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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Noctívagos, insones & afins - As ruínas circulares

Jorge Luis Borges

And if left off dreaming about you…

Trough the Looking-Glass, VI


Ninguém o viu desembarcar na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumir-se na lama sagrada, mas daí a poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul e que a sua pátria era uma dessas infinitas aldeias que ficam rio acima, no flanco violento da montanha, onde a língua zenda não está contaminada do grego e onde é rara a lepra. O que é certo e seguro é que o homem pardo beijou a lama, subiu a margem sem afastar (provavelmente sem sentir) as sanguessugas que lhe dilaceravam as carnes e arrastou-se enjoado e sangrando, até ao recinto circular dominado por um tigre ou um cavalo de pedra, que teve outrora a cor do fogo e agora a da cinza. Essa arena é um templo que os antigos incêndios devoraram, que a floresta pantanosa profanou e cujo deus não recebe as honras dos homens. O forasteiro deitou-se sob o pedestal. Só o despertou o sol alto. Verificou sem assombro que as feridas haviam cicatrizado; fechou os olhos pálidos e adormeceu, não por fraqueza da carne mas por decisão da vontade. Sabia que esse templo era o lugar referido para o seu invencível desígnio; sabia que as árvores incessantes não tinham conseguido estrangular, a jusante, as ruínas de outro templo propício, também de deuses incendiados e mortos; sabia que a sua obrigação imediata era o sono. Por volta da meia-noite acordou-o o grito inconsolável de um pássaro. Marcas de pés descalços, uns figos e um cântaro avisaram-no de que os homens da região lhe tinham espiado com respeito o sono e solicitavam o seu amparo ou temiam a sua magia. Sentiu o frio do medo e procurou na muralha delapidada um nicho sepulcral e tapou-se com folhas desconhecidas.

sábado, 9 de outubro de 2010

Do vazio

Marcos Cruz

António era um bife. Mal passado, passava mal. Mas tinha a resistência suficiente para lutar contra os que o queriam passar bem, pois sabia que “uma vez bem passado, bem passado para sempre”. Passava mal no presente, mais precisamente, já que o seu passado fora até bem passado, ou, como todos os passados, bem e mal passado. Em parte, era com isso que ele se passava: se, por um lado, “uma vez bem passado, bem passado para sempre” e, por outro, o seu passado havia sido bem e mal passado, ou seja, em parte, bem passado, porque não estaria ele bem passado no presente? Talvez, sem o ter presente, estivesse.

Mas então por que razão passava mal? Era uma problema pesado, difícil de ultrapassar, e por isso António pediu ajuda. Foi ter com um bife que, por haver passado muito e (aparentemente) passar bem sem estar bem passado, talvez o pudesse fazer passar melhor no futuro, passando-lhe uma receita, ou algo assim, que o dispensasse de ser bem passado para deixar de passar mal. Era o melhor presente possível e, à beirinha do Natal, António passava o tempo todo, incluindo todo o tempo passado com o outro bife, a pedi-lo. Porém, passado pouco tempo, e vendo que António o havia passado mal a ansiar pelo momento de o passar a passar bem sem estar bem passado, o outro bife explicou-lhe que esse não era pedido que ele pudesse fazer a não ser a si próprio, pois nem ele, o outro bife, e muito menos o Pai Natal o poderiam satisfazer.

sábado, 24 de julho de 2010

A Promoção

Im conto inédito de António Sales

Jeremias Palonso da Silva é pobre, quer dizer, está socialmente situado na escala hierárquica dos pobres. É pobre mas não miserável, ou seja não se encontra abaixo da linha insustentável da pobreza. Todavia, esta situação não foi determinada por azares da vida ou despedimento compulsivo o que também seria um azar.

Jeremias Palonso da Silva é pobre por opção. Esquisito, não é! Sendo economista era natural que “beneficiasse” das condições normais de qualquer cidadão pronto a ganhar a vida para casar, ter filhos, alimentar a família, pagar a escola, os livros, a casa, os electrodomésticos, a mobília, plasmas, computadores wireless, automóvel, férias, impostos, coisas que obrigam qualquer sujeito a ter 2 ou 3 empregos, fazer horas extraordinárias, comer mal, não acompanhar o crescimento das crianças, criar úlceras duodenais, esquecer-se da mulher e apanhar um par de cornos, pagar ao estado um balúrdio de IRS, ter uma depressão e cair redondo no sofá do psiquiatra antes de lhe dar o AVC da praxe.

domingo, 11 de julho de 2010

Insones, noctívagos & afins - Flor, telefone, moça

Carlos Drummond de Andrade

Não, não é um conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras vezes não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente, porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.

Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.

- Sei de um caso de flor que é tão triste!

E sorrindo:

- Mas você não vai acreditar, juro.

Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.

- Era uma moça que morava na rua General Polidoro – começou ela. – Perto do cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que de não ver passar nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.