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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Um case study

Carlos Loures


 – Estou lixado. Desta vez nem tu me vais poder salvar...

Viera sentar-se à minha frente a beberricar, com um ar taciturno e carregado de preocupação, o seu insólito copo de leite, enquanto eu bebia o uísque de malte que ele, gentilmente, me enviara momentos antes à mesa como emissário anunciador da sua chegada.

Conheci-o poucos anos antes do 25 de Abril. Fomos colegas numa agência publicitária e, porque nessa altura eu o safara de uma alhada terrível, ficou-me para sempre muito grato, tratando-me com carinho pelo diminutivo, oferecendo-me, no Natal e aniversário, livros, gravatas, cachimbos, e pagando-me bebidas sempre que me encontrava. Embora inteligente e perspicaz, é uma daquelas pessoas que, parecendo transpirar autoconfiança, são inseguras e complexadas. Se, pelo Natal ou pelo aniversário, lhes oferecemos um dicionário, desconfiam que lhes estamos a chamar analfabetos e, se lhes damos uma água-de-colónia, suspeitam de que estamos a acusá-los de higiene precária. No caso deste meu amigo, é justamente essa insegurança congénita que, aliada à sua incultura enciclopédica, fruto de leituras dispersas e sempre apressadas, e a uma estranha vaidade, ou, mais precisamente, a uma incontrolável atracção pelo abismo, o faz entrar constantemente em territórios desconhecidos, gera uma fatal propensão para se envolver em trapalhadas, em situações difíceis e, sobretudo, complicadas. Penso que ele é vítima de um uso exagerado do chamado método de «leitura em diagonal», ou «método Kennedy» como também outros chamam a um sistema de leitura que consiste sobretudo em não ler, em tresler. Aprendera o tal método, salvo erro num livro das «Selecções do Reader’s Digest» e gabava-se de ler com rapidez meteórica mesmo as grandes obras da literatura universal. «Apanho sempre o essencial», dizia.