
Manuela Degerine
Capítulo XCV
Vigésima terceira etapa: A mulher que vê passar os comboios (continuação)
O artista começa a impacientar-se. Mesmo na estação do Rossio, uma rebelde continuará rebelde, arranjará maneira de contestar, de protestar, de importunar, já chega de palavreado, ele pintava outro cenário, precisa de o entregar, a penúria é um cão teimoso, morde-lhe as canelas há décadas, pagaram-lhe a cena ferroviária, não volta a tocar-lhe, não e não, perdeu tempo demais a pintá-la, ao ponto de vir reclamar mudanças, não faltava mais nada, encomendaram-lhe o cenário para um comboio eléctrico, pudera ter despachado uma paisagem verde que, com duas vacas e três pinceladas, causa sempre efeito, em vez disso levou semanas na busca de um verdadeiro espaço ferroviário, encontrou em Pontevedra aquele albergue de peregrinos, uma imagem urbana complexa, pouco banal, ao contrário do que ela insinua, claro que estende roupa, também ele estende, como a maioria das pessoas, para além disso é escritora, percorreu quinhentos quilómetros a pé, quer situação menos trivial, é-o aliás tão pouco que, não raras vezes, pareceu bizarra, imprudente e até suspeita, resultando disto tudo, no fim de contas, o desencontro do costume, uma obra que ninguém encomendou e, pelas reacções, também não foi apreciada, bem feito para ele, nunca seguiu a moda nem a facilidade, resta-lhe aguentar as consequências.