Manuela Degerine
Capítulo CXIX
Conclusão (das conclusões)
Esta longa caminhada permitiu-me igualmente avançar na descoberta de mim mesma. Confirmou o que já conhecia. A teimosia. A independência. A força que, não obstante as aparências, sei possuir. Deste ponto de vista não houve surpresas. No entanto, até chegar ao Porto, ignorava se podia caminhar tantos quilómetros; ultrapassado o incómodo das bolhas, a caminhada tornou-se agradável, restando o peso excessivo na mochila, uma dificuldade nunca superada.
A maior surpresa para quem, como eu, acreditava na sua lucidez e capacidade de observação – foram as variações na apreciação da realidade. Por exemplo: na percepção dos pesos e das distâncias. A mochila leve de manhã e plena de chumbo ao fim da tarde. Os quilómetros curtos de manhã e, em fim de etapa, intermináveis para além dos limites de credibilidade.
Esta longa marcha ajudou-me a repensar a minha vida e a hierarquizar as prioridades, não desencadeando uma mudança radical, certo, reforçando porém a evolução antes iniciada. Importa aproveitar cada instante desta vida, não através do ritmo ou da sucessão de fazeres mas, após selecção rigorosa, pelo afastamento do inútil.
Esta experiência não me confrontou apenas comigo, pôs-me igualmente em relação com outros: gente apavorada, gente desconfiada, na região de Lisboa, gente generosa, gente inventiva, gente laboriosa, gente curiosa, os bombeiros da minha terra, os caminhantes de Santiago...
Perdi o contacto com Marlene e o marido e, da mesma forma, com os venezianos. No Caminho de Santiago seguimos, no mesmo ritmo, duas, três ou mais etapas e, de súbito, pensando que assim continuaremos, podemos não voltar a ver-nos. Por outro lado, Maria não respondeu às minhas mensagens, os portugueses de Guimarães tão-pouco. Correspondi com Paul, primeiro por SMS, depois por correio electrónico, confrontámos as aventuras, trocámos mútuos convites; mas talvez não voltemos a encontrar-nos. Recebo com frequência notícias de Sérgio; se nos virmos, continuaremos, sem dúvida, bons camaradas.
Os encontros não revolucionaram a minha vida mas acrescentaram vozes, figuras, contactos, situações, conversas, pontos de vista à minha experiência com os outros: enriqueceram o meu património humano. E por isso não deixam de constituir um aspecto essencial deste Caminho. Os meus semelhantes, suas manias, virtudes, defeitos, egoísmos, generosidades e muito mais, coexistindo, não raro, no mesmo indivíduo, a ausência ou abundância de determinadas qualidades, enfim, toda a variedade e complexidade humana me inspira sempre curiosidade e, também por isso, me absorvi nestas vinte e seis etapas através de regiões e meios que não conhecia, contactando com gente que não fazia parte do meu ambiente social, constituído por escritores, pintores e professores, bastante homogéneo no fim de contas... O Caminho de Santiago acrescentou portanto mais alguns meandros ao labirinto dos meus encontros e desencontros.
A gentileza e generosidade que, ao longo da viagem, tive o privilégio de encontrar, servem-me agora de exemplo. Procuro elevar o meu comportamento à altura dos que em S. João de Ver, Balugães ou Ponte de Lima tiveram comigo.
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domingo, 26 de setembro de 2010
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Manuela Degerine
Capítulo LXXV
Décima oitava etapa: em Ponte de Lima (continuação II)
Acumulámos tamanho peso de vitualhas que a hipótese de procurar outra refeição fica excluída. Voltamos para o albergue. O sol põe-se entre nuvens, um céu luminoso e ameaçador: paramos para admirar. Choverá amanhã, não choverá, muito, pouco, nada... Eis o tema da nossa meditação. Eu aprecio a chuva que, para além de tantas virtudes, afasta o risco dos incêndios – excepto quando chove a tanques durante todo um dia de caminhada. Uma chuvada, sim, tal incontinência atmosférica, não. A chuva de hoje quase deu que fazer aos meus heróis favoritos... Surge o alberguista, com uma cana, belo bordão, exclamamos nós, leve e resistente. Comprou-o para amigos que, no dia seguinte, iniciam o caminho – é o bordão dos pastores. Conversamos dali até ao albergue. Ele seguiu nove vezes o caminho de Santiago e espera segui-lo, no mínimo, outras tantas; entretanto dedica, cada dia, sem remuneração, várias horas ao albergue. Esta noite dormirão aqui mais de trinta peregrinos e, tal como a Marlene e o marido ou a família dos três cães, alguns pernoitam em pensões e hotéis; portanto, a partir de agora, seremos numerosos na Via Lusitana. Subimos à cozinha, onde encontramos as holandesas cozinhando massa com legumes, as quais se surpreendem por sermos, uma portuguesa, o outro italiano e comunicarmos em francês, não, não somos um casal, esclarecemos nós, só nos conhecemos em Vilarinho, há apenas três dias, porém logo compreendo: o que as espanta é ouvirem uma língua que sobressai da vulgata anglo-saxónica. Explico – em inglês – que embirro com o inglês portanto, um com o outro, falamos francês, para haver diversidade. Daqui em diante teremos, de vez em quando, que repetir esta justificação. Entretanto fazemos um chá, saboreamos aquele excelente pão, tão bom que até parece de hoje, com queijo (eu) ou fiambre (Sérgio). Há oito dias que como bom pão com queijos variados – e não me canso. (Portugal é nesta especialidade tão profuso como a França.) Já não é cedo, passa das dez e amanhã levantamo-nos, como é habitual, às seis horas. Vi, na sala dos computadores, um frasco de Betadine, vou ainda para lá tratar o pé esquerdo: o caminho de hoje, longo e difícil, fez-me outra bolha no dedo grande. Cubro-a com mais um compeed. Restam-me dois dedos sem bolhas nem penso. Converso com um espanhol que me exibe os dele – nus, belos, intactos, gloriosos – e confia o milagroso método: durante os dois meses que precederam a viagem, mergulhou cada dia os pés em água salgada e esfregou-os com pedra-pomes. Oiço há nove dias variações mirabolantes sobre o tema, já nada me espanta, rio-me apenas por, perante a imagem destes pezões ao lado dos meus, me lembrar da canção açoriana: ora ponha aqui, ora ponha aqui o seu pezinho, ora chegadinho, ora chegadinho, ao pé do meu... Canto-lhe a canção, conto-lhe os Açores. E, sobre os Açores, há tanto para contar... Falo aliás espanhol com agradável à-vontade. Gracias, Maria! (A minha companheira espanhola não voltou a dar notícias. Terá sido forçada a interromper a viagem?
Manuela Degerine
Capítulo LXXV
Décima oitava etapa: em Ponte de Lima (continuação II)
Acumulámos tamanho peso de vitualhas que a hipótese de procurar outra refeição fica excluída. Voltamos para o albergue. O sol põe-se entre nuvens, um céu luminoso e ameaçador: paramos para admirar. Choverá amanhã, não choverá, muito, pouco, nada... Eis o tema da nossa meditação. Eu aprecio a chuva que, para além de tantas virtudes, afasta o risco dos incêndios – excepto quando chove a tanques durante todo um dia de caminhada. Uma chuvada, sim, tal incontinência atmosférica, não. A chuva de hoje quase deu que fazer aos meus heróis favoritos... Surge o alberguista, com uma cana, belo bordão, exclamamos nós, leve e resistente. Comprou-o para amigos que, no dia seguinte, iniciam o caminho – é o bordão dos pastores. Conversamos dali até ao albergue. Ele seguiu nove vezes o caminho de Santiago e espera segui-lo, no mínimo, outras tantas; entretanto dedica, cada dia, sem remuneração, várias horas ao albergue. Esta noite dormirão aqui mais de trinta peregrinos e, tal como a Marlene e o marido ou a família dos três cães, alguns pernoitam em pensões e hotéis; portanto, a partir de agora, seremos numerosos na Via Lusitana. Subimos à cozinha, onde encontramos as holandesas cozinhando massa com legumes, as quais se surpreendem por sermos, uma portuguesa, o outro italiano e comunicarmos em francês, não, não somos um casal, esclarecemos nós, só nos conhecemos em Vilarinho, há apenas três dias, porém logo compreendo: o que as espanta é ouvirem uma língua que sobressai da vulgata anglo-saxónica. Explico – em inglês – que embirro com o inglês portanto, um com o outro, falamos francês, para haver diversidade. Daqui em diante teremos, de vez em quando, que repetir esta justificação. Entretanto fazemos um chá, saboreamos aquele excelente pão, tão bom que até parece de hoje, com queijo (eu) ou fiambre (Sérgio). Há oito dias que como bom pão com queijos variados – e não me canso. (Portugal é nesta especialidade tão profuso como a França.) Já não é cedo, passa das dez e amanhã levantamo-nos, como é habitual, às seis horas. Vi, na sala dos computadores, um frasco de Betadine, vou ainda para lá tratar o pé esquerdo: o caminho de hoje, longo e difícil, fez-me outra bolha no dedo grande. Cubro-a com mais um compeed. Restam-me dois dedos sem bolhas nem penso. Converso com um espanhol que me exibe os dele – nus, belos, intactos, gloriosos – e confia o milagroso método: durante os dois meses que precederam a viagem, mergulhou cada dia os pés em água salgada e esfregou-os com pedra-pomes. Oiço há nove dias variações mirabolantes sobre o tema, já nada me espanta, rio-me apenas por, perante a imagem destes pezões ao lado dos meus, me lembrar da canção açoriana: ora ponha aqui, ora ponha aqui o seu pezinho, ora chegadinho, ora chegadinho, ao pé do meu... Canto-lhe a canção, conto-lhe os Açores. E, sobre os Açores, há tanto para contar... Falo aliás espanhol com agradável à-vontade. Gracias, Maria! (A minha companheira espanhola não voltou a dar notícias. Terá sido forçada a interromper a viagem?
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo LXXIV
Décima oitava etapa: em Ponte de Lima Sérgio foi conduzido em primeiro lugar ao dormitório colectivo, instalado num amplo sótão com as traves visíveis, sou a segunda peregrina porém, por discrição, instalo-me numa cama afastada dele. Poiso a mochila no brilhante soalho, tiro as roupas secas, os produtos de higiene e sigo para o duche. Este espaço é colectivo, permitindo assim, com o albergue cheio, maior capacidade de banho; por isso, embora a camarata seja mista, há duches femininos e duches masculinos. Dispo-me, avalio a temperatura da água – logo entra, também nua, a alemã que, na véspera, conheci no duche de Barcelos. Rimo-nos: nunca nos encontrámos vestidas. Quando volto ao dormitório, o pessoal começou a instalar-se, espalhou mochilas, botas, varas e bordões, há impermeáveis suspensos nas traves acessíveis e mesmo – para mim – inacessíveis, surgiram várias cordas com roupa, toda molhada pela chuva já que, para a lavada, existe um espaço ad hoc. Apesar das restrições quanto ao peso que trazemos às costas, noto uma quantidade assinalável de livros em cima dos sacos-cama, alguns roteiros, certo, mas não só; como já notei entre Coimbra e o Porto, os peregrinos de Santiago pertencem a grupos sócio-culturais acima da média. O tempo continua tão húmido que desisto de lavar a roupa de hoje; vestirei a que trago de reserva. Sérgio revê a documentação. As próximas etapas parecem-nos curtas pois não passa, cada uma, dos vinte quilómetros. Como disponho de pouco tempo, combinamos que amanhã, se chegarmos cedo a Rubiães, prosseguimos na direcção de Valença – percorreremos duas etapas num dia. A distância entre o meu poiso e o de Sérgio não é cómoda: se tivesse optado pela cama do lado, podíamos conversar enquanto prossigo a sempre demorada cerimónia dos sacos: abrir, fechar, tirar, arrumar, voltar ao precedente saco, procurar outra necessária utilidade. Decidimo-nos por fim a ir jantar e, não menos importante, buscar vitualhas para as etapas do dia seguinte porém, como não conhecemos Ponte de Lima, parece-nos preferível passear antes de carregarmos com as compras; e, na verdade, estando habituada, tanto em Lisboa, como em Paris, a fazer compras depois das oito e meia, não presto atenção ao tempo. Uma hora mais tarde, procuramos uma loja de fruta, fazemos vasta e pesada provisão. Em seguida buscamos queijo (eu), fiambre (Sérgio), obtemos rações muito apetitosas. Só nos falta o pão para amanhã. Inquirimos onde fica a padaria, respondem-nos que fechou, aconselham um supermercado, vende pão branco e leve, branco e frio... Desandamos. Gostamos demasiado de pão para nos contentarmos com tal insipidez. Voltamos à loja de fruta, indagamos onde comprar pão. A rapariga sublinha que é tarde, o que neste instante, apesar de forasteiros, já abrangemos, tentemos na pastelaria, do outro lado da rua; talvez o dono ainda ali se demore. Entramos na loja já inquietos: sem pão não chegaremos a Valença. O dono da pastelaria prepara-se para fechar. - Não: hoje vendi tudo. Fitamo-nos, desolados. A Maryvonne, uma amiga minha, costuma dizer que, durante uma caminhada, até a má comida ganha qualidades gastronómicas – tem razão. Daí a estragarmos o queijo e o fiambre com aquele conglomerado de farinha rasca, glúten e fermento químico... Não pode ser. Expomos a situação: amanhã às seis e meia seguimos para Valença e o roteiro recomenda que nos aprovisionemos em Ponte de Lima. O senhor é simpático, começamos a conversar. A certa altura, olho para trás, vejo um cesto de pão. - Ah! É o que preferimos... Está vendido? Que pena! - Não: esse é de ontem. - Não está vendido?!... Então podemos levá-lo! - Não, não, esse é de ontem: não o posso vender. - Mesmo de ontem, com este aspecto, só pode ser bom. Venda-nos meia dúzia de pães. - Se quiser, sirva-se: é de graça. Não esperamos que repita, escolhemos seis pães, insistindo em os pagar, o senhor porém recusa, pergunta por onde passamos, confia-nos que, com tantas auto-estradas, hesita em sair da região, faz os circuitos quotidianos, pouco além se aventura. Entretanto pegou numa caixa, começou a enchê-la com bolos e, quando nos despedimos, oferece-nos também os bolos. Saímos da pastelaria muito gratos e inseguros... É evidente que, inseridos na peregrinação jacobeia, nos prestamos, mesmo involuntariamente, a mal-entendidos.
Capítulo LXXIV
Décima oitava etapa: em Ponte de Lima Sérgio foi conduzido em primeiro lugar ao dormitório colectivo, instalado num amplo sótão com as traves visíveis, sou a segunda peregrina porém, por discrição, instalo-me numa cama afastada dele. Poiso a mochila no brilhante soalho, tiro as roupas secas, os produtos de higiene e sigo para o duche. Este espaço é colectivo, permitindo assim, com o albergue cheio, maior capacidade de banho; por isso, embora a camarata seja mista, há duches femininos e duches masculinos. Dispo-me, avalio a temperatura da água – logo entra, também nua, a alemã que, na véspera, conheci no duche de Barcelos. Rimo-nos: nunca nos encontrámos vestidas. Quando volto ao dormitório, o pessoal começou a instalar-se, espalhou mochilas, botas, varas e bordões, há impermeáveis suspensos nas traves acessíveis e mesmo – para mim – inacessíveis, surgiram várias cordas com roupa, toda molhada pela chuva já que, para a lavada, existe um espaço ad hoc. Apesar das restrições quanto ao peso que trazemos às costas, noto uma quantidade assinalável de livros em cima dos sacos-cama, alguns roteiros, certo, mas não só; como já notei entre Coimbra e o Porto, os peregrinos de Santiago pertencem a grupos sócio-culturais acima da média. O tempo continua tão húmido que desisto de lavar a roupa de hoje; vestirei a que trago de reserva. Sérgio revê a documentação. As próximas etapas parecem-nos curtas pois não passa, cada uma, dos vinte quilómetros. Como disponho de pouco tempo, combinamos que amanhã, se chegarmos cedo a Rubiães, prosseguimos na direcção de Valença – percorreremos duas etapas num dia. A distância entre o meu poiso e o de Sérgio não é cómoda: se tivesse optado pela cama do lado, podíamos conversar enquanto prossigo a sempre demorada cerimónia dos sacos: abrir, fechar, tirar, arrumar, voltar ao precedente saco, procurar outra necessária utilidade. Decidimo-nos por fim a ir jantar e, não menos importante, buscar vitualhas para as etapas do dia seguinte porém, como não conhecemos Ponte de Lima, parece-nos preferível passear antes de carregarmos com as compras; e, na verdade, estando habituada, tanto em Lisboa, como em Paris, a fazer compras depois das oito e meia, não presto atenção ao tempo. Uma hora mais tarde, procuramos uma loja de fruta, fazemos vasta e pesada provisão. Em seguida buscamos queijo (eu), fiambre (Sérgio), obtemos rações muito apetitosas. Só nos falta o pão para amanhã. Inquirimos onde fica a padaria, respondem-nos que fechou, aconselham um supermercado, vende pão branco e leve, branco e frio... Desandamos. Gostamos demasiado de pão para nos contentarmos com tal insipidez. Voltamos à loja de fruta, indagamos onde comprar pão. A rapariga sublinha que é tarde, o que neste instante, apesar de forasteiros, já abrangemos, tentemos na pastelaria, do outro lado da rua; talvez o dono ainda ali se demore. Entramos na loja já inquietos: sem pão não chegaremos a Valença. O dono da pastelaria prepara-se para fechar. - Não: hoje vendi tudo. Fitamo-nos, desolados. A Maryvonne, uma amiga minha, costuma dizer que, durante uma caminhada, até a má comida ganha qualidades gastronómicas – tem razão. Daí a estragarmos o queijo e o fiambre com aquele conglomerado de farinha rasca, glúten e fermento químico... Não pode ser. Expomos a situação: amanhã às seis e meia seguimos para Valença e o roteiro recomenda que nos aprovisionemos em Ponte de Lima. O senhor é simpático, começamos a conversar. A certa altura, olho para trás, vejo um cesto de pão. - Ah! É o que preferimos... Está vendido? Que pena! - Não: esse é de ontem. - Não está vendido?!... Então podemos levá-lo! - Não, não, esse é de ontem: não o posso vender. - Mesmo de ontem, com este aspecto, só pode ser bom. Venda-nos meia dúzia de pães. - Se quiser, sirva-se: é de graça. Não esperamos que repita, escolhemos seis pães, insistindo em os pagar, o senhor porém recusa, pergunta por onde passamos, confia-nos que, com tantas auto-estradas, hesita em sair da região, faz os circuitos quotidianos, pouco além se aventura. Entretanto pegou numa caixa, começou a enchê-la com bolos e, quando nos despedimos, oferece-nos também os bolos. Saímos da pastelaria muito gratos e inseguros... É evidente que, inseridos na peregrinação jacobeia, nos prestamos, mesmo involuntariamente, a mal-entendidos.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo LXXIII
Décima oitava etapa: em Ponte de Lima
Deparamos com uma fila de mochilas à entrada do albergue. Nós preferimos esperar: falta-nos força para passeios, até mesmo sem mochila. De súbito, oiço chamar:
- Manuela!
Marlene e o marido abrem-me os braços. Trocamos meia dúzia informações mas interrompemos a conversa porque os alberguistas chegaram e Sérgio começa a ser atendido – daqui a bocado haverá ocasião para compartilhar as múltiplas aventuras. Entretanto também chegaram alguns donos de mochilas, todos alemães, os quais, como é frequente entre os germânicos, contrariamente ao que se pensa, têm dificuldade em respeitar regras, sobretudo no estrangeiro, livres do controlo social que os torna, na aparência, tão ordenados. Aqui: desagrada-lhes terem de fazer bicha para se inscreverem. Fazem comentários jocosos. Eu estudei um ano de alemão, não percebo grande coisa, oiço repetir a palavra portugueses – e vejo, de supetão, o marido de Marlene, dar um berro, vermelho de cólera: se acham a Alemanha perfeita, passassem lá as férias, ninguém os chamou para cá. Ou algo do género. Lanço-lhe um sorriso.
Capítulo LXXIII
Décima oitava etapa: em Ponte de Lima
Deparamos com uma fila de mochilas à entrada do albergue. Nós preferimos esperar: falta-nos força para passeios, até mesmo sem mochila. De súbito, oiço chamar:
- Manuela!
Marlene e o marido abrem-me os braços. Trocamos meia dúzia informações mas interrompemos a conversa porque os alberguistas chegaram e Sérgio começa a ser atendido – daqui a bocado haverá ocasião para compartilhar as múltiplas aventuras. Entretanto também chegaram alguns donos de mochilas, todos alemães, os quais, como é frequente entre os germânicos, contrariamente ao que se pensa, têm dificuldade em respeitar regras, sobretudo no estrangeiro, livres do controlo social que os torna, na aparência, tão ordenados. Aqui: desagrada-lhes terem de fazer bicha para se inscreverem. Fazem comentários jocosos. Eu estudei um ano de alemão, não percebo grande coisa, oiço repetir a palavra portugueses – e vejo, de supetão, o marido de Marlene, dar um berro, vermelho de cólera: se acham a Alemanha perfeita, passassem lá as férias, ninguém os chamou para cá. Ou algo do género. Lanço-lhe um sorriso.
domingo, 8 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo LXXII
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (conclusão)
Tanta gentileza bastaria para nos dar alento mas, para além dela, também pudemos aliviar as costas, sentar-nos, comer, beber um chá quente... E eu, com a camisola seca e um blusão espesso, sinto agora um agradável conforto. Recomeçamos a caminhar com mais energia.
Encontramo-nos a vinte quilómetros de Ponte de Lima. O percurso continua variado. Passamos por igrejas e espigueiros, olivais, vinhas e culturas, eucaliptos e pinheiros... Voltamos a caminhar por debaixo de videiras suspensas em postes de granito. O piso varia ainda entre o pedregoso, o arenoso, o alcatrão, a calçada... O que mais solicita a nossa atenção é a alternância dos caminhos inundados com a lama escorregadia.
Quase tudo o que vejo me parece bonito. Embora esfumado... Lamento que, com a bruma no ar e a água nas lentes, não possa pormenorizar a paisagem.
Desde a saída de Barcelos ultrapassamos, de vez em quando, três raparigas holandesas e, mais adiante, somos por elas ultrapassados. A partir de Balugães entram na coreografia três alemães e três cães. O pai, um senhor elegante e já idoso, com o seu pequeno teckel preso por uma trela, a mãe, também elegante e ainda jovem, com o seu grande pastor preso por uma trela, o filho, com o seu cão de médio tamanho semelhantemente preso por uma trela. Como há neste pedaço do trajecto algumas capelas com telheiro, eles avançam, ultrapassam-nos e, mais adiante, quando se abrigam no telheiro da capela, nós ultrapassamo-los. (Em Paris tomo às vezes conta de um teckel, um bicho tímido e discreto, com esta expressão melancólica. Lembro-me do Rafeiro dos Olhos Amarelos... Qual não seria, em contrapartida, o seu entusiasmo, através deste caminho, cheio de poças e odores subtis?...)
Doem-me cada vez mais as costas. Diminui a intensidade da chuva, por isso podemos, de vez em quando, fazer uma pausa. Encontramos duas pedras, poisamos plásticos por cima – sentamo-nos durante cinco minutos.
Neste transe frio, chuvoso e lamacento, o meu companheiro de caminhada não fez, ao longo de todo dia, um gesto de enfado ou impaciência. (E, gentilmente, quando tiro a mochila, para mim muito pesada, ajuda-me a colocá-la outra vez às costas.) Replicará o leitor: protestar contra a chuva, uma vã perda de calorias, o tempo é o que é, as nuvens não ouvem alvitres. Adiro a esta sensatez. Porém, no de Santiago como noutros caminhos, tenho encontrado gente que, mesmo em situações menos difíceis, esborrata de mau humor a disposição dos outros.
Atravessamos Vitorino dos Piães, Facha, Leiras, seguimos na direcção de Seara, sucedem-se várias quintas, entre as quais a do Bom Gosto, seus muros sumptuosos de musgo, na Rua do Sobreiro, n°16... Seguem-se Paço, Pedrosa, Barros... Caminhamos numa ponte medieval, vemos mais uma capela, voltamos a passar debaixo de uma vinha, chegamos enfim à beira do rio Lima, onde encontramos o mercado, que ocupa a margem até à ponte famosa.
Precisamos de comprar comida; Gérard Rousse recomenda que nos aprovisionemos pois, durante a etapa de amanhã, não é certo encontrarmos o necessário. (Assinala uma mercearia em Revolta mas não ignoramos como funciona o comércio nas aldeias: estará ou não aberta quando passarmos; e, entre a viagem de Gérard Rousse em 2006 e o presente momento, pode até ter desaparecido.) Avistamos tendas com pães e queijos muito apetitosos, sentimo-nos porém esgotados, não nos resta força para as necessárias compras, de mochila às costas, se pararmos ali ficamos, por conseguinte atravessamos o mercado aos ziguezagues, atentos à sinalização, bastante camuflada, entre tendas e camionetas, tropeçando aqui e além, indo aos bordos, bêbedos de cansaço, alcançamos a ponte, ignorando onde fica o albergue, avistamos de longe um edifício de um belo cor-de-rosa, com janelas amarelas, duas cores que, dirão agora os leitores, não se entendem – pois, aqui, combinam muito bem. Diz Sérgio:
- É além o albergue.
E é mesmo ali.
Capítulo LXXII
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (conclusão)
Tanta gentileza bastaria para nos dar alento mas, para além dela, também pudemos aliviar as costas, sentar-nos, comer, beber um chá quente... E eu, com a camisola seca e um blusão espesso, sinto agora um agradável conforto. Recomeçamos a caminhar com mais energia.
Encontramo-nos a vinte quilómetros de Ponte de Lima. O percurso continua variado. Passamos por igrejas e espigueiros, olivais, vinhas e culturas, eucaliptos e pinheiros... Voltamos a caminhar por debaixo de videiras suspensas em postes de granito. O piso varia ainda entre o pedregoso, o arenoso, o alcatrão, a calçada... O que mais solicita a nossa atenção é a alternância dos caminhos inundados com a lama escorregadia.
Quase tudo o que vejo me parece bonito. Embora esfumado... Lamento que, com a bruma no ar e a água nas lentes, não possa pormenorizar a paisagem.
Desde a saída de Barcelos ultrapassamos, de vez em quando, três raparigas holandesas e, mais adiante, somos por elas ultrapassados. A partir de Balugães entram na coreografia três alemães e três cães. O pai, um senhor elegante e já idoso, com o seu pequeno teckel preso por uma trela, a mãe, também elegante e ainda jovem, com o seu grande pastor preso por uma trela, o filho, com o seu cão de médio tamanho semelhantemente preso por uma trela. Como há neste pedaço do trajecto algumas capelas com telheiro, eles avançam, ultrapassam-nos e, mais adiante, quando se abrigam no telheiro da capela, nós ultrapassamo-los. (Em Paris tomo às vezes conta de um teckel, um bicho tímido e discreto, com esta expressão melancólica. Lembro-me do Rafeiro dos Olhos Amarelos... Qual não seria, em contrapartida, o seu entusiasmo, através deste caminho, cheio de poças e odores subtis?...)
Doem-me cada vez mais as costas. Diminui a intensidade da chuva, por isso podemos, de vez em quando, fazer uma pausa. Encontramos duas pedras, poisamos plásticos por cima – sentamo-nos durante cinco minutos.
Neste transe frio, chuvoso e lamacento, o meu companheiro de caminhada não fez, ao longo de todo dia, um gesto de enfado ou impaciência. (E, gentilmente, quando tiro a mochila, para mim muito pesada, ajuda-me a colocá-la outra vez às costas.) Replicará o leitor: protestar contra a chuva, uma vã perda de calorias, o tempo é o que é, as nuvens não ouvem alvitres. Adiro a esta sensatez. Porém, no de Santiago como noutros caminhos, tenho encontrado gente que, mesmo em situações menos difíceis, esborrata de mau humor a disposição dos outros.
Atravessamos Vitorino dos Piães, Facha, Leiras, seguimos na direcção de Seara, sucedem-se várias quintas, entre as quais a do Bom Gosto, seus muros sumptuosos de musgo, na Rua do Sobreiro, n°16... Seguem-se Paço, Pedrosa, Barros... Caminhamos numa ponte medieval, vemos mais uma capela, voltamos a passar debaixo de uma vinha, chegamos enfim à beira do rio Lima, onde encontramos o mercado, que ocupa a margem até à ponte famosa.
Precisamos de comprar comida; Gérard Rousse recomenda que nos aprovisionemos pois, durante a etapa de amanhã, não é certo encontrarmos o necessário. (Assinala uma mercearia em Revolta mas não ignoramos como funciona o comércio nas aldeias: estará ou não aberta quando passarmos; e, entre a viagem de Gérard Rousse em 2006 e o presente momento, pode até ter desaparecido.) Avistamos tendas com pães e queijos muito apetitosos, sentimo-nos porém esgotados, não nos resta força para as necessárias compras, de mochila às costas, se pararmos ali ficamos, por conseguinte atravessamos o mercado aos ziguezagues, atentos à sinalização, bastante camuflada, entre tendas e camionetas, tropeçando aqui e além, indo aos bordos, bêbedos de cansaço, alcançamos a ponte, ignorando onde fica o albergue, avistamos de longe um edifício de um belo cor-de-rosa, com janelas amarelas, duas cores que, dirão agora os leitores, não se entendem – pois, aqui, combinam muito bem. Diz Sérgio:
- É além o albergue.
E é mesmo ali.
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sábado, 7 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo LXXI
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (continuação IV)
Passamos Tamel, Portela, Aborim... Subimos, descemos, voltamos a subir.
Caminhamos por debaixo de vinha suspensa que, com este tempo e mesmo, nesta época, não faz sombra mas, no Verão, deve ser refrescante. O alcatrão e a calçada alternam com terra e areia. Atravessamos pontes por cima de riachos, atravessamos com água pelo cimo das botas, trepamos por taludes e até paredes para evitar charcos mais profundos... As varas de eucalipto revelam-se indispensáveis para sondar a água ou para nos equilibrarmos quando avançamos com um pé em suporte instável...
Entramos em Balugães. Passa do meio-dia e chove a cântaros. Com tal ritmo a que horas chegaremos a Ponte de Lima?... Percorremos treze quilómetros e meio com esta chuva – que nunca diminuiu. Não nos sentámos durante toda a manhã, não parámos sequer para comer, pois impor-se-ia poisar as mochilas, estando tudo inundado e cheio de lama. Doem-me as costas, sinto-me gelada. Por isso, vejo um portão aberto, chamo os donos da casa. Acorre uma senhora. Inquiro se podemos abrigar-nos.
Capítulo LXXI
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (continuação IV)
Passamos Tamel, Portela, Aborim... Subimos, descemos, voltamos a subir.
Caminhamos por debaixo de vinha suspensa que, com este tempo e mesmo, nesta época, não faz sombra mas, no Verão, deve ser refrescante. O alcatrão e a calçada alternam com terra e areia. Atravessamos pontes por cima de riachos, atravessamos com água pelo cimo das botas, trepamos por taludes e até paredes para evitar charcos mais profundos... As varas de eucalipto revelam-se indispensáveis para sondar a água ou para nos equilibrarmos quando avançamos com um pé em suporte instável...
Entramos em Balugães. Passa do meio-dia e chove a cântaros. Com tal ritmo a que horas chegaremos a Ponte de Lima?... Percorremos treze quilómetros e meio com esta chuva – que nunca diminuiu. Não nos sentámos durante toda a manhã, não parámos sequer para comer, pois impor-se-ia poisar as mochilas, estando tudo inundado e cheio de lama. Doem-me as costas, sinto-me gelada. Por isso, vejo um portão aberto, chamo os donos da casa. Acorre uma senhora. Inquiro se podemos abrigar-nos.
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sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Deerine
Capítulo LXX
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (continuação III)
Passamos por casas, vinhas e hortas, ouvimos berrar ovelhas, vemos, de vez em quando, uma vedação com lajes verticais. A água intensifica as cores, dá às pedras um brilho luzidio, faz inchar o musgo, o sedum e todas as plantas que crescem em cima dos muros. Os campos são na maioria verdes, não raro amarelos, uma ou outra vez castanhos: algo semeado e não nascido. Sucedem-se os rectângulos com batatas, com favas, com ervilhas, com couves... Muitos lugares começam a cobrir-se com vinha suspensa em postes de granito.
Enganamo-nos no caminho, uma mulher corre pela rua abaixo, para se abrigar deste derrame atmosférico – avisa-nos. Não manifesta qualquer estranheza, sabe por que razão ali passamos.
Berro na direcção das nuvens.
- Está o caldo entornado!
Chega-me a réplica redobradamente líquida.
Capítulo LXX
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (continuação III)
Passamos por casas, vinhas e hortas, ouvimos berrar ovelhas, vemos, de vez em quando, uma vedação com lajes verticais. A água intensifica as cores, dá às pedras um brilho luzidio, faz inchar o musgo, o sedum e todas as plantas que crescem em cima dos muros. Os campos são na maioria verdes, não raro amarelos, uma ou outra vez castanhos: algo semeado e não nascido. Sucedem-se os rectângulos com batatas, com favas, com ervilhas, com couves... Muitos lugares começam a cobrir-se com vinha suspensa em postes de granito.
Enganamo-nos no caminho, uma mulher corre pela rua abaixo, para se abrigar deste derrame atmosférico – avisa-nos. Não manifesta qualquer estranheza, sabe por que razão ali passamos.
Berro na direcção das nuvens.
- Está o caldo entornado!
Chega-me a réplica redobradamente líquida.
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo LXIX
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (continuação II)
Sérgio tem um vasto impermeável que veste e, nas costas, lhe cobre igualmente a mochila. Todas as marcas propõem uma gama diversa e eu percorri, com método e pertinácia, os grandes supermercados que em Paris propõem este género de equipamentos, analisei dezenas de etiquetas sobre botas, mochilas, peúgas, camisolas, sacos-cama – e, claro, também, impermeáveis. Porém, havia pouco, eu atravessara a canícula até Santarém, achei estas gabardinas excessivas para o clima português, parecendo-me inconcebível que em Maio chovesse como anteontem: durante um dia inteiro. (Confesso este desespero meteorológico: quando me encontro atarantada de calor, parece-me milagroso – e portanto improvável – que volte a chover ou fazer frio.)
Tinha uma capa com capuz, que todavia hesitei em trazer, por a achar demasiado pesada; acrescentei-lhe um velho impermeável usado, durante dez anos, em dezenas de caminhadas. Verifico agora que o equipamento de Sérgio é mais prático do que o meu: basta vestir uma só peça por cima de tudo o resto. Ignoro aliás o que se passou no sábado: cheguei a Vilarinho molhada. Por onde entrou a água?
Chove cada vez mais. Tiro a mochila, poiso-a num muro, agarro o impermeável e a capa que, esta manhã, transbordando optimismo, arrumei no fundo, visto o impermeável, enfio a mochila, ponho – com a ajuda de Sérgio – a capa por cima da mochila.
Continua a chover com força. Prosseguimos o caminho. Eu, cegueta, com água a escorrer pelas lentes, lamentando não haver nos óculos um equivalente do limpa pára-brisas. (Eis uma ideia para os designers finlandeses.) Não pus as polainas, erro meu, má fortuna, pensei que a chuva abrandasse, porém muito pelo contrário, despejam-nos os tanques do céu pela cabeça abaixo, só falta caírem os peixes, perdoem os leitores a imagem, parecerá por desventura absurda, mas patinhamos dentro de um aquário, a água entra-me para dentro das botas, embora bem ajustadas ao tornozelo, não acho graça à brincadeira, contudo agora, afogada neste iguaçú, atolada neste pantanal, onde poisar a mochila... Continuamos a caminhar. Um quilómetro mais adiante, surge um recanto abrigado, aproveito para ajustar as polainas – e encontro, por debaixo da capa, a mochila toda molhada. Portanto a capa deixou de ser impermeável... Avisto um contentor verde, calha mesmo bem: molhada por molhada, vou assim mais leve. Porém, como proteger as bagagens? Uma mochila possui espumas que, se absorverem água, a tornam mais pesada. Trouxe dois grandes sacos de plástico: ponho um à volta da mochila e o outro por cima da bolsa.
Parece que todos os rios da terra desaguam por cima das nossas cabeças. Caminhamos tentando, em primeiro lugar, ver a sinalização, porém a visibilidade é curta e as imagens deformadas, avançamos de olhos encarquilhados, buscando ajustar a vista – pitosgas de todo. Subimos, descemos. Passamos à beira de uma linha de comboio. Atravessamos um pinhal. Chegamos a Lijó.
Os caminhos encontram-se inundados. Felicito-me por ter sido ao menos tão paciente, para além de todos os meus erros e defeitos, não comprei um impermeável satisfatório mas carreguei com as botas durante quatro pesados dias – de outra maneira seria agora impossível prosseguir. Estas botas são rígidas e pesadas mas oferecem uma impermeabilidade a toda a prova e propriedades antiderrapantes seja na lama, seja em pedras soltas, seja aliás onde for.
Coloquei o roteiro dentro de uma capa: tento ler através da água e do plástico. Costumo apontar elementos da paisagem num caderno – agora guardei-o na bolsa. E, debaixo desta catarata, não me atrevo a tirar a máquina do estojo protector e dos vários sacos em que a protegi: não guardarei imagens do dilúvio.
Capítulo LXIX
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (continuação II)
Sérgio tem um vasto impermeável que veste e, nas costas, lhe cobre igualmente a mochila. Todas as marcas propõem uma gama diversa e eu percorri, com método e pertinácia, os grandes supermercados que em Paris propõem este género de equipamentos, analisei dezenas de etiquetas sobre botas, mochilas, peúgas, camisolas, sacos-cama – e, claro, também, impermeáveis. Porém, havia pouco, eu atravessara a canícula até Santarém, achei estas gabardinas excessivas para o clima português, parecendo-me inconcebível que em Maio chovesse como anteontem: durante um dia inteiro. (Confesso este desespero meteorológico: quando me encontro atarantada de calor, parece-me milagroso – e portanto improvável – que volte a chover ou fazer frio.)
Tinha uma capa com capuz, que todavia hesitei em trazer, por a achar demasiado pesada; acrescentei-lhe um velho impermeável usado, durante dez anos, em dezenas de caminhadas. Verifico agora que o equipamento de Sérgio é mais prático do que o meu: basta vestir uma só peça por cima de tudo o resto. Ignoro aliás o que se passou no sábado: cheguei a Vilarinho molhada. Por onde entrou a água?
Chove cada vez mais. Tiro a mochila, poiso-a num muro, agarro o impermeável e a capa que, esta manhã, transbordando optimismo, arrumei no fundo, visto o impermeável, enfio a mochila, ponho – com a ajuda de Sérgio – a capa por cima da mochila.
Continua a chover com força. Prosseguimos o caminho. Eu, cegueta, com água a escorrer pelas lentes, lamentando não haver nos óculos um equivalente do limpa pára-brisas. (Eis uma ideia para os designers finlandeses.) Não pus as polainas, erro meu, má fortuna, pensei que a chuva abrandasse, porém muito pelo contrário, despejam-nos os tanques do céu pela cabeça abaixo, só falta caírem os peixes, perdoem os leitores a imagem, parecerá por desventura absurda, mas patinhamos dentro de um aquário, a água entra-me para dentro das botas, embora bem ajustadas ao tornozelo, não acho graça à brincadeira, contudo agora, afogada neste iguaçú, atolada neste pantanal, onde poisar a mochila... Continuamos a caminhar. Um quilómetro mais adiante, surge um recanto abrigado, aproveito para ajustar as polainas – e encontro, por debaixo da capa, a mochila toda molhada. Portanto a capa deixou de ser impermeável... Avisto um contentor verde, calha mesmo bem: molhada por molhada, vou assim mais leve. Porém, como proteger as bagagens? Uma mochila possui espumas que, se absorverem água, a tornam mais pesada. Trouxe dois grandes sacos de plástico: ponho um à volta da mochila e o outro por cima da bolsa.
Parece que todos os rios da terra desaguam por cima das nossas cabeças. Caminhamos tentando, em primeiro lugar, ver a sinalização, porém a visibilidade é curta e as imagens deformadas, avançamos de olhos encarquilhados, buscando ajustar a vista – pitosgas de todo. Subimos, descemos. Passamos à beira de uma linha de comboio. Atravessamos um pinhal. Chegamos a Lijó.
Os caminhos encontram-se inundados. Felicito-me por ter sido ao menos tão paciente, para além de todos os meus erros e defeitos, não comprei um impermeável satisfatório mas carreguei com as botas durante quatro pesados dias – de outra maneira seria agora impossível prosseguir. Estas botas são rígidas e pesadas mas oferecem uma impermeabilidade a toda a prova e propriedades antiderrapantes seja na lama, seja em pedras soltas, seja aliás onde for.
Coloquei o roteiro dentro de uma capa: tento ler através da água e do plástico. Costumo apontar elementos da paisagem num caderno – agora guardei-o na bolsa. E, debaixo desta catarata, não me atrevo a tirar a máquina do estojo protector e dos vários sacos em que a protegi: não guardarei imagens do dilúvio.
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terça-feira, 3 de agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo LXVIII
Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima
Saímos dos bombeiros antes das sete, atravessamos o largo da feira, encontramos a sinalização amarela, seguimos na direcção de Vila Boa. Começa então a chover. Na preparação da viagem, preveni-me do calor que, imaginava eu, me estragaria o mês de Maio...
O menos perspicaz dos meus leitores terá percebido que não morro de amores por este adversário do conforto, da estética e do espírito crítico portugueses. O calor é um mau momento que em Lisboa se prolonga por, no mínimo, três meses. O calor obriga-me a passar o Verão dentro de casa e de meia dúzia de outros espaços, como a Torre do Tombo ou a biblioteca nacional, onde encontro trabalho absorvente e um mínimo de frescura, impede-me de fazer, no tempo livre, aquilo que prefiro, isto é, andar pelas ruas, a pé ou de bicicleta, leva-me, por razões estritamente térmicas, a maiores despesas, pois faço compras em sítios nos quais, durante o Inverno, nunca ponho os pés. O calor desnuda os corpos e, ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, nem todos os corpos ganham em se desnudarem: os pêlos, as banhas, as varizes, as cicatrizes, as marrecas, as pernas cambas e as carnes flácidas expõem-se na glória estival e constituem, na Avenida Almirante Reis que, cada dia, subo e desço, um desfile de pesadelo. (Já nem falo das praias onde, durante o Verão, não arrisco os olhos.)
O prazer do calor tornou-se em Portugal um lugar-comum. A palma da doxa preguiçosa, do cavaco estereotipado e portanto da vulgar brotoeja pertence com justiça aos locutores da Antena 1 que, cada dia, a meio da manhã ou da tarde, vos dão os pêsames logo que passa uma nuvem no céu.
Uma amiga francesa, vinda em Julho a Lisboa, diz-me um dia, prostrada pela canícula:
- Fico admirada com os portugueses... Ainda há pouco, na rua, olhava para as pessoas: manifestam um estoicismo espantoso, parece que nem sofrem com tanto calor...
Explico que o fenómeno resulta da auto-sugestão. Os portugueses ouvem dizer que nada existe de mais agradável que o calor, sinónimo de sol, areia e escaldões, tudo supinamente agradável, tudo supostamente saudável, por conseguinte, mesmo quando sofrem, no meio das ovelhas termófilas, para não chamar a atenção, conseguem convencer-se do contrário. O sol provoca o cancro da pele – que importa? O calor reduz a capacidade de acção e até, com frequência, mata – porém os portugueses comportam-se como se delicioso lhes parecesse e passam férias no Brasil quando, se buscassem bem-estar, prefeririam a Serra da Estrela. A maioria das pessoas tem medo de manifestar gostos, opções e opiniões singulares, esconde-se atrás dos outros e, por a Antena 1 dizer que, havendo nuvens, deve ficar “tristinha” – fica de imediato “tristinha”.
Eu rejeito os diminutivos e o conformismo.
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