O artífice imerge
As mãos na matéria
Avulsa a transformar.
Sem artifício investe
o próprio corpo no acto
preciso de plasmar.
Do ofício extremo
Resta o resíduo: densa
e intensa arte de amar.
(Micromundos, Lisboa, 2005)
_______________________
João Cabral de Melo Neto (Rio de Janeiro, 1920-1999)
CATAR FEIJÃO
1.
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
2.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.
(A Educação pela pedra, 1965).
_______________________
Salvador Espriu (Santa Colomba de Farners,1913 - Barcelona, 1985)
LES PARAULES
Hi ha tristesa darrera
les paraules, lents carros
en corrua que porten
runa de tu, molt tedi
de tarda de diumenge,
temor de dany. Se’t tanquen
llibres i amics, els llavis
de les coses. Malèvols
aprenents d’homes grisos
t’encalcen per difícils
retorns a Déu. Intentes
amagar-te ben dintre
del teu hivern, on puguis
amb tants records encendre
l’últim foc. Després mires
amb ulls ja buits i penses
a dormir. Però encara,
a les palpentes, vénen
ferida porcellana,
nocturna seda, i trenques,
des d’una aigua profunda,
veus d’oblidats, intacte
vidre vell de paraules.
Ouçamos agora Raimon cantar um outro poema de Salvador Espriu:
"He mirat aquesta terra"
João Cabral de Melo Neto, foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Nasceu no Recife em 1920 e morreu no Rio de Janeiro em1999. Diplomata de profissão, a sua poesia caracterizou-se por um grande rigor formal, pela utilização de vocábulos que sugeriam secura, parcimónia e austeridade . Membro da Academia Brasileira de Letras, recebeu com vários prémios literários. Foi apontado como candidato ao Prémio Nobel.
As suas principais obras foram: Pedra do Sono (1942); Os Três Mal-Amados (1943);O Engenheiro (1945); Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode (1947); O Cão sem Plumas (1950);O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade do Recife (1954);Dois Parlamentos (1960);Quaderna (1960);A Educação pela Pedra (1966);Morte e Vida Severina (1966);Museu de Tudo (1975);A Escola das Facas (1980);Auto do Frade (1984);Agrestes (1985);Crime na Calle Relator (1987);Primeiros Poemas (1990);Sevilha Andando (1990).
Morte e Vida Severina é uma das suas obras mais conhecidas. Chico Buarque de Holanda, musicou-a. No vídeo, podemos ouvir um excerto desse trabalho do então jovem músico em torno do poema de João Cabral de Melo Neto.
O artífice imerge
As mãos na matéria
Avulsa a transformar.
Sem artifício investe
o próprio corpo no acto
preciso de plasmar.
Do ofício extremo
Resta o resíduo: densa
e intensa arte de amar.
(Micromundos, Lisboa, 2005)
_______________________
João Cabral de Melo Neto (Rio de Janeiro, 1920-1999)
CATAR FEIJÃO
1.
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
2.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.
(A Educação pela pedra, 1965).
_______________________
Salvador Espriu (Santa Colomba de Farners,1913 - Barcelona, 1985)
LES PARAULES
Hi ha tristesa darrera
les paraules, lents carros
en corrua que porten
runa de tu, molt tedi
de tarda de diumenge,
temor de dany. Se’t tanquen
llibres i amics, els llavis
de les coses. Malèvols
aprenents d’homes grisos
t’encalcen per difícils
retorns a Déu. Intentes
amagar-te ben dintre
del teu hivern, on puguis
amb tants records encendre
l’últim foc. Després mires
amb ulls ja buits i penses
a dormir. Però encara,
a les palpentes, vénen
ferida porcellana,
nocturna seda, i trenques,
des d’una aigua profunda,
veus d’oblidats, intacte
vidre vell de paraules.
Ouçamos agora Raimon cantar um outro poema de Salvador Espriu:
"He mirat aquesta terra"
Sabem quem chega às sete? - Rosa Alice Branco que traz "só" o Carlos de Oliveira e o Paul Verlaine.
João Cabral de Melo Neto, foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Nasceu no Recife em 1920 e morreu no Rio de Janeiro em1999. Diplomata de profissão, a sua poesia caracterizou-se por um grande rigor formal, pela utilização de vocábulos que sugeriam secura, parcimónia e austeridade . Membro da Academia Brasileira de Letras, recebeu com vários prémios literários. Foi apontado como candidato ao Prémio Nobel.
As suas principais obras foram: Pedra do Sono (1942); Os Três Mal-Amados (1943);O Engenheiro (1945); Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode (1947); O Cão sem Plumas (1950);O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade do Recife (1954);Dois Parlamentos (1960);Quaderna (1960);A Educação pela Pedra (1966);Morte e Vida Severina (1966);Museu de Tudo (1975);A Escola das Facas (1980);Auto do Frade (1984);Agrestes (1985);Crime na Calle Relator (1987);Primeiros Poemas (1990);Sevilha Andando (1990).
Morte e Vida Severina é uma das suas obras mais conhecidas. Chico Buarque de Holanda, musicou-a. No vídeo, podemos ouvir um excerto desse trabalho do então jovem músico em torno do poema de João Cabral de Melo Neto.
As oito da manhã, aqui no Estrolabio, é a hora da poesia. Vamos hoje dar início a uma série de poemas de que gostamos. Começamos com um grande poeta brasileiro – João Cabral de Melo Neto (1920 —1999) .
Adão Cruz
Alexandra Pinheiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Marques
António Mão de Ferro
António Sales
Augusta Clara de Matos
Carla Romualdo
Carlos Antunes
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Moreira de Sá
Fernando Pereira Marques
Hélder Costa
João Machado
José Brandão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Moreira
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Maria Inês Aguiar
Paulo Melo Lopes
Paulo Rato
Pedro Godinho
Raúl Iturra
Rui de Oliveira
Sílvio Castro