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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Os Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 3 - por Sílvio Castro

Vossa Senhoria me deve consentir: eu sei que o vosso desejo agora é que eu conte todo o resto do encontro, mas creio que preciso visitar todas as minhas lembranças dos eventos, pois de repente já não sei se cheguei ou se estou ainda na viagem. Parece que estou ainda na navegação; é noite e na tolda da capitânea se representa um auto, com tochas e belos movimentos de cena. Como em geral acontecia com as festas do nosso Comandante, essa era muito bela. O auto‚ muito bem representado, com todos os aparatos, como se fosse num teatro de Lisboa. Vejo tudo como se ainda estivesse ali. Contando, é como se o tempo fosse um só e eu me sinto sempre em viagem. Pero Vaz acaba de me dizer que amanhã logo cedo baixaremos à terra, e em quanto o escuto, como fiz por muitas vezes na navegação, é como se navegasse junto com Pero Vaz. Ele, como eu, não é prático de navegação, mas é um homem sábio e logo o mar não lhe tem mais mistérios. Eu temo tudo, o abandonar da minha terra, o encontro com novas. Estou sempre por naufragar, mas sinto que nenhuma praia me poderá recolher das águas. Pero Vaz diz que devo ter esperança, pois tudo se acerta. Iremos até as Índias, lá criaremos uma vida, para maior glória do Rei nosso senhor. Tudo se acerta. Mas sinto que o meu naufrágio é certo, ainda que as palavras de Pero Vaz sejam boas. O mar é longo e estou preso nele. Olhe as estrelas, me diz Pero Vaz, como são belas e como nos indicam os caminhos. Preciso falar todas as noites com as estrelas, me diz Pero Escobar, pois as estrelas são ruas dentro do mar. O piloto maior fala muito assim com Pero Vaz.

domingo, 8 de agosto de 2010

Memorial do Paraíso, de Sílvio Castro - 8

Este é um posto que bem merece o nome de Porto Seguro. Lentamente todas as naves penetraram na enseada, seguindo as naus pequenas, guias seguras. Antes do entardecer já aqui estava toda a armada, formando um espetáculo de grande beleza, minha querida filha.

É uma alegria ver as velas assim amainadas nestas terras maravilhosas. Tudo isso te dá uma sensação de paz sem limites. A beleza da paisagem, o rigor dos verdes ramos densos, fazendo bosque logo na praia, a brancura das areias e o azul limpo dessas águas, junto com o monumental pacífico de nossas naves, tudo isso forma um espetáculo inesquecível. Queria que tu estivesses aqui, minha Maria, para poder gozar de tudo isso, assim como eu gozo e me deleito.

Estávamos assim, quando o Comandante mandou o piloto Afonso Lopes, homem vivo e competente, em um esquife para sondar o porto. Afonso Lopes assim o fez e mais ainda: trouxe a bordo dois daqueles mancebos que em meio a muitos outros estavam ali na praia e que em momento algum incomodaram os movimentos do piloto. Um dos jovens trazidos a bordo por Afonso Lopes conduzia consigo um arco e seis ou sete setas. Subido a bordo, e era já noite, Afonso Lopes conduziu os dois mancebos diante do Comandante.

O nobre Pedro Álvares Cabral recebeu os dois jovens sentado na sua cadeira de braços predileta. Sobre um estrado coberto por um tapete nos sentamos todos. Ao meu lado estava Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias; junto à cadeira do Comandante sentavam-se, de um lado e do outro, Sancho de Tovar e Simão Miranda. Aqui e ali os outros. Logo os dois jovens entraram, sem demonstrar nenhuma gesto especial de cortesia, tranqüilos, serenos, imutáveis na costumeira compostura. Não mencionaram nenhuma intenção de dirigir-se a qualquer pessoa em particular, nem mesmo ao Comandante.

sábado, 7 de agosto de 2010

Memorial do Paraíso, de Sílvio Castro - 7


FESTA PARA O PRÍNCIPE VENTUROSO.


ATO 6º

(A cena é a mesma do ato anterior, apenas diferente na luz do dia claro que cobre as naves portuguesas ancoradas definitivamente no porto seguro.

Grande é o movimento a bordo da nau-capitânea: marinheiros, soldados, homens de várias atividades, religiosos, correm e passam e tornam e giram numa azáfama sem fim. Pero Escolar, o grão-piloto dirige a vida de bordo. Num ângulo mais tranqüilo, Pedro Álvares Cabral conversa com os seus capitães. O Mensageiro passeia em meio a tanto movimento e lentamente se dirige para a parte aberta de cena.)

Escutai, Príncipe, escutai.

Muitas já são as novidades desses primeiros dias vividos no Vosso Paraíso. Esta é a voz do impávido Nicolau Coelho. O Comandante o mandara com um batel para fazer o primeiro reconhecimento da terra e ele desceu à praia com os seus homens enfrentando um mar que sempre, mais e mais, se encrespava, preanunciando a terrível noite de tempestade que ontem passamos. É a voz de Nicolau Coelho: "Então baixei, como me mandastes, Comandante, ao batel e corremos em direção da praia. De repente as ondas começaram a encrespar-se como se o mar quisesse nos colocar à prova, para ver da nossa coragem e sabedoria diante das dificuldades, depois de tanta bonança que sempre nos acompanhou nessa navegação. O batel saltava nos costados das ondas e eu gritava aos meus marinheiros para que não cedessem. Mais lutávamos e mais as ondas se alargavam e se faziam violentas. Não tantos eram aqueles metros que nos separavam da praia, mas muitas eram as insídias das águas. Porém, lutávamos sem tréguas ou temores. Eu gritava sempre as minhas ordens e as ondas nos cobriam, passavam, retornavam, recobriam e nós sempre avante, remos tesos, na direção da praia. Depois de muito lutar, já agora a praia se avizinhava. Quando a avistamos acerca de nós, próximos da foz do pequeno rio para o qual nos dirigíamos, vimos sete, oito homens. Eram certamente vinte. Caminhavam pela praia, e mais nos aproximávamos, mais eles entravam pelo mar ao nosso encontro. Eram vinte jovens mancebos, fortes, altos, de bela presença, pardos de pele, todos nus. Às m„os traziam arcos e flechas. Em meio ao estrepitar das ondas eu lhes gritei, fazendo sinal que pousassem os arcos. E assim eles fizeram".