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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Os anos de chumbo e a Frente Ampla ( Aquarela do Brasil)

Carlos Loures

Nesta série de crónicas sobre a história recente do Brasil, de que há dias publiquei o primeiro, cobrindo o período que vai desde o fenómeno getulista até à chamada «redemocratização», não contem com relatos muito bem ordenados – são textos escritos ao sabor da memória (e dos apontamentos). Embora, tendo muito gosto em que os brasileiros me leiam, é sobretudo aos outros leitores de língua portuguesa que dirijo estas reflexões – os brasileiros, de uma forma geral, saberão tudo isto muito melhor do que eu. Muitos deles, os mais velhos, viveram estes dolorosos, difíceis,  "anos de chumbo" de que falo. Que lhes posso eu dizer de novo?


Se quisermos fixar o momento em que a galopada da direita começou, teríamos de recuar até 1961, quando o presidente Jânio Quadros renunciou ao mandato no próprio ano em que foi empossado, O Vice-presidente, João Goulart assumiu a Presidência, de acordo com o quadro constitucional em vigor. No momento da renúncia de Jânio Quadros, Goulart encontrava-se em visita de Estado à China, o que levou os adversários a impedir a sua nomeação automática como presidente da República, acusando-o de ser comunista. Se estava de visita a um estado comunista é porque era comunista. Não vos parece óbvio? Não? A mim também não. Mas para os adversários de Jango era-o. Conclusão muito conveniente, pois a Constituição brasileira, aprovada em 1946, impedia o acesso de comunistas ao cargo presidencial.

Seguiu-se uma demorada ronda de negociações, em que Leonel Brizola (cunhado de Jango) teve um papel preponderante. Essas diligências possibilitaram que Goulart acabasse por ser aceite como presidente.
 Em 1963, um plebiscito determinou o regresso ao regime presidencialista e, mercê dessa nova moldura jurídico-institucional, Jango pôde enfim assumir o cargo com amplos poderes. Tudo parecia estar resolvido.

Porém, as coisas voltaram a complicaram-se quando militares de baixa patente, sobretudo da Marinha e da Aeronáutica, manifestaram publicamente o seu apoio ao Presidente. A direita logo  considerou que esse apoio era feito devido ao resvalamento de João Goulart para posições e medidas esquerdistas ou esquerdizantes.

Dizia-se mesmo que estaria prestes a desencadear um golpe antidemocrático para impor um governo radical de esquerda; outros falavam na perspectiva de uma ditadura inspirada no justicialismo ou peronismo da Argentina, levando a que as classes possidentes e os políticos mais conservadores se sentissem ameaçados.