. O pior é que quase sempre se acerta.


sábado, 18 de dezembro de 2010

Mário Pinto de Andrade, por Fernando Correia da Silva

CAFÉ CHIADO - Na Rua Garrett, em Lisboa, o Café Chiado é uma gruta mágica. Para além da estudantada, ali abancam os surrealistas Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neill e Mário Henrique Leiria. Também os artistas plásticos Ribeiro Pavia, João Abel Manta, António Alfredo, o escultor José Dias Coelho. E ainda dois pretinhos angolanos, o Agostinho Neto que estuda Medicina e o Mário Pinto de Andrade que estuda Filologia Clássica, juntamente com o seu irmão Joaquim. O Agostinho é cara de pau, estou em crer que os seus lábios jamais ameaçaram sorrir. Justamente o contrário do Mário, que dá tudo o que pode por uma boa gargalhada. A este faço a vontade. Estamos em Janeiro de 1951 e faz muito frio. Digo, para quem me queira ouvir:

- Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.


À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho, obviamente.

Insisto, quero verificar as diferenças até ao fim. Há um frequentador do Café, um homem de meia idade, com físico e cara de Buda. Tem um parafuso desapertado. Se ninguém lhe dá palavra, fica as tardes a contemplar uma chávena vazia de café. Chamo-lhe Sr. Engenheiro mas não sei se engenheiro ele é. Meto conversa, gosto das suas respostas que, normalmente, perdem o norte.

- Então, Sr. Engenheiro, onde é que foi ontem?
- Ontem fui à Feira Popular.
- Fazer o quê?
- Fui à montanha russa.
- E depois?
- Aquilo subiu, subiu, subiu e, lá no alto, parou.
- E depois?
- Depois começa a descer, a descer, a descer, ai que aflição.
- E depois?
- Depois chego cá abaixo e como um bife com batatas fritas.
Gargalhadas, o Mário mais que todos. O Agostinho continua impávido, rigidez.

Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:


- Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.


- Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro...


- A ver vamos se é mania ou intuição...

NEGROS CALÇADOS - Ainda no Café Chiado pergunto ao Mário por que não fez curso superior em Angola e ele responde-me que em Angola não há cursos superiores, por isso veio para Portugal.

- Mas isso, ó Mário, deve custar um dinheirão...
- Não te esqueças que eu sou descendente de negros calçados.
Fico atordoado com a resposta.
- De um lado pés descalços, do outro negros calçados? É isso?


- Sim, Fernando, é mais ou menos isso. Mas calçados, antes de tudo, porque faziam o comércio de longa distância, desde o Ngolungo Alto até Luanda. Os Andrade acabaram por ir viver em Luanda, embora mantivessem sempre o comércio com Ngolungo Alto. Assim capitalizámos recursos, não só económicos, mas também culturais. Somos dos primeiros a ser alfabetizados pelos padres católicos. A propósito: o meu irmão Joaquim já decidiu estudar para padre. Sim, Fernando, somos uma burguesia mas também somos os representantes do primeiro nativismo angolano.

PRAÇA DAS FLORES - Em minha casa, no bairro Alvalade, em Lisboa, mostro ao Mário alguns dos poemas que tenho escrito. Ele declara gostar dos versos porque mantêm uma estrutura tradicional apesar de abordarem temas sociais e políticos. Contudo, aconselha-me a ler os poetas medievais portugueses (que eu mal conheço...). Digo-lhe que vou comprar uma antologia. Ele acha bem, mas antes convida-me a ir a sua casa e eu vou. A sua “casa” é um quartinho numa rua que desagua na Praça das Flores. E o Mário lê-me, interpretando com gestos largos, poemas do Rei Sancho I, de Juan Zorro, de Torneol, de Codax, de Meogo, de Charinho, do Rei Afonso X, do Rei D. Diniz. Praça das Flores? Seja! Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! Ai Deus, e u é?


Na minha vida o vento sopra sempre às avessas. Um africano (tinha que ser um africano?) é quem me ensina a palmilhar as veredas do Cancioneiro Medieval Português...

CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO - Para mais facilmente vigiar os africanos que estudam em Lisboa, a ditadura salazarista funda uma associação: Casa dos Estudantes do Império. Tiro pela culatra! Assim concentrados, para os africanos mais evidentes se tornam as diferenças entre colonizadores e colonizados. Intervenções culturais, debates sucessivos, o nacionalismo negro a levantar fervura. Diz Amílcar Cabral, o guineense estudante de Agronomia:

- Vivo intensamente a vida e dela extraí experiências que me deram uma direcção, uma via que devo seguir, sejam quais forem as perdas pessoais que isso me ocasione. É necessário o regresso a África. Eis a razão de ser da minha vida.

Avança Agostinho Neto:

- É mais triste que espantoso que uma grande parte de nós, os chamados assimilados, não sabe falar ou entender qualquer das nossas línguas! E isto é tanto mais dramático quanto é certo que pais há que proíbem os filhos de falar a língua dos seus avós. É claro, quem conhece o ambiente social em que estes fenómenos se produzem e vê no dia a dia o desenvolvimento impiedoso do processo de “coisificação” não se admirará de tanta falta de coragem. Este desconhecimento das línguas que impede a aproximação do intelectual junto do povo cava um fosso bem profundo entre os grupos chamados assimilados e indígena.

E afirma o Mário Pinto de Andrade:

- Em contexto colonial, a assimilação traduz-se sempre na prática por uma destruturação social dos quadros negro-africanos e pela criação em número reduzido da elite assimilada. No caso português, a assimilação apresenta-se como uma receita (a única) que permite fazer sair o indígena, o negro-africano, das trevas da sua ignorância para entrar no santuário do saber. Uma forma da passagem do não-ser ao ser cultural, para empregar a linguagem de Hegel. O problema hoje é de saber como vai reagir o homem assimilado nessa situação artificial, parasitária de desenraizado. Como se vai afirmar? Fugindo do convívio com o indígena? Perdendo-se ao contacto com as luzes brilhantes da civilização? Aceitando e aprofundando a sua pseudo-condição de mestiço cultural?. Uma tarefa se impõe, a meu ver, no momento histórico que atravessamos, para responder justamente a essas interrogações, que é a de retomar, esquadrinhar no nosso passado as correntes de afirmação, da tomada de consciência, através de atitudes individuais e dos movimentos culturais que se foram desenvolvendo, diante do problema da cultura negro-africana e da assimilação.


Concentrados, os africanos agora querem “redescobrir” a África que era deles e deles deixou de ser...

CENTRO DE ESTUDOS AFRICANOS - Em 1950 um grupo de estudantes oriundos das colónias portuguesas funda um Centro de Estudos Africanos (CEA). Entre eles estão Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade e Agostinho Neto, os poetas são-tomenses Alda do Espírito Santo e Francisco José Tenreiro, e a poeta moçambicana Noémia de Sousa. Diz o Mário:

- Os objectivos do Centro de Estudos Africanos são os de racionalizar os sentimentos de se pertencer a um mundo de opressão e despertar a consciência nacional através de uma análise dos fundamentos culturais do continente.

O mesmo grupo, com os mesmos objectivos, profere idênticas palestras no Clube Marítimo.

CADERNO DE POESIA NEGRA - Com Francisco José Tenreiro organiza o Caderno de Poesia negra de Expressão Portuguesa.
 Em 1953 Francisco José Tenreiro e Mário Pinto de Andrade organizam e editam um Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa. Curiosamente, essa Caderno é dedicado a Nicolás Guillén. Porquê? Não tenho a certeza mas parece-me que foi por ter o cubano conseguido criar ritmos e sonoridades que infiltraram de negritude a língua castelhana. Portanto, bom exemplo para os africanos de língua portuguesa...

Ó Mário, entre os vários poemas reunidos no Caderno, escolho um teu em que se evidencia o drama do negro submetido ao colonialismo, o “contratado” para S. Tomé, drama que é preciso denunciar e expurgar.

CANÇÃO DE SALABU

Nosso filho caçula
Mandaram-no pra S. Tomé
Não tinha documentos
Aiué!
Nosso filho chorou
Mamã enlouqueceu
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho partiu
Partiu no porão deles
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Cortaram-lhe os cabelos
Não puderam amarrá-lo
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho está a pensar
Na sua terra, na sua casa
Mandaram-no trabalhar
Estão a mirá-lo, a mirá-lo
- Mamã, ele há-de voltar
Ah! A nossa sorte há-de virar
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho não voltou
A morte levou-o
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé

PRÉSENCE AFRICAINE - Em Janeiro de 1954, antes que a PIDE me deite a mão, dou o salto para o Brasil. E tu, Mário, dois ou três meses depois, suponho que pelos mesmos motivos, dás o salto para Paris.

Perco o contacto directo contigo mas, por vias terceiras, vou sabendo da tua vida.

Em 1955, sei que és redactor da revista Présence Africaine, e também o responsável pela organização do I Congresso de Escritores e Artistas Negros. Também sei que estás a estudar e te vais formar em Sociologia, na Sorbonne.


TASCHKENT - Ó Mário: em 1958, juntamente com Viriato da Cruz, tu representas Angola na I Conferência de Escritores Afro-Asiáticos, em Taschkent, na URSS.

MPLA - Com outros angolanos, em 1960 és um dos fundadores do clandestino Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de raiz marxista. Transferes a direcção do Movimento de Luanda para Conakry e levas os teus camaradas a votarem no Agostinho Neto (então preso em Portugal) para presidente honorário do MPLA. Presidente efectivo és tu e secretário-geral é o Viriato da Cruz.

Em 1961, depois da independência do Congo-Belga, tu e o Viriato transferem a direcção do MPLA para Leopoldville, porque assim ficam mais perto de Angola.

Em 1962 Agostinho Neto consegue fugir de Portugal e, em Leopoldville, assume a direcção do MPLA. Mas o seu autoritarismo, a sua mania de ser presidente, a sua rigidez, levam-te a pedir a demissão, ó Mário...

MAIS TRABALHOS - Mário: entre 1965 e 69 coordenas a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP); e de 1971 a 72 integras o Comité de Coordenação Político-Militar do MPLA na Frente Leste. Em 1973 és mandatado pelo mesmo Comité para organizar os textos políticos de Amílcar Cabral.

REVOLTA ACTIVA - Em 1974 tu, o teu irmão Padre Joaquim e muitos outros intelectuais angolanos opõem-se à liderança de Agostinho Neto dentro do MPLA, exigindo a democratização do regime. Esse movimento fica sendo conhecido como Revolta Activa. Em consequência, vocês todos são perseguidos ferozmente por Agostinho e seus fiéis.

- Batatada, mania ou intuição? - hei-de voltar a perguntar ao Alexandre O’Neill.

Mário: acabas por te exilar na Guiné-Bissau, onde assumes as funções de coordenador do Conselho Nacional de Cultura. Mais tarde serás até o próprio Ministro da Informação e Cultura, com a aprovação do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde).

REENCONTRO - Depois do 25 de Abril, já em 1975, sou incumbido de ir a Cabo Verde e Guiné-Bissau para tentar armar um esquema de cooperação com o meu condiscípulo e velho amigo Vasco Cabral, o homem da Economia da nova República.

O Vasco está provisoriamente instalado numa vivenda na marginal entre a cidade da Praia e a Prainha. Diz-me que ali também está instalado o Mário Pinto de Andrade. Ele a dizer-me isto e o Mário a aparecer. Olha para mim, hesita, sabe que me conhece mas não é capaz de me reconhecer. Compreende-se, já se passaram mais de 20 anos e as nossas feições, até o físico, mudaram, eu engordei e ele emagreceu. Ajudo, assopro:

- Um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela rua Garrett...

Desmanchas-te a rir, corres para mim, dás-me um grande e apertado abraço.

NINO VIEIRA - Na Guiné-Bissau, em 1980, João Bernardo “Nino” Vieira dá um golpe que depõe o presidente Luís Cabral (irmão de Amílcar). Consequências: Luís Cabral segue para Lisboa e o PAIGC cinde-se em dois, o PAICV (cabo-verdeano) e o PAIG (guineense). Tu, Mário, tal como muitos outros companheiros de luta, deixas a Guiné e aderes ao PAICV.


HISTÓRIA GERAL DE ÁFRICA - Durante toda a década de 80 tu, Mário, circulas entre Paris (a tua base), Lisboa, Moçambique e Cabo Verde. Trabalhas na pesquisa e elaboração de artigos e capítulos para a História Geral de África, obra em oito grossos volumes, projecto editorial de UNESCO. Trabalho colectivo a contribuir para uma melhor compreensão das sociedades e culturas africanas. Obra realizada por 350 autores sob a direcção de um comité científico integrado por 39 especialistas, dos quais 2/3 são africanos. Dada a sua importância para a humanidade, a obra é editada em inglês, em francês, em árabe e também em algumas línguas africanas.

NATIVISMO E ERRÂNCIAS - Dentro do espírito unitário da CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas) também pesquisas o nativismo e o proto-nacionalismo na Guiné, em Cabo Verde, em Angola, em S. Tomé e Príncipe e Moçambique. A tua pesquisa não é concluída mas será postumamente editada com revisão do texto por José Eduardo Agualusa.

Um, dois, três apartes: a convite do Governo de Moçambique ali permaneces entre fins de 83 e princípios de 84. Voltas ao Maputo em Abril de 85 para, juntamente com a socióloga Maria do Céu Carmo Reis, dares um curso de 3 meses na Universidade Mondlane sobre Ideologias da Libertação Nacional. Entre 87 e 89 permaneces em Moçambique por períodos intermitentes.

DOENÇA E MORTE - Problemas de saúde provocam o teu internamento no Hospital Egas Moniz, em Lisboa. Por decisão tua, do teu irmão Joaquim e da tua cunhada, em busca de melhoras segues depois para Londres. É tarde, nada a fazer. Ali morres a 26 de Agosto de 1990.

Ó Mário, saudades já tenho da tua forma de ser e estar!

(Excerto do trabalho publicado pelo autor em "Vidas Lusófonas")

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Verbarte - Padre Bartolomeu de Gusmão








Fernando Correia da Silva



Voar como bola de sabão..

Desenho fantasioso para descrever a Passarola e que nada terá a ver com a realidade.
 .

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1685: Nasce em Santos (Brasil). 1701: Embarca para Lisboa. 1705: Inventa bomba que eleva água. 1707: Inventa a drenagem de embarcações. 1709: Constrói a Passarola. 1716(?): Regista sistema de lentes para assar carne ao sol. 1724: Morre em Toledo.


Quadro de Calixto.
Ó Bartolomeu:


sei que nasceste em 1685 em Santos (Brasil). Sei que tu e Alexandre, o teu irmão, estudaram no seminário jesuíta de Belém da Cachoeira, na Bahia. Sei que tinhas 15 anos quando embarcaste para Portugal. Também sei que te formaste em direito religioso, em Coimbra. A Companhia de Jesus ordenou-te sacerdote, sei disso. Com 16 anos mudas-te para Lisboa e ali passas a estudar matemática e física mecânica. Esse teu súbito apetite pela ciência é que me deixa espantado, tanto mais que já és pregador famoso, capelão da Casa Real a convite d’El-rei D. João V.

Ó Bartolomeu:

Regressas a Salvador da Bahia. A tua cabecinha não pára, ânsia de fazer coisas; em 1705 inventas e constróis uma bomba que eleva do rio Paraguaçu para um reservatório lá no alto, a água necessária ao colégio de padres. E em 1707 inventas um sistema para bombear a água para fora do casco dos navios; ou seja: acabas de inventar a drenagem automática das embarcações.

Ó Bartolomeu:

Outra vez em Lisboa reparas que uma bola de sabão, ao passar sobre a chama de uma vela, é impelida para o alto. Ou seja: o ar quente tem poderosa força de ascensão. É quanto basta para quereres construir um aparelho de andar pelo ar. Levas o plano a El-rei D. João V. Ele apoia-te e tu constróis o primeiro balão de papel pardo montado sobre uma tigela onde arde fogo. Nada acontece, o balão não se move, acaba por incendiar-se. Mas o segundo balão, esse sim! Sobe até ao teto da Casa da Índia, onde está a ser feita a experiência. Espantados ficam El-rei, a Rainha, toda a Corte, também o núncio apostólico em Lisboa, futuro papa Inocêncio XIII.

Ó Bartolomeu:

Esse primeiro sucesso empurra-te para a aventura decisiva. Armas um imenso balão de seda impermeável e um recipiente com fogo. Por baixo, uma barcarola para ser tripulada. O gigantesco balão a que dás o nome de Passarola é lançado da parte alta para a parte baixa de Lisboa; melhor dizendo: do Castelo de São Jorge para o Terreiro do Paço. Um sucesso! Um aeróstato 74 anos antes daquele que os irmãos Montgolfier irão inventar em França.

Ó Bartolomeu:

Entre 1713 e 1716 viajas pela Europa. Na Holanda registas o teu sistema de lentes para assar carne ao sol. E depois vives em Paris, a trabalhar como ervanário.

Regressas a Portugal mas começas a ser perseguido pela Inquisição. Não só porque a Passarola é uma afronta aos desígnios de Deus, mas porque és amigo de alguns judeus e cristãos-novos. Dada a indiferença d’El-rei perante a perseguição, resolves fugir para Espanha. Em 1724 uma súbita doença atira-te para um hospital em Toledo. Deitado de costas numa das cama sonhas que arde e cai a Passarola, junto com ela morres tu; fantasia, realidade...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Arte poética: Fernando Correia da Silva, Carlos Pena Filho e José Luís Peixoto

Adicionar legenda

Fernando Correia da Silva
(Lisboa, 1931)
ADUNAR


Adunar na vertical é transformar o instinto em razão e esta naquele.
É conseguirmos ver o Invisível.
É usarmos de infravermelhos para localizar o Monstro agora diluído em estruturas canibais, omnipotência, omnipresença.
É sabermos detectar a tempo as suas teias e evitar nelas pousar.
É rasgarmos as suas máscaras, sejam elas lotes de acções ou abertura de caça ao preto e ao cigano.
É darmos valor à vida humana, em vez do preço que ele pretende atribuir-lhe.
É sermos indiferentes à diferença entre irmãos, homens que todos somos.
É não deixarmos que ele converta as nossas vidas num andar solitário por entre a gente.
É não deixarmos que ele transforme os homens em colónias de formigas.
É conseguirmos pôr no Soweto um pianista japonês a emocionar a assistência com um nocturno de Chopin.
É não deixarmos que tantos morram à fome enquanto permanecem terras férteis em pousio e há trigo acumulado nos celeiros.
É não consentirmos que as máquinas tomadas pelo Monstro nos deixem com a alma em desarrimo.
É não deixarmos que ele transforme o planeta em esgoto a céu aberto.
É não aceitarmos as gorjetas que ele oferece para olharmos para o outro lado.
É não deixarmos que nos atire para a lixeira.
É não consentirmos que o Direito Comercial lace, aperte, esmague e devore os Direitos do Homem.
É arrimar-nos a um tronco largo quando a jibóia ataca, comprimento ela não tem para laçar-nos juntamente com a árvore.
É puxarmos da catana e retalhá-la se ela insistir no ataque.
É dinamitarmos a digestão antropofágica do Labirinto.
É espantarmos os disciplinados cumpridores de ordens, os bandos de corvos sempre à espera da sua quota-parte de carniça.
É ensinarmos as gaivotas a cagar na cabeça de arrogantes e presunçosos.
É darmos um banho de lixívia aos engravatados distribuidores de paninhos e água quente.
É cravarmos malaguetas no umbigo do Dr. Prepotência, e outras, como flechas, no cu que o Dr. Banqueiro tem como cofre.
É nunca ficarmos de costas para os traidores que há na vida.
É estarmos sempre atentos às manobras do Piloto que elegemos.
É sabermos transformar as espadas em arados e as metralhadoras em berbequins.
É levarmos os mansos a possuir a terra.
É consolarmos os que choram.
É saciarmos os que têm fome e sede de justiça.
É acreditarmos que, embora Invisível, será ainda possível empurrar o génio do Santo Lucro para dentro da garrafa, como outrora acreditámos que era possível vencer o Hitler, mesmo quando todos, até os nossos filhos, garantiam que ele já era o rei do mundo.
_______________________

Carlos Pena Filho


(Recife, 1929 – 1960)


PARA FAZER UM SONETO



Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo, Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse;
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.

(O tempo da busca, 1952)


________________
 
José Luís Peixoto
(Galveias,  Ponte de Sôr, 1974)
 
ARTE POÉTICA




O poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.

(A Criança em Ruínas)


Às onze chegam  o Casimiro de Brito, a Augusta Clara de Matos e o Celso Emilio Ferreiro

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dia de Lisboa - LIa Gama, Fernando Correia da Silva e Almada Negreiros, falam dos cáfés de Lisboa

Fernando Correia da Silva diz-nos como era no Café Chiado



Na Rua Garrett, em Lisboa, o Café Chiado é uma gruta mágica. Para além da
estudantada, ali abancam os surrealistas Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neill e Mário Henrique Leiria. Também os artistas plásticos Ribeiro Pavia, João Abel Manta, António Alfredo, o escultor José Dias Coelho. E ainda dois pretinhos angolanos, o Agostinho Neto que estuda Medicina e o Mário Pinto de Andrade que estuda Filologia Clássica, juntamente com o seu irmão Joaquim. O Agostinho é cara de pau, estou em crer que os seus lábios jamais ameaçaram sorrir. Justamente o contrário do Mário, que dá tudo o que pode por uma boa gargalhada. A este faço a vontade. Estamos em Janeiro de 1951 e faz muito frio. Digo, para quem me queira ouvir:

- Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.

À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho, obviamente.

Insisto, quero verificar as diferenças até ao fim. Há um frequentador do Café, um homem de meia idade, com físico e cara de Buda. Tem um parafuso desapertado. Se ninguém lhe dá palavra, fica as tardes a contemplar uma chávena vazia de café. Chamo-lhe Sr. Engenheiro mas não sei se engenheiro ele é. Meto conversa, gosto das suas respostas que, normalmente, perdem o norte.

- Então, Sr. Engenheiro, onde é que foi ontem?
- Ontem fui à Feira Popular.
- Fazer o quê?
- Fui à montanha russa.
- E depois?
- Aquilo subiu, subiu, subiu e, lá no alto, parou.
- E depois?
- Depois começa a descer, a descer, a descer, ai que aflição.
- E depois?
- Depois chego cá abaixo e como um bife com batatas fritas.

Gargalhadas, o Mário mais que todos. O Agostinho continua impávido, rigidez.

Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:

- Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.
- Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro...
- A ver vamos se é mania ou intuição...

Era mesmo intuição. Anos depois, durante a guerra pela independência de Angola, o Mário e o Agostinho entraram num tal confronto que o Mário teve que emigrar para a Guiné-Bissau.


Almada Negreiros na sua tertúlia da Brasileira do Chiado



Para terminar, Lia Gama canta.nos os cafés de Lisboa. Ora aqui estão três versões coincidentes.


sábado, 16 de outubro de 2010

Fotopoemas - Viajantes do céu

Texto de Fernando Correia da Silva e

Fotografia de José Magalhães



Viajantes do céu resolvem pousar sobre a água e ao fundo o sol ilumina toda a cena.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Maratona Poética - O Fernando Correia da Silva, traz dois amigos - o Carlos Pena filho e o José Luís Peixoto.


Fernando Correia da Silva
(Lisboa, 1931)
ADUNAR


Adunar na vertical é transformar o instinto em razão e esta naquele.
É conseguirmos ver o Invisível.
É usarmos de infravermelhos para localizar o Monstro agora diluído em estruturas canibais, omnipotência, omnipresença.
É sabermos detectar a tempo as suas teias e evitar nelas pousar.
É rasgarmos as suas máscaras, sejam elas lotes de acções ou abertura de caça ao preto e ao cigano.
É darmos valor à vida humana, em vez do preço que ele pretende atribuir-lhe.
É sermos indiferentes à diferença entre irmãos, homens que todos somos.
É não deixarmos que ele converta as nossas vidas num andar solitário por entre a gente.
É não deixarmos que ele transforme os homens em colónias de formigas.
É conseguirmos pôr no Soweto um pianista japonês a emocionar a assistência com um nocturno de Chopin.
É não deixarmos que tantos morram à fome enquanto permanecem terras férteis em pousio e há trigo acumulado nos celeiros.
É não consentirmos que as máquinas tomadas pelo Monstro nos deixem com a alma em desarrimo.
É não deixarmos que ele transforme o planeta em esgoto a céu aberto.
É não aceitarmos as gorjetas que ele oferece para olharmos para o outro lado.
É não deixarmos que nos atire para a lixeira.
É não consentirmos que o Direito Comercial lace, aperte, esmague e devore os Direitos do Homem.
É arrimar-nos a um tronco largo quando a jibóia ataca, comprimento ela não tem para laçar-nos juntamente com a árvore.
É puxarmos da catana e retalhá-la se ela insistir no ataque.
É dinamitarmos a digestão antropofágica do Labirinto.
É espantarmos os disciplinados cumpridores de ordens, os bandos de corvos sempre à espera da sua quota-parte de carniça.
É ensinarmos as gaivotas a cagar na cabeça de arrogantes e presunçosos.
É darmos um banho de lixívia aos engravatados distribuidores de paninhos e água quente.
É cravarmos malaguetas no umbigo do Dr. Prepotência, e outras, como flechas, no cu que o Dr. Banqueiro tem como cofre.
É nunca ficarmos de costas para os traidores que há na vida.
É estarmos sempre atentos às manobras do Piloto que elegemos.
É sabermos transformar as espadas em arados e as metralhadoras em berbequins.
É levarmos os mansos a possuir a terra.
É consolarmos os que choram.
É saciarmos os que têm fome e sede de justiça.
É acreditarmos que, embora Invisível, será ainda possível empurrar o génio do Santo Lucro para dentro da garrafa, como outrora acreditámos que era possível vencer o Hitler, mesmo quando todos, até os nossos filhos, garantiam que ele já era o rei do mundo.
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Carlos Pena Filho


(Recife, 1929 – 1960)


PARA FAZER UM SONETO



Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo, Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse;
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.

(O tempo da busca, 1952)


________________
 
José Luís Peixoto
(Galveias,  Ponte de Sôr, 1974)
 
ARTE POÉTICA




O poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.

(A Criança em Ruínas)


Às onze chegam  o Casimiro de Brito, a Augusta Clara de Matos e o Celso Emilio Ferreiro

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Parabéns, Fernando!


Um dia ele chegou em casa com todos os longplay de histórias de criança. Ficava horas a fio deitada ao lado do toca-discos. Era sempre uma festa quando chegava com um presente. Um livro de origami, a colecção inteira do Sítio do Picapau Amarelo! E os livros da Giroflé!

Ele é o Fernando Correia da Silva que escreve a Maresia. Ele é o homem irreverente que não respeita a ordem vigente.

Ele é o Correia da Silva, o homem das Vidas Lusófonas. Ele é o Fernando, pai de três filhos. Com ele aprendi a sonhar!

Ele é o meu pai e faz hoje 79 anos.

Parabéns!
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O Estrolabio, em peso, associa-se a este voto da Ethel - Parabéns, Fernando. Conta muitos!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Patrão Lopes (Joaquim Lopes, salva-vidas: 1798 - 1890) - II

Fernando Correia da Silva

SALVA VIDAS DE BELÉM PARA PAÇO D'ARCOS


Em 1856 o Governo manda instalar um salva-vidas na estação fluvial de Belém. Embarcação a remos, leve porém robusta, muito mais do que a tua canoa de pesca. Contudo, durante os naufrágios na barra, continuas a ser o primeiro a chegar! Compreende-se: estás melhor localizado...

Em Fevereiro de 1858 a escuna inglesa British Queen encalha junto ao Bugio. Dada a violência do mar, com a tua canoa de pesca mal consegues aproximar-te. Com muita dificuldade salvas apenas o Comandante e um cãozinho que por ali andava a nadar aflito por entre as vagas. A propósito, dizes para os teus marinheiros:

- Aquele ali também tem vida e é o melhor amigo do homem...

sábado, 22 de maio de 2010

Apresentando Ethel Feldmnan


Ethel Feldman, nasceu em Outubro de 1954. Filha do escritor Fernando Correia da Silva e da pianista Rosa Feldman da Silva, Deixemo-la apresentar-se com palavras suas:

Com os pais aprendeu a viver.

Durante anos trocou as escalas e deu conta de que não herdara o talento da sua mãe. Com ela aprendeu que o dó se toca de infinitas formas – tantas quantas a vida ensina.
Com o pai ficou a saber que há quem junte letras e conte uma história. E as do pai eram sempre adoráveis.

Achou que o melhor era ser pintora. Mas a vida deu-lhes as voltas e nunca foi nem uma coisa nem outra. Ficaram um desenhos no armário. Ficou a vontade de ser.
Hoje escreve porque não sabe fazer bem outra coisa. Nunca editou. Nem sabe como isso se faz. Tem um blog, ganhou um prémio de contos e mais não conta porque o resto adivinha-se.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Enganos

Fernando Correia da Silva


René Magritte - Lovers
Anos e anos
de enganos
e assina
a sina
assassina:
coração à guilhotina!

sábado, 15 de maio de 2010

Um copo de vinho fresco




Fernando Correia da Silva

Um copo de vinho fresco
como um fresco pensamento.
Vinho fresco
teve o sol por fermento.
Um copo de vinho fresco
em Lisboa, Campolide.
Um amigo que foi morto
pela PIDE.
Um copo de vinho fresco,
consciência revoltada,
mecanismo tic-tac
de granada.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Morrer de sede



Navio de imigrantes - Lasar Segall (1939)

Fernando Correia da Silva


Estrangeiro que fui no meu país,
saltei fronteiras a tentar a sorte.
Estrangeiro que sou, perdi o norte,
corri o mundo, não deitei raiz.

É meu rasgado e velho passaporte
a sede antiga, esta cicatriz
queimadura que diz e contradiz
a pátria calcinada até à morte.

Mas torno sempre ao lar: fornalha, frágua,
cinzas e pedras sob cada ponte.
Orvalho, quando o há, é só de mágoa.

E quando exijo ao verde que desponte
e vem Abril abrir-se em olhos d'água,
vou eu morrer de sede ao pé da fonte.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Saudade


Fernando Correia da Silva


Ao longe, entre portas do desejo,
a aranha da saudade agora tece
a teia que te envolve e te adormece.
Partiste. Repartido me revejo
ave nocturna a debicar o nexo
contido nessa concha do teu sexo.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Homem lobo


Fernando Correia da Silva

O homem é lobo-fera,
nem sequer merece a vida..."
Quem o disse, lobo era,
ou carneiro suicida.
Quem não mete o dente em roubo
e não quer roubar-se à vida,
se não mata o homem-lobo
a si mesmo se liquida
porque dentro da razão
da humana condição
o tributo a dar à vida
é morte que lhe é devida.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Ali, além, acolá...

Fernando Correia da Silva

Ali, além, acolá,
só dinheiro é que não há.
Será tamanha a fartura
que ninguém jamais procura
ser dono de coisa alguma.
Por isso não se costuma
usar tranca ou cadeado,
apelar a magistrado,
condenar sem compaixão,
meter homem na prisão,
empurrá-lo para a guerra.
Onde fica essa terra?
Onde fica ou ficará?
Ali, além, acolá...

É povo, por natureza,
inclinado à gentileza.
Todos são donos de tudo
porque todos fazem tudo
para todos. Mais distingo
ser ali sempre domingo.
É festa continuada,
irmandade partilhada
entre homens e mulheres,
bem-te-quero, bem-me-queres,
sejam quais as gerações.
Desigual doutras nações
onde fica ou ficará?
Ali, além, acolá...

Arribado me quisera
ao país da Primavera.
Com a minha confraria
hei-de ali surdir um dia
sem daqui arredar pé.
Trocar eu quero o que é.
Porém ânsia desmedida
troca-me as voltas da vida
e comigo me deparo
solitário ao desamparo
a pregar neste deserto.
O azul é tão incerto...
Onde fica ou ficará?
Ali, além, acolá...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Apresentando Fernando Correia da Silva


Fernando Correia da Silva, escritor, nasceu em Lisboa no ano de 1931. Frequentou o curso Ciências Económicas e Financeiras e, ainda estudante, foi apoiante do general Norton de Matos nas eleições presidenciais de 1949. Militante do MUD Juvenil, foi preso pela polícia política. Foi amigo de outros escritores, tais como António José Saraiva, Mário Henrique Leiria, Alexandre O’Neill, Orlando Costa (seu padrinho de casamento) e muitos outros. Conviveu com políticos como Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Vasco Cabral.

Em 1954, perseguido pela PIDE foi para o Brasil como exilado político. Ali colaborou na Folha de São Paulo, tendo sido um dos fundadores do jornal antifascista Portugal Democrático. Com Jorge de Sena, Casais Monteiro, Sidónio Muralha, Fernando Lemos e escritores e artistas brasileiros como Maria Bonomi, Guilherme Figueiredo e Cecília Meireles, fundou em S. Paulo a GIROFLÉ, editora infantil. Em 1964 após o golpe militar no Brasil empregou-se numa indústria em Fortaleza do Ceará. Durante dois anos, viveu o Nordeste, onde a ostentação e a miséria viviam paredes meias.. Regressou a Portugal em 1974.

Tem uma obra essencialmente constituída por romances. Referimos os mais importantes: Mata-Cães (1986),, Lord Canibal (1989) Querença, (1996), Maresia, (1998) e Lianor (2000). Querença, o mais autobiográfico dos seus romances, foi passado ao cinema em 2004, com realização de Edgar Feldman. Desde 1998, Fernando Correia da Silva coordena Vidas Lusófonas, um site na Internet que já quase atingiu os 20 milhões de visitas.

Leão, que tenho dentro

Fernando Correia da Silva

Retirantes da zona temperada,
procurámos um sol mais africano
que desse, em cada tarde, perfumada,
a safra que é normal em cada ano.

Preciso viajar o corpo teu,
dobrar-te em curvaturas de felino,
alumiar o anjo que mordeu
o nosso corpo a corpo em desatino.

Leão, que tenho dentro, sai da jaula,
e a pata vai pousar em teu regaço.
Selvagem o amor em que te faço

aluna a revidar a minha aula.
Desnudas as lições que assim consomem
corpos opostos de mulher e homem.