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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Uma polémica surrealista

Carlos Loures

Em 1965 tive uma polémica com Mário Cesariny de Vasconcelos que me valeu a excomunhão do movimento surrealista. Cerca de dois anos antes, enviara ao Jornal de Letras e Artes, de Azevedo Martins, uma série de artigos sob o título «Demónios do Absurdo». Neles, em prosa surrealizante, exaltava figuras como as de Alfred Jarry, Jean-Arthur Rimbaud e Isidore Ducasse, Comte de Lautréamont, todos eles precursores do movimento lançado em 1924 pelo manifesto redigido por André Breton. O jornal não publicou nem (contra o que era habitual) me devolveu os textos. Protestei, não me responderam e eu esqueci o assunto. Até porque me envolvi numa alhada política que, em Janeiro de 1965, me levou à prisão. A polícia supunha-me um passarão importante, abusou dos esquemas habituais de «persuasão» e, depois, desiludida, vendo que não tinha «matéria» para me levar a tribunal, ao fim de três meses pôs-me na rua. Na realidade, eu era um elemento sem qualquer importância – distribuíra uns panfletos com a prosa do «Chico» Martins Rodrigues, recolhera uns fundos e pouco mais.

domingo, 25 de julho de 2010

Natália - uma deusa em Alfama


Carlos Loures


Diz Mário Cesariny de Vasconcelos, entrevistado por Carlos Câmara Leme para o Público, em Março de 2003: «A primeira vez que vi a Natália Correia foi no São Carlos. Eu estava na galeria ela no segundo balcão. Quando? Ui! Aí pelos anos 1950. Apesar de já não ter muito afecto a senhoras, ia caindo para o lado do espectáculo de beleza que ela apresentava. Era quase extra-humana, era muito mais linda que a mais bela estátua feminina do Miguel Ângelo. Era uma coisa impressionante. Mas era também uma mulher de um desdém muito grande. Cheguei a julgá-la assexuada ou frígida mas parece que não era bem isso…». Isto, atenção, foi o Cesariny quem disse ( e quando Cesariny diz «parece que não era bem isso», está a dizer que a Natália, ao contrário do Mário, tinha bastante afecto a senhoras). Agora a minha história.

Andava por Alfama numa véspera de Santo António. Foi, salvo erro em 1958. Estava com um grupo de frequentadores do Gelo. Subitamente, num daqueles pequenos largos onde afluem estreitas ruas medievais, surgiu uma deusa. Como costuma acontecer quando contactamos divindades, fiquei siderado ou como disse o Cesariny, ia caindo para o lado. Havia um coreto com músicos, um céu de bandeirinhas e flores de papel colorido, fumo de sardinhas assadas… – o Santo António , mas tudo isso se esfumou e ali estava eu feito estátua olhando a deusa que se aproximava. E vinha na minha direcção. Vi que não vinha sozinha, um homem trigueiro, de bigodes escuros, vestido muito formalmente, acompanhava-a. Nem o vi. Deixem-me descrevê-la: não era muito alta, de formas generosas, sem sombra de obesidade, um rosto oval onde luziam dois olhos escuros, de um brilho ironicamente inteligente. Linda, se é que me entendem.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A Pirâmide


Grupo Surrealista de Lisboa -I (Exposição dos Surrealistas, Junho/Julho, 1949).
Na foto, da esquerda para a direita: Henrique Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa e Fernando Alves dos Santos.

Carlos Loures

A revista «Pirâmide» da qual, entre Fevereiro de 1959 e Dezembro de 1960, se publicaram três números, e da qual fui um dos coordenadores, teve uma história curta, mas atribulada. Na Primavera de 1958, passei a frequentar o Café Gelo, onde se reunia o grupo dos surrealistas, com figuras como Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Raul Leal, António José Forte, Ernesto Sampaio, Virgílio Martinho e tantos outros, surrealistas ou não. Havia os que não eram tão assíduos, como o João Vieira, o Gonçalo Duarte, o Mário Henrique Leiria, o Manuel D’Assumpção e muitos outros.

Participara na edição de um «poema-manifesto» - “O Menino que não saltou a Cancela”, coisa incipiente, reflectindo a confusão que me ia na cabeça: leituras apressadas, de Marx, Sartre, Breton, alguma determinação antifascista e pouco mais. Porém, o opúsculo serviu de cartão de ingresso naquela tertúlia tão elitista como permissiva. Bastava ser-se um pouco louco, ou mesmo apenas fingi-lo, para se ser aceite. A figura dominante era Cesariny, que funcionava como aglutinador de personalidades tão diferentes como Luiz Pacheco, Herberto Hélder, Raul Leal, Manuel de Castro, António José Forte, Ernesto Sampaio e outros. O deus tutelar, António Maria Lisboa, que morrera em 1953, deixando uma obra reduzida em extensão, mas plena de sugestões geniais.



Um depoimento que prestei ao Daniel Pires para o seu «Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa», diz o essencial. Daí transcrevo algumas linhas: «Com a impaciência, o pragmatismo e o voluntarismo próprios de quem quer resolver a sua confusão interior pela ordenação do mundo exterior, nós, os recém-chegados ao grupo, entendemos que era importante que aquela reunião quotidiana de talentos se traduzisse em algo de concreto - uma revista. A ideia foi acolhida com alguma ironia pelos elementos mais parasitários e com entusiasmo pelos mais valiosos, nomeadamente por Cesariny, que sugeriu o título e que organizou verdadeiramente o primeiro número, o mais ortodoxo dos três que se publicaram.» (…)
«Dadas as vicissitudes de um grupo tão heterogéneo como aquele, onde a intriga representava um papel determinante, o segundo número, surgido em Junho de 1959 (quatro meses depois do primeiro), representava já uma contestação à “liderança” de Cesariny. «O número 3, publicado em Dezembro de 1960, estava já quase totalmente esvaziado do inicial conteúdo surrealizante. É, no entanto, o mais autêntico, pois é o único em que ninguém nos “segurou a mão”. Aliás, foi já realizado fora do grupo do Gelo, com gente que parava uns metros adiante, no Café Restauração». Grupo constituído pelo Alfredo Margarido, Edmundo Bettencourt, Manuel de Castro e outros.