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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A juventude é um lugar estranho

Carlos Loures

Paul Nizan, o escritor e filósofo francês, em «Aden Arabie» punha a eterna questão da juventude em termos introspectivos e pessimistas - «Eu tinha vinte anos. Não deixarei ninguém dizer que é a mais bela idade da vida». Nizan, mesmo aos velhos, que em sonhos regressam todos os dias à sua juventude, idealizando-a já que não a conseguem reviver, recorda-lhes a terrível angústia dos vinte anos – a protecção que nos acompanhou até ao fim da adolescência terminou, abrindo-se agora o mundo para uma paisagem nebulosa, onde se esfumam as convicções da criança e a experiência do adulto é quase nenhuma. Ou seja, abre-se uma porta para o desconhecido. A isto junta-se a revolta por nada ser como o desejaríamos, num mundo dominado pelos velhos (pelos que têm mais de trinta anos). Para creditar o pessimismo de Nizan, aprecie-se o número de jovens que, por volta dos vinte anos, se suicidam.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Ceci tuera cela? (as novas tecnologias significarão a morte do livro? )

Carlos Loures

Para encerrar, por agora, esta questão da ameaça do livro electrónico ao livro impresso, começo por transcrever palavras de José Afonso Furtado em O Que é o Livro: «Uma das imagens recorrentes em diversas obras que se dedicam a problemas de História ou da Sociologia do Livro e da Leitura é uma passagem clássica do romance Nôtre-Dame de Paris, de Victor Hugo. Nela, o arcediago abre a janela da sua cela, contempla por algum tempo a Nôtre-Dame, estende a mão para o livro impresso aberto na sua mesa e, lançando um olhar triste para a igreja, profere a conhecida frase: ceci tuera cela.».

Embora como José Afonso Furtado diz, este imagem seja recorrente, utilizo-a mais uma vez porque facilita a compreensão do que quero expor. Segundo o próprio Victor Hugo explica depois, a frase dita pelo arcediago Claude Frollo (o protector de Quasímodo), reflecte o espanto e o receio do sacerdócio, naquele final do século XV, perante o “prelo luminoso de Gutenberg”, o confronto entre a palavra escrita e a palavra falada. Victor Hugo explicita depois num capítulo do romance a sua previsão de que «o livro matará o edifício». Segundo ele a invenção da imprensa é o maior acontecimento da história da humanidade. A «bíblia de chumbo» irá substituir a «bíblia de pedra». Como disse McLuhan, a arquitectura gótica, a escultura, a iluminura ou a glosa medievais eram suportes da arte da memória e o eixo da cultura da escrita. Temia-se que o advento da imprensa pusesse tudo isso em causa e em risco de extinção.