Mostrar mensagens com a etiqueta joão cabral de melo neto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta joão cabral de melo neto. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010


As Nuvens

João Cabral de Melo Neto





As oito da manhã, aqui no Estrolabio, é a hora da poesia. Hoje é a vez de um grande poeta brasileiro – João Cabral de Melo Neto (1920 —1999) .

Da sua colectânea O Engenheiro (1945),

As Nuvens



As nuvens são cabelos

crescendo como rios;

são os gestos brancos

da cantora muda;



são estátuas em voo

à beira de um mar;

a flora e a fauna leves

de países de vento;



são o olho pintado

escorrendo imóvel;

a mulher que se debruça

nas varandas do sono;



são a morte (a espera da)

atrás dos olhos fechados

a medicina, branca!

Nossos dias brancos.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Arte poética: Manuel Simões, João Cabral de Melo Neto e Salvador Espriu

Manuel Simões

(Jamprestes, Ferreira do Zêzere, 1933)


TEORIA DA COMPOSIÇÃO



O artífice imerge
As mãos na matéria
Avulsa a transformar.

Sem artifício investe
o próprio corpo no acto
preciso de plasmar.

Do ofício extremo
Resta o resíduo: densa
e intensa arte de amar.

(Micromundos, Lisboa, 2005)

_______________________
 
João Cabral de Melo Neto
(Rio de Janeiro, 1920-1999)


CATAR FEIJÃO
1.

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

(A Educação pela pedra, 1965).

_______________________



Salvador Espriu
(Santa Colomba de Farners,1913 - Barcelona, 1985)


LES PARAULES


Hi ha tristesa darrera
les paraules, lents carros
en corrua que porten
runa de tu, molt tedi
de tarda de diumenge,
temor de dany. Se’t tanquen
llibres i amics, els llavis
de les coses. Malèvols
aprenents d’homes grisos
t’encalcen per difícils
retorns a Déu. Intentes
amagar-te ben dintre
del teu hivern, on puguis
amb tants records encendre
l’últim foc. Després mires
amb ulls ja buits i penses
a dormir. Però encara,
a les palpentes, vénen
ferida porcellana,
nocturna seda, i trenques,
des d’una aigua profunda,
veus d’oblidats, intacte
vidre vell de paraules.


Ouçamos agora Raimon cantar um outro poema de Salvador Espriu:
"He mirat aquesta terra"






 

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Terreiro da Lusofonia - João Cabral de Melo Neto e Chico Buarque


João Cabral de Melo Neto, foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Nasceu no Recife em 1920 e morreu no Rio de Janeiro em1999. Diplomata de profissão, a sua poesia caracterizou-se por um grande rigor formal, pela utilização de vocábulos que sugeriam secura, parcimónia e austeridade . Membro da Academia Brasileira de Letras, recebeu com vários prémios literários. Foi apontado como candidato ao Prémio Nobel.

As suas principais obras foram:
Pedra do Sono (1942); Os Três Mal-Amados (1943);O Engenheiro (1945); Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode (1947); O Cão sem Plumas (1950);O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade do Recife (1954);Dois Parlamentos (1960);Quaderna (1960);A Educação pela Pedra (1966);Morte e Vida Severina (1966);Museu de Tudo (1975);A Escola das Facas (1980);Auto do Frade (1984);Agrestes (1985);Crime na Calle Relator (1987);Primeiros Poemas (1990);Sevilha Andando (1990).

Morte e Vida Severina é uma das suas obras mais conhecidas. Chico Buarque de Holanda, musicou-a. No vídeo, podemos ouvir um excerto desse trabalho do então jovem músico em torno do poema de João Cabral de Melo Neto.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Maratona Poética - Olha, o Manuel Simões traz o João Cabral de Melo Neto e o Salvador Espriu

Manuel Simões

(Jamprestes, Ferreira do Zêzere, 1933)


TEORIA DA COMPOSIÇÃO



O artífice imerge
As mãos na matéria
Avulsa a transformar.

Sem artifício investe
o próprio corpo no acto
preciso de plasmar.

Do ofício extremo
Resta o resíduo: densa
e intensa arte de amar.

(Micromundos, Lisboa, 2005)

_______________________
 
João Cabral de Melo Neto
(Rio de Janeiro, 1920-1999)


CATAR FEIJÃO
1.

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

(A Educação pela pedra, 1965).

_______________________



Salvador Espriu
(Santa Colomba de Farners,1913 - Barcelona, 1985)


LES PARAULES


Hi ha tristesa darrera
les paraules, lents carros
en corrua que porten
runa de tu, molt tedi
de tarda de diumenge,
temor de dany. Se’t tanquen
llibres i amics, els llavis
de les coses. Malèvols
aprenents d’homes grisos
t’encalcen per difícils
retorns a Déu. Intentes
amagar-te ben dintre
del teu hivern, on puguis
amb tants records encendre
l’últim foc. Després mires
amb ulls ja buits i penses
a dormir. Però encara,
a les palpentes, vénen
ferida porcellana,
nocturna seda, i trenques,
des d’una aigua profunda,
veus d’oblidats, intacte
vidre vell de paraules.


Ouçamos agora Raimon cantar um outro poema de Salvador Espriu:
"He mirat aquesta terra"






Sabem quem chega às sete? - Rosa Alice Branco que traz "só" o Carlos de Oliveira e o Paul Verlaine.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

"Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto e Chico Buarque no Terreiro da Lusofonia


João Cabral de Melo Neto, foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Nasceu no Recife em 1920 e morreu no Rio de Janeiro em1999. Diplomata de profissão, a sua poesia caracterizou-se por um grande rigor formal, pela utilização de vocábulos que sugeriam secura, parcimónia e austeridade . Membro da Academia Brasileira de Letras, recebeu com vários prémios literários. Foi apontado como candidato ao Prémio Nobel.

As suas principais obras foram:
Pedra do Sono (1942); Os Três Mal-Amados (1943);O Engenheiro (1945); Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode (1947); O Cão sem Plumas (1950);O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade do Recife (1954);Dois Parlamentos (1960);Quaderna (1960);A Educação pela Pedra (1966);Morte e Vida Severina (1966);Museu de Tudo (1975);A Escola das Facas (1980);Auto do Frade (1984);Agrestes (1985);Crime na Calle Relator (1987);Primeiros Poemas (1990);Sevilha Andando (1990).

Morte e Vida Severina é uma das suas obras mais conhecidas. Chico Buarque de Holanda, musicou-a. No vídeo, podemos ouvir um excerto desse trabalho do então jovem músico em torno do poema de João Cabral de Melo Neto.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Poemas de que gostamos



As oito da manhã, aqui no Estrolabio, é a hora da poesia. Vamos hoje dar início a uma série de poemas de que gostamos. Começamos com um grande poeta brasileiro – João Cabral de Melo Neto (1920 —1999) .

Da sua colectânea O Engenheiro (1945),

As Nuvens



As nuvens são cabelos

crescendo como rios;

são os gestos brancos

da cantora muda;



são estátuas em voo

à beira de um mar;

a flora e a fauna leves

de países de vento;



são o olho pintado

escorrendo imóvel;

a mulher que se debruça

nas varandas do sono;



são a morte (a espera da)

atrás dos olhos fechados

a medicina, branca!

Nossos dias brancos.