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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Mata-Cães ou o criador e a criatura *

Carlos Loures


Em meados dos anos 80, entre as muitas coisas que fazia, tinha a meu cargo a leitura de originais de uma pequena editora – a Salamandra, do Bruno da Ponte e do Veiga Pereira. Como sempre acontece a quem tem essa responsabilidade, era obrigado a ler muitos textos sem qualquer interesse, sem qualidade e, portanto, sendo de gente desconhecida, sem qualquer viabilidade de edição. Fazia um pequeno relatório de leitura e depois os donos da editora tomavam as suas medidas.


Muito raramente, era surpreendido pelo aparecimento de textos que se distinguiam no meio desse amálgama de lixo produzido por infatigáveis escrevinhadores. Devo abrir um parêntesis para vos confessar que o ler grandes doses de má literatura, acaba por embotar a capacidade crítica. Começamos a ler um texto já com a ideia de que se vai ler mais uma pessegada. O pior é que quase sempre se acerta.