O QUE FOI SEPULTADO
Miguel de Unamuno
A mudança de comportamento sofrida pelo meu amigo, era extraordinária. Um rapaz jovial, espirituoso e despreocupado, transformara-se num homem tristonho, taciturno e excessivamente escrupuloso. Eram frequentes os seus momentos de abstracção e, durante esses momentos dir-se-ia que o seu espírito viajava por caminhos de outro mundo. Um dos nossos amigos, leitor e decifrador assíduo de Browning, recordando a estranha composição em que este nos fala da vida de Lázaro depois de ressuscitado, costumava dizer que o pobre Emilio visitara a morte. E fizemos todas as diligências para adivinhar a causa daquela misteriosa mudança de feitio; mas foram diligências infrutíferas.
Contudo, de tal modo e com tal insistência o assediei que, finalmente, um dia, deixando transparecer o esforço que custa tomar uma resolução difícil e muito reprimida, subitamente me disse: «Pois bem, vais saber o que me aconteceu, mas exijo que, por tudo o que te seja mais sagrado, não o contes a ninguém enquanto eu não tiver voltado a morrer.» Prometi-lho com toda a solenidade e levou-me à sua sala de estudo, onde nos fechámos.
Depois da sua transformação, eu não voltara a entrar naquela divisão. Nada fora modificado, embora agora me parecesse mais em consonância com o dono. Por momentos pensei que fora aquela sua salinha preferida que o transformara de forma tão surpreendente. A sua velha e ampla poltrona de couro, com os seus grandes braços, pareceu-me assumir um novo sentido. Estava a examiná-la quando Emilio, depois de ter fechado cuidadosamente a porta, me disse, apontando o cadeirão:
- Foi ali que tudo aconteceu.